Viveu entre 1914 e 1996. Romancista, dramaturga, argumentista, ensaísta e realizadora ocasional. O guião de «Hiroshima, Meu Amor» (1959) valeu-lhe uma nomeação para o Óscar de Melhor Argumento Original.
O nome de baptismo da autora é Marguerite Donnadieu, que nasceu a 04 de Abril de 1914, na Indochina Francesa (actual Vietname). Os pais eram professores franceses, que se terão conhecido na Escola Secundária local. Ambos vinham de anteriores casamentos, que tinham dado origem a dois rapazes: Pierre e Paul.
O pai de Marguerite adoeceu e viu-se obrigado a regressar a França, onde acabou por morrer em 1921. Entre 1922 e 1924, a restante família permaneceu na metrópole, aproveitando a licença administrativa da mãe. Findo esse período, voltaram à colónia e esta leccionou depois em três cidades diferentes: Phnom Penh, Vĩnh Long e Sa Đéc. Isto não resolveu um conjunto de dificuldades financeiras, agravado por um mau investimento numa propriedade isolada, situada numa zona de plantação de arroz, em Prey Nob – evento retratado de modo ficcionado na obra «Uma Barragem Contra o Pacífico».
Em 1931, quando Marguerite tinha apenas 17 anos, regressaram de novo a França, tendo esta completado com sucesso a primeira fase do bacharelato, escolhendo o vietnamita enquanto língua estrangeira, uma vez que era fluente. Contudo, depressa retornou a Saigão, em finais de 1932, já que a mãe voltou a encontrar uma vaga no ensino. É lá que a autora prossegue os estudos, concluindo então a segunda fase do bacharelato com uma especialização em Filosofia.
No Outono de 1933, volta uma vez mais a Paris, agora para se licenciar em Direito, três anos depois. Aprofunda os conhecimentos frequentando aulas de Matemática e obtendo um diploma em Estudos Superiores, nas variantes de Direito e Economia Política. Quando deu por terminada a fase académica, obteve um cargo público no Ministério das Colónias, em 1937.
Dois anos depois, casou-se com o escritor Robert Antelme, antigo parceiro de estudos.
Durante curto período na II Guerra Mundial, entre 1942 e 1944, Marguerite trabalhou para o governo de Vichy, num departamento responsável pela atribuição de quotas de papel às editoras, o que no fundo lhe permitia estabelecer um eficaz sistema de censura de livros. Tornou-se igualmente um membro activo do Partido Comunista Francês e de um pequeno grupo ligado à Resistência Francesa do qual também fazia parte François Mitterrand, mais tarde Presidente da República e que permaneceu um eterno amigo. Antelme, o marido, foi deportado para Buchenwald já em 1944 devido às ligações com a Resistência e sobreviveu à experiência quase por milagre (segundo relatos da mulher, na altura em que foi libertado não pesava mais de 38 kg). Esta cuidou dele até à recuperação total, mas divorciaram-se em seguida.
Na etapa final do conflito, embora ainda casada, era da opinião que manter a fidelidade naquele contexto era absurdo, pelo que originou um triângulo amoroso, envolvendo-se com o também escritor Dionys Mascolo, pai de Jean Mascolo. É nesta altura que escreve «A Dor».
Em 1943, quando publicou o primeiro romance optou por utilizar o apelido Duras, homenageando assim a vila natal do pai, localizada no Sudoeste de França.
Em 1950, a mãe regressou da Indochina, desta vez e por fim com dinheiro proveniente de investimentos imobiliários e de um cargo de chefia num colégio interno.
Duras produziu diversas obras, entre romances, peças de teatro, argumentos para cinema, entrevistas, ensaios e contos, destacando-se uma autobiografia de grande sucesso, altamente romanceada, intitulada O Amante (1984). Esta é acerca do seu caso amoroso, na juventude, com um homem de nacionalidade vietnamita, com raízes chinesas. A obra valeu-lhe o Prémio Goncourt nesse mesmo ano.
A autora aborda partes da adolescência em três outros livros: «Uma Barragem Contra o Pacífico», «Eden Cinéma» e «O Amante da China do Norte». O Amante e «Uma Barragem Contra o Pacífico» foram depois adaptados ao cinema, o primeiro em 1992 e o segundo em 1958.
Outras obras importantes são «Moderato Cantabile» (1958), «A Ausência de Lol V. Stein» (1964) e a peça de teatro «India Song», adaptada depois ao cinema pela própria, em 1975. Foi também argumentista do filme «Hiroshima, Meu Amor». Os primeiros livros de Marguerite eram bastante comuns, tendo sido criticados pelo também autor Raymond Queneau pelo excesso de «romantismo». Contudo, na obra «Moderato Cantabile», nota-se já uma abordagem mais experimental, atribuindo-se crescente importância ao que não é explícito. Apesar de associada ao movimento literário conhecido como nouveau roman, esta não pertencia de forma clara a nenhum grupo.
Ficou também conhecida por dominar as técnicas do diálogo, na escrita.
Em 1971, assinou o Manifesto das 343, desse modo admitindo publicamente que tinha feito um aborto em determinado período da sua vida.
De acordo com alguns especialistas em Cinema, os filmes da autora na década entre 1973 e 1983 eram de certa forma provocadores e empenhados no conceito de «imagem ideal», viajando entre «a ausência de imagem e o seu absoluto», sem descurar o texto. Acrescentam que essas obras estão propositadamente desprovidas de realismo, através da separação entre imagem e som e da utilização simbólica do espaço.
Outros livros, como «A Ausência de Lol V. Stein» e «L’Homme assis dans le couloir» (1980), abordam o tema da sexualidade.
Nos últimos vinte anos da sua vida, Duras padeceu de vários problemas de saúde. Foi hospitalizada pela primeira vez em 1980, à conta de uma mistura de álcool com tranquilizantes. Enfrentou também vários processos de desintoxicação, de modo a recuperar do vício da bebida. Num dos períodos de internamento, no fim de 1988, caiu num coma, do qual só recuperou em meados de 1989.
A par disto, começou um relacionamento com um actor homossexual chamado Yann Andréa. Este serviu de auxílio durante o seu período de enfermidade, contexto que ela descreve no seu livro final, «Yann Andréa Steiner». A saúde continuou a degradar-se ao longo dos anos 90.
Duras publicou ainda um pequeno livro de apenas 54 páginas, de cariz autobiográfico, com o objectivo de se despedir dos leitores e da família. O último parágrafo, escrito a 01 de Agosto de 1995 afirma:
Acho que está tudo acabado. A minha vida terminou. Já não sou nada. Transformei-me numa visão aterradora. Estou a desfazer-me. Venham depressa. Já não tenho boca, já não tenho rosto.
Marguerite faleceu na sua casa de Paris, a 03 de Março de 1996, com 81 anos.
Em 1992, no seguimento de um jantar de amigos no qual se comentou que Marguerite Duras era provavelmente a autora mais sobrestimada do momento, o jornalista Étienne de Montety copiou uma obra menor da autora, datada de 1962, «A Tarde do Sr. Andesmas», modificando apenas os nomes das personagens e optando pelo título «Margot et l’important». Enviou a fraude, com o pseudónimo «Guillaume P. Jacquet» para as três principais editoras de Duras: Gallimard, POL e Éditions de Minuit. Esta última respondeu que «infelizmente, o manuscrito não pode ser incluído no nosso catálogo». A Gallimard que «o veredicto não é favorável» e a POL que «o manuscrito não corresponde ao que a editora pretende incluir nas suas colecções».
As cópias das cartas de rejeição foram depois publicadas no suplemento «Figaro littéraire», com o título: «Marguerite Duras recusada pelos seus próprios editores».
Romance autobiográfico, publicado em 1984 pela editora Les Éditions de Minuit. Foi traduzido em 43 línguas e recebeu o Prémio Goncourt nesse mesmo ano. Mereceu depois uma adaptação cinematográfica, em 1992.
Enredo
Situado no cenário da Indochina Francesa, o romance aborda o relacionamento complexo e proibido entre uma jovem adolescente – proveniente de uma família francesa em dificuldades financeiras – e um homem mais velho e abastado, de origem asiática.
No ano de 1929, uma rapariga anónima de apenas 15 anos é uma das passageiras de um ferry que faz a travessia do Delta do rio Mekong. Após umas férias na casa de família em Sa Đéc, está de volta ao colégio interno em Saigão. Chama a atenção de um rapaz de 27 anos, filho de um magnata de negócios chinês, rico e herdeiro de fortuna ainda maior. Encetam um diálogo e ela aceita uma boleia na sua limousine com motorista, de volta à cidade.
De súbito consciente das circunstâncias financeiras que a rodeiam, a rapariga – filha de uma viúva falida com tendências maníaco-depressivas – reflecte longamente acerca da inevitabilidade de, mais cedo ou mais tarde, ter de enfrentar o mundo sozinha. Acaba por se tornar amante do rapaz, até ao momento em que este (obedecendo à vontade do pai) termina a relação.
Para ele, nunca existiram dúvidas acerca da força e sinceridade dos sentimentos. Ela, pelo contrário, só muito mais tarde admite para si mesma as verdadeiras emoções.









