Laranja Mecânica


 

Prefácio

A Arte tem diferentes formas de se insinuar nas nossas vidas. Falemos de Livros, Música ou neste caso, de Cinema. Pode ser abrupta, um estalo, uma exclamação, ou pode ser sussurrante, demorada e subtil.

Laranja Mecânica encaixa no segundo exemplo. Isto porque comecei a tomar conhecimento da sua existência pelo menos uma década antes de descobrir do que se tratava.

A primeira vez que me foi sugerida, apareceu em contraponto com o filme que na altura dominava as conversas: Trainspotting.

«Prefiro o Laranja Mecânica», comentou alguém. Recordo-me do desinteresse temporário com que acolhi esta opinião, mas a primeira semente ficou plantada.

Algum tempo depois, descobri que o dito filme de Kubrick era baseado no livro homónimo de Anthony Burgess e trazia consigo alguma polémica pelo facto de existirem finais dissonantes – Burgess optara por uma conclusão redentora; Kubrick, tendo lido a edição americana do romance à qual foi retirada o derradeiro capítulo, mantinha a visão «pessimista». Este tipo de polémica voltará a repetir-se com a adaptação de The Shining.

Por fim, anos passados, deparei-me por acaso com uma t-shirt alusiva ao filme, negra e laranja. Nela, a famosa imagem estilizada de um chapéu de coco e um olho mecânico. Comprei-a instintivamente, conformando-me com o comentário sardónico de quem me acompanhava: «Vais usar uma coisa alusiva a um filme que nunca viste…».

Reconhecendo a patetice, dediquei-me de uma vez por todas ao polémico e brilhante trabalho de Stanley Kubrick, acabado de sair do inigualável 2001.

Não só não me arrependi, como continuei a extravasar a minha admiração pela personagem de Alex DeLarge. Para que conste, ao longo da vida só me mascarei três vezes na Noite das Bruxas e numa delas escolhi encarnar o sociopata mais famoso do Cinema. Calculo que não seja por acaso.


O Filme

Já que falamos em ausência de acasos, existirão poucas dúvidas acerca da capacidade de Stanley Kubrick para criar imagens icónicas – não só durante as películas, mas sobretudo na abertura de cada uma delas. Para os que duvidam, deliciem-se com o olhar que Alex oferece à câmara, à medida que Kubrick afasta o plano para nos apresentar o seu protagonista na companhia do trio de «droogs», comodamente instalados no Clube Korova.


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Se não sabem o que é um «droog» e ficam confusos quando ouvem falar em «milk-plus», é sinal que nunca aprenderam Nadsat, a língua fictícia nascida a partir de uma mescla entre Russo, Inglês e calão britânico. Por vezes rima, por vezes não.

Segundo consta, em 1972, Burgess considerou que um Reino Unido futurista e distópico comunicaria através desta nova linguagem. Pensem em Admirável Mundo Novo, utopia punk e bairros sociais do Bloco de Leste.

Neste tipo de cenário, grassam conceitos como «ultraviolência» e eufemismos como «in-out». Expliquemos: Alex e companhia são o protótipo da delinquência juvenil passível de ser encontrada em todas as gerações, seja numa distopia futurista ou no vosso bairro mais próximo. Desprezam o Sistema, o Governo, as elites e a hipocrisia generalizada. Odeiam o antigo, o passado, a moral bafienta e inútil com a mesma energia com que rejeitam o presente escravizante ou o futuro inexistente. Nas veias corre-lhes uma mistura de «milk-plus» com anarquia e – porque não – sadismo.

Tudo isto está espelhado na primeira secção do filme, narrado pela carismática e estranhamente sedutora voz de Alex. Numa noite deveras activa, DeLarge e a sua trupe percorrem as ruas sombrias da cidade em busca de «motivos», que encontram na figura de um velho vagabundo e alcoólico. Espancam-no, enquanto este anuncia «odiar o putrefacto mundo moderno, devido à ausência de moral e ordem».

Pouco depois, trespassam propriedade pública abandonada (um velho teatro) e no seu interior encontram um grupo rival liderado por um tal de BillBoy. Os seus elementos preparam-se (ou estão já nos momentos iniciais) para violar uma jovem mulher ou «executar o velho in-out» se quisermos falar Nadsat. Alex não tem nada contra o acto em si, mas tem seguramente muita coisa contra os rivais, pelo que se iniciam as provocações e hostilidades – entre outras coisas, surgem diversos pontapés nos «yarbles».

Com o sangue a ferver, roubam um carro descapotável e conduzem sem freio por uma estrada de campo, provocando o caos e o pânico durante o percurso. A vida é feita de vertigem permanente.

O caminho escuro leva-os até uma propriedade privada, ironicamente baptizada de «Home». É lá que reside um escritor subversivo de esquerda – alter-ego do próprio Burgess – na companhia da mulher, F. Alexander de seu nome. Alex executa um elementar subterfúgio para invadir a casa, «o meu amigo está a sangrar, ajude-nos, é uma emergência» e uma vez lá dentro, não há súplicas que detenham a «ultraviolência» e uma sádica sessão de «in-out». Em consequência, o escritor é deixado inválido e a mulher, depois de um longo período depressivo, suicida-se (ou morre de pneumonia, segundo os médicos). Sempre adepto da boa música, Alex, um fanático apreciador de Beethoven – carinhosamente apelidado de «Ludwig van» – cantarola «Singing in the Rain» enquanto destrói a vida de F. Alexander.

Segundo parece, tudo se pode colocar em perspectiva: tratam-se de actos hediondos ou de delinquências comuns? É normal escolhermos a primeira opção quando inseridos no nosso conjunto de valores morais, mas não é impossível escolhermos a segunda se nascidos nessa distopia futurista onde Alex se move. Para nós é crime, para ele é rebeldia, revolução, amoralidade.

Apesar de tudo, são actos que dão direito a ter um funcionário do Departamento de Reinserção Social à perna. Afinal, Alex é menor de idade e ainda não pode ser preso pelos seus crimes. Este visita-o, numa manhã em que o delinquente «lhe doía a gulliver» e faltou às aulas. Os pais – notem Philip Stone que pouco depois fará parte do elenco de Shinning – obedecem ao estereótipo do progenitor desinteressado, ausente e desfasado da realidade. Por conseguinte, Alex está sozinho com o funcionário do Estado e este avisa-o, por entre desprezo e raiva contidas, que aquele comportamento não se pode repetir. Durante a reprimenda, aparenta assediá-lo. Num filme de Kubrick é desavisado ignorar detalhes.

Com o tempo livre que a ausência das aulas lhe concede, DeLarge passeia-se pelo centro e entra num mercado interior, por entre lojas de discos, roupa e outras. Nesse deambular encontra duas jovens atraentes e nada púdicas que treinam beijos em gelados. Trá-las para o quarto e dão largas ao «in-out» por entre música clássica.


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Depois disto, as coisas tendem a complicar-se.

Para começar, os «droogs» estão descontentes com a «pouca ambição» do seu líder, que se limita a executar pequenos furtos, pequenas violações, pequenas demonstrações de poder. Dim e Georgie querem mais. Querem ser mestres do crime.

Alex julga colocá-los no sítio com uma sessão de intimidação, bengaladas, pontapés nos «yarbles» e a ocasional navalhada. Engana-se. Ao aceitar a sugestão dos outros para que se desloquem a outra casa de campo isolada, habitada por uma mulher solteira e rica, acende o rastilho para a perdição.

Depois de repetir o mesmo processo que lhes «concedeu» entrada na propriedade de F. Alexander, Alex intimida a mulher com os habituais truques sociopatas. Não pondera, no entanto, dois detalhes: um, a brincadeira vai longe demais e o delinquente transforma-se involuntariamente (talvez) num assassino. Dois, os amigos não o seguiram e quando as sirenes da Polícia soam, Dim – o mais revoltado com o líder – agride DeLarge, de modo a deixá-lo para trás e condená-lo à prisão.

Quando se trata de um contra três e esses três são agentes da polícia numa sala de interrogatório, a «ultraviolência» pode perder algum do seu charme. Quando o funcionário de reinserção social se regozija com o sucedido, podemos começar a interrogar-nos sobre o verdadeiro papel do Estado em tudo isto. Para os que duvidam, o cuspo que escorre pelo rosto de Alex esclarece.

A partir daqui, são 14 os anos que intervalam entre o presente e o futuro cinzentos.

A cronologia altera-se passados apenas dois, quando o Governo muda e o cargo de ministro da Justiça é ocupado por um ultraliberal de direita. Como sabemos, a preocupação securitária é a menina dos olhos dos regimes proto-totalitários e rapidamente as prisões esgotam o espaço disponível. A solução inovadora é uma estranha terapia de choque, ou de «aversão», que passa por um conjunto de sessões psico – comportamentais nas quais o «paciente» é sujeito a contínuas visualizações de imagens violentas, sexuais e/ou ambas, às quais é associado um estímulo doloroso ou nauseante – recordem Admirável Mundo Novo mais uma vez. O objectivo é castrar o criminoso do desejo sexual e violento, procedendo-se em seguida à sua libertação no curto espaço de duas semanas.

Nestes dois anos, Alex transformou-se num «bom menino». Alex já não é DeLarge, é apenas o prisioneiro 655321. A despersonalização socorre-se de guardas sanguinários, rotinas robotizadas e claro, Religião.

Alex, por esta altura, não quer «escolher» ser Bom, não quer «entender» os motivos que levam alguém a ser Bom, quer apenas «sê-lo». Encara as coisas como um animal enjaulado: O objectivo é ser libertado. Para ser libertado há que ser «bom». E para Alex ser «bom» – como quem diz «adequado ao Sistema», terá de ser refeito, remodelado, reconstruído. Não poderá nunca «perceber, aprender a», terão de ligar-lhe os circuitos correctos. Ninguém percebe mais de «condicionamento psicológico» do que o Governo.

O Ministro visita a prisão e nela, a cela do prisioneiro. Mulheres e Beethoven.

Dirá sobre DeLarge:

É empreendedor, agressivo, jovem, corajoso e cruel. Serve perfeitamente.


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Como em tudo, estamos sujeitos a efeitos colaterais: Alex é desprovido do desejo sexual e violento, mas de caminho – à conta de um filme de guerra que traz consigo uma banda sonora de Beethoven – é também desprovido do seu gosto pela música clássica. E é isso o que mais lhe custa, entre a tortura.

Chega então o momento de exibir o ratinho de laboratório. E os circuitos foram ligados «correctamente». Se este for insultado, agredido e humilhado no mundo exterior, não irá responder, qualquer que seja o tamanho da provocação. Da mesma forma que perante a mais bela, carnal e tentadora das mulheres, tudo o que conseguirá fazer será ficar indisposto. O ridículo do quadro apresenta-se sem necessidade de qualquer argumentação, evidência que os actores contratados pelo Governo fazem questão de involuntariamente demonstrar, agradecendo com vénias exageradas os exagerados aplausos. A cobaia é «inofensiva» da mesma forma que alguém num colete-de-forças (físico ou psicológico) o é. Sobre os que agridem e provocam a cobaia (Estado e Sociedade Civil) nem uma palavra. É (curioso) o representante religioso que se atreve: «E o livre-arbítrio?» Minudências. O que importa, diz o ministro, é que funciona.

Vejamos então de que forma é que as coisas «funcionam» para Alex, no momento em que é libertado:

 – Chegado a casa, conclui que os pais o consideram «morto», tendo vendido os seus bens materiais e alugado o antigo quarto a alguém que cumpre o papel de «filho adoptivo»;

 – Deprimido, com pensamentos suicidas, depara-se com o mesmo vagabundo idoso antes espancado, que aproveita a sua incapacidade de se defender para responder à letra (uma rara vingança do velho mundo sobre o novo);

 – Poupado a males maiores com a chegada de um par de polícias, vê o momentâneo alívio de imediato substituído por nova dose de pânico, ao concluir – estranhas coincidências – que os agentes da autoridade são nada menos do que Dim e Georgie, dois dos antigos «droogs». Tal despoleta reforçada onda de violência, desta vez estatal, à qual obviamente não se consegue opor, sendo deixado moribundo numa estrada rural;

 – Perdido, fustigado pela dor, frio e escuridão nocturna, desemboca numa casa de campo, que concluímos (antes de Alex) ser a residência de F. Alexander, o escritor subversivo em tempos atacado pelo grupo delinquente. Ao contrário do esperado, nenhum dos dois reconhece imediatamente o outro. Alexander, agora viúvo, é auxiliado por um robusto funcionário residente e apenas vê no debilitado visitante o símbolo das políticas totalitárias do regime de direita que é preciso combater. Oferece-lhe auxílio na forma de um banho quente e de uma refeição, apressando-se a telefonar aos amigos do Partido. O que muda o jogo, como sempre, são os detalhes. Alex, no seu banho relaxante, decide – nada menos do que isso – cantarolar «Singing in the Rain», a mesma música que decorou o violento ataque no passado. Esse é o botão que acende a memória de Alexander. Enquanto DeLarge saboreia a refeição, desconfia por momentos que foi reconhecido, mas a suave persuasão de Alexander e dos recém-chegados amigos parecem voltar a tranquilizá-lo, até ao ponto de consumir no vinho os tranquilizantes que o devolvem à condição de cobaia. A derradeira tortura passa por aprisionar o antigo agressor num quarto ao som do seu adorado Ludwig van, na esperança que essa paixão seja mortal. Alex bem o tenta, mas o melhor que consegue é um conjunto de fracturas (depois de saltar de uma janela) que o enviam para o hospital mais próximo.

Há que admitir que estamos longe do protótipo de «cidadão curado». É isso que pensa a imprensa e por conseguinte a generalidade do país, perante as imagens do suicidário Alex enfaixado numa cama. Evidentemente, o «mal» é transversal, seja em forma de violência ou de tentação sexual – irónico o facto do paciente sair da inconsciência no exacto momento em que um médico e uma enfermeira praticam sexo no cubículo próximo.

Os testes psicológicos que se seguem demonstram – sem que uma razão científica concreta se apresente – que o acidente eliminou os efeitos da terapia condicionante. Ou seja, Alex voltou a ser Alex. De imediato regressa o Ministro, disposto a reconverter a narrativa a seu favor. Afinal, o Governo «só quis ajudar», o Governo irá providenciar «um bom emprego e um bom salário» e sobretudo, que fique claro que o Governo «eliminou o escritor subversivo responsável pelo infortúnio de Alex». Tudo perfeito, portanto, no reino da Dinamarca.

Um Reino da Dinamarca onde podemos escutar Beethoven sem efeitos secundários e deleitarmo-nos com futuros actos sexuais, desde que votemos no partido certo.

Celebremos a cura.

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