Sobre Percepção

Escrevi este texto há dois ou três anos, mas podia ter sido hoje. Ou daqui a uma década. Os exemplos são inesgotáveis: Barcelona, Venezuela, Estados Unidos, Egipto…


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«Um pouco por toda a Europa, com especial incidência nos países a sul, brotam manifestações de todos os géneros. Recentemente, o fenómeno atravessou o Atlântico na direcção do Brasil. Cada uma delas assume o código genético do povo que a alimenta.

Turcos e gregos aproximam-se do motim, da anarquia, quase emulando o grito palestiniano. Nas grandes praças, centenas de milhares acenam cartazes, lançam apelos irados, esticam as cordas até a impaciente reacção policial despoletar apedrejamentos, focos de incêndio, vidros estilhaçados e veículos consumidos. As guardas pretorianas respondem com jactos de água, gases lacrimogéneos, bastões fora de controlo.

Os espanhóis alternam esporádicos cenários análogos com marchas pacíficas, apelos vagos à paz e diálogo entre partes. Donos de uma superior preocupação com a higiene dos noticiários, os governos rapidamente recolhem os mastins fardados assim que uns pingos de sangue mancham uma câmara de televisão ou as lentes de um fotógrafo. Após umas cargas dissuasoras, proliferam as bandeiras brancas e os discursos apaziguadores.

Em Portugal, a mansidão impera. São séculos de treino, já relatados em ‘Causas para a Decadência dos Povos Peninsulares’ de Antero de Quental.

A propósito dos acontecimentos na América do Sul, de imediato se pôde ler em grandes títulos que ‘O Brasil acordou’, à semelhança do que se escutou no pico das marchas lusas, ou da rebelião grega. Ou ainda, nos movimentos que ‘ocuparam’ Wall Street durante algumas semanas nos Estados Unidos.

Não sei bem o que se pretende dizer com ‘acordar’. Mas socorrendo-me mais uma vez do conceito de percepção, não é difícil concluir que a maioria das pessoas ainda não quis ou não conseguiu assimilar a realidade.

Nenhum povo acorda durante duas horas de marcha, pacífica ou violenta. Nem mesmo numa semana de acampamento numa praça. Estamos perante uma panela de pressão à qual se puxa a válvula ocasionalmente, para efeitos de entretenimento. O cozinhado mantém-se, ao ritmo decidido pelo cozinheiro».

 

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