Miguel Delibes

Viveu entre 1920 e 2010. Romancista, jornalista e editor de imprensa associado ao movimento literário conhecido como Geração de 36. A partir de 1975, e até à morte, pertenceu à Real Academia Espanhola. Com formação na área do Comércio e Direito, iniciou a carreira nas funções de cartoonista e colunista. Passou depois a ser o editor do jornal regional El Norte de Castilla antes de se dedicar progressivamente e em exclusivo à escrita de romances.

Especialista na fauna e flora da região de Castela, era ainda apreciador da caça e da vida no campo. Estes eram temas comuns na sua escrita, na qual se encontravam personagens que viviam na cidade mas que mantinham a ligação ao mundo rural.

Foi uma das figuras principais da Literatura Espanhola do pós-Guerra Civil, vencendo inúmeros prémios literários. Teve várias obras adaptadas a peças de teatro e ao cinema, que lhe valeram prémios no Festival de Cinema de Cannes e outros. A par de Heinrich Böll e Graham Greene, é considerado um dos escritores católicos mais famosos da segunda metade do século XX. Ficou bastante afectado com a morte da mulher, em 1974. Em 1998, foi-lhe diagnosticado um cancro no cólon, do qual nunca recuperou totalmente. Morreu em 2010.

 

Miguel Delibes nasce em Valladolid, a 17 de Outubro de 1920. É o terceiro de oito filhos nascidos do casamento de María Setién e Adolfo Delibes. O pai nasceu e morreu na vila de Molledo, situada na região da Cantábria e Miguel passa lá muitos dos seus Verões, tendo mesmo sido nomeado filho de Valladolid, em 2009. O apelido Delibes tem origem francesa, especificamente de Toulouse. O avô era irmão do compositor francês Léo Delibes, tendo-se mudado para Espanha para trabalhar na construção dos caminhos-de-ferro de Cantábria. O pai era professor de Direito em Valladolid. Miguel é educado num colégio católico na mesma cidade e após o início da Guerra Civil alista-se na Marinha, ao lado dos Nacionalistas, em 1938. Cumpre serviço no cruzeiro «Canarias», que opera na região de Maiorca. Com o fim da Guerra, em 1939, regressa a casa, onde estuda Comércio e Direito.

Inscreve-se depois na Escuela de Artes y Oficios de Valladolid, onde aperfeiçoa as capacidades artísticas. Em 1941 arranja um trabalho como cartoonista num jornal de referência na cidade – El Norte de Castilla.

Em Abril de 1946, casa-se com Ángeles de Castro que, mais tarde, se transforma numa das suas grandes inspirações literárias. Passam a lua-de-mel em Molledo.

Após o casamento, a carreira literária do autor arranca definitivamente, seguindo-se um período de três anos que se revela fundamental. Em 1947, inicia a escrita do primeiro romance, «La sombra del ciprés es alargada», vencedor do Prémio Nadal no ano seguinte e visto como um símbolo da entrada de Delibes no meio literário espanhol. O segundo romance, «Aún es de día», surge um ano mais tarde, embora muito visado pela censura.

A família também aumenta, nesta fase. O filho Miguel, que se tornará num famoso biólogo, nasce em 1947. A filha Ángeles, também uma futura bióloga e investigadora, nasce no ano seguinte e surgirá ainda um terceiro filho, Germán, em 1949.

Em 1950, inicia-se uma nova fase na carreira do autor. Após um susto de saúde relacionado com tuberculose, publica El camino, o terceiro romance. Este conta as descobertas e vivências de um rapaz que se muda do campo para a cidade. A obra constitui o último trabalho dedicado à temática do pós-Guerra Civil. No mesmo ano, nasce a filha Elisa que, mais tarde, se formará em Estudos Franceses e Hispânicos.

Em 1952, é nomeado director-adjunto do jornal El Norte de Castilla, situação que aumenta exponencialmente os problemas com a censura. Delibes inicia outra etapa na carreira literária, na qual decide publicar um novo livro todos os anos: «Mi idolatrado hijo Sisí» (1953), «La partida» (1954), «Diario de un cazador» (1955) – Prémio Nacional de Narrativa, «Un novelista descubre América» (1956), «Siestas con viento sur» (1957) – Prémio Fastenrath, «Diario de un emigrante» (1958), «La hoja roja» (1959). Este último tem um carácter existencialista e aborda a história de um fotógrafo que recorda os principais eventos da vida antes da reforma.

A nível pessoal, nasce mais um filho, em 1956, Juan Delibes. Será biólogo, como os irmãos e adepto da caça e da pesca, como o pai.

Em 1958, o autor é promovido a director do El Norte de Castilla.

A década de 60 transforma-se no período dourado da carreira literária de Delibes. Nasce o sexto filho, Adolfo (outro licenciado em Biologia) e o autor viaja até à Alemanha, onde visita algumas universidades. A nível literário, surgem «Viejas historias de Castilla la Vieja» (1960) e «Por esos mundos» (1961). No ano seguinte, publica «Las ratas», uma das obras mais importantes. Esta constrói um enredo a partir de uma série de episódios autobiográficos, que evocam o ambiente rural de uma desaparecida aldeia de Castela. O livro vence o Premio de la Crítica. Nesse ano, nasce Camino, que irá formar-se em Filosofia e Letras. Ainda em 1962, surge a versão cinematográfica de El camino, realizada por Ana Mariscal. O ano de 1963 revela-se agitado: em Junho, Delibes pede a demissão do cargo de director do jornal, após vários desentendimentos com Manuel Fraga, Ministro da Informação e Turismo. Em 1964, passa seis meses nos Estados Unidos, enquanto professor convidado, no Departamento de Línguas Estrangeiras e Literatura da Universidade de Maryland. No regresso, escreve e publica «Cinco horas con Mario», considerado um dos melhores trabalhos. O romance é o monólogo de uma mulher no velório do marido, no qual recorda a vida deste. Outras obras deste período incluem «USA y yo» e «La milana». Nos anos seguintes visita a então Checoslováquia e publica «Parábola del náufrago».

Nos anos 70, surgem livros sobre caça e alguns contos. Logo depois, o diário «Un año de mi vida». Em Fevereiro de 1973, o autor é eleito membro da Real Academia Espanhola. No mesmo ano, em Dezembro, entra também na Sociedade Hispânica da América e publica «El príncipe destronado», o 11º romance.

Em Novembro de 1974, falece a mulher, com apenas 50 anos, vítima de um tumor cerebral. A fatalidade marcará Delibes para o resto da vida.

Por fim, em Maio de 1975, o autor faz o discurso inaugural à Academia. Damaso Alonso, um dos principais membros da Geração de 27 e então presidente, oferece a medalha a Delibes. O discurso será depois transformado num livro, intitulado «Un mundo que agoniza».

Nesse mesmo ano, surge o 12º romance: «Las guerras de nuestros antepassados». Nos três anos seguintes, publica vários livros sobre Caça e um sobre Pesca, intitulado «Mis amigas las truchas». Depois, o 13º romance: «El disputado voto del señor Cayo». Em 1979, é feita uma adaptação para teatro a partir da obra «Cinco horas con Mario» que se estreia a nível nacional com a actriz mais famosa de Valladolid, Lola Herrera, como protagonista. O sucesso obtido faz com que a peça regresse à cena em várias ocasiões. No mesmo ano, o autor publica «Castilla, lo castellano, los castellanos».

Em 1980, é-lhe feita uma homenagem, na cidade de Valladolid. A obra «Os Santos Inocentes» será publicada no ano seguinte. O livro faz uma espécie de radiografia social onde se destaca a erosão de uma família rural às mãos dos caciques que dominam a zona da Extremadura. Em 1982, recebe o Prémio Literário Príncipe das Astúrias, que partilha com Gonzalo Torrente Ballester e participa num congresso literário que ocorre em Itália. Seguem-se mais livros publicados e diversos prémios e homenagens, com destaque para um «honoris causa» da Universidade de Valladolid, em 1983. No final do ano, «Os Santos Inocentes» é adaptado ao Cinema e os actores Alfredo Landa e Francisco Rabal são premiados em Cannes. Nos cinco anos seguintes, publica «El Tesoro», «Castilla habla» e «Madera de héroe», sendo premiado de várias formas, nacional e internacionalmente, incluindo com outros doutoramentos honorários. Vê mais dois livros adaptados ao Teatro: «La hoja roja» e «Las guerras de nuestros antepassados».

No início da década de 90, recebe outros prémios e homenagens e publica «Señora de rojo sobre fondo gris», uma homenagem explícita à sua falecida mulher.

A última grande obra, «O Herege», uma homenagem à cidade de Valladolid, é publicada em 1998 e recebe mais um prémio. Na cerimónia correspondente, Delibes declara que, aos 79 anos, «é tempo de pendurar a caneta». No início do milénio, é criado um curso académico sobre o autor e a obra nas universidades de Nova Iorque e Valladolid, com o objectivo de promover o estudo da literatura espanhola contemporânea, divulgá-la em território americano e promovê-la com o auxílio de novas tecnologias.

A publicação de «O Herege» é praticamente o derradeiro capítulo da carreira literária de Delibes, sobretudo devido ao diagnóstico de cancro do cólon que já o afectava. Fica quase inválido e dominado por uma crescente apatia. Lança ainda um último título em 2005, «La tierra herida», um diálogo emotivo entre o autor e o filho mais velho acerca das alterações climáticas. Em 2007, vence o Prémio Quixote e considera-se reformado. Recebe a visita dos reis de Espanha e é agraciado com mais homenagens públicas.

O presidente da comunidade autónoma de Castela e Leão atribui-lhe a Medalha de Ouro de Castela em 2009, pela «defesa do castelhano», considerando-o «um fantástico narrador». Foi inúmeras vezes candidato ao Prémio Nobel.

Nos primeiros meses de 2010, a saúde de Miguel entra em declínio e no dia 11 de Março fica em estado crítico, consciente mas fortemente medicado e a família prepara-se para o pior, nas horas seguintes. Delibes acaba por falecer na casa de Valladolid na manhã seguinte, com 89 anos. O velório, instalado na Câmara Municipal, conta com a presença de figuras ilustres e gente comum, num total de 18 000 pessoas.

O funeral, na manhã do dia 13, ocorre na Catedral de Valladolid. Os restos mortais são cremados e depois enterrados no Panteão da cidade, para onde se transferem as cinzas da mulher do autor, de acordo com a reiterada vontade expressa por Delibes.


Romance publicado em 1950.

Daniel «El Mochuelo» pressente, aos 11 anos, que o seu futuro está na aldeia, perto dos amigos, dos habitantes e dos pássaros. O pai, no entanto, prefere que ele se mude para a cidade, de modo a estudar e tirar um curso. Ao longo da noite que antecede a partida, Daniel, sem conseguir dormir e com um aperto na garganta, recorda as correrias com os amigos Roque «El Moñigo» e Germán «El Tiñoso», através dos campos, à descoberta de Céu e Terra. De caminho, homenageia as vidas das pessoas humildes da aldeia. A ternura com que se introduz o leitor na existência do povoado, através daquela visão infantil, permite-nos conhecer uma impressionante galeria de personagens e a força presente nas descrições, com frequência humorísticas, oferece-nos quadros vivos e límpidos. São estes os pilares do romance.

Feliz evocação de um tempo, encantador e fascinante, que só é valorizado quando já desapareceu, o romance é considerado – pelo realismo límpido, humor subtil, nostalgia contida e atmosfera poética – uma das melhores obras de Miguel Delibes e, nas palavras da crítica, «uma das obras essenciais da narrativa contemporânea».

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