Anos 50-70 – Vergílio Ferreira

19178507_aFooyViveu entre 1916 e 1996. Foi como escritor que mais se distinguiu. O seu nome continua actualmente associado à Literatura através da atribuição do Prémio Vergílio Ferreira. Em 1992, foi galardoado com o Prémio Camões.

A sua vasta obra, geralmente dividida em ficção (romance, conto), ensaio e diário, costuma ser agrupada em dois períodos literários: o Neorrealismo e o Existencialismo.

 

Nasceu em Melo, aldeia do concelho de Gouveia, na Beira Alta. Filho de António Augusto Ferreira e de Josefa Ferreira que, em 1927, emigraram para o Canadá em busca de uma vida melhor, ficando Vergílio com os irmãos mais novos. Esta dolorosa separação é descrita em «Nítido Nulo». A neve – que virá a ser um dos elementos fundamentais do seu imaginário romanesco – é o pano de fundo da infância e adolescência passadas na zona da Serra da Estrela. Aos 12 anos, após uma peregrinação a Lourdes, entra no seminário do Fundão, que frequentará durante seis anos. Esta vivência será o tema central de «Manhã Submersa».

Em 1936, deixa o seminário e acaba o Curso Liceal no Liceu da Guarda. Entra para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, continuando a dedicar-se à poesia, nunca publicada, salvo alguns versos lembrados em «Conta-Corrente». Em 1939 escreve o seu primeiro romance, «O Caminho Fica Longe». Licenciou-se em Filologia Clássica em 1940. Concluiu o estágio no Liceu D. João III (1942), em Coimbra. Começa a leccionar em Faro. Publica o ensaio «Teria Camões lido Platão?» e durante as férias, em Melo, escreve «Onde Tudo Foi Morrendo». Em 1944, passa a leccionar no Liceu de Bragança, publica «Onde Tudo Foi Morrendo» e escreve «Vagão J», que publicou em 1946, no mesmo ano em que se casou com Regina Kasprzykowsky – professora polaca que se encontrava refugiada em Portugal devido à II Guerra e com quem Vergílio ficaria até à morte. Após uma passagem pelo liceu de Gouveia (onde escreveu o romance «Manhã Submersa», corria o ano de 1953), fixa-se como docente em Lisboa, leccionando o resto da sua carreira no Liceu Camões.

Em 1992, foi eleito para a Academia das Ciências de Lisboa e no mesmo ano recebeu, pelo conjunto da obra, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário dos países da língua portuguesa.

Morreu no dia 01 de Março de 1996, em sua casa, na freguesia de Alvalade. O funeral foi realizado no cemitério de Melo, sua terra-natal, e a seu pedido o caixão foi enterrado virado para a Serra da Estrela.


aparicao_capaTrata-se, segundo o autor, de um romance-ensaio mas também de personagem. Insere-se na corrente filosófica do Existencialismo. A obra pode ser dividida em três partes: o Prólogo, a História (vinte e cinco capítulos) e o Epílogo.

 

Acção

Alberto Soares, o nosso protagonista, encontra-se no presente e começa a reflectir sobre o passado. No início do primeiro capítulo conta-nos a história da sua vida, através de uma analepse. Fala da sua estadia em Évora e de como nesse período de tempo (um ano lectivo) ficou a leccionar nessa terra e conheceu pessoas com quem discutiu e aprofundou as suas teorias relacionadas com a existência: a procura da sua pessoa e da sua aparição.

Criou também uma relação com uma mulher, Sofia, que era dominadora e mais tarde deixou de lhe dar importância, passando a concentrar a sua atenção em Carolino, que tinha ideias e teorias parecidas às de Alberto; criou uma relação amor/ódio com Ana, a irmã de Sofia. Ambos discutiam acerca das teorias existenciais do autor e ela desvalorizava e valorizava em simultâneo a lógica deste.

Ao longo do livro temos dificuldade em saber se Ana gosta ou desgosta de Alberto, visto estar constantemente a convidá-lo para que a acompanhe e, ao mesmo tempo, contra as suas ideias. Este questiona se certos elementos, como Ana, estão a favor ou contra ele. Existe ainda outra personagem, também irmã de Sofia, que é Cristina. Esta criança excepcional toca piano de forma magnífica, algo que acalma o protagonista.

Ao longo do livro entramos ainda numa 2ª analepse, onde o autor se recorda de um passado mais distante. Este, normalmente relacionado com a família, revela a origem destas teorias filosóficas, sendo os eventos mais importantes a morte do pai e do seu cão.

Existem várias outras mortes de personagens importantes, todas com uma simbologia: o Bailote comete suicídio por ter perdido a fonte de rendimento, retirando-lhe o sentido à existência; Cristina morre pois é perfeita demais para viver neste mundo; Sofia morre como punição de todo o mal que tinha feito aos outros; Carolino e Ana desistiram, o que se pode considerar uma morte psicológica.

Alberto, o herói que alcançou a sua aparição, pode ser visto como um alter-ego de Vergílio Ferreira, pois se o autor escreveu sobre estas teorias é porque também ele pensou sobre elas.

O termo «aparição» significa exactamente a revelação instantânea de si a si próprio.

 

Personagens

Alberto Soares, Sofia, Carolino, Ana, Cristina, Álvaro Soares, Tomás, Evaristo, Susana, Tia Dulce.

 

Reflexão

A narrativa está ao serviço das inúmeras reflexões que enxameiam o texto, ganhando força a subjectividade do narrador, que se debruça particularmente sobre temas nucleares como Deus, a morte de Deus, a imortalidade do Homem, o significado da Existência, o Absurdo da vida humana, a inverosimilhança da Morte, a Angústia e a Solidão radical do Ser Humano.

O narrador faz um difícil percurso, comum a todos os que, um dia, abandonaram a Fé e se viram confrontados com o vazio interior. Situado dentro do Existencialismo, o narrador debate-se com a problemática da existência humana, sem referências transcendentais. Saltita de interrogação em interrogação, provoca as pessoas que encontra, recebe sucessivas iluminações/aparições, parece às vezes ter encontrado a tão desejada Aparição. De seguida, recai nessa procura por algo que nunca chega. A sua presença incomoda porque ele é «a questão» e por onde passa semeia a discórdia.

Desta forma, pode dizer-se que a grande intriga se passa dentro do próprio narrador: é ele o sujeito e o objecto da procura.

O mais curioso do romance parece ser a confissão do vazio existencial do Homem que perdeu pontos de referência fora do transcendente e tem de caminhar nas trevas, vislumbrando apenas pirilampos de luz que duram o tempo que brilham.

O mérito da obra é dar voz ao Homem, descobrindo-lhe a sua grandeza e miséria, abanar consciências alienadas e instaladas, provocar um sério debate sobre a condição humana.

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