Viveu entre 1903 e 1987. Romancista e ensaísta de origem belga, embora com nacionalidade francesa. Tornou-se depois cidadã americana, em 1947. Vencedora dos prémios Femina e Erasmus, foi também a primeira mulher eleita para a Academia Francesa, em 1980.
Yourcenar tem como nome de baptismo Marguerite Antoinette Jeanne Marie Ghislaine Cleenewerck de Crayencour. Nasceu na capital belga, Bruxelas, filha de Michel Cleenewerck de Crayencour, um riquíssimo proprietário de terras com raízes na burguesia francesa e Fernande de Cartier de Marchienne, uma belga com ascendência nobre, que morreu dez dias após o parto. Marguerite foi criada na residência da avó paterna e adoptou mais tarde o apelido Yourcenar – um anagrama quase perfeito do nome Crayencour – passando mesmo a ser este o nome legal a partir de 1947.
O primeiro romance, «Alexis», foi publicado em 1929. Em 1937, ocupou dez meses na tradução da obra «As Ondas» de Virginia Woolf’. Dois anos depois, foi convidada pela americana Grace Frick, sua companheira e professora de Literatura, a mudar-se para os EUA, de modo a escapar ao advento da II Guerra Mundial, na Europa. Marguerite aceitou e passou a dar aulas de Literatura Comparada, em Nova Iorque.
Yourcenar era, como se depreende, lésbica, tendo iniciado um relacionamento com Frick em 1937 que durou até à morte da segunda, em 1979. Após passarem uma década no estado do Connecticut, compraram casa no Maine, onde viveram longo período.
Foram enterradas lado a lado no cemitério de Brookside.
No ano de 1951, a autora publicou em França o romance Memórias de Adriano, escrito de forma intermitente ao longo de uma década. A obra revelou-se um sucesso imediato, sendo recebida com grande entusiasmo pelos críticos. Nela, Yourcenar recria a vida e morte de um dos maiores governantes do Mundo Antigo, o imperador romano Adriano. Este escreve uma longa carta a Marco Aurélio, filho e herdeiro de António Pio, sucessor e filho adoptivo do próprio Adriano. O imperador reflecte então sobre o passado, triunfos e derrotas, o amor pelo jovem Antínoo e a visão pessoal do mundo. O romance é hoje considerado um clássico dos tempos modernos.
Em 1980, Yourcenar transformou-se na primeira mulher a ser eleita para a Academia Francesa, situação que originou vários comentários humorísticos, como aquele que insinua terem sidos mudados os letreiros dos lavabos, numa instituição exclusivamente masculina, para que doravante se pudesse ler: «Homens/Marguerite Yourcenar». Esta foi ainda autora de outros romances, ensaios e poemas, bem como de uma trilogia de memórias. À data da morte, estava a laborar no terceiro volume, intitulado «O Quê? A Eternidade».
A residência da autora, no Maine, foi transformada em casa-museu.
Romance acerca da vida e morte de Adriano, imperador de Roma. Embora tenha existido uma autobiografia escrita pelo próprio, esta acabou por se perder.
Escrito em formato epistolar, identifica-se no enredo a ideia professada por Gustave Flaubert, acerca de uma dita «melancolia pelo mundo antigo».
Yourcenar menciona, em notas adicionadas à primeira edição, que escolheu Adriano enquanto protagonista do livro em certa medida porque este viveu numa época onde a fé nos deuses romanos tinha desaparecido e a fé no cristianismo ainda não estava cimentada. Essa atmosfera transitória deixou-a intrigada, pois estabelecia paralelos com o experimentado pela autora, na Europa do pós-guerra.
Esta começou a planear o livro entre 1924 e 1929, tendo escrito diversas versões, de forma intermitente, entre 1934 e 1937. A ideia de criar o enredo a partir do ponto de vista de um Adriano moribundo surgiu-lhe após a leitura de uma frase, num rascunho de 1937, onde este afirmava: «Começo a discernir a natureza da minha morte».
Contudo, não retomou o manuscrito de forma séria até Dezembro de 1948, uma vez que se deslocava com frequência entre Nova Iorque e o Connecticut. Segundo a autora, o objectivo era reinterpretar o passado, sem perder a autenticidade histórica.
Enredo
Romance na primeira pessoa, cujo protagonista é Adriano, autor de uma carta enviada a Marco Aurélio, logo no primeiro capítulo. Nos restantes, o leitor depara-se com uma narrativa cronológica pouco rigorosa, interrompida com frequência por memórias e pensamentos do imperador. Adriano, no momento com 60 anos, padece de uma doença incurável. Tenciona, por isso, deixar registados os principais acontecimentos da sua vida, antes de morrer.
As primeiras memórias são da infância passada em Itálica, uma antiga cidade romana situada naquilo que hoje é a região de Sevilha. Partilha também o precoce interesse pela astrologia e a duradoura paixão pelas artes, cultura e filosofia gregas, temas que se tornam recorrentes ao longo da narrativa. Estuda depois em Atenas, viaja até Roma e assiste à ascensão de Trajano, um imperador romano. Alista-se mais tarde no exército e integra a campanha na Dácia. No final da guerra, Adriano conta já trinta anos, mas exibe vários sucessos militares e desenvolve o relacionamento com Trajano, ainda que este o trate inicialmente com frieza. Porém, assegura com o tempo as boas graças do imperador e a consequente candidatura ao trono, ajudado pela mulher deste, Plotina e pelo casamento com Sabina, a sobrinha-neta de Trajano.
Durante o serviço militar, o resultado da campanha contra os Sármatas (actual Irão) afecta-o profundamente, devido à enorme carnificina e atrocidades cometidas. Começa também a questionar a utilidade da política expansionista defendida por Trajano. Este, já idoso, inicia outra campanha militar, desta vez fracassada, na Pártia (diferente parcela do Irão). Consumada a enorme derrota, o imperador nomeia apressadamente Adriano como seu sucessor, pouco antes de falecer. No seguimento, o protagonista manda executar, sem grande convicção, os rivais e termina de imediato as hostilidades com a Pártia. Viaja depois com frequência através das várias províncias do Império Romano, estabelecendo pelo caminho inúmeras reformas militares e económicas, de acordo com o professado lema «humanismo, liberdade, felicidade». Durante uma visita à Bretanha, descreve a construção da Muralha de Adriano, símbolo da política de ruptura com o antecessor, baseada no fim do militarismo e na promoção da paz.
A governação de Adriano origina uma época de paz e felicidade, que ele apelida de «Era de Ouro». Para tal, contribui igualmente o sentimento que o imperador nutre por Antínoo, um jovem belo que este conheceu na cidade grega de Nicomédia. Considera ainda que o amor é recíproco, pelo menos quando comparado com as aventuras de juventude ou o casamento frio que mantém com Sabina. Numa visita ao Egipto, cai em grande desespero ao saber da morte súbita e misteriosa do jovem, que se afoga no rio Nilo. Acaba por se convencer que Antínoo cometeu suicídio, de modo a alterar o curso de várias profecias que ambos haviam testemunhado pouco antes. No luto, desenvolve uma espécie de culto e planeia dedicar a construção de uma nova cidade ao falecido, num esforço para eternizar a memória deste.
Adriano analisa depois o próprio envelhecimento e a degradação do temperamento, dando como exemplo um episódio no qual, num acesso de raiva, provocou acidentalmente a cegueira da sua secretária. Outra preocupação é o início de uma rebelião na Judeia, contexto que o obriga a viajar e assumir o controlo das tropas. No decurso de um cerco fundamental, desespera com o fracasso dos planos de paz, o agravamento da saúde cardíaca e a posterior destruição na Judeia.
Murmura: «A Natureza falha, o destino muda, o deus observa tudo a partir do alto…».
Nos anos finais, passados entre Roma e a casa de campo em Tíbur, nos arredores da capital, reflecte acerca da sucessão e o pensamento foge-lhe para uma recordação que guardou de Marco Aurélio, um rapaz virtuoso e de bom coração.
Adriano, agora com idade avançada e fraca saúde, começa a recear a morte e pondera o suicídio de várias formas. Contudo, acaba por aceitar o destino com resignação, avaliando o recém-adquirido estatuto divino, transversal a todo o império.
À beira da morte, contempla o futuro do Mundo, de Roma e de si próprio.


