Sobre Morte – 1

Death waiting at the bus stop

© Harry Briggs/Corbis

Num fim de semana de 2013, estive em Bray, uma cidade costeira de 30 mil pessoas, situada a 20kms de Dun Laoghaire. O motivo foi o festival aéreo que se organizava. Eram esperadas 80 mil pessoas, à semelhança do ano anterior, pelo que os acessos começaram cedo a congestionar-se. Inserido nas festividades de Verão, ergueu-se ainda uma feira, bastante maior e diversificada do que a existente em Dun Laoghaire.

Mergulhei na multidão, que se espalhava caoticamente pela praia, passeio marítimo, relvados adjacentes, ruas, varandas das casas, planaltos e montes circundantes. A instalação sonora apresentava os diversos aviões que se contorciam em múltiplas acrobacias aéreas, conseguindo arrancar exclamações de espanto, receio e aprovação dos mais atentos.

Sempre que os entusiasmados pilotos desafiavam os limites, escapando aos choques fatais por poucos metros, imaginava os escaparates noticiosos: «Tragédia em festival aéreo». Numa das apresentações, composta pelos saltos de vários paraquedistas, um deles vê-se forçado a puxar o paraquedas de emergência, após um percalço com o original.

Na feira circundante, recheada de jovens sedentos de emoções fortes, exibe-se todo o tipo de diversões radicais, sendo o expoente máximo um simulador de voo que sujeita os intrépidos voluntários a forças de 3G. Enquanto os jactos rasgam os céus de Bray, a paisagem sonora está salpicada de gritos constantes, vindos do topo das diversões. Recordo-me de ter lido acerca de uma tragédia recente no Texas, onde alguém foi projectado mortalmente de uma montanha-russa.

Revi, após muitos anos, o filme «Stand By Me», baseado numa história de Stephen King, na qual um grupo de pré-adolescentes enceta uma caminhada pelas periferias de uma pequena cidade, em busca do cadáver de um outro rapaz, atingido por um comboio. Nessa empreitada de dois dias, lidam com variadas mortes reais ou simbólicas e colocam-se eles próprios em diversas situações quase fatais.

Um dos actores, criança na altura, era nada menos que River Phoenix, morto de forma precoce na sequência de uma overdose, aos 23 anos.

Mais tarde, recordei uma das histórias de Poirot, detective criado por Agatha Christie, onde a morte é prato essencial, de modo a que o personagem principal consiga exercitar as suas «células cinzentas» na busca de um culpado.

À noite, conclui o livro de Paul Auster «Música do Acaso», no qual ambas as personagens principais encontram a morte, de diferentes formas. Nesta tradução em particular, cuja editora, tradutor e revisor não vou referir, o texto torna-se um tormento de tão mal traduzido, contendo ainda inúmeras gralhas, quase uma por página, desde palavras mal escritas a palavras trocadas, passando pela ausência de letras. Uma tortura, que constitui a morte de uma leitura límpida.

Antes de adormecer, sem motivo, pensei na inutilidade da vida e nas angústias da morte. E apercebi-me de como esta nunca nos abandona, iminente no mais insignificante aspecto do quotidiano.

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