Oliveira Martins vivia então na sua linda e recolhida casa das Águas Férreas. Se já houve em Portugal um delicado e grave retiro de estudo e de trabalho, sereno, hospitaleiro, superiormente polido e culto, forte em afeições, fecundo em obras, belo pela consciência e pela ciência, e como espiritualizado pelas correntes de pensamento que nele tão livremente circulavam, foi essa saudosa casa das Águas Férreas – enquanto não veio bater à porta a Política, disfarçada, trazendo sobre a face torpe a máscara nobre do Civismo. A biblioteca ficava em baixo, abrigada no silêncio propício de vielas desertas. Aí viveu Oliveira Martins os seus dias mais doces, escreveu os seus livros mais fortes, com a regra e concentração de um beneditino, cortados às vezes por tumultuosas inspirações de artista, como quando ao reviver a História da República Romana, durante quarenta horas, sem descanso, sustentado a café, foi empurrando, com pena magnífica, através das ruas de Roma, da Porta Carmental ao Capitólio, o triunfo de Paulo Emílio.
Notas Contemporâneas









