Anos 50-70 – Vitorino Nemésio

transferir (1)Viveu entre 1901 e 1978. Foi um poeta, escritor e intelectual de origem açoriana que se destacou como romancista – autor de Mau Tempo no Canal – e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Filho de Vitorino Gomes da Silva e Maria da Glória Mendes Pinheiro, na infância a vida não lhe correu bem a nível escolar, uma vez que foi expulso do Liceu de Angra e reprovou o 5.º ano, facto que o levou a sentir-se incompreendido pelos professores. Desse período, apenas guardou boas recordações de Manuel António Ferreira Deusdado, professor de História, que o introduziu na vida das Letras.

Com 16 anos de idade, Nemésio desembarcou pela primeira vez na cidade da Horta para se apresentar a exames, como aluno externo do Liceu Nacional da Horta. Acabou por concluir o Curso Geral dos Liceus, em 16 de Julho de 1918, com a classificação de dez valores.

A sua estadia na Horta foi curta, de Maio a Agosto de 1918. A 13 de Agosto, o jornal «O Telégrafo» dava notícia de que Nemésio, apesar de ser um «fedelho», um ano antes de chegar à Horta havia enviado um exemplar de «Canto Matinal», o seu primeiro livro de poesia (publicado em 1916), ao director Manuel Emídio.

Apesar da tenra idade, Nemésio chegou à Horta já imbuído de alguns ideais republicanos, pois em Angra do Heroísmo havia participado em reuniões literárias, republicanas e anarco-sindicalistas, tendo sido influenciado pelo seu amigo Jaime Brasil, cinco anos mais velho (primeiro mentor intelectual que o marcou para sempre) e por outras pessoas tal como Luís da Silva Ribeiro (advogado) e Gervásio Lima (escritor e bibliotecário).

Em 1918, no final da Primeira Guerra Mundial, a Horta possuía um intenso comércio marítimo e uma impressionante animação nocturna, uma vez que se constituía em porto de escala obrigatória, local de reabastecimento de frotas e de repouso da marinhagem. Estavam aí instaladas as companhias dos Cabos Telegráficos Submarinos, que convertiam a cidade num «nó de comunicações» mundiais. Esse ambiente cosmopolita contribuiu decisivamente para que ele viesse, mais tarde, a escrever a obra mítica que dá pelo nome de Mau Tempo no Canal, trabalhada desde 1939 e publicada em 1944, cuja acção decorre nas quatro principais ilhas do grupo central açoriano: Faial, Pico, São Jorge e Terceira, sendo que o núcleo da intriga se desenvolve na Horta.

O romance evoca um período (1917-1919) que coincide em parte com a sua permanência na ilha do Faial e nele aparecem pessoas tais como o Dr. José Machado de Serpa, senador da República e estudioso, o padre Nunes da Rosa, contista e professor do Liceu da Horta, e Osório Goulart, poeta.

Em 1919, iniciou o serviço militar como voluntário na arma de Infantaria, o que lhe proporcionou a primeira viagem para fora do arquipélago. Conclui o liceu em Coimbra, em 1921, e inscreve-se na Faculdade de Direito da Universidade. Três anos mais tarde, Nemésio trocou esse curso pelo de Ciências Histórico-Filosóficas, da Faculdade de Letras, e em 1925 matriculou-se no curso de Filologia Românica da mesma Faculdade.

Na primeira viagem que faz a Espanha, com o Orfeão Académico em 1923, conhece Miguel Unamuno, escritor e filósofo espanhol (1864-1936), intelectual republicano e teórico do humanismo revolucionário anti-franquista, com quem trocará correspondência anos mais tarde.

A 12 de Fevereiro de 1926 desposou, em Coimbra, Gabriela Monjardino de Azevedo Gomes, com quem teve quatro filhos. Em 1930 transferiu-se para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde, no ano seguinte, concluiu o curso de Filologia Românica, com elevadas classificações. A partir de 1931, deu início à carreira académica na Faculdade de Letras dessa Universidade, onde leccionou Literatura Italiana e mais tarde Literatura Espanhola.

Em 1934 doutorou-se em Letras pela Universidade de Lisboa com a tese «A Mocidade de Herculano até à Volta do Exílio». Entre 1937 e 1939 leccionou na «Vrije Universiteit Brussel», tendo regressado depois ao ensino na Faculdade de Letras de Lisboa.

Em 1958 leccionou no Brasil. A 19 de Julho de 1961 foi feito Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique e a 17 de Abril de 1967 Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada. A 12 de Setembro de 1971, atingido pelo limite legal de idade para exercício de funções públicas, profere a sua última lição na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde ensinara durante cerca de quatro décadas, passando a ser Catedrático Jubilado.

Foi autor e apresentador do programa televisivo «Se Bem me Lembro», que muito contribuiu para popularizar a sua figura e dirigiu ainda o jornal «O Dia» entre 11 de Dezembro de 1975 a 25 de Outubro de 1976.

Foi um dos grandes escritores portugueses do século XX, tendo recebido em 1965 o Prémio Nacional de Literatura e em 1974 o Prémio Montaigne.

Faleceu a 20 de Fevereiro de 1978, em Lisboa, no Hospital da CUF e foi sepultado em Coimbra. Pouco antes de morrer, pediu ao filho para ser sepultado no cemitério de Santo António dos Olivais, em Coimbra. Mas pediu mais: que os sinos tocassem o Aleluia em vez do dobre a finados. O seu pedido foi respeitado.

A 30 de Agosto de 1978 recebeu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, a título póstumo.

 

Vitorino Nemésio foi ficcionista, poeta, cronista, ensaísta, biógrafo, historiador da literatura e da cultura, jornalista, investigador, epistológrafo, filólogo e comunicador televisivo, para além de toda a actividade de docência.

Levou a cabo, na sua obra, uma transformação das tendências da Presença (que de certa forma precedeu), que garantiu a eternidade dos seus textos. Fortemente marcado pelas raízes insulares, a vida açoriana e as recordações de infância percorrem a obra do escritor, numa espécie de apelo (revelado pela ternura da sua inspiração popular), pela presença das coisas simples e das gentes, e pela profunda humanidade face à existência e ao sofrimento da vida humana.

Os trechos de inspiração açoriana são bastante significativos na sua obra, notando-se a presença de «infantis lembranças e amores, dores e agoiros de figuras humildes que nestas páginas ficam vivendo, sob a obsessão circundante do mar», na opinião de Afonso Lopes Vieira. A sua experiência de ilhéu encontra-se presente na sua obra em geral, cuja vida no domínio da ficção se inicia em 1924, com a publicação do volume de contos «Paço do Milhafre», prefaciado por Afonso Lopes Vieira e mais tarde rebaptizado «O Mistério do Paço do Milhafre», tendo sido republicado em 1949.

Vitorino Nemésio, ao longo de toda a sua carreira literária, nunca deixou de surpreender os demais. Nos seus romances, conseguiu transmitir uma certa originalidade de escrita, sobretudo na descrição dos lugares e no desenho das personagens, que se pode presenciar em «Varanda de Pilatos», (obra publicada em 1927) e no volume de novelas «A Casa Fechada», constituída por três histórias: «O Tubarão», «Negócio de Pomba» e «A Casa Fechada». Em relação a esta última história, a crítica foi bastante positiva e unânime, tendo sido considerada uma obra excepcional.

Contudo, houve uma obra romanesca, mais complexa, variada, densa e subtil que é Mau Tempo no Canal, texto incomparável na Literatura Portuguesa do século XX. Este romance havia já sido «ensaiado» pela novela «Negócio de Pomba», já que esta aborda muitos aspectos que irão ser tratados nele.

Depois de ter escrito Mau Tempo no Canal, pode-se afirmar que Vitorino Nemésio nunca mais voltou aos trilhos do romance. Ele próprio afirma num inédito do seu espólio:

Morro autor de um romance único.


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«Não há, no género, obra alguma que se lhe compare na literatura portuguesa deste século; nem há talvez obra romanesca mais complexa, mais variada, mais densa e mais subtil, em toda a nossa história literária».

David Mourão-Ferreira

«(…) Mau Tempo no Canal é um romance magnífico que, a pretexto dos amores impossíveis entre Margarida Clark Dulmo e João Garcia, traça um retrato dos anos 20 açorianos com destreza de mestre. Ficção de fôlego, de uma mundividência pouco comum nas letras portuguesas, trata-se sem lugar para dúvidas de uma das obras maiores da nossa literatura do século XX».

Ana Cristina Leonardo in Expresso, 31 de Julho de 2004

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