Sobre Acaso

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Recorrentemente, volto ao tema do Acaso, o que não deve ser por acaso.

Paul Auster, influenciado por algumas das correntes existencialistas, aborda também ele estas questões em muito do que escreve.

Para além do óbvio «Música do Acaso», o autor começa o primeiro dos contos da Trilogia de Nova Iorque – «Cidade de Vidro» – afirmando convictamente que «nada é real excepto o acaso».

Revejo-me em algumas teses.

Por exemplo, no livro «Música do Acaso» lê-se a determinada altura que os dois protagonistas são obrigados a construir um muro em pedra, sem qualquer utilidade visível que não a de pagar uma dívida de jogo que contraíram com dois excêntricos milionários. Aparentemente estes decidiram, numa viagem que fizeram às ilhas Britânicas, comprar um castelo em ruínas, desfazê-lo e transportá-lo pedra por pedra até à sua obscura propriedade nos Estados Unidos.

turloughhill_2Tive a ocasião de atravessar os campos irlandeses, observando diversos castelos junto à costa e inúmeros muros em pedra, nascidos da preparação dos campos para a agricultura e úteis para a divisão de propriedades. Contudo, muitos deles foram construídos apenas para manter os locais ocupados, tarefa que cumpriam a troco de parca recompensa, de modo a fugir à miséria. Ou seja, o dito muro não servia para «nada». E claro, pergunto-me se Paul Auster terá sabido desta história, nela se inspirando para o seu livro, ou se estamos perante a mais pura das coincidências.

photo-1450818074504-fb9713fe584eOutro episódio passou-se também com Auster, o que reforça a ideia de que o autor utiliza acasos do quotidiano para o seu trabalho literário. Estando um dia no seu apartamento, Paul recebeu um telefonema de alguém que estava a procura de uma agência de detectives. Balbuciou «número errado» e desligou. No dia seguinte, mais ou menos à mesma hora, novo telefonema, da mesma pessoa, em busca da mesma coisa. Auster deu a mesma resposta. Quando desligou da segunda vez, arrependeu-se pouco depois, imaginando como seria se fingisse ser o detective que procuravam. O terceiro telefonema, o tal que lhe permitiria executar a artimanha, nunca aconteceu. Concretizou-se, contudo, na ficção de Auster, quando o personagem principal de «Cidade de Vidro», um escritor, recebe um, a seguir dois e finalmente o essencial terceiro telefonema, de alguém que procura o detective Paul Auster. Na ficção de Auster, o protagonista finge ser o detective Auster e enreda-se na história que o Auster real nunca viveu. Apenas por divertimento, acrescente-se que nessa trama acaba por ser encontrado um Auster escritor (não o detective) que é uma paródia do Auster real.

44634165111_af43ebee90_bAinda sobre acasos com ou sobre Auster, existe a história verídica que se passou com ele e uma namorada de ocasião, que tinha talento para tocar piano. Possuía um, que tinha certo defeito numa determinada nota. Um dia, foram ambos de férias para o interior e em passeio deram de caras com um armazém abandonado, cheio de parafernália, encontrando nessa confusão um piano. A rapariga experimentou o teclado, descobrindo que funcionava na perfeição, com excepção precisamente da mesma nota. Dois pianos, em diferentes partes do país, com o mesmo defeito singular.

O mais extraordinário dos exemplos não tem contudo nada a ver com Auster, mas com Anthony Hopkins. O actor americano aceitou em determinada altura o papel de protagonista num filme. Pouco depois, deslocou-se a Inglaterra, em busca do livro no qual o argumento estava baseado. Apesar de percorrer inúmeras livrarias, não teve sucesso. Deslocando-se de metro até ao hotel, reparou num livro que alguém esquecera num banco e ao pegar nele, instintivamente, apercebeu-se que era nada menos do que o livro que procurava, cheio de pequenas anotações nas margens. Aproveitou o acaso, leu o livro, fez o filme e pouco depois teve a oportunidade de conhecer o escritor inglês. Eis que este lhe confessa ter emprestado o livro a um amigo, que o perdeu no metro londrino. Hopkins mostra-lhe o exemplar que encontrou e o escritor confirma que é o seu.

Como diz Auster, «estamos todos os dias a experienciar o impossível».

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