Viveu entre 1898 e 1936. Poeta, dramaturgo e director de Teatro. García Lorca atingiu fama internacional enquanto membro emblemático da Geração de 27, um grupo literário composto sobretudo de poetas, que introduziram as bases de vários movimentos literários europeus (Simbolismo, Futurismo e Surrealismo, entre outros) na Literatura Espanhola.
Começou por atingir notoriedade com a obra «Romanceiro Cigano», publicada em 1928 – um livro de poemas baseado no estilo de vida na região da Andaluzia, de onde era natural. A sua poesia mesclava elementos tradicionais com um estilo avant-garde. Após um período em Nova Iorque entre 1929 e 1930 – retratado na obra póstuma «Poeta em Nova Iorque» (1942) – regressou a Espanha e dedicou-se a escrever algumas das suas melhores peças de teatro: «Bodas de Sangue» (1932), «Yerma» (1934) e A Casa de Bernarda Alba (1936).
O autor era homossexual e caiu numa depressão após terminar um relacionamento com o escultor Emilio Aladrén Perojo. Manteve também relação próxima durante algum tempo com o pintor Salvador Dalí, que declarou ter rejeitado as abordagens sexuais de Lorca.
O autor foi assassinado por elementos nacionalistas, logo no início da Guerra Civil Espanhola. Os restos mortais nunca foram encontrados e o motivo do crime também não é claro. Se alguns argumentam que poderão ter existido motivações de teor sexual e/ou político, outros alegam que as causas terão sido pessoais.
Federico del Sagrado Corazón de Jesús García Lorca nasceu a 05 de Junho de 1898, na pequena localidade de Fuente Vaqueros, situada a 17kms de Granada, no sul de Espanha. O pai, Federico García Rodríguez, era um abastado proprietário de terras, dono de uma quinta no vale de Granada e uma vivenda no centro, tendo acumulado fortuna com o negócio da cana-de-açúcar. A mãe, Vicenta Lorca Romero, era professora. Em 1905, a família mudou-se de Fuente Vaqueros para uma cidade próxima, chamada Valderrubio (à época Asquerosa). Em 1909, quando Federico já contava 11 anos, voltaram a mudar, desta vez para Granada, onde era possível adquirir formação secundária. Aí, a residência que se tornou mais famosa foi uma propriedade utilizada sobretudo no Verão, conhecida como Huerta de San Vicente, situada naquilo que era então a periferia de Granada. O autor enalteceu, ao longo de toda a vida, a importância de viver perto da Natureza, elogiando as origens rurais. Todas estas residências – Fuente Vaqueros, Valderrubio e Huerta de San Vicente – foram depois transformadas em museus.
Em 1915, concluiu os estudos secundários e ingressou na Universidade de Granada. Estudou sobretudo Direito, Literatura e Música. Ao longo da adolescência, revelou maior vocação para Música do que para a Literatura, já que tinha sido iniciado lições de piano aos 11 anos, que manteve durante seis, no Conservatório local. Um dos professores chegou a motivá-lo para uma carreira na Música e Federico foi buscar inspiração a compositores como Claude Debussy, Frédéric Chopin e Ludwig van Beethoven. Fez mais tarde amizade com o pianista espanhol Manuel de Falla, que o direccionou para o folclore nacional. O autor só redireccionou o foco para a Literatura com a morte do professor favorito no Conservatório, em 1916. Os títulos dos primeiros textos em prosa – «Nocturno», «Balada e «Sonata» revelam óbvia influência musical. Dava-se com os jovens intelectuais da cidade, reunindo-se num café local. Ao longo de 1916 e 1917, Lorca viajou pelas regiões de Castela, Leão e Galiza, na companhia de um professor da Universidade, que o encorajou a escrever o primeiro livro, «Impresiones y paisajes», publicado através de uma edição de autor financiada pelo pai, em 1918. Esse mesmo professor, Fernando de los Rios, convenceu então os pais de Lorca a autorizarem a mudança deste para uma instituição cultural conhecida como Residência de Estudantes, em Madrid, onde também frequentaria aulas na Universidade, em 1919.
É na Residência que forma amizade com estudantes como Luis Buñuel e Salvador Dalí, entre muitos outros jovens artistas e criativos que já eram ou viriam a tornar-se personalidades influentes no meio cultural espanhol. Tornou-se um protegido do poeta Juan Ramón Jiménez e ficou próximo do dramaturgo Eduardo Marquina e de Gregorio Martínez Sierra, o director do Teatro Eslava, em Madrid.
Em 1919/20, a convite de Sierra, Lorca escreveu e encenou a primeira peça. Escrita em verso, elaborava sobre o amor impossível entre uma barata e uma borboleta, suportado por um conjunto de personagens secundárias que também era insectos. A peça foi ridicularizada por um público desconhecedor e retirada de cena após meras quatro actuações, resultado que influenciaria para sempre a opinião do autor acerca dos frequentadores de Teatro. A partir daí, alegaria que «Mariana Pineda», escrita em 1927, era de facto a sua primeira peça. Continuou os estudos em Direito e Filosofia, embora estivesse mais interessado em escrever do que em estudar.
O primeiro livro de poemas, «Libro de poemas», foi publicado em 1921, reunindo textos escritos a partir de 1918 e seleccionados com o auxílio do irmão Francisco (conhecido como Paquito). Abordam temas como a Religião, Isolamento e Natureza, já presentes nas reflexões em prosa. Nos inícios de 1922, ainda em Granada, Lorca uniu-se ao já mencionado Manuel de Falla para promover o Concurso de Cante Jondo, um festival artístico dedicado à dança e canto flamenco. No ano anterior, Federico já começara a escrever um poema relacionado, «Poema del cante jondo» (publicado apenas em 1931), pelo que não teve grande dificuldade em preparar um ensaio sobre a arte flamenca ou em divulgar publicamente o festival. No evento, realizado em Junho, trava conhecimento com um famoso artista flamenco, Manuel Torre. No ano seguinte, volta a colaborar com Falla e outros numa produção teatral e musical destinada a crianças, «La niña que riega la albahaca y el príncipe preguntón», adaptada pelo autor a partir de uma história tradicional andaluz.
Nos anos seguintes, deixa-se influenciar cada vez mais pelo movimento avant-garde espanhol. Publica uma colectânea de poesia intitulada «Canciones», embora esta não contivesse qualquer canção, no sentido clássico do termo. Pouco depois, recebe um convite para expor um conjunto de desenhos nas Galerias Dalmau, em Barcelona, entre Junho e Julho de 1927. As gravuras revelavam uma mistura de influências clássicas e avant-garde, complementares da obra poética. Desenho e Poesia aludiam também a temas andaluzes, cubistas e uma certa preocupação com a identidade sexual. Algumas imagens consistiam em rostos (ou sombras) oníricos sobrepostos. Explicará mais tarde que via os rostos duais como auto-retratos, símbolos da «capacidade humana para o lamento e para a celebração» em linha com a teoria pessoal de que tristeza e alegria eram tão inseparáveis como vida e morte.
«Romanceiro Cigano» transforma-se depois no seu mais famoso livro de poesia. Trata-se de uma imitação bastante estilizada das baladas e poemas clássicos ainda em voga nas províncias rurais espanholas. Lorca descreve a obra enquanto «altar esculpido» de uma Andaluzia recheada de «ciganos, cavalos, arcanjos, planetas, aragens romanas e judias, rios, crimes, o toque diário do contrabandista e a nota celestial das crianças desnudadas de Córdoba. Um livro que se refere apenas vagamente à Andaluzia visível, mas onde fervilha a Andaluzia oculta».” Em 1928, a obra valeu-lhe reconhecimento nacional e em todo o mundo hispânico, tendo a reputação como dramaturgo surgido muito mais tarde. Até ao fim da vida, o autor manteria a sua busca pelos elementos característicos da cultura andaluz, procurando chegar à essência sem recorrer ao «pitoresco» ou à vulgarmente denominada «cor local».
A segunda peça, «Mariana Pineda» com cenografia de Salvador Dalí, estreou com grande sucesso em Barcelona, em 1927. No ano anterior, In 1926, Lorca já tinha escrito «A Sapateira Prodigiosa», mas esta só foi levada à cena no início dos anos 30. Esta era uma farsa com traços de fantasia acerca da relação entre uma mulher petulante e namoradeira e um sapateiro sem personalidade.
Entre 1925 e 1928, desenvolveu uma relação intensa com Dalí. Embora a amizade deste com Lorca fosse mútua, o pintor afirma ter sempre recusado o interesse erótico do poeta. Após o sucesso de «Romanceiro Cigano», afastaram-se e Lorca terminou um caso amoroso que mantinha com o escultor Emilio Aladrén Perojo. Estes acontecimentos provocaram-lhe uma depressão crescente, situação exacerbada pela eterna dificuldade em lidar com a homossexualidade. Afirmava estar preso entre a imagem pública do autor de sucesso, que era obrigado a manter em público, e a sua verdadeira personalidade torturada, que guardava apenas para momentos privados. Desconfiava ainda que estava a ser enclausurado no rótulo de «poeta cigano», tendo escrito a propósito:
Os ciganos são uma temática. Nada mais que isso. Podia muito bem ser o poeta de agulhas de costura ou de paisagens hidráulicas. Além disso, esse rótulo empresta-me a imagem de um poeta ignorante, primitivo e provinciano, coisa que claramente não sou. Não pretendo ser posto numa caixa.
O afastamento crescente entre Lorca e os amigos mais chegados atingiu um ponto de ruptura quando os surrealistas Dalí e Luis Buñuel se uniram para criar o filme de 1929 «Um Cão Andaluz». Lorca encarou isto, talvez erradamente, como um violento ataque pessoal. É também por esta altura que Dalí conhece a futura mulher, Gala. Consciente destes problemas (embora talvez não das respectivas causas), a família do autor tratou de enviá-lo numa longa viagem aos EUA, entre 1929/30.
Em Junho de 1929, este deslocou-se aos Estados Unidos na companhia de Fernando de los Rios, a bordo do Olympic, um navio transatlântico semelhante ao Titanic. Permaneceram sobretudo na cidade de Nova Iorque, onde Rios deu início a um ciclo de conferências e Lorca se inscreveu na Columbia University School of General Studies, financiado pelos progenitores. Estudou Inglês mas, tal como no passado, dedicou-se com maior entusiasmo à escrita do que aos trabalhos académicos. Passou ainda algum tempo em Vermont e depois em Havana, Cuba.
A colectânea «Poeta en Nueva York», publicada a título póstumo em 1940, explora os temas da alienação e isolamento através de um conjunto de ousadas e experimentais técnicas poéticas, tendo o autor sido influenciado pela Crise de 29 na Bolsa, que testemunhou in loco.
Esta condenação da sociedade urbana capitalista e do materialismo moderno revelou-se uma ruptura abrupta com as obras anteriores, onde era associado ao folclore. A peça escrita nesta altura, «O Público», foi publicada somente no final dos anos 70 e sempre numa versão incompleta, uma vez que o manuscrito original se terá perdido.
O regresso do autor a Espanha em 1930 coincide com a queda da ditadura de Primo de Rivera e a implementação da Segunda República. No ano seguinte, Lorca é nomeado director de uma companhia de teatro estudantil – Teatro Universitario La Barraca. Recebeu financiamento do Ministério da Educação e a missão de percorrer a província rural espanhola, de modo a dar a conhecer a esse público os clássicos do teatro espanhol, de forma gratuita. Munidos de um palco amovível e equipamentos essenciais, procuraram oferecer teatro a um público que nunca tinha tido acesso a ele, com Lorca no duplo papel de director e actor. Sobre isso, declarou:
Fora de Madrid, o teatro – que na sua verdadeira essência é parte integrante da vida das pessoas, está praticamente morto e o povo sofre as consequências disso, da mesma forma que sofreriam caso perdessem dois olhos ou duas orelhas ou o paladar. É isso que nós iremos devolver-lhes.
O que absorveu nestas viagens através da empobrecida Espanha rural ou em Nova Iorque (onde privou com a população afro-americana), transformaram-no num defensor convicto do teatro de intervenção. Escreve, a propósito, que: «o teatro é uma escola de lágrimas e de riso, uma Assembleia livre onde os homens podem questionar as normas que se revelam ultrapassadas ou incorrectas e explanar com exemplos concretos as regras eternas do coração humano».
É em digressão com La Barraca, que Lorca escreve as peças mais famosas, a «Trilogia Rural» que engloba «Bodas de Sangue», «Yerma» e A Casa de Bernarda Alba, todas elas exemplos de rebelião contra as normas da sociedade burguesa espanhola. Defende uma redescoberta das raízes do teatro europeu e o questionamento das convenções confortáveis presentes nas comédias da época. As suas peças colocam em causa o papel tradicionalmente atribuído às mulheres na sociedade e exploram os temas proibidos da homossexualidade e questões de classe. O autor abandonou praticamente a poesia na última fase da vida, declarando em 1936 que «o teatro é poesia que salta da página e adquire uma humanidade que fala e grita, chora e desespera».
Desloca-se a Buenos Aires em 1933, para dar conferências e dirigir a estreia de «Bodas de Sangue» em território argentino. Partilha as suas ideias acerca da criação artística e representação numa famosa palestra intitulada «Jogo e Teoria do Duende», onde procura definir um padrão de inspiração artística, defendendo que a grande arte provém de uma noção clara da morte, de uma ligação às origens e ao reconhecimento dos limites da razão.
Lorca procurou regressar às raízes do teatro e também às tradicionais formas de poesia. A sua última obra poética, «Sonetos de amor oscuro» de 1936, teria sido inspirada por uma paixão que desenvolveu por Rafael Rodríguez Rapún, um jovem actor e secretário da companhia de teatro, mas documentos e outros objectos descobertos em 2012 sugerem afinal que a verdadeira inspiração terá sido Juan Ramírez de Lucas, um rapaz de 19 anos com quem Lorca sonhava imigrar para o México.
Os sonetos de amor beberam inspiração no trabalho de um poeta do século XVI, San Juan de la Cruz. Os fundos de La Barraca foram reduzidos para metade por iniciativa do governo de Direita eleito em 1934, tendo a última actuação ocorrido em Abril de 1936.
Lorca passou os Verões numa propriedade conhecida como Huerta de San Vicente, entre 1926 e 1936. Foi aqui que escreveu, em parte ou na totalidade, algumas das obras mais importantes. Foi também aqui que passou os últimos dias antes da sua prisão e assassinato, em Agosto de 1936.
As tensões políticas e sociais estavam exacerbadas após o assassinato, em Julho desse ano, de um reputado monárquico e opositor da Frente Popular –José Calvo Sotelo, às mãos de republicanos. Lorca estava ciente que iria ser transformado num dos principais alvos da Direita, que estava em crescimento, devido às suas conhecidas posições socialistas. Granada estava mergulhada em tumulto, ao ponto de não ter um presidente de câmara há meses, já que ninguém se atrevia a aceitar o cargo. Quando o cunhado do autor, Manuel Fernández-Montesinos, concordou em assumir a função, foi assassinado no espaço de uma semana. Nesse mesmo dia, 19 de Agosto de 1936, Lorca foi preso.
De acordo com a maioria dos relatos, o autor foi executado por milícias nacionalistas no dia da sua prisão. Defende-se que terá sido fuzilado juntamente com três outros elementos (Joaquín Arcollas Cabezas, Francisco Galadí Melgar e Dióscoro Galindo González) num local conhecido como Fuente Grande, situado na estrada entre as localidades de Víznar e Alfacar. Os relatórios da polícia revelados pela estação de rádio Cadena SER em Abril de 2015 concluem que Lorca foi morto por elementos fascistas. O relatório do tempo do ditador Franco, datado de 9 de Julho de 1965, considera o autor um elemento «socialista» e «maçon» que se dedicava a «práticas repulsivas de cariz homossexual».
Os motivos e detalhes acerca do assassinato de Lorca são bastante controversos, no entanto, uma vez que foram também apresentadas razões pessoais para o sucedido, sem ligação directa à política. O biógrafo do autor, afirma que os criminosos fizeram observações acerca da sexualidade da vítima, sugerindo ter sido esse o verdadeiro motivo da morte. Outros argumentam que o assassinato estava incluído numa campanha generalizada, cujo objectivo era eliminar os apoiantes da Frente Popular de Esquerda e que a rivalidade entre duas facções de Direita – CEDA e Falange acabou por ter papel crucial. Isto porque, à data da prisão de Lorca, este estava escondido na casa de Luis Rosales, que tinha dois irmãos nos quadros da Falange, em posições cimeiras. Ramón Ruiz Alonso, antigo deputado parlamentar da CEDA, aprisionou Lorca na casa de Rosales e foi o responsável pela denúncia que levou à emissão do mandato de captura.
Existe igualmente a teoria de que o autor seria apolítico e que teria inclusive muitos amigos nos campos Republicano e Nacionalista, mas esta é disputada, por exemplo, por aqueles que recordam o apoio assinado de Lorca ao jornal comunista «Mundo Obrero» e o conhecido auxílio que este prestava à Frente Popular.
Muitos cidadãos que não se identificavam com a luta comunista eram contudo admiradores de Lorca e ter-lhe-ão mesmo prestado auxílio – nomeadamente o já citado Luis Rosales, que esteve muito próximo de ser ele próprio fuzilado pelo facto de ter abrigado o escritor em casa. Relatos não confirmados alegam que o mesmo terá sido visto a jantar com membros dos falangistas, incluindo o seu fundador e líder, José Antonio Primo de Rivera. Em Março de 1937, surgiu um artigo na imprensa falangista a denunciar a morte do autor e a elogiá-lo: «O melhor poeta da Espanha Imperial foi assassinado».
O local onde terão sido depositados os restos mortais permanece desconhecido, embora o testemunho mais credível, fornecido 30 anos depois por um homem que alega ter ajudado a escavar a sepultura do autor, aponte para um local junto a uma sinuosa estrada de montanha que liga as aldeias de Víznar e Alfacar.
Enredo
Bernarda Alba, personagem central do texto, é uma matriarca dominadora que mantém as cinco filhas, Angústias, Madalena, Martírio, Amélia e Adela sob uma vigilância implacável. Transforma a casa onde vivem, situada numa pequena aldeia de Espanha, num caldeirão de tensões prestes a explodir a qualquer momento.
Com a morte do segundo marido, Bernarda decreta um luto de oito anos, submetendo as filhas à reclusão dentro das frias paredes de uma casa com as janelas sempre fechadas. Duas delas, porém, apaixonadas pelo mesmo galanteador das redondezas – um rapaz de vinte e cinco anos chamado Pepe Romano – desencadeiam uma disputa cruel e perigosa pelo amor do mesmo homem, com resultados trágicos.
A construção central do drama de Lorca – a casa na qual uma família de mulheres solitárias é controlada por uma mãe tirânica – terá sido inspirada por uma família da pequena cidade de Valderrubio, onde os pais do poeta, que ali tinham uma propriedade rural, conheceram uma tal de Frasquita Alba, mãe de quatro filhas que comandava com mão de ferro e um homem de nome Pepe de la Romilla, que se teria casado com a filha mais velha de Frasquita à conta do respectivo dote e, posteriormente, envolvido com a mais jovem das irmãs.
A partir dessa história real, Lorca aprimorou a ideia de uma «casa sem homens» que se transforma depois no pilar temático da peça: o lugar da mulher na sociedade espanhola de então.
Estrutura e trama
O drama divide-se em três actos, todos situados no interior da casa de Bernarda Alba, mãe de cinco filhas – Angústias, Madalena, Amélia, Martírio e Adela. Vivem todas (com a mãe de Bernarda, já senil) numa aldeia do interior de Espanha.
Primeiro acto
O primeiro acto inicia-se com um diálogo entre La Poncia, serva mais antiga da casa, e outra mulher conhecida apenas como «Criada». Conversam enquanto arrumam a sala de visitas para a chegada dos que acompanharam o cortejo fúnebre do segundo marido de Bernarda Alba. Esse diálogo «apresenta» a personagem-título – descrita como uma tirana generalizada e controladora das cinco filhas – as restantes personagens e estabelece o ambiente da trama. Sabe-se ainda que Angústias, a filha mais velha, é fruto do primeiro casamento de Bernarda Alba e a única titular de um dote deixado pelo pai. As irmãs, pelo contrário, nada herdaram do pai recém-falecido.
Entram em cena as mulheres vindas do enterro de António Maria Benavides e Bernarda dá ordens às criadas para que sirvam os homens, que ficaram a conversar no exterior da casa. É também ela quem conduz as orações pelo morto e, depois da saída das convidadas, maldiz o falatório que, segundo ela, será iniciado pelas pessoas da aldeia assim que se encontrem a distância segura.
Anuncia entretanto que as mulheres da casa terão de cumprir um luto de oito anos, durante o qual permanecerão trancadas em casa, sem contacto com o mundo exterior. Ouvem-se gritos. A Criada surge e revela a Bernarda os desvarios de Maria Josefa, avó das raparigas. A patroa ordena à serviçal que leve a mãe (senil) para um local específico do pátio, de modo a que esta não seja ouvida ou sequer vista pelos vizinhos. Notando a ausência de Angústias, descobre que a filha esteve a conversar com um homem no portão de casa e esbofeteia-a.
Bernarda proíbe as filhas de manterem qualquer tipo de relacionamento com homens antes do casamento. Amélia e Martírio, procurando aceitar a proibição de Bernarda, recordam a história do pai de Adelaida, uma outra rapariga da aldeia. As desilusões que esse homem terá causado às mulheres ilustram o terror associado à convivência com o elemento masculino. Madalena entra em cena, por sua vez, para contar às irmãs que Angústias, a mais velha, será pedida em casamento por Pepe Romano – e considerando que tudo se resume ao interesse deste pelo dote da irmã. Adela, a mais nova, está secretamente apaixonada pelo dito rapaz e lamenta a sua sorte.
O primeiro acto encerra-se com a aparição de Maria Josefa, cuja aparente loucura simboliza no fundo a vontade das netas:
Quero ir embora daqui, Bernarda! Bernarda, eu quero um varão para me casar e ter alegria!
Segundo acto
No segundo acto, as irmãs encontram-se numa divisão interior da casa, a preparar o enxoval de Angústias. O diálogo centra-se na relação de Pepe com a irmã mais velha e La Poncia faz um contraponto aos comentários de Angústias, partilhando a sua própria história: o namoro e posterior casamento com um homem que pouca alegria lhe trouxe. Adela não está presente e as irmãs ficam intrigadas.
Esta surge pouco depois em cena, algo transtornada. La Poncia diz-lhe em particular que o seu mal é cobiçar o noivo da irmã. Tenta ainda convencê-la a esperar pela eventual morte de Angústias (dona, supostamente, de fraca saúde) o que, a ocorrer, permitiria que Adela se transformasse na segunda esposa de Pepe. Esta revolta-se, mas a serviçal explica que a sua intenção é defender a honra da casa na qual trabalha há tantos anos. Adela afirma que lutará pelo seu direito de ficar com o homem que ama.
As outras irmãs, entretanto, lamentam a condição de mulheres solitárias. La Poncia informa que chegaram novos homens à aldeia: trabalhadores para a próxima colheita, dos quais se ouve já o canto distante.
Perante isto, algumas decidem espiar pelas frestas das janelas os homens que passam na rua. Angústias surge então em cena, encolerizada, anunciando o desaparecimento de uma fotografia de Pepe – um presente do noivo que ela mantinha no quarto. Bernarda, que entretanto chegou, ordena que La Poncia procure o retrato desaparecido. As suspeitas recaem sobre Adela, mas a serviçal encontra a foto debaixo da almofada de Martírio. Bernarda ameaça espancar a filha, embora esta alegue que tudo não passou de uma brincadeira inocente. Adela, contudo, aproveita a situação e acusa Martírio de nutrir uma paixão secreta por Pepe.
O verniz começa, a partir daqui, a estalar: Martírio e Adela dizem a Angústias que Pepe vai casar-se com ela apenas por interesse financeiro. Bernarda ordena, rispidamente, que as filhas se calem. Pouco depois, La Poncia, numa conversa privada com a matriarca, diz suspeitar que a duvidosa brincadeira de Martírio está relacionada com o fracasso da relação desta com Enrique Humanes – um rapaz que a galanteou mas foi rejeitado por Bernarda, pelo facto de pertencer a uma classe social inferior. A matriarca, enervada, relembra que a outra só está naquela casa por piedade, já que é filha de uma meretriz. Mais tarde, sem perceber logo as implicações do comentário, La Poncia revela que Pepe esteve até às quatro e meia da madrugada a conversar com a noiva. Angústias desmente-a, porém, concluindo-se então que este terá estado com outra pessoa da casa. Martírio e Adela conversam em surdina, noutro ponto da casa. A segunda revela que está envolvida com Pepe, em segredo. La Poncia, de súbito, anuncia que uma jovem da aldeia engravidou, apesar de estar solteira, tendo depois dado à luz e logo de seguida assassinado o filho, em segredo. Tudo foi agora descoberto, à conta de um estranho acaso. Ouve-se o povo nas ruas, que apela ao linchamento da rapariga. Bernarda e Martírio juntam-se à perseguição, mas Adela entra em pânico e disfarçadamente sugere o perdão da jovem, tomando consciência que também ela se colocou numa situação de risco, ao envolver-se com Pepe.
Terceiro acto
O terceiro acto decorre no pátio interno da casa, onde a matriarca recebe a visita de Prudência e com ela compartilha uma ceia modesta. A visitante confessa o desgosto causado pela filha, que foi expulsa de casa pelo pai.
Angústias e Martírio ainda estão zangadas e Bernarda insiste que elas façam as pazes em nome das aparências, obcecada em simular uma casa harmoniosa. A filha mais velha confessa-lhe o desconforto em relação a Pepe – anunciou que não a visitará esta noite, à conta de uma ida com os pais a outra aldeia. Aos poucos, todas as filhas se retiram para dormir.
Bernarda e La Poncia debatem acerca das insinuações da segunda sobre algo de grave que se estaria a passar. A matriarca volta a recusar tal ideia, reforçando teimosamente que está tudo sob controlo. La Poncia, contudo, pressente de algum modo a latente desgraça e pouco depois especula com a Criada acerca da relação secreta entre Adela e Pepe. Esta aparece no pátio, não disfarçando uma atitude esquiva, e desaparece logo depois a caminho do curral.
Maria Josefa surge em cena com uma ovelha nos braços e, transtornada, devaneia sobre o fascínio que Pepe exerce sobre as netas, para as quais prevê um destino cruel e solitário.
Martírio acerca-se da porta do curral e chama Adela, que aparece pouco depois, ainda descomposta. As evidências provocam uma discussão entre ambas e Martírio acusa a irmã de estar a trair Angústias, roubando-lhe o futuro esposo. Esta, por sua vez, acusa Martírio de também estar apaixonada pelo rapaz, sendo esse o verdadeiro problema e esta acaba por admitir o que sente. A discussão cresce. Martírio ameaça denunciar Adela, que estica a corda e confessa a intenção de fugir para se tornar na amante de Pepe. Bernarda aparece no pátio à conta do barulho e, informada dos acontecimentos, ameaça espancar Adela. Esta arranca-lhe a bengala das mãos e parte-a ao meio. O alvoroço atrai as outras mulheres da casa. Adela confessa a Angústias, desafiante, que é ela o verdadeiro interesse de Pepe. Bernarda sai de cena, furibunda, em busca de uma espingarda. Martírio segue-a.
Em breve ouve-se um tiro e ambas regressam. Martírio, vingativa, dá a entender que a mãe assassinou Pepe – embora este, na verdade, tenha sobrevivido devido à fraca pontaria da matriarca e se tenha posto em fuga. Adela, tresloucada, regressa ao curral e lá se tranca. Bernarda ordena de imediato que a filha abra a porta, mas é La Poncia quem força a entrada e descobre a tragédia. Adela está morta, enforcada.
Bernarda, diante da comoção de todas e informada pela Criada de que o tumulto já atraiu a curiosidade dos vizinhos, ordena de forma glacial que a filha seja retirada e vestida de branco, numa falsa sugestão de pureza. E exige, sobretudo, silêncio.










