Viveu entre 1864 e 1936. Foi ensaísta, romancista, poeta, dramaturgo, filósofo, professor de Grego e Estudos Clássicos e depois reitor na Universidade de Salamanca. Entre as principais obras, destacam-se o ensaio filosófico «Do Sentimento Trágico da Vida» (1912) e o romance Névoa (1914), considerado o «melhor romance modernista espanhol».
Miguel de Unamuno nasceu em Bilbau, uma cidade portuária do País Basco. É filho de Félix de Unamuno e Salomé Jugo. Enquanto jovem, interessou-se pela língua basca, da qual se tornou falante e rivalizou com Sabino Arana (considerado uma espécie de «pai» do nacionalismo basco) por um cargo de professor no Instituto de Bilbau. A posição acabou por ser oferecida a um terceiro candidato – Resurrección María de Azkue.
Unamuno produziu obra nos principais géneros literários: ensaio, romance, poesia e teatro. Enquanto «modernista», fez o possível para diluir as fronteiras entre esses géneros. Especula-se que o autor terá sido membro do grupo literário conhecido como Geração de 98, formado por intelectuais e filósofos espanhóis e criado por José Martínez Ruiz (Azorín). Para além deste, fariam ainda parte António Machado, Ramón Pérez de Ayala, Pío Baroja, Ramón del Valle-Inclán, Ramiro de Maeztu e Ángel Ganivet.
Unamuno tinha como objectivo principal ser professor de Filosofia, mas nunca lhe foi atribuída uma posição – à época, a disciplina estava algo politizada em Espanha, pelo que o autor acabou por dar aulas de Grego.
Em 1901, discursou numa conferência, que ficou famosa, acerca da inviabilidade literária e científica do basco. Considera-se que este se incompatibilizou com a língua basca a partir do momento em que uma reflexão mais profunda sobre Espanha resultou na sua mudança de convicções políticas.
Para além do trabalho literário, Unamuno teve um papel activo na vida intelectual espanhola. Foi reitor da Universidade de Salamanca em duas fases: entre 1900 e 1924 e entre 1930 e 1936, esta última numa época de grande agitação política e social. Nos primeiros vinte anos do século XX, transformou-se num dos defensores mais acérrimos do liberalismo social. O autor inspirava-se na cidade natal de Bilbau, que, através da actividade comercial e ligações ao mundo ocidental, tinha cimentado uma visão individualista e independente, em evidente contraste com os horizontes limitados do conservadorismo tradicional que dominava grande parte de Espanha. Quando, em 1912, o primeiro-ministro José Canalejas foi assassinado por um anarquista, Unamuno argumentou que isso advinha da ausência de um «verdadeiro partido liberal e democrático» no espectro politico. Depois, em 1914, acusou a nobreza espanhola de filistinismo. À semelhança de muitos outros autores e intelectuais espanhóis, revelou-se um apoiante vocal da causa Aliada na I Guerra Mundial, apesar da oficial neutralidade espanhola. Encarava o conflito enquanto uma batalha não só contra o Império Alemão, mas também contra a monarquia espanhola, intensificando os ataques ao rei Afonso XIII.
O autor acabou destituído da Universidade pelo general ditador Miguel Primo de Rivera, em 1924, apesar dos protestos de outros intelectuais. À conta das ferozes críticas à ditadura, exilou-se até 1930, primeiro em Fuerteventura (uma das Ilhas Canárias) e depois em França, tal como relatou na obra «De Fuerteventura a Paris». Depois de um ano na capital francesa, assentou em Hendaia, uma cidade fronteiriça no País Basco francês, de modo a ficar o mais próximo possível de Espanha. Regressou de imediato após a queda de Primo de Rivera e recuperou o cargo de reitor. Rezam as crónicas que no dia do regresso à Universidade, Unamuno começou a lição imitando o discurso do frade Luís de León, que após quatro anos de prisão às mãos da Inquisição, terá afirmado: «Tal como dizíamos ontem…».
Deu-se então início à Segunda República espanhola. O autor foi candidato pela facção Republicana/Socialista e foi eleito, tendo liderado uma enorme manifestação na Plaza Mayor, onde ergueu uma bandeira republicana e declarou vitória. Era, apesar disso, um moderado, recusando excessos políticos e anticlericais. Num discurso datado de 28 de Novembro de 1932, no Ateneu de Madrid, Unamuno protestou contra as políticas anticlericais de Manuel Azaña, um dos principais líderes republicanos:
Até a Inquisição estava limitada por certas normas legais. Hoje temos algo pior: uma força policial sustentada numa vaga sensação de pânico e na efabulação de perigos inexistentes que mascarem as violações à lei vigente.
O desagrado do autor pelo governo de Manuel Azaña fê-lo chegar ao ponto de confessar a um jornalista – que publicou essas declarações num jornal em Junho de 1936 – que o presidente devia «cometer suicídio enquanto gesto patriótico». O governo republicano condenou veementemente esta afirmação e em meados de Agosto do mesmo ano decretaram que Unamuno deveria uma vez mais abdicar do cargo de reitor. Além disso, o nome do autor foi removido de certas ruas e substituído pelo de Simón Bolívar.
Tendo iniciado a carreira literária enquanto «internacionalista», Unamuno foi-se lentamente convencendo das vantagens inerentes ao carácter universal da cultura espanhola, considerando que a génese da mesma seria destruída, caso sofresse excessiva influência exterior. Com isto em mente, começou por apoiar a revolta de Franco, enquanto instrumento necessário para salvar o país do Terror Vermelho, associado a forças leais à Segunda República. Ao ser questionado por um jornalista acerca do seu alinhamento com os militares e «abandono de uma República que tinha ajudado a criar» o autor respondeu que não se tratava de «uma luta contra a república liberal, mas uma luta pela civilização. Madrid hoje não representa o socialismo nem a democracia, nem sequer o comunismo».
Porém, as tácticas utilizadas pela facção nacionalista na luta contra os republicanos fizeram-no retirar o apoio a Franco, concluindo que a revolta militar representava a vitória de «uma visão do catolicismo que nada tem de cristão e de um militarismo paranóico, sobrevivente do antigo colonialismo».
Em 1936, Unamuno envolveu-se numa querela pública com um general nacionalista – Millán Astray – nas instalações da universidade, durante a qual atacou o general (com quem já tivera outras discussões nos anos 20) e outros elementos da facção nacionalista. Pouco depois, acabou mesmo por ser destituído uma segunda vez do posto de reitor. Dias mais tarde, confessa ao escritor Nikos Kazantzakis:
Não, não passei a ser um homem de direita. Não ligues ao que se diz. Não, não traí a causa da liberdade. Por ora, contudo, é deveras essencial que a ordem seja restabelecida. Um dia destes – em breve – irei revoltar-me e abraçar a luta pela liberdade, sozinho. Não, não sou nem fascista nem comunista. Estou sozinho!
A 21 de Novembro, escreveu ao filósofo italiano Lorenzo Giusso, afirmando que «…a barbárie é unânime. Existe um regime de terror de ambos os lados». Noutra carta, uma das últimas, já de 13 de Dezembro, o autor condenou o Terror Branco cometido pelos exércitos de Franco com palavras que ficaram na História:
O exército de Franco tem em marcha uma campanha contra o liberalismo, não contra o comunismo (…) vencerão, mas não convencerão; conquistarão mas não converterão.
Destroçado, foi colocado em prisão domiciliária pelo regime franquista.
Viria a falecer a 31 de Dezembro de 1936.
Oficialmente, morreu devido à inalação de gases libertados por uma braseira, ao receber durante uma hora a visita de um desconhecido. Outras teorias, muito mais recentes, sugerem que poderá ter sido assassinado por Bartolomé Aragón, o tal visitante, uma vez que este terá alegadamente afirmado à chegada que era um antigo aluno, quando na verdade se tratava de um militante fascista e nacionalista, logo, dono de visões políticas opostas. Outros motivos de especulação: ausência de uma autópsia (embora fosse obrigatória, uma vez que a causa declarada foi «morte súbita devido a hemorragia intracraniana»); dois gritos de Unamuno escutados pela criada durante a visita; discrepâncias entre a hora da morte nos relatórios do médico legista e outras autoridades.
Romance escrito em 1907 e publicado em 1914.
Enredo
História focada na vida de um protagonista chamado Augusto – um jovem introvertido, intelectual e rico. A dado momento, este apaixona-se por uma jovem mulher – Eugenia – ao vê-la passar na rua e decide fazer tudo para conquistá-la. Os familiares dela revelam-se dispostos a ajudá-lo, sobretudo uma tia, Ermelinda, já que o sucesso do relacionamento poderá resolver os problemas financeiros da sobrinha. Apesar disto, Eugenia declina as abordagens dele, uma vez que está envolvida com o aventureiro Mauricio. Augusto decide pagar-lhe a hipoteca em segredo, como prova de afeição, mas o gesto acaba por ofendê-la em vez de conquistá-la.
Entretanto, ele envolve-se com outra rapariga – Rosario – e começa a ponderar se estará de facto apaixonado por Eugenia. Aconselha-se então com alguns amigos e conhecidos decidindo, apesar de tudo, pedir Eugenia em casamento. Para sua grande surpresa, esta aceita o pedido. Poucos dias antes da cerimónia, o protagonista recebe uma carta de Eugenia, na qual esta confessa que irá abandonar tudo por Mauricio. Augusto, destroçado, pondera cometer suicídio.
Uma vez que todas as decisões do protagonista nascem de uma reflexão detalhada, este opta por consultar o próprio Unamuno (o autor do romance), que a dada altura escrevera um artigo acerca do suicídio, depois lido por Augusto. Ao dialogarem, o segundo revela que o protagonista é, na verdade, uma personagem de ficção, criada por Unamuno, logo não é real e por conseguinte não pode morrer. Augusto insiste que é real, embora reconheça para si mesmo que não é, procurando vingar-se do autor afirmando que Unamuno é um escritor fraco e poderá ser, ele próprio, apenas uma personagem num sonho divino. Por fim, regressa a casa e morre.
Se morre por vontade do autor ou se de facto comete suicídio, é uma questão que fica à consideração do leitor. A história termina com um dilema de Unamuno, indeciso entre ressuscitar ou não o protagonista. Acaba por concluir que tal não seria exequível, pelo que as cerimónias fúnebres são realizadas por Orfeo, o cão de Augusto.
O título da obra é de facto uma alegoria acerca do modo como o protagonista encara a existência. Este considera o mundo onde se move um local recheado de eventos minúsculos e quase imperceptíveis – alguns positivos, outros negativos, mas todos contribuindo, em última análise, para lhe toldar a visão.
Personagens
– Augusto Pérez – protagonista.
– Víctor Goti – melhor amigo de Augusto.
– Miguel de Unamuno – famoso autor espanhol que Augusto decide visitar, quando carece de conselhos existenciais.
– Eugenia Domingo Del Arco – professora de piano e interesse amoroso de Augusto.
– Mauricio – amante de Eugenia e ocasional amigo de Rosario.
– Rosario – jovem que entrega a roupa, depois de tratada, em casa de Augusto.
– Orfeo – cão de Augusto.
– Domingo – empregado de Augusto.
– Liduvina – governanta de Augusto.
– Ermelinda – tia de Eugenia.
– Margarita – empregada do tio de Eugenia.









