Santa Cruz é inteiramente de outra natureza. É extremamente belo. O caminho íngreme e alpestre da estação até à quinta é simplesmente maravilhoso.
Vales lindíssimos, carvalheiras e soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bendito monte.
A quinta está situada num alto, num sítio soberbo – que abrange léguas de horizonte e sempre interessante. Como terra creio que é excelente (os próprios caseiros o confessam) e tão fértil que quase nem necessita de adubos. Como quinta não é quase habitável, a não ser para quem tenha a agilidade, a constância e a experiência das cabras. É toda em socalcos. Logo adiante da casa, o monte desce até ao Douro; logo por trás da casa, o monte sobe até aos cimos onde há uma ermida. O que sobe e o que desce é tudo admirável de vegetação, de verdura, de águas, de sombras, de belas vistas – mas para passear por lá é quase necessário andar de gatas.
A casa é feia, muito feia e à fachada pode-se mesmo aplicar, sem injustiça, a designação de hedionda. Tem um arco enorme, e por baixo dele, duas escadarias paralelas, que são de um mau gosto incomparável. Como solidez está perfeita. Precisa apenas, por dentro, ser soalhada e caiada (duas salas já têm este arranjo); e o telhado necessita ser visitado e reparado. Está pessimamente dividida, porque tem poucos quartos, dois ou três, mas salas enormes. Há uma capela que foi recentemente arranjada. E realmente a casa, como paredes e construção, é hercúlea.
Carta a Emília de Castro (esposa)










