Viveu entre 1903 e 1989. Conhecido sobretudo enquanto criador do detective Jules Maigret. Um dos autores mais famosos do século XX, publicou cerca de 400 romances, 21 livros de memórias e inúmeros contos, vendendo um total de 500 milhões de exemplares.
Para além dos policiais, obteve ainda os favores da crítica à conta dos romances literários, que ele apelidava de romans durs. Foi elogiado por autores como Max Jacob, François Mauriac e André Gide. Este último considerava Simenon «um excelente romancista, talvez o maior de todos e quem sabe o mais genuíno da literatura francesa contemporânea».
Nascido e criado em Liège, na Bélgica, Simenon passou longos períodos em França (1922/45), Estados Unidos (1946/55) e Suíça (1957/1989). Grande parte do seu trabalho é parcialmente autobiográfico, inspirado na infância e juventude passadas em Liège, nas prolongadas viagens pelo mundo, experiências de guerra, casamentos problemáticos e variados casos amorosos.
Críticos como John Banville, por exemplo, elogiaram os romances do autor devido às características psicológicas e evocações vívidas de épocas e lugares. Entre as obras mais bem-sucedidas estão «O Caso Saint-Fiacre» (1932), «Les Fiançailles de M. Hire» (1933), «Lettre à mon juge» (1947), «A Neve Estava Suja» (1948) e «O Gato» (1967).
Georges Simenon nasceu em 1903, em Liège, filho de Désiré Simenon e Henriette Brüll. Désiré trabalhava numa companhia de seguros, tendo casado com Henriette em Abril de 1902. Simenon terá nascido ou às 23h30 de uma quinta-feira, 12 de Fevereiro (de acordo com a certidão de nascimento) ou pouco depois da meia-noite de uma sexta-feira 13 (tendo-se nesse caso falsificado os dados devido à superstição).
A família Simenon tinha antepassados flamengos e da Flandres, tendo-se estabelecido no município belga de Limburgo no século XVII. A ascendência materna era flamenga, holandesa e alemã. Um dos mais famosos antepassados desta era Gabriel Brühl, um criminoso que actuava na região entre 1720 e 1743, tendo sido enforcado nesse mesmo ano. Mais tarde, o autor utilizaria o apelido Brühl como um dos pseudónimos.
Em Abril de 1905, tinha Georges dois anos, a família muda-se para outro bairro da cidade e no ano seguinte, em Setembro de 1906, nasce o irmão, Christian, que se transformou no favorito da mãe. George nunca lidou bem com facto, tendo passado a idolatrar o pai, alegando mesmo ter moldado o temperamento do famoso detective Maigret a partir da figura paterna.
Com três anos, aprendeu a ler na numa escola de freiras e depois, entre 1908 e 1914, frequentou outro instituto católico.
Em 1911, a família voltou a mudar de casa, começando a receber inquilinos, na sua maioria estudantes da Europa de Leste, judeus e refugiados políticos. Esta experiência abriu os horizontes do jovem, reflectindo-se depois nos futuros romances, sobretudo em «Pedigree» (1948) e «Le Locataire» (1938).
Com o advento da I Guerra Mundial, em Agosto de 1914, Liège foi ocupada pelo exército alemão. Henriette acolheu oficiais alemães, apesar da forte oposição do marido. Simenon declarou mais tarde que os anos de Guerra acabaram por lhe oferecer alguns dos melhores tempos da sua vida, já que enquanto criança considerava tudo uma aventura na qual «o pai mentia, a mãe mentia, todos mentiam».
Em Outubro desse ano, Georges deu início aos estudos num colégio jesuíta. Um ano depois, trocou de instituição, nela permanecendo mais três anos. Era excelente em Francês, embora as notas nas restantes disciplinas fossem decaindo. Lia com frequência os clássicos russos, franceses e ingleses, faltava às aulas e recorria a pequenos roubos de modo a obter bolos e outros produtos raros em tempos de Guerra.
Em 1917, voltaram a mudar-se, desta vez para o antigo edifício dos correios. Utilizando a doença cardíaca do pai como pretexto, Simenon desistiu da escola em Junho de 1918, sem fazer os exames de fim de ano. Embora tenha trabalhado durante pouco tempo numa pastelaria e numa livraria, caiu no desemprego após o fim da Guerra, em Novembro. Presenciou então violentas cenas de vingança contra alguns habitantes de Liège, acusados de colaboracionismo, imagens que reteve para o resto da vida. Descreveu alguns episódios em «Pedigree» e «Os Três Crimes dos Meus Amigos» (1938).
Em Janeiro de 1919, com apenas 15 anos, aceitou um trabalho como jornalista estagiário na «Gazette de Liège», um jornal católico de direita, editado por Joseph Demarteau. Em poucos meses, foi alocado para a secção de crimes, assinando os artigos como «Georges Sim». Em Abril, foi-lhe atribuída uma coluna de opinião e costumes, assinando então como «Monsieur Le Coq». Em paralelo, teve a oportunidade de entrevistar figuras internacionais de renome, como o Imperador Hirohito do Japão e o herói de Guerra francês, Foch. Em 1920/21, inscreveu-se num curso de ciências forenses, na Universidade de Liège, interessado em melhorar os conhecimentos sobre as mais recentes técnicas policiais.
Em Maio de 1920, Simenon começou a publicar contos na «Gazette». Em Setembro, deu por concluído o primeiro romance, «Au Pont des Arches» do qual fez uma edição de autor, em 1921. Escreveu mais dois romances durante os tempos da «Gazette», embora nunca os tenha publicado.
Pouco antes, em meados de 1919, o autor tinha feito amizade com um grupo de jovens artistas e boémios, auto-intitulado «Le Caque» (O Barril). Encontravam-se à noite para sessões de bebida, debates artísticos e filosóficos e experiências com drogas como a morfina e a cocaína. Nos inícios de 1922, um dos membros, de seu nome Joseph Kleine, enforcou-se perto da igreja de St. Pholien, em Liège, no seguimento de uma noite de excessos n’O Barril. Georges foi uma das últimas pessoas a ver o amigo vivo, tendo ficado bastante afectado com o sucedido. Abordou o tema nas obras «Os Três Crimes dos Meus Amigos» e «O Enforcado de St Pholien» (1931).
Através d’O Barril, o autor travou conhecimento com uma jovem pintora, Régine Renchon, tendo ambos iniciado um relacionamento em princípios de 1921. Depressa se tornaram noivos e combinaram que ele deveria cumprir o serviço militar obrigatório, durante um ano, antes do casamento.
O pai de Simenon morreu em Novembro de 1921, acontecimento que o autor definiu como «o dia mais importante na vida de um homem». Pouco depois, iniciou o serviço militar. A um breve período junto das forças aliadas na Alemanha, seguiu-se uma transferência para o aquartelamento de cavalaria em Liège e rapidamente lhe foi dada autorização para recomeçar a escrever para a «Gazette».
Completado o serviço militar, em Dezembro de 1922, demitiu-se do jornal e seguiu até Paris, em busca de uma situação estável para si e para a futura mulher, Régine, que ele gostava de tratar por «Tigy».
Na capital, encontrou um emprego temporário num grupo político de extrema-direita, liderado pelo escritor Binet-Valmer. Em Março de 1923, regressou a Liège para se casar com Régine. Apesar de nenhum dos dois ser religioso, casaram-se numa igreja católica de modo a fazer a vontade à mãe dele, que era devota.
Recém-casados, mudaram-se para a capital francesa, onde ela tentou estabelecer-se como pintora e ele continuou a trabalhar para Binet-Valmer e a enviar artigos para a publicação belga «Revue Sincère» da qual era correspondente em Paris. Escrevia ainda diversos contos para revistas especializadas, mas as vendas eram residuais.
No Verão de 1923, Simenon foi contratado pelo Marquês de Tracy como secretário privado, contexto que o obrigava a passar nove meses do ano nas diversas propriedades rurais do aristocrata. Régine não perdeu tempo a mudar-se para uma aldeia próxima de uma das casas do marquês, em Moulins, na zona central do país.
Neste período, Simenon começou a enviar histórias para o diário «Le Matin» editado por uma reputada mulher de letras, de seu nome Colette. Esta sugeriu que o autor produzisse textos «menos literários», ou seja, com descrições e vocabulário simplificado. George seguiu o conselho e no espaço de um ano tornou-se num dos colaboradores mais profícuos.
Ao assegurar um rendimento estável através da escrita, este abandonou a colaboração com o marquês, logo em 1924 e regressou a Paris com Régine, tendo ambos encontrado um apartamento numa zona agradável. Nesta altura, já produzia e vendia contos, escrevendo em média 80 páginas diárias. Passou em seguida para romances comerciais. O primeiro, «Le roman d’une dactylo» vendeu-se rapidamente e surgiram de imediato mais dois, sob os pseudónimos «Jean du Perry» e «Georges Simm». Entre 1921 e 1934 utilizou cerca de 17 pseudónimos diferentes, num total de 358 romances e contos.
No Verão de 1925, o casal foi passar férias na região da Normandia, tendo conhecido uma jovem de 18 anos, filha de um pescador, chamada Henriette Liberge. Régine ofereceu-lhe trabalho como empregada doméstica, em Paris, tendo esta aceitado de bom grado. Simenon deu-lhe a alcunha de «Boule» e fez dela uma das suas amantes ao longo das décadas seguintes.
Por volta de 1926/27, envolveu-se ainda com a famosa Josephine Baker, cumprindo o papel de seu assistente e editor da revista com o mesmo nome. Por esta altura, o casal Simenon começou a fartar-se da vida agitada em Paris e, em meados de 1928, decidiram partir, acompanhados por Boule, numa viagem de seis meses pelos rios e canais de França, a bordo de uma pequena embarcação conhecido como «Ginette». Sem a distracção provocada por Josephine Baker, a produção escrita do autor aumentou de 11 romances em 1927 para 44 em 1928.
Na Primavera de 1929, os três encetaram nova viagem, desta vez pelo norte de França, Bélgica e Holanda, a bordo de uma embarcação maior, construída à medida e baptizada de «Ostrogoth». O autor começara agora a enviar histórias de detectives para uma nova revista da especialidade, chamada precisamente «Détective» à medida que continuava a publicar romances comerciais, sobretudo na editora Fayard.
Ao longo dessa viagem pelo norte da Europa, escreveu três enredos protagonizados por Maigret, um inspector de polícia, embora apenas uma, «Train de nuit», tenha sido aceite pelos editores. Terá iniciado a escrita desse livro em Setembro de 1929, enquanto o barco era alvo de reparações na cidade holandesa de Delfzijl, motivo pelo qual esta é agora considerada a cidade berço do personagem literário mais famoso da carreira do autor.
Ao regressar a Paris, em Abril de 1930, Simenon concluiu o segundo livro da série, «Maigret & Pietr, o Letão» e o primeiro no qual o protagonista é já uma personagem de pleno direito. O livro foi publicado em formato folhetim na revista da editora Fayard, «Ric et Rac», no final desse ano e transformou-se no primeiro trabalho a ser editado com o nome verdadeiro do escritor.
Os primeiros romances policiais protagonizados por Maigret em formato livro foram lançados pela editora em Fevereiro de 1931. A festa de lançamento recebeu bastante publicidade e os livros foram acolhidos de forma positiva pelos críticos. O autor escreveria mais 19 histórias do género até finais de 1933, acabando por vender um total de 500 milhões de exemplares.
Em Abril de 1932, o casal, sempre acompanhado por Boule, mudou-se para La Rochelle no sudoeste de França. Pouco depois, partiram até África, para visitar o irmão de George, que era administrador colonial no Congo Belga. Aproveitaram para visitar outras colónias africanas e essas viagens originaram uma série de artigos com severas críticas ao colonialismo. Inspirado pela experiência africana, escreveu romances como «Le Coup de Lune» (1933) e «450 à l’ombre» (1936).
Ainda em 1933, voltaram a viajar pela Alemanha e Europa de Leste, tendo o autor assegurado uma entrevista com Leon Trotsky (exilado na Turquia), para o jornal «Paris-Soir». Ao regressar, anunciou que não voltaria a escrever histórias de Maigret e decidiu assinar um contrato com a prestigiada editora Gallimard.
«Maigret», escrito em meados de 1933, tinha a intenção de encerrar a colecção, tendo o enredo terminado com a reforma do protagonista. O autor considerava a série Maigret «semi-literária» e pretendia estabelecer-se enquanto autor sério, tendo mesmo declarado que o objectivo era vencer o Prémio Nobel da Literatura por volta de 1947.
Os romances mais respeitáveis do autor, na década de 30, produzidos após aquela que se revelaria a temporária reforma de Maigret, incluem «O Testamento Donadieu» (1937), O Homem Que Via Passar os Comboios (1938) e «Le bourgmestre de Furnes» (1939). André Gide e François Mauriac estão entre alguns dos maiores admiradores de Simenon, à época.
Em 1935, a família dá início a uma viagem pelo mundo, que incluiu o continente americano, as Galápagos, o Taiti, a Austrália e a Índia. Voltaram depois a Paris, estabelecendo-se num bairro prestigiado e entregando-se a uma vida de vários luxos, que o autor mais tarde classificaria como «demasiado sumptuosa».
Em 1938, retornaram a La Rochelle, uma vez que e segundo o próprio, «estava a ficar enjoado com aquele tipo de existência». Em Abril do ano seguinte, nasce o primeiro filho, Marc.
George estava num café, em La Rochelle, no momento em que a França declarou Guerra à Alemanha, em Setembro de 1939. Em Maio de 1940, a Alemanha invadiu a Bélgica e La Rochelle transformou-se num centro de acolhimento para refugiados daquele país. O governo belga nomeou-o Comissário para os Refugiados, tendo este passado a organizar a recepção, acomodamento, alimentação e fornecimento de cuidados de saúde a cerca de 55 000 refugiados de guerra, antes do armistício declarado a 22 de Junho. Em Agosto, todos os refugiados belgas tinham sido repatriados e o autor retomou a vida normal na sua nova casa, na região de Vendée.
Ainda em 1940, Simenon foi observado por um médico local, tendo-lhe sido diagnosticado um problema de coração sério. Foi aconselhado a moderar os passatempos favoritos: fumar cachimbo, petiscos, álcool e sexo. Começou então a trabalhar num livro de memórias, concebido enquanto carta de um pai à beira da morte, para o filho. Entretanto, procurou uma segunda opinião médica, tendo-lhe então sido assegurado que o coração estava, afinal, de boa saúde.
Decidiu retomar a colecção Maigret, concluindo dois exemplares em 1940 e três em 1941. Trabalhou igualmente num romance mais elaborado, «Pedigree», uma versão melhorada e ficcionada do antigo livro de memórias. George era por esta altura considerado um autor popular, sem raízes judias e sem opiniões públicas acerca da causa alemã ou da guerra em curso, pelo que tinha portas abertas à publicação numa fase recheada de censura e todo o tipo de restrições.
Entre as principais obras publicadas nesse tempo, estão «La veuve Couderc» (1942), «Le fuite de M. Monde» (1945) e o mencionado «Pedigree» (1948). Trocava frequente correspondência com o amigo André Gide e nela se descobre que este último considerava «La veuve Couderc» superior à obra «O Estrangeiro», de Camus, que tinha sido publicada quase ao mesmo tempo e apresentava um protagonista e temas semelhantes.
Ainda durante a Guerra, o autor vendeu os direitos de cinco romances, para serem transformados em filmes, à produtora Continental Films, fundada pelo governo alemão e que bania a participação de judeus. A produção de «Les inconnus dans la maison» introduziu com evidente exagero temas anti-semíticos, que nem sequer estavam presentes no texto original. A imprensa clandestina ligada à Resistência francesa começou a atacar ferozmente a produtora e todos os que negociassem com ela.
Em 1942, o Comissariado-Geral para as Questões Judias, estabelecido pelo governo colaboracionista de Vichy, notificou o autor de que suspeitavam da sua possível origem judia e que este tinha um mês para provar o contrário. Simenon conseguiu obter os documentos necessários através da mãe, mas o episódio fez com que este se mudasse com a família para uma aldeia mais isolada, na região de Vendée.
Em 1944, Régine descobriu por fim o prolongado caso extraconjugal que o marido mantinha com Boule, tendo o autor aproveitado para confessar os restantes e variados casos que alimentara. Concordaram manter o casamento, em nome da felicidade do filho, mas passaram a viver uma união livre de compromisso.
Em Novembro de 1944, no seguimento da retirada alemã, Simenon, Marc e Boule mudaram-se para um hotel, na cidade veraneante de Les Sable d’Olonne, enquanto Régine voltou à casa de família, em La Rochelle, agora abandonada pelos alemães. Em Janeiro de 1945, o autor foi colocado em prisão domiciliária pela polícia e membros da Resistência, sob suspeitas de colaboracionismo. Após três meses de investigações, foi ilibado de todas as acusações.
Viajou então até Paris, em Maio, deixando a restante família em La Rochelle. Por esta altura, receando que o Partido Comunista Francês tomasse o poder em França, decidiu emigrar para os EUA. Através dos vários contactos, reuniu a documentação necessária e mandou vir a família. Régine, todavia, só aceitava partir na companhia do filho se o marido deixasse Boule em território francês. Este, a muito custo, acedeu.
Chegaram a Nova Iorque em Outubro, mas depressa partiram rumo ao Canadá, tendo-se instalado na região de Ste-Marguerite du Lac Masson, a norte de Montreal. Em Novembro, Georges conheceu Denyse Ouimet, uma franco-canadiana de 25 anos, com quem depressa se envolveu e contratou enquanto secretária. Denyse mudou-se para a residência dos Simenon em Janeiro de 1946, tendo poucas semanas depois informado Régine do caso. O autor referiu-se de modo ficcionado ao relacionamento com Denyse nos romances «Trois chambres à Manhattan» (1946) e «Lettre à mon juge» (1947).
Viajaram de carro até à Flórida no Verão e depois foram a Cuba, de modo a obterem vistos de residência permanentes nos EUA. É durante a estadia na Flórida que o autor escreve «Lettre à mon juge», considerada uma das principais obras.
Em Junho do ano seguinte, voltaram a mudar, desta vez para o Arizona. Boule acabou por se juntar a todos, já em 1948, depois de Régine ter cedido à vontade do marido, que pretendia viver com três mulheres (uma esposa e duas amantes). Este manteve um ritmo de escrita intenso, trabalhando das 06h às 09h todos os dias, perfazendo uma média de 4500 palavras por sessão. Nesta fase, produziu dois livros da série Maigret e vários romances neutros, incluindo o bem-sucedido «A Neve Estava Suja», tendo a edição americana, brochada, vendido dois milhões de exemplares.
Denyse engravidou no princípio de 1949, motivando Simenon a pedir o divórcio a Régine. A primeira deu à luz Jean Dennis Chrétien Simenon, a 29 de Setembro. Régine mudou-se para a Califórnia, com o filho Marc e Boule, tendo Georges, Denyse e o novo bebé optado pela tranquila cidade de Carmel-by-the-Sea, nos arredores do estado, de modo a estarem perto de Marc. O divórcio foi oficializado em Junho de 1950 e o autor casou-se com Denyse no dia seguinte.
Os recém-casados seguiram depois para Lakeville, Connecticut, tendo alugado outra casa na região próxima de Salmon Creek para Régine, Marc e Boule. Nos cinco anos que ali passou, Simenon escreveu 13 livros da série Maigret e 14 outros romances, incluindo «La mort de Belle» (1952) e «L’horloger d’Everton» (1954).
Nesta fase, as vendas do autor cresceram até um máximo de três milhões de livros anuais e este foi eleito presidente da «Mystery Writers of America» (Associação de Escritores de Mistério). Simenon e Denyse deslocaram-se duas vezes à Europa, em 1952 e 1954. Na primeira, o autor foi aceite na Real Academia Belga.
Em Fevereiro de 1953, a mulher deu à luz uma filha, Marie-Georges Simenon. O autor decidiu então ressuscitar o velho esquema amoroso, convidando Boule para retomar o papel de amante e habitar na residência da família.
Chegado a 1955, Simenon concluiu estar desencantado com o modo de vida americano e preocupado com Denyse, que tinha o desejo de viver na Europa e estava cada vez mais distante do marido. Em Março desse ano, a família decidiu fazer férias no continente europeu e acabou por nunca mais voltar aos EUA.
Instalaram-se em território francês, em Mougins, perto de Cannes. Régine e Marc alojaram-se num hotel próximo. Simenon escreveu mais dois livros da série Maigret e dois romances neutros, ao longo dos primeiros seis meses de estadia na Riviera Francesa, embora continuasse em busca de residência definitiva. Em Julho de 1957, mudaram-se para um castelo próximo de Lausanne, na Suíça, tendo lá permanecido nos sete anos seguintes.
Em Maio de 1959, ela deu à luz outro filho, um rapaz chamado Pierre, que depressa ficou gravemente doente, embora tenha sobrevivido no final de um primeiro ano muito difícil. Nos finais de 1961, o casal deu emprego a Teresa Sburelin, uma jovem criada italiana que logo se tornou na nova amante do escritor, tendo com alguma surpresa permanecido sua companheira até ao fim.
Este continuou a escrever romances à média de três a cinco por ano, surgindo aqui dois dos mais conhecidos: «Le président» (1958) e «Les anneaux de Bicêtre» (1963).
Entretanto, a união com Denyse estava a degradar-se. Consumiam álcool em excesso e o escritor chegou mesmo a admitir ter batido na mulher. Em Junho de 1962, esta foi obrigada a dar entrada numa clínica psiquiátrica, durante vários meses. A família tinha estado embrenhada, desde 1961, na construção de uma nova casa em Epalinges, uma zona montanhosa acima de Lausanne. A mesma ficou pronta em Dezembro de 1963, mas Denyse limitou-se a lá viver alguns meses, antes de regressar à clínica.
Abandonou a residência em definitivo em Abril de 1964. Em Novembro desse ano, Simenon também dispensou Boule, que foi acolhida por Marc, agora um homem casado e com filhos.
Apesar do autor nunca se ter divorciado de Denyse, passou a viver em exclusivo com Teresa e três dos filhos: Jean, Marie e Pierre. Manteve o ritmo de escrita, concluindo três a quatro livros por ano entre 1965 e 1971, incluindo os conhecidos «O Santinho» (1965) e «O Gato» (1967).
Em Fevereiro de 1973, Simenon anunciou que ia deixar de escrever. Alguns meses depois, mudou-se com Teresa para uma pequena casa em Lausanne. Nunca mais escreveu uma linha, mas ditou 21 volumes de memórias.
Em Maio de 1978, Marie cometeu suicídio em Paris, com apenas 25 anos.
No derradeiro volume de memórias, em 1981, declarou:
Nunca se recupera da morte de uma filha amada. Fica um vazio impossível de preencher.
O autor sujeitou-se a uma operação ao cérebro em 1984, mas recuperou totalmente. Contudo, a partir de 1988 viu-se confinado a uma cadeira de rodas, tendo falecido em Setembro de 1989, no seguimento de uma queda.
Simenon publicou 192 romances em nome próprio, outros 200 sob vários pseudónimos, quatro autobiografias e 21 volumes de memórias. Escreveu ainda inúmeros contos. Os romances tinham vendido, até à sua morte, mais de 500 milhões de exemplares, fazendo dele um dos romancistas mais lucrativos de sempre.
A produção do autor é com frequência dividida entre as primeiras obras, escritas sob pseudónimo (a última das quais em 1933), a colecção Maigret (composta por 75 romances e 28 contos) e os 117 romances neutros (de capa dura).
Maigret
O primeiro livro da série editado em nome próprio foi «Maigret & Pietr, o Letão» em 1930. O derradeiro foi «Maigret & M. Charles» publicado em 1972.
Os primeiros títulos foram acolhidos de forma relativamente positiva, reconhecendo-se neles uma tentativa de elevar os padrões do género, na literatura francesa. Ainda assim, alguns críticos não evitaram observações jocosas acerca da velocidade com que os livros eram escritos: «O senhor Georges Simenon ganha a vida assassinando uma pessoa por mês e depois revelando o criminoso».
Os enredos caracterizam-se pelo reduzido tamanho, escrita simples e vocabulário restrito (que o autor estimava não ultrapassar as 2000 palavras). Segundo o próprio, tais livros eram dirigidos a um público de classe média e deveriam ser lidos de uma assentada.
Certos analistas consideram que estes primeiros volumes eram inovadores uma vez que o detective não se limitava a procurar indícios ou a utilizar a capacidade de raciocínio para descobrir o criminoso, preferindo imergir no estilo de vida e ambiente social da vítima e do pretenso assassino. Maigret procura quase sempre entender as razões do crime, em vez de simplesmente condená-lo.
De acordo com Simenon, os enredos de Maigret acabam com frequência por abordar temas mais complexos do que os presentes nos romances ditos sérios. Entre os mais comuns, estão a influência do poder político no sistema de justiça, preconceitos e divisões de classe, e a influência do contexto social (associada ao mero acaso) no futuro de um personagem, muitas vezes definindo se este redunda num criminoso ou num membro respeitável da sociedade.
Uma das críticas apontadas é a de que tais enredos são muitas vezes inverosímeis e inconsistentes embora se elogie a capacidade do autor em evocar determinada atmosfera ou sugerir reflexões acerca da psique humana.
Romances Neutros
O autor suspendeu a série Maigret em 1933, de modo a poder concentrar-se noutro género de romances, considerados de capa dura. Em 1937, confessou o desejo de vencer o Prémio Nobel no espaço de uma década.
Este considerava a escrita de um romance «uma paixão, que possuiu e escraviza completamente o autor, permitindo-lhe exorcizar os demónios ao atribuir-lhes forma e depois libertá-los no mundo». Acrescenta ainda que as suas obras são acerca «do homem despido, aquele que se observa ao espelho enquanto se barbeia e não alimenta qualquer ilusão acerca de si mesmo».
Alguma crítica corrobora com esta ideia, afirmando: «É muito difícil encontrar um protagonista nos enredos de Simenon que não pergunte a certa altura ‘quem sou eu, o que fiz eu com a minha vida?’».
Os seus romances neutros foram descritos enquanto «thrillers psicológicos, nos quais se exploram os recantos mais obscuros da mente humana e, numa prosa sólida, se cria uma atmosfera sinistra e original».
Afirma-se ainda que pouco importa se os enredos decorrem em França, África, ou Américas, pois os respectivos protagonistas sofrem os mesmos traumas e aflições, moldados à geografia local.
Os romances iniciais exibem muitos dos temas clássicos do autor: a vida nas ruas de Paris, a prostituição, os problemas das criadas domésticas e das lojistas, corrupção policial e as estações ferroviárias enquanto alegoria da fuga, comparando-se a preocupação do autor com as classes baixas àquela demonstrada por Balzac.
Além disso, existe uma forte componente autobiográfica na ficção de Simenon, com certos eventos por ele vividos a receberem uma leve capa de imaginário e a serem depois introduzidos num contexto social, criminal e psicológico extremado.
Romance publicado em 1938, acerca da queda imparável de um protagonista no mundo do crime e da loucura, no seguimento de imprevista ruína financeira. Surgiu uma versão cinematográfica em 1952.
Enredo
Kees Popinga, um respeitável e pacato cidadão holandês, supervisor de uma firma na cidade de Groningen, começa a revelar sinais de crescente perturbação, após descobrir que um subalterno, de natureza duvidosa, roubou e praticamente faliu a empresa.
Planeia falsear um suicídio para evitar as consequências e reúne uma vasta soma de dinheiro, de modo a escapar para Amsterdão. Alimenta a esperança de, lá chegado, ser bem acolhido pela amante do antigo patrão, Pamela. Esta, contudo, ri-se dos seus avanços e em geral despreza-o, contexto que o enfurece. Acaba mesmo por agredi-la e, sem querer, matá-la.
Enceta nova fuga apressada, que o leva até Paris. Adquire desde logo o hábito diário de comprar os diversos jornais que acompanham o desenrolar do caso.
O Inspector-Chefe Lucas, da Polícia Judiciária, mantém a forte convicção de que Popinga será capturado a qualquer momento, mas este consegue repetidamente frustrar essas expectativas. Começa inclusive a enviar cartas à Polícia e aos jornais, criando uma espécie de jogo do gato e do rato.
No seguimento, o protagonista mergulha cada vez mais num estado de espírito ilusório e doentio, imaginando-se um mestre do crime e convencendo-se que a mulher com quem se envolveu, uma prostituta chamada Jeanne Rozier, está genuinamente interessada nele e não em Louis, o proxeneta/namorado.
Numa fase posterior, junta-se ao grupo criminoso de Louis, um bando de ladrões de automóveis que lhe dão abrigo temporário. No entanto, a reputação de Popinga enquanto assassino perigoso, na mira das autoridades francesas, deixa-os inseguros e este é obrigado a valer-se sozinho.
Vagueia uns tempos pelas ruas de Paris e arredores, alojando-se durante a noite em hotéis baratos, na companhia de prostitutas.
Um dia, é vítima de um carteirista, vendo-se então desprovido de todo o dinheiro que lhe restava. No momento em que, por fim, ganha coragem para concretizar um verdadeiro suicídio, é capturado pela Polícia. As autoridades repatriam-no para a Holanda, onde termina os dias numa instituição para doentes mentais.









