De Olhos Bem Fechados


Prefácio

Não será difícil, para os que acompanham estas crónicas, concluir a minha predilecção por Stanley Kubrick, aliás já confessada noutros textos e comprovada pelo número de filmes da sua autoria presentes neste espaço – 2001; Laranja Mecânica; The Shining.

Assim sendo, parece quase obrigatório encerrar este primeiro ciclo de 20 filmes analisados n’O Postigo com a derradeira obra de arte do famoso realizador, cujo título é suficientemente amplo para abraçar todas as ironias: De Olhos Bem Fechados.

De facto, este não só admite todas as ironias como todas as teorias mais ou menos conspirativas alguma vez concebidas por quem a isso se dedica, ultrapassando nesse particular «The Shining», o que não é tarefa pequena.

Para tal, óbvias contribuições:

 – Kubrick morreu, oficialmente de ataque cardíaco durante o sono, meros seis dias após ter enviado aos estúdios a primeira «versão final» da película, carente apenas de pequenos ajustes na pós-produção (banda sonora, p. ex.).

 – Os protagonistas são nada menos que Tom Cruise (Vanilla Sky) e Nicole Kidman (Dogville), casal na película e na vida real, à época. Não só o enredo trata, entre outras coisas, de problemas conjugais, como os actores acabariam por se divorciar dois anos após as gravações, numa daquelas interessantes coincidências. Não despiciendo, o pormenor de ambos pertencerem à Cientologia, duvidosa organização com laivos de secretismo que – vejam só – é outro dos temas presentes.

O salto especulativo não tem de ser grande para imaginarmos o que se disse e ainda hoje, duas décadas passadas, continua a dizer-se sobre tudo isto. Pretenso assassinato do realizador pela CIA, Illuminati, rituais satânicos (alegação também presente n’ A Semente do Diabo), arrazoados de que o filme foi mutilado em 10, 12, 20, 40 minutos.

Trata este apenas de sociedades secretas e actividades conspirativas?

Não.

Foi essa a preocupação cimeira de Kubrick?

Não (este na verdade inspirou-se no livro «Traumnovelle» de Arthur Schnitzler, escrito em 1926).

Podemos observar estas fantásticas duas horas e meia sem por um minuto pensarmos na complexa vida pessoal dos actores?

Sim.

A principal razão para isso é o facto da obra cinematográfica ser tão rica, tão densa, tão absorvente e enigmática que reduz os protagonistas – por mais célebres ou polémicos que sejam – a meros instrumentos, conclusão já manifesta em «The Shining», que apresentava Jack Nicholson (História de um Repórter) e Shelley Duvall, também eles associados a suficiente dose de polémica dentro e fora das filmagens.

Quem conhece – ainda que vagamente – a extensa carreira do realizador sabe que nunca, jamais em tempo algum este construiu narrativas carentes de protagonistas famosos para as sustentar ou nos entregou propostas desequilibradas – digamos, enredo fantástico com banda sonora terrível ou vice-versa.

Uma oferta de Stanley Kubrick é algo Absoluto – cobre todas as facetas: Enredo, Produção, Técnicas de Filmagem, Banda Sonora. Trata-se de um organismo vivo, composto de perfeitos vasos comunicantes.

Para além disso, os enredos são tão ricos em simbolismo que existe neles matéria para diversos filmes – normalmente, um por cada visionamento, sendo dessa forma que conquistam, todos eles, a imortalidade. Resistem a modas, épocas e gerações.

Espraiam-se, também, por todos os géneros.

Ficção científica? – «2001».

Histórico? – «Barry Lyndon» ou «Spartacus».

Terror? – «The Shining» (embora muito mais que isso).

Distopia Social? – «Laranja Mecânica».

Erotismo? – «Lolita».

Guerra? – «Nascido para Matar».

Comédia Negra? – «Dr. Strangelove».

E assim por diante.

Ah, mas estou a ouvi-los: E De Olhos Bem Fechados, onde se encaixa? Façam favor.


O Filme


Uma das incontornáveis imagens de marca de Kubrick é a primeira imagem de cada filme – que de alguma forma resume ou incita o que se irá apresentar. Em «The Shining» é a vastidão perturbadora do isolamento. Em «Laranja Mecânica» é o olhar mortífero de Alex DeLarge. Aqui, é o corpo desnudado de Nicole Kidman.

Ou melhor, Alice Harford.

Essa nudez dorsal não nos chega, note-se, enquanto divinização do corpo feminino – digamos numa pintura ou fotografia eróticas – mas como mero utensílio de luxúria e eventual prazer, mediante circunstâncias apropriadas. Alice é a mulher troféu que hedonisticamente deixa tombar um vestido ao espelho, enquanto se prepara para uma festa natalícia.

Também como na maioria dos filmes do realizador, cada personagem é um arquétipo. Alice, a mulher objecto, é casada com Bill Harford, um médico de classe média alta. Ambos desejam ostensivamente subir uns degraus nessa escadaria classista, de preferência até ao topo. Tal é-nos sugerido pela imagem inicial do prédio onde habitam (filmado de baixo para cima de modo a aumentar-lhe a grandiosidade) e do primeiro vislumbre que temos de Bill (como quem diz Dollar Bill, ou Nota), que observa através da janela de cima para baixo (desejo implícito de controlo).

Primeira pergunta dele:

Onde está a minha carteira?

Primeira pergunta dela:

Estou bonita?

Isto estabelece a cimeira preocupação de ambos, o seu lema.

Fortuna e Beleza.

As respostas são igualmente elucidativas:

Está na mesa-de-cabeceira.

E

Estás sempre bem.

Ambos obedecem e encaixam mutuamente nas filosofias do parceiro – ela controla interessadamente a fonte de riqueza e ele valida o desejo feminino de aprovação.

Mas há outros elementos. Desde logo o apartamento amplo, quase luxuoso (corredores extensos, salas vastas, janelas altas) mas também o desinteresse de Bill para com a ama da filha Helena (outro tipo de mulher objecto): «Qual é o nome dela?». Alice, claro, elucida-o.

Posso ficar acordada até estarem de volta?

Não. – Proíbe a mãe, paciente. O Pai ri-se e dá-lhe um beijo na cabeça.

Enfim, sabem tão bem como eu, presumo. Nenhuma (uma que seja) cena de Kubrick está lá por acaso ou despida de camadas.

Nada aqui seria complexo em significado se não tivesse saído da mente de Stanley ou se, por exemplo, o título não fosse De Olhos Bem Fechados.

Posso ficar acordada?

Não.

E entretanto:

Está fantástica senhora Harford.

Obrigada.

«Posso ficar acordada?».

«Não».

E nós? Podemos?

Por enquanto sim, que mais não seja para rapidamente descobrirmos que as ilusões de riqueza dos Harford são sonhos medíocres quando comparados com a verdadeira classe alta – aqui personificada por um dos clientes de Bill, o anfitrião da festa, de seu nome Victor Ziegler.

O também habitual jogo de espelhos em Kubrick é notório, sendo o casal Ziegler símbolo vivo do ambicionado futuro do casal Harford.

E entretanto:

Estás fantástica, Alice.

Obrigada.

Passemos ao salão de baile e não reparemos (por favor) num par de convidados já veteranos que se sentam numa discreta mesa junto às escadas.

Conheces alguém nesta festa?

Absolutamente ninguém.

A que propósito é que ele te convidou?

Benefícios de fazer visitas domésticas a meio da noite.

Recordemos, portanto, o específico papel de Bill (Fortuna) e Alice (Beleza).

Não conhecem ninguém, mas passarão a conhecer.

Não fazem parte da elite, mas foram convidados como «observadores».

Não são ricos, mas é uma questão de tempo e oportunidade, como quem diz postura.

O nosso Bill está contudo enganado. Ao contrário do que pensa, conhece alguém na festa: dá pelo nome de Nick Nightingale (Rouxinol) e é o pianista de serviço, embora Harford se lembre dele na Faculdade de Medicina.

O que é feito de ti? Passaram o quê, doze anos?

Então sempre és médico?

Uma vez médico, para sempre médico (anotem para memória futura).

E tu, deste em pianista?

No meu caso, uma vez médico, médico nunca mais.

Estou a ver (de cima para baixo).

Mas olha, para além destes trabalhos toco com uma banda num clube de jazz, o Sonata Club, devias lá passar.

Sem dúvida. Fica combinado. (Não é exactamente o tipo de «clube» a que Bill quer pertencer, mas nunca se sabe).

Um serviçal convoca Nick para qualquer coisa.

Entretanto, Alice aguarda pelo marido no bar, onde esvazia vários copos de champanhe.

Enquanto mulher atraente, nunca parece grande ideia permanecer sozinha durante muito tempo numa festa, mas é especialmente má ideia nesta festa.

Por outro lado, pode afinal ser uma boa ideia. Tudo depende dos objectivos.

Eis Sandor Szavost, um cidadão húngaro com tiques de Casanova. O jogo de sedução parece ser, de alguma forma, uma das suas valências, quem sabe embelezada pela embriaguez de Alice, que procura dentro do possível manter a racionalidade e colocar a aliança que tem no dedo entre os lábios de ambos.

Sandor está pouco incomodado com o estado civil de Alice, mas Alice está bastante incomodada com o próprio estado civil e aqui devem ler «incomodada» no seu múltiplo sentido. Esta deixa-se arrastar até à linha vermelha e dela se afasta no último momento, não sem uma despedida entre o sedutor e o melodramático.

Bill observou Alice a dançar com Sandor, mas Alice também observou Bill a «dançar» com duas modelos anónimas. Talvez não com o corpo, mas certamente com as palavras.

Se por esta altura já repararam no carácter serpenteante (proibido, tentador, sibilante) de todas estas interacções, são espectadores e leitores atentos. Por um lado, a insidiosa e quase desconcertante sonoridade associada ao nome do sedutor húngaro: Sandor Szavost. Reparem na opulência da letra S. Sssssem sssssombra de dúvida sssssedutor, ou deverei dizer inssssseguro?

Depois – e sem abandonar o arquétipo religioso da serpente – miremos com atenção as posturas corporais e os olhares predadores da dupla de modelos, que de imediato e sem pudor se enrosca em Bill.

O que dizem é banal. O que fazem é (potencialmente) letal.

Meninas, para onde vamos?

O trio avança pelos corredores, sem aparente destino.

Para onde vamos? – Riem-se.

Sim, para onde vamos, exactamente?

Para onde se esconde o arco-íris. (Entre as múltiplas significâncias desta metáfora, destaca-se a mais óbvia: «no final do arco-íris, há um pote de ouro». O que se entende por ouro é com cada um).

 

 

 

 

 

 

Victor Ziegler, por exemplo, acha que o silêncio é de ouro, sobretudo quando a prostituta de luxo com quem se divertia numa das casas-de-banho procurou demasiados arcos-íris.

Um serviçal requisita a presença de Bill (irão notar que os serviçais, neste enredo, nunca estão longe).

O que aconteceu?

Não sei, tomou uma «speedball» ou «screwball» ou lá como se chama.

(Atentem ao discreto sentido de humor desta frase, já que «speedball», a correcta designação, refere-se quase sempre à mistura de cocaína com heroína e «screwball» remete para «louco» «excêntrico» «pouco-fiável»).

O nome da infeliz – os mais detalhistas poderão reparar que a despida senhora imita a pose do gigante quadro que reveste uma das paredes – é Mandy («handy» – à mão).

Mandy teve sorte desta vez – Bill é tão bom médico que um par de chamamentos e uma conversa doce parecem chegar – mas de acordo com o Dr. Harford «terá de fazer uma desintoxicação». Esta aparenta anuir enquanto se embrulha numa manta verde-clara, rodeada de paredes em verde-claro. E se recordam outros filmes de Kubrick – como «The Shining» – sabem certamente que as cores nunca são um acaso.

Já agora, as decorações natalícias em forma de Estrela de David também não.

 

Conclusão: o casal Harford evitou (por diferentes razões) o adultério.

Pergunta: o casal Harford queria evitar o adultério?

 

A rotina impede-os, talvez, de reflectir neste pormenor – ele sempre ocupado com pacientes mais ou menos sedutoras, ela sempre ocupada em manter-se sedutora.

Contudo, na noite seguinte, Alice opta por apimentar uma possível noite amorosa com erva – não a de culinária, mas a de recreação.

Por outras palavras, volta a caminhar no trapézio emocional exposto na festa, fazendo os possíveis por arrastar Bill consigo.

Recordem:

Bill é Fortuna. Fortuna no sentido monetário e no sentido existencial (Sorte/Azar).

Logo e segundo o próprio, a sua «fortuna» é ter uma boa vida, uma boa carreira, uma boa família. Essa família é «boa» porque é mantida por Alice, que ele considera uma esposa fiel e uma mãe dedicada. Já agora, nas entrelinhas, considera ainda que Alice é, também ela, «afortunada» por ser parte integrante daquela família – logo a «obrigação» de ser fiel à instituição casamento está implícita.

Porque diabo te sentes tão seguro em relação à minha fidelidade?

Porquê? Não sei…talvez porque és minha mulher. Talvez porque és a mãe da nossa filha.

Notem, em nenhum momento Bill argumenta «porque me amas».

Alice, que espreitou para o outro lado do espelho com um empurrãozinho do Chapeleiro Louco, perdão, de Sandor Szavost, está interessada em saber mais sobre fidelidade. Por exemplo, sobre a de Bill.

E aquelas modelos? Desapareceste com elas para onde?

Para lado nenhum. O Victor precisou da minha ajuda.

Isto é parcialmente verdade, mas o nosso Bill não pode elaborar sobre a natureza da ajuda prestada a Victor já que, exacto, o silêncio é de ouro e tudo mais.

E as tuas pacientes desnudadas no consultório?

Acredites ou não, é tudo muito frio e impessoal. E sabes que está sempre uma enfermeira presente.

Ah, o nosso Bill Harford. O cavaleiro de bata branca. Pronto para salvar pacientes estonteantes de cancros mamários, modelos toxicodependentes da morte, amigos abastados de apuros e esposas intoxicadas de receios adúlteros.

Temos notícias para ti, Bill. Alice andou a sonhar com outro cavaleiro de branco.

Não um médico, mas um oficial da marinha.

Ou seja, não é a primeira vez – nem aqui importa o número – que Alice, a modelo/doméstica/esposa/mãe perfeita se vê obrigada a colocar, literal ou metaforicamente, a aliança de casamento entre dois pares de lábios: os dela e os de um potencial amante.

 

 

 

 

 

Houve aquela vez numas férias, em que «estava pronta para abdicar de tudo, marido e filha incluídos, por umas horas de paixão com um estranho».

Repara, Bill, cada um vê o que quer no final do seu arco-íris.

Entretanto, há um gongo, perdão, um telefonema.

Morreu um paciente idoso – Nathanson – e a filha está destroçada. Por cortesia e respeito é de bom-tom que o médico da família compareça.

No táxi, a caminho da morada indicada, o Dr. Harford retira a digníssima esposa do pedestal e coloca-a na cama de um fictício oficial da marinha.

Aqui, talvez seja boa ideia compararmos o grau de nudez e submissão desta imaginada Alice com a natureza dos episódios inusitados que aguardam Bill.

 

Capítulo Um – Marion.

Ao chegar, Harford é informado que a filha do defunto o aguarda num dos quartos. Para lá chegar há que caminhar por um longo corredor – ainda que não tão vasto como os de Ziegler (os longos corredores são comuns em Kubrick, porque são quase sempre «labirintos da mente»).

Abre-se uma porta. É Marion. Cumpridas as formalidades, segue-se uma estranha e quase dispensável conversa entre ambos – duas cadeiras em relativa oposição, vigiadas por duas janelas – na qual esta termina por admitir uma história demasiado semelhante à confessada por Alice: tem um relacionamento estável e com a morte do pai está de partida para lugar distante, mas sempre amou Bill e está disposta a abdicar de tudo por ele.

Marion, penso que está em choque, recorde-se que somos quase estranhos, o nosso único tema de conversa foi o seu pai.

Isso não parece impedir a visada de lhe roubar um beijo desesperado.

O incauto e solícito namorado chega no momento certo (assim como se fosse um telefonema) e notamos-lhe as extremas semelhanças físicas com Bill. Não, não é por acaso. O médico retira-se, cordialmente, parecendo deixar em Marion o mesmo desejo insaciado que vimos em Alice.

Bill decide arejar a cabeça e nada melhor para isso do que uma boa caminhada nocturna, através de uma cidade saturada de motivos natalícios – embora nada de inocente e romântico se encontre neste Natal, concebido mais como palco de um quase-pesadelo do que de um sonho.

Já que retomamos o tema das cores, sugere-se que atentem sobretudo às cores Azul e Vermelho, para além do mencionado Verde – sendo as orgias de luz natalícias uma óbvia mescla de todas estas. Porquê Azul e Vermelho? Bom, todo e qualquer cenário em tons de azul ou aproximados – quarto do pai de Marion, quartos no apartamento de Bill e Alice (sobretudo o de Helena) – remetem para conservadorismo, placidez, segurança, calma, mas também tristeza e monotonia. Todo e qualquer cenário em tons de vermelho ou aproximados (digamos púrpura), sugerem aventura, perigo, sangue, emoção, paixão. As múltiplas árvores de Natal em múltiplos locais irão insinuar a dualidade nas mentes de Bill, mas também de Alice – dessa comunhão de cores irá sobressair a vencedora, entre as duas referidas.

Na dita caminhada nocturna, Harford depara-se subitamente com um alcoolizado grupo de estudantes, que exibem temperamento provocador. Mas será que exibem?

Olha-me este. Olha para ele tão bem vestido. Mariconço. És a porcaria de um mariconço? Olha que há túneis que só deves utilizar para sair, nunca para entrar, meu maricas.

Adicionam ao discurso homofóbico um empurrão forte o suficiente para desequilibrar Bill na direcção de um carro estacionado.

Se um episódio destes é plausível, nas ruas de uma madrugada nova-iorquina? Claro. Não deixem contudo de assinalar a coincidência.

 

Capítulo Dois – Domino

Algumas ruas adiante, uma abordagem bem mais amigável. Domino, nome de trabalho utilizado por uma prostituta, sugere-lhe um encontro no apartamento próximo.

Quer entrar comigo?

Se quero…entrar consigo?

(Notem os laivos eróticos do jogo de palavras).

Claro. É bem mais agradável que na rua.

A porta do prédio é, sem surpresa, vermelha. As paredes do prédio são, sem surpresa, verdes (como a casa de banho onde encontrámos Mandy). Acrescente-se que um carrinho de bebé (família, segurança) está abandonado no exterior do apartamento de Domino.

Segue-se – de forma padronizada – outra conversa constrangedora, outro beijo quase roubado (embora ambos em menor escala do que no caso anterior) e sim, adivinharam, outro telefonema em forma de gongo salvador. Neste caso, o de Alice.

Onde estás?

Estou aqui com a família. Ainda vai demorar um bocadinho, podes ir deitar-te.

Pergunta: É verosímil que todos os encontros de Bill desde que saiu de casa tenham contornos sexuais? É verosímil que, desde que se viu confrontado com a confissão da fantasia adúltera da mulher, Harford não tenha feito nada senão lidar com convites para trair Alice? Estão estes episódios de facto a ocorrer desta maneira, ou estarão os mesmos a ser temperados com as próprias fantasias (vingativas) de Bill?

Aproveitemos para introduzir novos conceitos à trama:

Um: Bill (Fortuna) começa a servir-se da carteira recheada para abrir inúmeras portas – e sobretudo para sublinhar o seu estatuto social (de cima para baixo). Decide pagar os 150€ devidos à simpática Domino, embora não chegue a envolver-se com ela.

Dois: A par das notas esvoaçantes, Harford inicia também um padrão discursivo no qual aproveita todas as oportunidades para recordar que «é médico», exibindo a identificação correspondente como se fosse um agente da autoridade.

Em resumo: «Estatuto» e «Fortuna» iguais a «Poder».

Antes de continuarmos, notaram como o casaco e gorro da prostituta são preto e branco (dominó) e o vestido é púrpura? Certo.

Assim sendo, continuemos pelo vale das coincidências até desaguarmos no Sonata Club. Esse mesmo, o clube de jazz onde toca o nosso velho amigo Nick Nightingale, pianista para todo o serviço, seja em clubes nocturnos, festas de Natal da classe alta ou…

Ainda tenho outro trabalho, mais tarde.

Não me digas.

Temos de alimentar a família.

És casado?

Mulher e filhos em Seattle.

E que festa é essa, de madrugada?

Não te posso dizer. Mesmo que quisesse não saberia como.

Deixa-te de brincadeiras.

É verdade. Toco vendado. Não sei nada do que se passa à volta.

Pára de fazer pouco de mim. Estás a falar a sério?

Se estou. O máximo que posso adiantar é que numa das vezes não me vendaram como deve ser e aquilo que vislumbrei, meu amigo…nem te conto.

Conta, por favor.

Os convidados estão todos cobertos por capas longas, capuzes e máscaras, numa espécie de ritual. E as mulheres naquela festa…nunca vi melhores.

Meu caro sabes que não é possível, nem pouco mais ou menos, eu deixar-te sair daqui sem me dares a morada.

É demasiado arriscado. Pode custar-me o emprego. E mesmo que eu por milagre fizesse isso, não entras lá sem a palavra-passe.

O que pode «salvar» Bill deste bloqueio? Exacto. Um gongo. Ou seja, um telefonema. De preferência, um que obrigue Nick a rabiscar a palavra-passe num guardanapo, ilibando-o de proferi-la em voz alta.

Ouve, já tenho a palavra-passe. É só deixares escapulir a morada e nunca ninguém saberá que foste tu. Vou estar mascarado, não há hipótese de nos associarem.

Sabemos, instintivamente e sem grande margem para dúvida, que Nick vai fazer a coisa errada. Por outro lado, todo este enredo é acerca de pessoas que fazem as coisas erradas.

Ah, antes que me esqueça: a palavra-passe?

Fidelio.

Conceito que não só remete de imediato para «fidelidade» ou ausência de (infidelidade de Alice a Bill, de Bill a Alice, de Victor à mulher, de Nick aos patrões, de Marion ao namorado, etc.) como recorda igualmente uma ópera de Beethoven, cujo enredo aborda o drama de Leonore, obrigada a disfarçar-se de guarda prisional e recorrer ao nome «Fidelio» para salvar o marido da morte, numa prisão política.

Estão a deliciar-se com as camadas de ironia? Eu também. Mas não fiquem por aí. Anotem com cuidado este enredo operático, nunca se sabe quando volta a ser útil.

Continuemos.

 

Capítulo Três – Leelee

De informações no bolso, Bill precisa apenas que esse bolso faça parte da indumentária adequada – leia-se capa encapuzada e máscara.

Feliz ou infelizmente para ele, não muito longe existe uma loja de fantasias, de seu nome «Rainbow», vejam lá que coincidência. Como já aflorámos, nem sempre as portas necessárias estão abertas de par em par, nada contudo que outro tipo de palavras-passe («médico» e «dinheiro») não resolvam.

Segundo o Sr. Milich, actual gerente, o anterior proprietário (antigo paciente de Bill, alega este) mudou-se para longe e tão-pouco o inconveniente de ter sido arrancado ao sono àquela hora da madrugada pode ser compensado com um bónus de 100€.

Contudo, pode ser compensado com um bónus de 200€.

Olhe-me para isto. Quase parecem estar vivos, estes manequins.

Enquanto o bizarro Milich saltita em redor de múltiplos disfarces, conclui-se que alguns daqueles manequins estão de facto bem vivos – ou melhor dizendo, existem três elementos viciosos no recanto da loja que gostariam de passar por mortos: dois clientes asiáticos e Leelee, filha de Milich e adolescente nada púdica.

O que estão a fazer ali, a tais horas, com maquilhagem a mais e roupa a menos?

Adivinha-se, sendo curioso notar o lado burlesco de toda a cena – assim uma espécie de ópera bufa a contrastar com o clássico «Fidélio». Ao escapar à fúria (apesar de tudo contida) do pai, que tranca os prevaricadores asiáticos no gabinete enquanto ameaça chamar a polícia, a jovem – em roupa interior – abraça-se ao atónito Bill, como que buscando protecção. A julgar pelas expressões de ambos, procura mais qualquer coisa, sussurrando algo ao ouvido deste antes de se retirar, com uma derradeira pose sedutora.

Devemos acreditar nesta versão dos acontecimentos? Fica à consideração.

Harford não só acredita, como aprofundou a fantasia masoquista entre Alice e o fictício amante. Recordem:

«…Talvez seja boa ideia compararmos o grau de nudez e submissão desta imaginada Alice com a natureza dos episódios inusitados que aguardam Bill».

Até agora presenciámos tentativas relativamente moderadas de sedução – Marion, Domino e Leelee – que ilustram a também moderada intensidade das imagens que Bill forma na mente acerca da mulher adúltera.


Porém, no táxi seguinte (que o leva para a misteriosa festa na periferia) Harford arrisca o passo seguinte (interior e exterior) ao desnudar Alice e colocá-la em poses bastante submissas – à mercê do oficial.

Tal está intrinsecamente ligado ao que o espera.

Depois de curvas labirínticas em estradas rurais, cercadas de florestas densas e intimidantes, o veículo atinge enfim os portões altos e vigiados de uma luxuosa propriedade – pode mesmo dizer-se um castelo dos tempos modernos.

Em dois pontos distintos – no portão exterior e na porta principal – o visitante é obrigado a pronunciar a palavra chave. Apesar de alguma (extremamente bem disfarçada) incredulidade, os funcionários autorizam a passagem.

Será interessante comparar a primeira festa natalícia com este evento, do mesmo modo que se compara uma bicicleta com uma moto de alta cilindrada. Algumas das coisas que aqui ocorrem às claras terão ocorrido no primeiro exemplo de forma recatada – na tal secção onde o «arco-íris» se esconde – e os convivas, antes vestidos e de rosto descoberto, estarão agora despidos e mascarados.

Despidos? Bem, nem todos.

Da mesma forma que Bill e Alice eram meros observadores das elites no evento natalício, também este mascarado Harford é mero espectador da orgia sexual em curso.

E quem diz da orgia sexual, diz da cerimónia ritualística que a precede.

Observemos mais em pormenor:

Numa sala ampla – dir-se-ia quase uma pequena igreja – encontramos os participantes mascarados, todos cobertos por capas e capuzes negros, com excepção dos três líderes do evento. No círculo central estão várias mulheres desnudadas mas de rosto oculto. Ao som dos acordes litúrgicos arrancados ao órgão por um vendado Nick Nightingale, as ditas mulheres (que assumimos serem profissionais do sexo) obedecem a comandos firmes do mestre de cerimónias, que resumem uma espécie de iniciação.

Eis o cântico (ininteligível porque invertido do romeno):

And God told to his apprentices…I gave you a command…to pray to the Lord for the mercy, life, peace, health, salvation, the search, the leave and the forgiveness of the sins of God’s children. The ones that pray, they have mercy and they take good care of this holy place.

Notem: «the ones that pray», os que rezam (submetem-se) «they take good care of this holy place», tomam conta deste local sagrado (mantêm silêncio acerca do que aqui sucede).

Ah, eu disse que o cântico era em romeno? Ou quem sabe húngaro. De qualquer modo, uma língua eslava. Uma língua falada, por exemplo, por Sandor Szavost.

Esse mesmo.

Primeiro detalhe – o líder veste de vermelho e os adjuntos vestem púrpura. O palco está também ele coberto de vermelho.

Recordam o esquema de cores? Vermelho e Púrpura? Associem agora isso à cor da porta do prédio e do vestido de Domino.

Segundo detalhe – as máscaras não são aleatórias. São venezianas (desde sempre associadas à protecção da identidade dos participantes em actividades promíscuas e decadentes).

Estupefacto com o que presencia, é inevitável que a postura de Bill – por mais que este se esforce em contrário – denuncie o seu constrangimento. Tal é de forma célere notado por um dos presentes na galeria superior, acompanhado por uma mulher também mascarada (apenas as profissionais contratadas estão nuas), que lhe concede uma espécie de vénia cortês, à qual Bill responde.

Terceiro detalhe – a máscara que oculta este homem é grotesca (como muitas outras) e a da mulher que o acompanha exibe uma enorme lágrima, o que deixa bem clara a metáfora inerente.

Até onde Bill é capaz de ir? Vejamos.

Fica evidente que, neste jogo de sombras, são as mulheres «iniciadas» – ou seja as prostitutas – que escolhem os parceiros/clientes. Logo, existe uma em particular que procura arrastar Harford com a mesma persuasão suave que vimos na festa natalícia – será uma das duas modelos?

Contudo, outra mulher (Mandy) aparenta reconhecê-lo – apesar da improbabilidade – e lança-lhe um (não tão) estranho aviso:

Está em grande perigo (como ela estava na festa anterior). Tem de sair daqui o mais depressa possível (tal como ela teve de «voltar à realidade»).

Porquê? Não pode ao menos vir comigo?

Não. Corro risco de vida só por estar a falar consigo. Ambos corremos.

Também como na festa de Natal, quem aparece nos momentos mais críticos? Exacto. Os serviçais. (Fiz notar que estes eram omnipresentes).

Peço desculpa, o senhor é o cliente daquele táxi que se encontra na entrada?

Sim.

Há um pequeno problema. Queira acompanhar-me.

Avaliemos então esse «pequeno» problema:

 – Bill sabe a palavra-passe para entrar na casa, mas não sabe uma outra – pelos vistos necessária – para circular dentro dela;

 – O talento de Nick ao piano não é suficiente para compensar a ausência de talento a guardar segredos;

 – Harford, exposto, é obrigado a remover a máscara, sendo-lhe despido o privilégio do anonimato;

 – A par da nudez psicológica, é-lhe exigida a nudez física (são incertos os motivos), processo de súbito interrompido pelo sacrifício inesperado de Mandy, que se oferece para «assumir a responsabilidade e consequente castigo» pelos actos irreflectidos de Bill.

O gesto parece conquistar a tolerância dos juízes – por uma vez permitem que o intruso saia incólume, embora não sem forte aviso:

Se revelar alguma coisa do que aqui presenciou esta noite, ou tentar de alguma forma prosseguir com qualquer tipo de investigação, surgirão terríveis consequências para si e para a sua família.

O círculo da primeira noite fecha-se já depois do regresso de Bill a casa, exausto.

Notem, a avalancha foi provocada pela confissão do desejo adúltero de Alice e será outra confissão adúltera de Alice – não de um desejo mas de um sonho – a pontuar aquela bizarra madrugada.

Adormecida, aparentemente, esta solta um riso enigmático e escarninho, que pontua o devaneio em causa. Ao ser abordada pelo marido e instada a confessar o «pesadelo» em que estava mergulhada, admite que:

Estava numa casa enorme e havia imensa gente à nossa volta – minha e do tal oficial da marinha – enquanto ele fazia sexo comigo. Centenas, por todo o lado. E todos a ter sexo também. Depois…comecei a fazer com outros homens. Tantos…nem sei quantos. E estava consciente de que me podias ver o tempo todo, nos braços deles. Apetecia-me fazer pouco de ti…foi por isso que comecei a rir. Deve ter sido o que ouviste, quando me acordaste.

Muito bem.

Hipótese Um – Alice estava de facto a dormir e ficou de facto afectada com o pesadelo – apenas uma extensão da fantasia confessada horas antes, em directa oposição com os encontros relativamente improváveis que Bill experimentou ao longo da noite. Logo, falamos de um casal em crise, sexualmente reprimido, que recorre a diferentes formas de extravasar as frustrações;

Hipótese Dois – Alice estava não só acordada como presente na festa (aqui, recordar que ao longo de toda a noite acompanhámos os passos de Bill, mas não os de Alice, que a certa altura anuncia ir deitar-se, sem no entanto existir qualquer prova disso) e o «pesadelo» é de facto uma cruel descrição das suas acções na orgia;

Hipótese Três – Alice está a dizer a verdade e o «pesadelo» é apenas a referida extensão da discussão anterior, mas, Bill por sua vez adiciona no seu espírito a segunda confissão à primeira, ficando convencido que a mulher esteve na festa a vigiá-lo e a castigá-lo.


(Na imagem acima, lençol superior azul e lençol inferior púrpura. Isto diz qualquer coisa sobre Alice).


Seja como for, o nível de angústia, culpa e paranóia é crescente em ambos, por múltiplas razões. Harford decide então, como insinuado na véspera, utilizar «Fortuna» e «Estatuto» para ensaiar a investigação desaconselhada.

Fá-lo transferindo a culpa que sente (justificada ou não) em relação a Alice e procurando compensar as pessoas que julga ter prejudicado com os seus actos: Nick, Domino, Mandy e de certa forma Milich.

Começa por tentar saber o paradeiro do antigo colega, mas o clube ainda está fechado. Arrisca então entrar num café próximo, mais uma vez tranquilizando a esquiva funcionária com as credenciais médicas.

(Notem como esta conhece Nick – este terá visitado o estabelecimento – e acaba mesmo por revelar a Bill o nome do hotel onde o músico está hospedado, contexto que sugere um envolvimento adúltero com o pianista, chefe de família em Seattle. O eventual adultério de Nick é um espelho do ameaçado adultério de Bill – vaso comunicante com Marion).

No hotel em causa, o funcionário ao balcão informa-o – com espantoso e conveniente detalhe (não esquecer que Bill se julga numa espécie de investigação policial) – acerca do destino certamente nubloso de Nick Nightingale:

Chegou tarde, com o rosto marcado e acompanhado por dois homens de aspecto ameaçador. Um deles ficou cá em baixo na recepção, o outro acompanhou-o ao quarto. Ele fez as malas e à saída tentou passar-me um envelope mas um dos homens notou e apoderou-se do mesmo. O seu amigo parecia assustado. Entraram num carro escuro e desapareceram.

Se isto não é a raiz de qualquer teoria da conspiração, não sei o que é.

Por outro lado, recordem o grupo homofóbico que Bill encontrou na véspera. Agora, notem como o funcionário, homossexual, parece mal conter o desejo físico por Harford. Identificam um padrão?

 

Conclusão do Capítulo Três – Leelee.

Em seguida, há que devolver a fantasia – o médico guardou-a provisoriamente num armário, em casa. Milich está agora bastante calmo. Ao saldarem contas (reforçadas com os 200€ prometidos), falta apenas um elemento: a máscara (o que significa que Bill tê-la-á perdido, literal e metaforicamente). Onde a perdeu é elemento relevante no futuro. O assunto, de momento, não lhe consome demasiada atenção.

Coloque na conta.

Harford, como vimos repetidas vezes, não olha a despesas, facto bem patente na interacção com o motorista de táxi que o levou à periferia.

Isto é uma nota de 100€. Vou rasgá-la e dar-lhe metade. No final da noite devolvo-lhe a minha metade e o preço do taxímetro, se esperar por mim.

Estaremos todos à venda? (Uma das perguntas chave do enredo).

Perguntemos a Milich. Ou a Leelee.

Sr. Milich, ontem à noite quando aqui estive, disse-me que ia chamar a polícia.

(Os asiáticos da véspera saem das traseiras – desta vez vestidos – seguidos de Leelee, de novo sorridente, silenciosa e em trajes menores).

Ah, isso. Pois, mas acabámos por nos entender. Por falar nisso, se voltar a precisar de nós, seja para o que for, não hesite em contactar.

Poderia ser este o momento para fazer uma importante conexão entre Leelee e Helena (filha dos Harford) mas adiemos isso, por agora.

Adiemos porque Bill, agitado e persistente, retoma o caminho da mansão proibida, enquanto acrescenta pós eróticos à recorrente fantasia de Alice com o amante – pela primeira vez, estão a consumar o acto.

Aí chegado, coloca-se ostensivamente diante das câmaras, despoletando célere reacção em forma de veículo ominoso (o mesmo que deu uma boleia a Nick?) e serviçal (esses práticos utensílios) emudecido e carrancudo, que se limita a entregar-lhe «um envelope» – gesto que Nightingale ensaiou no hotel, a fazer fé no funcionário. (Notem os padrões recorrentes e intercruzados nestas acções).

O chamado «segundo aviso», depois do proferido no ritual da véspera, não contém nenhuma fórmula encriptada, é mesmo bastante mundano:

Abandone estas investigações, que não o levarão a lado nenhum, ou as consequências chegarão. Considere isto um segundo aviso.

Ah, se ao menos Bill conseguisse afugentar da mente o rosto deliciado que Alice exibe quando se entrega ao charmoso amante…

Terão também registado que não existe um único local – consultório, casa de Domino, apartamento dos Harford, festa de Victor, etc. – que não exiba uma árvore de Natal. Num contexto normal, não passaria de uma vulgar prova de espírito festivo, mas não estamos num contexto normal. Estamos num filme de Stanley Kubrick.

Logo, as múltiplas árvores de Natal, não são apenas isso.

São antes símbolos do dilema moral e ético que assalta Bill – ele em especial, acima de Alice (entenderemos depois).

Como? Regressemos ao esquema de cores:

 – Azul (e derivados) igual a estabilidade, refúgio e monotonia;

 – Vermelho (e derivados) igual a tentação, proibição, perigo, aventura, luxúria;

 – Verde (e derivados) igual a doença, insalubridade, morte.

A árvore combina – na sua multiplicidade – todas estas cores (e outras).

Portanto, não se estranha a presença de uma árvore no consultório do Dr. Harford, onde este se refugiou a horas tardias para decidir se exorciza ou não o fictício adultério da mulher com um tangível adultério próprio.

 

Conclusão do Capítulo Um – Marion.

Sejamos claros. Obedecendo ao jogo de espelhos de Kubrick, Marion é Alice, Bill é o Amante e Carl (noivo de Marion) é Bill.

Logo, quando Bill/Amante telefona para Marion/Alice, quem atende é o elemento perturbador do potencial adultério: Carl/Bill.

Harford desiste dessa traição do mesmo modo que gostaria que Alice desistisse da sua.

 

Conclusão do Capítulo Dois – Domino.

Domino (para além de ser o nome de uma máscara/personagem veneziana) representa o lado físico/sexual dessa infidelidade – não esquecer o vestido púrpura.

Por outro lado e como vimos, Harford iniciou um titubeante processo de redenção, contexto que o obriga a reconverter os encontros/participantes da véspera.

As paredes continuam verdes (ver simbologia) e o carrinho de bebé continua à entrada, mas quem abre a porta a um Bill com uma caixa de bolinhos na mão (intimidade e segurança) é a «colega de casa».

Esta responde pelo nome de Sally, é ruiva e veste de azul (ver simbologia). Uma vez que estamos dentro da visão pessoal de Bill, existe obrigatória tensão sexual, mas como estamos dentro da visão pessoal de Bill, essa tensão sexual obrigatoriamente fica por consumar. E mais do que isso.

A Domino contou-me que foste muito simpático. Mas é melhor que saibas. Ela recebeu hoje o resultado de umas análises. O teste de VIH acusou positivo.

 

 

 

 

 

Em suma: Bill Harford é absolutamente incapaz de consumar a (impulsivamente) planeada infidelidade, por mais «candidatos» que surjam.

 – Com Marion porque vê nela um reflexo da fantasia de Alice;

 – Com Domino/Sally porque foi interrompido por Alice e porque receia pela saúde (VIH);

 – Com Leelee e/ou numa experiência homossexual pelos padrões morais que julga ter;

 – Na orgia elitista porque ainda não pertence ao clube.

 

Debrucemo-nos um pouco mais sobre as quatro tentações femininas, pois nelas veremos sem demasiada resistência outro padrão:

 

Todas são Alice

 – Marion – Alice com fantasias proibidas (e não consumadas);

 – Domino – Alice promíscua;

 – Sally – Alice doméstica (mas tentadora);

 – Leelee – Alice ingénua, infantil e proibida (sem esquecer possível conexão a Helena).

Por esta altura, a pergunta impõe-se:

Acompanhamos a realidade ou o sonho/pesadelo de Bill Harford?

A resposta é híbrida. Nem uma coisa, nem outra. Digamos que estamos em presença de uma realidade distorcida pelos desejos, medos e obsessões do protagonista, do mesmo modo que veríamos a realidade de Alice se o filme focasse os seus passos.

Ou dito de outro modo, não existe realidade, apenas percepção.

Ao falarmos de percepções, nenhuma terá sido mais intensa do que a emanada pelos rituais hedonistas ocorridos na mansão.

Por isso, não devemos estranhar que um homem sozinho e solitário como é neste momento o Dr. Harford, incapaz – apesar do seu propagandeado binómio «Fortuna» e «Estatuto» – de resolver seja o que for, permita que a sua mente não só fabrique interlocutores inverosímeis como também ruas/bairros/cidade inverosímil.

Que cidade é esta? Nova Iorque? Sim, se a sonharmos. Sim, se a pintarmos dentro da mente. É a Nova Iorque de Bill, deserta, onírica, perturbada como ele. Uma cidade onde a paleta de cores obedece ao seu estado de espírito – progressivamente mais vermelha – ainda que desta vez isso não signifique tentação, mas proibição e perigo.

A proibição de saber/fazer mais, o perigo de ser castigado se o fizer. Precisam de uma prova dessa ameaça? Não seja por isso, é olhar para trás e confirmar a presença de um «serviçal» a vigiar cada pequeno gesto da sua presa.

O que fazer? Talvez comprar um jornal, simular alguma normalidade na bizarria.

Muito bem. Prossiga, Dr. Harford. Mas com redobrado cuidado.

Afinal, repare no título desse jornal que adquiriu: «Lucky To Be Alive».

Quem? Como? Porquê? Coincidência? Mensagem subliminar?

Reflictamos sobre tudo isto noutro café – não o de Nick – saído do mais desconfortável dos pesadelos – ouve-se a «Marcha Fúnebre» de Mozart.

Nesse mesmo jornal, existe uma notícia que pode ou não significar alguma coisa:

«Antiga Miss Encontrada em Caso de Abuso de Drogas em Hotel».

A própria chamada é estranha, como se escrita por alguém disléxico, mas Bill (e nós com ele) tem a estranha certeza que aquela vítima é Mandy.

Para clarificar qualquer hesitação, entra em acção o Detective Doutor Harford que ao abanar pela milésima vez as credenciais na recepção do mencionado hospital «confirma» que Mandy («uma paciente»), deu entrada em estado grave e acabou por falecer.

Ainda tem dúvidas? Venha connosco à morgue. Venha observar a Morte. Venha aceitar, de uma vez por todas, que não deve meter-se «connosco».

E quem somos «nós? É perguntar a Victor Ziegler.

Entender o diálogo que este estabelece com Bill (convidado a comparecer, não na mansão, mas na casa onde ocorreu a festa de Natal) é, quem sabe, entender as respostas para o seguinte:

 – Quem organizou a orgia elitista?

 – Quem são os participantes?

 – Quais os verdadeiros objectivos?

 – Quem era o «mestre-de-cerimónias», vestido (claro está) de vermelho?

 – Quem era o casal mascarado que observou (e decerto identificou) Bill?

 – O que aconteceu a Nick?

 – O que aconteceu a Mandy?

 – Qual será o destino do casal Harford?

Vejamos:

Este whisky é excelente.

Se quiseres mando-te uma caixa.

Nem pensar.

Ziegler, mais uma vez, comprova a sua posição de privilégio em relação a Bill – apenas no sopé daquela montanha. Bill, apesar do forte desejo em ser alpinista, tem medo das avalanchas. Falemos então de avalanchas.

Sei o que te tem preocupado nos últimos dias. Estava lá. Na festa.

Portanto, se Victor lá estava, é lícito assumir que muitos dos presentes na festa de Natal também lá estivessem. Como Sandor Szavost.

Foi a questão da senha?

Não foi por não saberes a segunda senha. Foi porque esta não existia (e se existisse calculamos que Ziegler não a dissesse). Para além disso, chegaste num táxi quando todos os outros tinham limusine. E nem comento o facto de um dos serviçais ter encontrado a etiqueta do aluguer da fantasia.

Quanto ao organizador – como quem diz o senhor vestido de vermelho – sugere-se que possamos estar a falar do próprio Ziegler (o que explicaria alguma da benevolência para com Bill até agora) a partir do momento em que a mesa de bilhar que os separa está revestida por um pano vermelho (ver cobertura do chão na cerimónia) e Victor intercala as «explicações» com pequenas pancadinhas nervosas com o giz e taco (pancadas cerimoniais com o bastão) ou atira a bola branca de um lado para o outro (fumo branco da cerimónia).

Assim sendo, o casal mascarado que «cumprimentou» Bill teria forçosamente de ser a dupla Sandor/Alice (os únicos, para além de Victor, Mandy e alguma modelo capazes de o reconhecer), sendo irónico nesse caso que a máscara de «Alice» exibisse a referida lágrima.

Se o casal for Sandor e Alice, o «pesadelo» de Alice é na verdade a descrição dos actos desta nessa noite.

Por outro lado, não é claro que o poder de Ziegler seja tao forte dentro daquela organização – colocaria Bill muito mais perto do topo do que este parece estar – obrigando a concluir que o mencionado casal mascarado é na verdade Ziegler e a mulher (os outros que o poderiam identificar).

Líder ou não, Victor sabe perfeitamente o que aconteceu a Nick e a Mandy. Não quer dizer que isso comprove a honestidade das suas respostas.

E se eu te disser que Nick está são e salvo, de volta a Seattle?

O empregado do hotel disse-me que ele tinha o rosto marcado.

Pronto, tinha o rosto marcado. É mais do que merecido depois da asneira que fez. Garanto-te que está em casa, na cama com a mulher.

E Mandy?

E se eu te disser que não temos nada a ver com o que aconteceu com Mandy? Que toda aquela charada de «sacrificar-se por ti» foi apenas fogo-de-vista? Que todas aquelas ameaças só queriam assustar-te?

Assustar-me? Eu vi-a na morgue.

Sabes tão bem como eu que ela era uma drogada, era uma questão de tempo. Tu mesmo sugeriste que ela precisava de uma desintoxicação. Abusou da dose, morreu, a porta do quarto estava fechada por dentro, caso encerrado.

Pequenos detalhes (que nunca são detalhes):

 – Victor começa todas as suas explicações por «E se eu te disser». Tal implica «estás satisfeito com esta solução? Se não estiveres tenho outra». Não afirma. Sugere. Propõe. Logo, mente.

 – Quem tiver paciência para ler o artigo de jornal onde se descreve o sucedido com Mandy (cujo sacrifício, a ter ocorrido, de facto encaixa na fantasia de «salvamento recíproco») não refere que a porta do quarto estava «trancada por dentro». Se Victor sabe disso, a organização sabe disso. E se a organização sabe disso, é possível interveniente no processo.

Duas perguntas ficam por responder: «Quais os verdadeiros objectivos» e «qual o destino do casal Harford».

Victor encerra de momento o assunto, com uma duvidosa descontracção e muito vaga ameaça.

Sabes bem que a vida continua. Até que termina. (Coloca-lhe as mãos nos ombros).

Por esta altura, passaram apenas dois dias, mas aparenta ter passado uma vida.

Ao chegar de novo a casa, por agora de perfeita saúde física, Bill mergulha numa penumbra feita de azul (nunca esquecer as cores), que é omnipresente (incluindo o quarto de Helena). Pela primeira vez, o médico desliga a árvore de Natal, dando a entender que escolheu o caminho a seguir (entre vermelho e azul).

Essa segurança/monotonia/tristeza é contudo perturbada de imediato. E como.

Ao entrar no quarto, visão aterradora: Alice dorme (?) sozinha na cama, mas no travesseiro de Bill está a máscara da orgia, supostamente perdida.

Implicações:

 – Bill esqueceu-se da máscara em casa quando recuperou o saco que continha a fantasia, para a devolver a Milich, tendo esta sido encontrada por Alice ou Bill esqueceu-se da máscara na orgia e Alice – porque lá esteve – trouxe-a de volta ou a mulher está inocente e um serviçal entrou no apartamento e colocou-a ali como aviso (final). Embora possível, esta terceira hipótese é débil tendo em conta a ausência de surpresa no rosto de Alice quando Bill a desperta – sugerindo que foi ela quem colocou ali o objecto.

 – Metaforicamente, Alice sugere que chegou a hora de ambos retirarem as máscaras e serem honestos, enquanto insinua de forma subtil e uma vez mais a presença de um fictício/real terceiro elemento na união de ambos.

O exorcismo ocorre – longe da nossa vista, comme il faut – mas os danos são visíveis: o casal Harford mergulhado em luz de madrugada azul, choroso, destroçado.

O que foi dito? Por quem? Desse bolo, quantas fatias obedeceram à verdade? Saberá, cada um deles, a que verdade se refere? Manterão, ainda e apesar de tudo, os olhos bem fechados?

A Helena está a contar ir connosco às compras de Natal.

Falemos, então, uns momentos de Helena.

 

 

 

 

 

 

 

A filha silenciosa, que praticamente só abre a boca para pedir coisas: «posso ficar acordada até tarde (abrir os olhos)?». Não. «Posso ter um cãozinho (cuidar, liderar)?». Não. Por outro lado, «o rapaz A tem X dinheiro e o rapaz B tem Y dinheiro. Qual a diferença entre rapaz A e rapaz B (qual é que vais escolher para teu provedor)?».

Helena é bem vestida, bem penteada e bem-educada. Preparada para ser troféu.

Na manhã de compras, extraordinário final de um extraordinário filme de um extraordinário realizador de cinema, temos cinco minutos recheados de metáforas e simbolismos.

A saber:

 – A loja de brinquedos (menos metáfora natalícia e mais metáfora irónica do consumismo) exibe paredes de um vermelho berrante, mensagem que a camisola de malha de Bill imita e valida;

 – A rodear a família Harford (loja cheia) está uma inusitada quantidade de clientes, vestidos de cores escuras ou mesmo negro, entre homens, mulheres e crianças – remetendo para as capas negras da orgia;

 – Entre esses clientes, estão dois homens idosos (aguardem);

 – Em determinada secção da loja, um funcionário brinca com bolas de sabão, numa plataforma giratória rodeada de crianças – de novo a cerimónia iniciática, de carácter circular.

 – Helena, a divagar e sem merecer grande vigilância dos progenitores, aponta para um carrinho de bebé (recordar os carrinhos à porta de Domino/Sally), símbolo evidente de conservadorismo, segurança, maternidade, família tradicional. Quem viu «A Semente do Diabo» pensará em qualquer coisa. A mãe responde-lhe: «Está fora de moda». Mas o quê, em concreto? O brinquedo em si? Ou o que ele simboliza? A referir-se ao segundo caso, qual o contexto daquela resposta se os próprios Harford (pelo menos até ao momento) representam essa ideia de família tradicional?

 – Prosseguem, numa secção recheada de ursos de peluche (tal como a referência anterior ao arco-íris, sugiro mais profunda investigação à simbologia do urso de peluche). Ao pedir um (enorme) como prenda de Natal, Alice imita – pela primeira vez – o normal comportamento de Bill (doce rejeição) o que de certa forma insinua que é agora ela a cabeça de casal. O marido caminha um passo atrás, de cabeça baixa.

(Outros detalhes são a cor do casaco de Alice – semelhante ao do serviçal que perseguiu Bill – e de novo a ópera «Fidelio». Ao ser agora dominante, Alice é Leonore, que se «mascarou» para salvar o marido da prisão/morte).

 – No final dessa secção, Helena ergue a caixa de uma Barbie (mulher-objecto, futilidade). Alice sorri, de forma enigmática.

 – Também pela primeira vez, Alice usa os óculos fora de casa, prova física do pensamento que depois partilha no diálogo entre ambos (estamos de olhos bem abertos).

 – Tratada mais como um empecilho do que outra coisa, Helena atravessa-se entre os dois (elemento perturbador da união) e por fim segue em frente, lançando um derradeiro (e de certa forma triste) olhar «de despedida». Na sua frente estão os dois homens idosos que vimos em momento anterior na loja e também numa discreta mesa na festa de Victor Ziegler.

O que significa isso? Mera coincidência? Algo mais?

De qualquer modo, o casal Harford parece agora liberto de outra preocupação que não o diálogo que pretendem ter – decorrem três longos minutos sem que qualquer um deles se preocupe com o paradeiro ou estado da filha (a não ser que saibam de antemão o que lhe sucedeu).

Que diálogo final é esse?

Acho que devemos estar gratos por termos sobrevivido às nossas indiscrições, quer estas tenham sido reais ou apenas sonhos. (Alice)

E sabendo que nenhum sonho é apenas um sonho. (Bill)

O lado positivo é que estamos despertos, agora. E de preferência, assim iremos ficar durante muito tempo. (Alice)

Para sempre.

Hum…

Para sempre.

Não gosto dessa palavra. Assusta-me. Mas…quero que saibas que te amo. E que há uma coisa que temos de fazer rapidamente.

O quê?

Foder.

Significado? Múltiplos. Cada um retire os seus. Eu começaria por notar que Alice não diz «fazer amor». Isso deverá querer dizer qualquer coisa.

Tal como quererá dizer qualquer coisa – de fantástico – que a última palavra pronunciada no último filme da carreira de Stanley Kubrick seja a que é – à qual se segue um visor negro.

Tal como, em momentos diversos deste filme, se descubram variadas referências a outras obras do realizador:

 – Leelee («Lolita»);

 – Mansão Elitista («The Shining»);

 – Olhar especialmente perturbador que Alice oferece a Bill, enquanto ajuda a filha com os deveres escolares («Laranja Mecânica» ou «Nascido para Matar»).

Tal como, no cartaz do filme, temos um Bill de olhos fechados e uma Alice de olhos abertos. Isso quer, de facto, dizer qualquer coisa.

Em conclusão e relembrando as duas perguntas sem resposta:

 – Quais os verdadeiros objectivos da festa?

Depende do destino que atribuirmos a Helena.

 – Qual o destino do casal Harford?

Eu diria vermelho. Será contudo difícil ter certezas.


Afinal, é provável que continuemos todos De Olhos Bem Fechados.

 

 

 

 

 

 

 

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