Walter Scott

Viveu entre 1771 e 1832. Foi romancista, poeta e historiador. Muitas das suas obras mantêm ainda hoje o estatuto de clássicos na literatura escocesa e europeia, sobretudo os romances Ivanhoe (1819), «Rob Roy» (1817), «Waverley» (1814), «Old Mortality» (1816), «The Heart of Mid-Lothian» (1818) e «The Bride of Lammermoor» (1819), bem como os poemas narrativos «Marmion» (1808) e «The Lady of the Lake» (1810). Foi uma grande influência na literatura europeia e americana.

Advogado e administrador jurídico de profissão, concilia tais actividades com a escrita. É figura proeminente no Partido Conservador de Edimburgo, membro activo da «Highland Society» (Associação Agrícola) e durante muito tempo presidente da «Royal Society of Edinburgh» (Academia de Ciências e Letras), bem como vice-presidente da «Society of Antiquaries of Scotland» (Herança Cultural). Detentor de vastos conhecimentos sobre História e Literatura, contribui em larga medida para a solidificação do romance histórico enquanto género literário, como parte integrante do Romantismo Europeu. Torna-se baronete de Abbotsford, no condado de Roxburgh, em 1820. O título é extinto após a morte do filho, em 1847.

Walter Scott nasce a 15 de Agosto de 1771, num terceiro andar de uma ruela estreita, na chamada Old Town de Edimburgo. É o nono filho (tendo seis morrido na infância) de Walter Scott, membro do clã Scott e de uma sociedade de solicitadores e de Anne Rutherford, irmã de Daniel Rutherford e com ligações familiares ao clã Swinton e aos Haliburton (descendência que concedeu à família o direito a ser enterrada na Abadia de Dryburgh).

Walter é, através dos Haliburton, primo de um famoso empreiteiro londrino chamado James Burton e do seu filho, o arquitecto Decimus Burton. Walter será mais tarde membro de um clube exclusivo (Clarence Club), do qual também fazem parte os Burton.

Um ataque de poliomielite na infância, logo em 1773, deixa Walter coxo, infelicidade que irá marcar-lhe a vida e a escrita.

À conta dessa maleita, é enviado no mesmo ano para uma zona rural denominada Scottish Borders (Fronteiras Escocesas) onde, em Sandykowe e muito próximo das ruínas da Smailholm Tower, está situada a quinta dos avós paternos, que se transforma no primeiro lar. É aqui que aprende a ler com a tia, Jenny Scott, dela absorvendo os padrões discursivos e muitas das histórias e lendas que irão marcar as futuras obras. Em Janeiro de 1775, regressa a Edimburgo mas nesse Verão viaja com a tia até Bath, em Somerset, no sul de Inglaterra, para um período nas termas. No Inverno de 1776 vai de novo para Sandyknowe e no Verão seguinte faz mais tratamentos, desta vez em Prestonpans, uma vila próxima de Edimburgo.

Em 1778, regressa a casa para ter aulas privadas, preparando assim o ingresso na escola. Vive com a família numa nova casa, uma das primeiras a ser construída na zona de George Square. Em Outubro de 1779, inicia os estudos na Royal High School de Edimburgo. Está agora capaz de andar e explorar não só a cidade como a periferia rural. Gosta de ler romances de cavalaria, poemas, relatos históricos e livros de viagens. Recebe explicações privadas em Aritmética e Escrita, mas também acerca do contexto histórico da Igreja da Escócia, com especial destaque para os Covenantistas, um movimento político e religioso.

Em 1783, os pais, convencidos que Walter está demasiado fatigado, voltam a enviá-lo durante seis meses para viver com a tia Jenny na vila de Kelso, também situada nas Scottish Borders. É lá que frequenta a Escola Secundária de Kelso, onde conhece James Ballantyne e o irmão John, que no futuro se transformarão em parceiros de negócios na edição.

Inicia os estudos clássicos na Universidade de Edimburgo em Novembro de 1783, aos 12 anos, um ano mais novo do que a maioria dos colegas. Em Março de 1786, aos 14, começa um estágio no escritório do pai, de modo a tornar-se solicitador. Através da escola, torna-se amigo de Adam Ferguson, cujo pai, o Professor Adam Ferguson, organiza reuniões literárias. Walter trava então conhecimento com Thomas Blacklock, um poeta cego que lhe empresta livros e lhe fala dos poemas de James Macpherson.

No Inverno de 1786/1787, com 15 anos, conhece o famoso poeta Robert Burns, numa das reuniões. Será o único encontro entre ambos. Quando Burns repara numa ilustração associada ao poema «The Justice of the Peace» e pergunta quem é o autor, Walter é o único que conhece a resposta certa: John Langhorne.

A partir do momento em que se decide que Walter será advogado, este regressa à Universidade para estudar Direito, frequentando aulas de Filosofia Moral e História Universal com professores famosos, nos anos de 1789/1790. Neste segundo período de estudos na Universidade, começa a dedicar-se com mais afinco a actividades intelectuais, nomeadamente ao ser co-fundador da «Literary Society» em 1789 e ao ser eleito para a «Speculative Society» (Oratória e Composição Literária) no ano seguinte, tornando-se bibliotecário e tesoureiro em 1791.

Após a conclusão dos estudos, começa a exercer advocacia em Edimburgo. A primeira visita enquanto escriturário é às Scottish Highlands (Terras Altas), sendo responsável por um despejo. É admitido na Ordem dos Advogados em 1792. Tem um caso amoroso fracassado com Williamina Belsches of Fettercairn, que acaba por se casar com um amigo de Walter, Sir William Forbes. Em Fevereiro de 1797, a ameaça de uma invasão francesa faz com que ele e muitos dos amigos se alistem na Royal Edinburgh Volunteer Light Dragoons, uma força militar de reserva onde prestam serviço até aos primeiros anos do século XIX. A missão é levada muito a sério, com exercícios diários que se iniciam às 5h da manhã.

Scott ganha a motivação necessária para uma carreira na escrita devido a um entusiasmo antigo pela literatura alemã. Ao recordar essa fase, já em 1827, confessará que estava «louco pela Alemanha». Em 1796, escreve versões inglesas de dois poemas de Gottfried August Bürger, «Der wilde Jäger» e «Lenore», publicados sob os títulos «The Chase» e «William and Helen». O autor identifica-se com o interesse alemão por temas como a identidade nacional, a cultura popular e a literatura medieval, espelho do interesse pessoal que revelava pelas baladas tradicionais. Um dos livros favoritos na infância tinha sido uma obra de Thomas Percy: «Reliques of Ancient English Poetry».

Ajudado pelo poeta John Leyden, compõe uma obra em dois volumes, «Minstrelsy of the Scottish Border», em 1802, reunindo 48 baladas tradicionais. Destas, 26 são publicadas pela primeira vez. No ano seguinte, surge uma versão alargada, com três volumes. Em muitas destas baladas Scott mescla diferentes versões em textos únicos, teoricamente mais coerentes, opção da qual se arrepende mais tarde. A obra é o primeiro e o mais importante de vários projectos editoriais aos quais se dedica nos 20 anos seguintes, onde se incluem o romance medieval «Sir Tristrem» (cuja autoria é atribuída a Thomas the Rhymer) em 1804, as obras de John Dryden (18 vols., 1808) e as obras de Jonathan Swift (19 vols., 1814).

Numa viagem à Região dos Lagos Inglesa (English Lake District), com velhos amigos da faculdade, Walter conhece Charlotte Charpentier, filha de Jean Charpentier e originária de Lyon, em França, mas sob tutela de Lord Downshire e a viver em Cumberland, Inglaterra. Após três semanas de namoro, o autor pede-a em casamento e a cerimónia tem lugar na Consoada de 1797, na St. Mary’s Church, em Carlisle. Após alugarem uma casa na George Street, em Edimburgo, mudam-se para outra rua próxima – South Castle Street. A filha mais velha, Sophia, nasce em 1799 e casará mais tarde com o escritor John Gibson Lockhart. Surgirão, ao todo, cinco filhos embora um não sobreviva aos pais. O mais velho, Sir Walter Scott, será o herdeiro do património. Em 1799, Scott é nomeado Juiz (Sheriff) de Selkirk, sediado no tribunal local. Nesta fase a família usufrui de bons rendimentos, provenientes dos salários de advogado e juiz, do dinheiro de Charlotte, da escrita e de parte do património paterno.

Após o nascimento do jovem Walter, em 1801, a família muda-se para uma casa mais espaçosa, com três andares, situada no nº 39 da North Castle Street, sendo essa a residência em Edimburgo até 1826. A partir de 1798, o autor ganha o hábito de passar os Verões numa casa de campo situada na vila escocesa de Lasswade, onde recebe convidados, incluindo figuras literárias. Todavia, em 1804 deixa de utilizar a casa em Lasswade e começa a alugar outra na vila de Ashestiel, situada na margem sul do rio Tweed e que incorpora uma antiga casa-torre.

Por insistência de Scott, a primeira edição de «Minstrelsy…» é impressa pelo amigo James Ballantyne, em Kelso. Em 1798, James tinha já publicado uma versão de Walter da obra «Erlkönig», de Goethe, no jornal local.

Em 1799, inclui esse trabalho e as duas traduções de Bürger numa antologia privada, de nome «Apology for Tales of Terror». Em 1800, Scott sugere então que Ballantyne instale o negócio em Edimburgo e em 1802 providencia um empréstimo para que a transição se faça. Em 1805, tornam-se sócios editores, situação que se mantém até à falência, em 1826.

O autor é também conhecido pelo amor aos cães e torna-se dono de vários ao longo da vida. Após a morte, um jornal assinala que «de todos os homens notáveis que gostavam de cães, nenhum gostou mais deles ou os entendeu melhor». Os mais famosos são Maida, um enorme cão de caça tido como o favorito e Spice, um terrier que sofre de asma e ao qual Scott dá particular atenção. Numa entrada do diário, já na época dos problemas financeiros, Walter confessa o desalento por estar na iminência de ter de vendê-los:

A ideia de me separar destas criaturas simples entristece-me mais do que qualquer outra coisa.

Entre 1805 e 1817, o autor escreve cinco enormes poemas narrativos, cada um com seis cantos, quatro poemas curtos e ainda outros trabalhos poéticos. É de longe o poeta mais famoso do seu tempo até ser destronado por Lord Byron, que publica os dois primeiros cantos de «Childe Harold’s Pilgrimage» em 1812.

«The Lay of the Last Minstrel» (1805), em formato de romance medieval, nasce da ideia de incluir um longo poema original na segunda edição de «Minstrelsy…»:

Era suposto ser uma espécie de romance de cavalaria e encantamento.

Scott retira inspiração da sua familiaridade sem paralelo com as histórias e lendas da zona da Fronteira, adquirida de fonte oral e escrita desde a infância, de modo a apresentar uma imagem extremamente viva e colorida da Escócia do séc. XVI. O resultado cativa o público em geral mas também o leitor académico, devido às inúmeras referências históricas e culturais.

O poema exibe também uma forte componente moral. Obtém sucesso imediato, entre a crítica e o público, atingindo as cinco edições num só ano. Eis a passagem mais famosa:

 

Breathes there the man, with soul so dead,

Who never to himself hath said,

  This is my own, my native land!

Whose heart hath ne’er within him burned,

As home his footsteps he hath turned,

  From wandering on a foreign strand!—

If such there breathe, go, mark him well;

For him no minstrel raptures swell.

 

Três anos depois de «The Lay…» o autor publica «Marmion» (1808), onde aborda um conjunto de paixões corruptas que desembocam na (verídica) Batalha de Flodden, em 1513. A inovação principal consiste na introdução de epístolas no início de cada um dos seis cantos, dedicadas a vários amigos: William Stewart Rose, John Marriot, William Erskine, James Skene, George Ellis e Richard Heber. Numa jogada de antecipação, o editor Archibald Constable compra os direitos da obra por uma quantia equivalente a 200 mil euros nos dias de hoje, logo no início de 1807 e com apenas um canto terminado. A fé do editor acaba por justificar-se, já que as três edições publicadas em 1808 vendem cerca de 8000 cópias. O poema no seu todo, no entanto, revela-se menos impressionante do que o anterior. O estilo e o conteúdo exibem fraquezas, considera-se que as epistolas não estabelecem qualquer ligação à narrativa, que existe demasiado exibicionismo histórico-cultural e que o protagonista do título é imoral.

A meteórica carreira poética de Scott atinge o pico com o terceiro poema narrativo, «The Lady of the Lake» (1810), que vende cerca de 20 mil cópias no primeiro ano. As críticas são relativamente favoráveis, considerando que os defeitos da obra anterior foram, em geral, corrigidos. Em vários aspectos, é um trabalho mais convencional do que os antecessores, não só na métrica como no conteúdo.

O protagonista é um muito mal disfarçado Jaime V (Rei da Escócia entre 1513/42) e o enredo é previsível. Apesar disso, a uniformidade métrica é cortada por frequentes canções e o cenário é apresentado enquanto paisagem encantada, aspecto que leva a um aumento extraordinário do turismo e comércio locais. Além disso, o poema já aborda um tema que será depois central nos romances do autor: o choque entre sociedades vizinhas, em diferentes estágios de desenvolvimento.

Os dois restantes poemas narrativos, «Rokeby» (1813), que decorre em Yorkshire durante a Guerra Civil (1642-1651) e «The Lord of the Isles» (1815), situado na primeira metade do séc. XIV e que redunda na Batalha de Bannockburn (1314), recebem críticas relativamente favoráveis e as vendas são positivas, embora sem atingirem os números de «The Lady of the Lake». Scott escreve ainda quatro pequenos poemas semi-narrativos, entre 1811 e 1817: «The Vision of Don Roderick» (1811, onde celebra o sucesso de Wellington na Campanha Peninsular, com os lucros das vendas a reverterem para as vítimas de guerra portuguesas); «The Bridal of Triermain» (publicado anonimamente em 1813); «The Field of Waterloo» (1815) e «Harold the Dauntless» (publicado anonimamente em 1817).

O autor é também, ao longo da carreira, crítico literário. Apesar de conservador, colabora com um jornal de esquerda entre 1803 e 1806. Contudo, no momento em que essa publicação anuncia defender o armistício com Napoleão, Scott cancela a subscrição, em 1808. No ano seguinte, no pico da carreira poética, revela-se essencial no surgimento de uma publicação conservadora e rival, com a qual colabora para o resto da vida.

Em 1813, é-lhe oferecido o estatuto de Poeta Laureado. Recusa, argumentando que «tal posição é um presente envenenado», já que o prestígio da mesma está afectado pela fraca qualidade dos titulares anteriores, que se limitaram a «rabiscar uns versos em datas especiais».

A carreira do autor enquanto romancista começa periclitante. Os primeiros capítulos de «Waverley» estão prontos por volta de 1805, mas o projecto é abandonado após uma opinião negativa de um amigo.

Pouco depois, um editor pede-lhe que corrija e termine postumamente um romance de Joseph Strutt. A obra é publicada em 1808. O enredo decorre na Inglaterra do séc. XV, mas revela-se um insucesso devido à linguagem arcaica e ao excesso de informação histórica. Apesar disso, o anterior sucesso do poema narrativo «The Lady of the Lake» convence-o a retomar esse enredo e desta vez colocar o protagonista, Edward Waverley, a regressar à Escócia. Embora se considere a publicação nessa fase, o projecto é de novo congelado e retomado somente em finais de 1813, acabando por ser publicado em 1814. São impressas apenas 1000 cópias, mas a obra revela-se um sucesso imediato, sendo requisitadas mais 3000, em duas edições separadas, nesse mesmo ano. «Waverley» transforma-se no primeiro de 27 romances e por altura do sexto, «Rob Roy», o número de cópias da primeira edição passa a ser de 10 mil exemplares.

Tendo em conta o estatuto de Scott enquanto poeta estabelecido e a inicialmente duvidosa natureza de um trabalho como «Waverley», não é surpreendente que o autor opte por uma prática comum, à época, que consiste em publicar de forma anónima. Mantém esta postura até à ruína financeira de 1826, com os romances a surgirem quase sempre assinados pelo «Autor de Waverley» (ou variantes) ou ainda enquanto «Histórias do meu Senhorio». É incerto, a partir de certa altura, o motivo que o leva a fazer isto (são especuladas múltiplas razões), em especial porque se trata de um segredo de polichinelo. Segundo o próprio: «assim me apeteceu».

Scott revela-se, quase em exclusivo, um romancista histórico. Apenas um dos 27 romances – «Saint Ronan’s Well» – decorre num cenário moderno. Os restantes vão de 1794 em «The Antiquary» até 1096 ou 1097, em «Count Robert of Paris». Dezasseis têm como cenário a Escócia. Os primeiros nove, de «Waverley» (1814) até «A Legend of Montrose» (1819), apresentam locais escoceses e decorrem entre o séc. XVII e XVIII. O autor conhece os temas como ninguém, baseando-se quer na tradição oral quer num interminável conjunto de fontes escritas, que compõe a biblioteca pessoal (muitos livros são raros, alguns são exemplares únicos).

De uma forma geral, são os romances anteriores a 1820 que mais chamam a atenção dos críticos modernos. São eles: «Waverley», onde se abordam as revoluções de 1745 nas quais os clãs das Terras Altas escocesas são vistos como idealistas fanáticos e ultrapassados; «Old Mortality» (1816) onde os Covenantistas de 1679 são vistos (mais uma vez) como fanáticos e quase ridículos; «The Heart of Mid-Lothian» (1818) onde uma heroína de classe baixa, Jeanie Deans, enceta uma viagem perigosa para Richmond em 1737 para assegurar um prometido perdão real para a irmã, falsamente acusada de infanticídio; por fim, o trágico «The Bride of Lammermoor» (1819), um relato duro sobre o declínio de uma família aristocrática, num tempo de lutas políticas antes do Acto de União de 1707.

Em 1820, Scott faz uma opção ousada e transfere o enredo de Ivanhoe para a Inglaterra do séc. XII. Com isso, fica dependente de um conjunto reduzido de fontes, todas elas escritas. É obrigado a reunir material de diferentes séculos e a inventar um novo tipo de discurso, baseado no teatro antigo. Tal dá origem a um romance que possui tanto de relato histórico como de mito, embora se transforme na obra mais famosa até hoje e na mais fácil de encontrar pelo leitor comum. Oito dos 17 romances seguintes decorrem igualmente em contexto medieval, embora na sua maioria estejam situados no fim dessa era, da qual o autor possui fontes mais abundantes e credíveis. A familiaridade deste com a literatura inglesa do séc. XVII, em parte resultante das funções de editor, faz com que quatro desses romances – «Kenilworth» (1821), «The Fortunes of Nigel and Peveril of the Peak» (1821) e «Woodstock» (1826) – apresentem retratos bastante ricos dessa sociedade.

O pensamento histórico de Scott assenta na ideia de que sociedades muito diferentes atravessam, apesar disso, os mesmos estados evolutivos, daí se concluindo que a Humanidade é essencialmente imutável. Ou, tal como este afirma em «Waverley»:

Existem paixões comuns a todos os homens, em todos os tipos de sociedade, que agitam de igual modo o coração humano, quer este bata debaixo da armadura de aço do séc. XV, do manto brocado do séc. XVIII ou das roupagens do presente.

Um dos grandes talentos do autor é ser capaz de criar retratos vivos e detalhados de várias eras das sociedades inglesa, escocesa e europeia, deixando ao mesmo tempo claro que, apesar das diferenças exteriores, todas contêm as mesmas paixões humanas. Os leitores podem assim entreter-se com a descrição de uma sociedade longínqua, embora se identifiquem facilmente com as personagens.

Scott deixa-se fascinar pelos intensos momentos de transição nas sociedades. Segundo a crítica, tal advém de dois grandes princípios: uma certa aderência religiosa ao Passado e ao Antigo, associada ao Desejo de Permanência, por um lado e por outro, a Paixão pelo Conhecimento e Verdade enquanto filhos da Razão.

O método de trabalho do autor está descrito em manuscritos, correspondência e registos dos editores. Este não cria planos detalhados para os enredos e todo o processo pode, talvez, ser resumido nesta afirmação:

Julgo encontrar a musa sentada na pena da minha caneta quando começo a escrever e esta leva-me para longe do objectivo inicial. As personagens crescem debaixo da minha mão, os eventos multiplicam-se, a história arrasta-se à medida que as fontes aumentam – os meus aposentos normais transformam-se numa anomalia gótica e o projecto conclui-se muito antes do objectivo a que me tinha proposto.

Apesar disso, os registos exibem muito poucas alterações ou cortes, provando que Scott é bem capaz de manter o controlo da narrativa. Tal revela-se importante, pois assim que surge algum progresso no texto, o autor começa a enviar cópias para serem impressas, recebendo depois as provas, em secções. Nessa altura, faz então bastantes correcções, mas estas são quase sempre gramaticais e de estilo.

Scott afirma também que um dos motivos que o levaram a retomar o, em tempos abandonado, manuscrito de «Waverley» tinha sido o desejo de fazer pela Escócia o que os livros de Maria Edgeworth tinham feito pela Irlanda:

Aquelas personagens foram tão longe no objectivo de familiarizar os ingleses com a personalidade alegre e generosa dos vizinhos irlandeses, que é possível afirmar que as mesmas fizeram mais pela saúde da União que todos os actos legislativos que se seguiram.

A maioria dos leitores de Scott é inglesa. No caso dos romances «Quentin Durward» (1823) e «Woodstock» (1826), por exemplo, cerca de 8000 de um total de 10 mil cópias das primeiras edições foram para Londres.

Há no entanto quem argumente que, apesar do autor ser um apoiante formal da União com Inglaterra (e Irlanda) é possível encontrar um subtexto bastante nacionalista nos romances, caso os leitores estejam despertos para essa linha de pensamento.

A carreira de Scott enquanto romancista não significa o completo abandono da poesia. Na sua maioria, os trabalhos em prosa apresentam bastantes versos originais, incluindo canções famosas.

Em 1825, uma crise bancária nacional provoca o colapso da editora. As dívidas gigantescas (equivalentes a 14 milhões nos dias de hoje) resultam na ruína pública. Contudo, em vez de declarar falência ou aceitar o apoio financeiro dos inúmeros admiradores e amigos (incluindo o próprio Rei), o autor transfere a casa e o rendimento para as mãos dos credores e dedica-se a pagar as dívidas com os lucros da escrita. Os problemas e tristezas aumentam com a morte da mulher, em 1826.

Apesar (ou talvez devido) a tudo isto, Scott mantém o extraordinário ritmo de trabalho. Entre 1826 e 1832 completa seis romances, dois contos, duas peças de teatro e onze trabalhos de não-ficção, para além de um diário (sem falar nos textos incompletos).

É então que a saúde do autor começa a falhar e em finais de 1831, numa tentativa ingénua de melhorá-la, este embarca numa viagem marítima até Malta e Itália. Segue a bordo da HMS Barham, uma fragata posta à disposição pelo Estado, reflexo da reputação e admiração que conquistara. No regresso, embarca num vapor entre Colónia e Roterdão. A bordo, sofre um grave ataque perto da cidade alemã de Emmerich. Após receber tratamento, é transferido para um navio de maior porte, que arranca para Inglaterra em meados de 1832. Após o desembarque, falece em Setembro, com 61 anos.

É enterrado na Dryburgh Abbey, onde já estava a mulher. Apesar de ainda possuir dívidas na altura da morte, os romances continuam a vender e estas são perdoadas pouco tempo depois.


Romance histórico publicado em três volumes. Marca um ponto de viragem na carreira de Scott, cujos romances decorriam em território escocês e em épocas históricas mais recentes – por oposição a este, que se passa na Inglaterra do séc. XII. Transforma-se numa das obras mais conhecidas e influentes do autor.

O enredo oferece descrições elaboradas de um torneio de cavalaria, aventuras de foras-da-lei, um julgamento por bruxaria e rivalidades entre cristãos e judeus ou normandos e saxões. Considerou-se na altura que a obra veio reforçar o interesse nos romances de cavalaria e na época medieval, influenciando a percepção popular acerca de figuras históricas como Ricardo Coração de Leão, o Príncipe João e Robin dos Bosques.

 

Enredo

 

O protagonista, Wilfred de Ivanhoe, é deserdado pelo pai, Cedric de Rotherwood, devido ao apoio do primeiro ao Rei normando, Ricardo, e ao amor que o mesmo revela por Lady Rowena, uma pupila de Cedric que descende dos reis saxões ingleses. Cedric planeara casar Rowena com o prestigiado Lord Athelstane, um pretendente ao trono de Inglaterra por descender do último rei saxão, Harold Godwinson. Ivanhoe acompanha Ricardo na Terceira Cruzada, onde aparentemente se cobre de glória no Cerco de Acre.

O enredo inicia-se quando um grupo de cavaleiros normandos e prelados procuram a hospitalidade de Cedric. No caminho surge um peregrino que lhes serve de guia. Nessa mesma noite, Isaac de York, um usurário judeu, também pede refúgio em Rotherwood (a propriedade de Cedric), a caminho do torneio de Ashby. No decurso da ceia, o peregrino nota quando um normando, o templário Brian de Bois-Guilbert, ordena que a sua escolta sarracena aprisione Isaac.

O peregrino decide então auxiliar Isaac a fugir, sendo ajudado nessa tarefa por um guardador de porcos chamado Gurth (um serviçal de Cedric).

Isaac de York propõe saldar o favor ao peregrino oferecendo-lhe uma armadura e um cavalo de guerra, de modo a que este possa inscrever-se no torneio de Ashby. Fica subentendido que o indivíduo é, na verdade, um cavaleiro. O mesmo é apanhado de surpresa, mas aceita a oferta.

O torneio em causa é presidido pelo Príncipe João. Na assistência estão ainda Cedric, Athelstane, Lady Rowena, Isaac de York, a filha deste, Rebecca, Robin de Locksley e respectivo grupo, um conselheiro do Príncipe chamado Waldemar Fitzurse e muitos outros cavaleiros normandos.

No primeiro dia, ao longo de uma sequência de combates individuais, um misterioso cavaleiro que se identifica apenas com o nome «Desdichado» (apelido que o autor considera espanhol e que os saxões traduzem por «deserdado») derrota Bois-Guilbert. O cavaleiro anónimo recusa identificar-se, contrariando a vontade expressa do Príncipe João. Apesar disso, é considerado o vencedor do dia e autorizado a eleger a rainha do torneio. A escolha recai em Lady Rowena.

No segundo dia, numa prova de grupo, «Desdichado» lidera uma ala contra outra, que congrega os adversários da véspera. Os primeiros depressa encontram dificuldades e o próprio «Desdichado» vê-se rodeado de múltiplos oponentes, sendo então protegido por um cavaleiro alcunhado «Le Noir Faineant» (Negro Indolente). Este desaparece logo depois, de forma discreta. Ao ser forçado a revelar a identidade, de modo a receber o prémio de vencedor do torneiro, conclui-se que «Desdichado» é Wilfred de Ivanhoe, retornado das Cruzadas. A notícia preocupa bastante o Príncipe João e respectivos acólitos, que vêm nisso um sinal do iminente regresso de Ricardo.

Ivanhoe foi gravemente ferido no torneio, mas o pai não se empenha em providenciar-lhe cuidados. Em vez disso é Rebecca, uma médica talentosa, que o auxilia – primeiro num alojamento próximo e depois convencendo o pai, Isaac, a transportá-lo para a casa de ambos, em York, assim que possível. Antes do fim do torneio, há ainda tempo para uma exibição de mestria com o arco por parte de Locksley, incluindo a famosa cena em que este desfaz outra flecha com a sua.

O jantar final que o Príncipe João oferece aos saxões termina em disputas e insultos.

Nas florestas entre Ashby e York, Isaac, Rebecca e o gravemente ferido Ivanhoe são abandonados e desprovidos de cavalos pela escolta, que receia ataques de foras-da-lei. Cedric, Athelstane e Lady Rowena surgem no caminho e concordam viajar todos juntos. O grupo, no entanto, depressa é capturado por De Bracy (um aliado do Príncipe João) e respectiva guarda e levado para Torquilstone, o castelo de Front-de-Bœuf (outro cavaleiro normando em conluio com João). Os únicos que escapam ao rapto são Gurth, o guardador de porcos, e Wamba, o bobo (ambos serviçais de Cedric). Estes acabam por encontrar Locksley na floresta, que arquitecta um plano de resgate.

O Cavaleiro Negro, que procurara abrigo durante a noite na cabana do frade local, o Santo Padre de Copmanhurst, voluntaria-se para ajudar ao ser informado por Robin de Locksley. Ambos montam cerco ao castelo de Torquilstone, servindo-se dos homens de Robin, do próprio frade (também guerreiro) e de homens de armas saxões, entretanto convocados. No interior de Torquilstone, De Bracy confessa o amor que sente por Lady Rowena mas esta rejeita-o. Brian de Bois-Guilbert, que também lá se encontra, tenta por seu lado violar Rebecca, sendo impedido. Mudando de atitude, procura então seduzi-la, sem sucesso. Front-de-Bœuf, entretanto, negoceia um elevado resgate com Isaac de York, mas este recusa pagar seja o que for enquanto a filha não for libertada.

Quando os sitiadores enviam uma nota de resgate, os carrascos normandos respondem provocatoriamente, requisitando um padre que preste os sacramentos finais a Cedric. Tal revela-se uma oportunidade para o bobo Wamba se disfarçar de frade e arranjar maneira de tomar o lugar de Cedric. Este escapa quase por milagre e já em segurança fornece indicações preciosas aos amigos sitiadores, acerca da força militar presente no castelo e arquitectura do mesmo. Na trajectória de fuga, Cedric encontrou por acaso uma velha dama saxónica, Ulrica, também ela prisioneira e decidida a vingar-se de Front-de-Bœuf, assassino do pai (Lord Torquilstone, dono original da fortificação). Os sitiadores invadem o castelo, que em simultâneo é incendiado por Ulrica. Front-de-Bœuf morre no incêndio e De Bracy rende-se ao Cavaleiro Negro, que revela ser Ricardo Coração de Leão. Misericordioso, este permite que De Bracy parta em liberdade. Bois-Guilbert apodera-se de Rebecca e coloca-se em fuga. Isaac é salvo pelo Santo Padre de Copmanhurst e Lady Rowena por Cedric. O convalescente Ivanhoe, por sua vez, é resgatado das chamas pelo próprio Ricardo.

Athelstane é gravemente ferido e dado como morto enquanto procurava salvar Rebecca, que ele confunde com Rowena.

No rescaldo da batalha, Locksley acolhe generosamente Ricardo, numa clareira da floresta. De Bracy envia uma mensagem ao Príncipe João, informando-o do regresso do Rei e da queda de Torquilstone. Entretanto, Bois-Guilbert apressa-se a chegar com a prisioneira à comunidade templária mais próxima, onde Lucas de Beaumanoir, o Grão-mestre da Ordem dos Templários, se indigna com os sentimentos revelados por Bois-Guilbert e decreta que Rebecca deverá ser julgada como bruxa. Instruída secretamente pelo templário, esta alega durante o pretenso julgamento que o seu destino pode ser decidido através de um combate. Bois-Guilbert, que planeara defendê-la pelas armas, fica desesperado ao perceber que o Grão-mestre o elege para lutar em nome da Ordem. Rebecca escreve então ao pai, incumbindo-o de encontrar um cavaleiro que a defenda. Cedric prepara o funeral de Athelstane em Coningsburgh, procedimentos interrompidos pela chegada do Cavaleiro Negro e de Ivanhoe. Cedric, que não se juntou ao banquete oferecido por Locksley, está de má vontade em relação ao cavaleiro, sobretudo após descobrir-lhe a verdadeira identidade. Ricardo, porém, consegue acalmá-lo e até mesmo reconciliá-lo com o filho. Enquanto isso, Athelstane emerge do caixão – uma vez que não estava morto, apesar do voluntarioso desejo dos monges, sedentos de receber o dinheiro do funeral. Debaixo de novos lamentos por parte de Cedric, Athelstane presta homenagem a Ricardo e apela veementemente a Cedric para que este autorize o casamento de Rowena e Ivanhoe. O saxão acaba por ceder.

Logo após esta acalmia, Ivanhoe recebe a mensagem de Isaac, que implora pela vida de Rebecca. Ivanhoe, cavalgando dia e noite, chega miraculosamente a tempo do combate, mas homem e animal estão esgotados e apresentam diminutas hipóteses de êxito. Bois-Guilbert recusa combatê-lo naquelas condições, mas Ivanhoe acusa-o de não ter palavra e o templário reage em fúria. De rosto avermelhado, apresenta-se pronto para a luta.

Os cavaleiros carregam um sobre o outro, uma única vez, com as respectivas lanças. O templário aparenta estar em vantagem. Ivanhoe e o cavalo tombam, de facto, mas Bois-Guilbert também cede, embora mal tenha sido tocado. Ivanhoe ergue-se rapidamente, de modo a concluir a refrega com a espada, mas o oponente não se mexe. Morreu de ataque cardíaco, esgotado pelas emoções contraditórias.

Ivanhoe e Rowena casam-se, por fim, usufruindo de uma vida longa e feliz. Receando novas perseguições, Rebecca e o pai decidem abandonar Inglaterra rumo a Granada, em Espanha. Antes da partida, esta faz uma visita a Rowena, logo depois do casamento, para se despedir condignamente. O serviço militar de Ivanhoe conclui-se com a morte do Rei Ricardo, cinco anos mais tarde.

 

As críticas mais desfavoráveis ao romance consideram-no um produto destinado, acima de tudo, a entreter um público jovem e masculino. Ivanhoe exibe, de facto, muitos dos elementos associados ao género romântico – a ideia de missão, o cenário de cavalaria/cavalheirismo e a destruição de uma ordem social corrupta, que é substituída por tempos de felicidade. Outros críticos afirmam, apesar disso, que o enredo é entusiasmante e realista, sem idealizar o passado ou o carácter do protagonista.

Na obra, os normandos – que fazem parte de uma cultura mais sofisticada – e os saxões, que são pobres, ostracizados e estão ressentidos com o domínio normando, acabam por juntar-se, criando as primeiras raízes de uma comunidade única. O conflito precedente salienta as perdas que ambos os lados são obrigados a enfrentar antes que uma reconciliação seja possível e através dela surja uma Inglaterra unida. As maiores perdas surgem nas franjas mais radicais de cada cultura, idealismos que devem ser forçosamente abandonados para que a nova sociedade seja funcional. Do lado saxão, aceita-se a impossibilidade de um regresso ao antigo prestígio; do lado normando, são postos de lado os aspectos mais materialistas e violentos do código de cavalaria. Ivanhoe e Ricardo simbolizam a esperança na reconciliação e no futuro unificado.

Ivanhoe, enquanto protagonista, apesar de pertencer a uma linhagem mais nobre que muitos dos seus pares, é uma anomalia no sistema de classes medieval e não se revela de todo imbatível, como é próprio noutras personagens de pendor histórico e mítico (deuses gregos).

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