Viagem Horizontal


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Nova viagem pela ilha. O percurso incluiu Galway e Kilkenny como cidades mais importantes, para além de uma passagem por Clifden e Connemara.

A última vez que mergulhei numa travessia de automóvel de longo curso, corria o ano de 2007 e foram gastas 19h entre Lisboa e Toulouse. Da época, recordo conversas infindáveis sobre tudo e quase sempre sobre nada, uma cumplicidade antiga e intermináveis trilhas sonoras, preparadas minuciosamente em velhos CD.

Desta vez, muito mudou. A começar por mim, polvilhado por uma nostalgia acerca de uma memória que poderá ou não ter existido. Depois, no percurso, meras três horas entre os extremos Este e Oeste da ilha. Por fim na companhia, recente, tímida, espaçada na faixa etária, sem laços definidos, sem velhas histórias, sem partilhas espontâneas. A trilha é a poluição sonora de um rádio demasiado alto e quase nunca aceitável.

O que fica, portanto, é o exterior do veículo e o que está para além de relações humanas circunstanciais.

galway-bayNesse contexto, começamos com Galway, quarta urbe mais populosa do país, famosa pelas ostras e por uma panóplia de festivais. Alguns, com boa vontade, apelidam-na de Veneza Irlandesa, pois existe virada para a água, que corre pelo rio Corrib até desaguar na Baía da cidade. O passeio pelos canais é um dos pontos obrigatórios.

Para lá do Spanish Arch (Arco Espanhol), monumento centenário, estende-se a vila de Claddagh, internacionalmente conhecida pelo Anel de Claddagh, símbolo de amor, amizade e lealdade.

Os anos começam a pesar-me. Estou longe da energia inesgotável que me permitia consumir centenas de quilómetros alimentado por comida rápida e frugal, continuando pela noite dentro a consumir álcool e fumo.

Dizem-me que a noite em Galway é famosa por rivalizar com a de Dublin. Do pouco que me é dado a conhecer, discordo da premissa, mas admito estar influenciado pelos motivos apresentados.


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No dia seguinte, o objectivo é chegar a Clifden, uma vila costeira cujas franjas, vistas a partir do ponto mais alto da estrada que as circunda (Sky Road), ultrapassam em beleza, imponência e diversidade os turísticos Cliffs of Moher. É uma região agreste, para gente de fibra, de uma beleza selvagem incomparável.

O lado forte desta ilha está longe de ser qualquer um dos seus centros urbanos, por mais agradáveis, pitorescos ou plácidos que estes sejam. Dublin com toda a sua história fervilhante, qualquer uma das cidades médias que já visitei, ou mesmo as idílicas aldeias salpicadas por todo lado, sejam rurais ou costeiras, poderão estar recheadas de atractivos, mas o que verdadeiramente enche a alma é toda a vastidão intocada do território. É podermos mergulhar nas estradas nacionais serpenteantes, onde qualquer coisa de original espreita atrás de cada curva, seja um castelo medieval, uma ruína romana, vida animal deixada livre e em paz, lagos mágicos, florestas profundas, declives gigantescos, montanhas imponentes.


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A meio da tarde chegamos a Connemara, nomeadamente ao seu Parque Nacional. O vento revela-se implacável, obrigando-nos a optar pelo mais rápido de três percursos pedonais.

Nessa noite, ficam evidentes as consequências da diferença etária. Os mais velhos resguardam-se no quarto, longe das intempéries associadas à estação, por entre farnel, televisão e cobertores. Os mais novos arriscam nova ida a Galway, segundo os relatos, fracassada a todos os níveis. A simpatia de quem nos recebe na estalagem é surpreendente. As inúmeras nacionalidades que assinaram o livro de registos confirmam a qualidade do serviço.


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No último dia, regressamos a Dublin pelo caminho mais longo de modo a passar por Kilkenny, famosa sobretudo pela faceta histórica e desportiva. O ponto alto é o Castelo Medieval, que tem agregado um considerável parque municipal. Deambulamos pelos canais, zonas relvadas, caminhos ladeados pelas tonalidades outonais. Dentro da cidade, as ruas principais fazem-me recordar Évora, com a sua pedra escura e arcos amplos. Ainda há tempo para uma última paragem num dos mais famosos pubs da cidade, antes do regresso a casa.

Entrados em Novembro, resta-nos recolher as asas, ameaçadas pelo Inverno gelado que se aproxima.

 

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