Pío Baroja

Viveu entre 1872 e 1956. Foi um dos principais romancistas da chamada Geração de 98. Pertenceu a uma família ilustre. O irmão Ricardo era pintor, escritor e gravador, o sobrinho, Júlio Caro Baroja, filho de Carmen, a irmã mais nova, era um famoso antropólogo.

Pío nasceu em San Sebastián, na província de Guipuzcoa. O pai era Serafin Baroja, também ele um conhecido escritor e autor de libretos.

O jovem Baroja estudou Medicina na Universidade de Valência e fez depois o doutoramento na Universidade Complutense, em Madrid, contava então 21 anos. Apesar da formação, exerceu durante muito pouco tempo, na vila de Cestona, no País Basco. As memórias que guardou dos tempos de estudante serviram depois de inspiração para o romance A Árvore da Ciência. Ficou ainda encarregue de gerir um negócio familiar (padaria) num curto período e candidatou-se duas vezes, sem sucesso, ao Parlamento espanhol, enquanto Republicano Radical. A sua real vocação, todavia, era e sempre fora a escrita, tendo começado a dedicar-se seriamente logo com 13 anos.

O primeiro romance do autor, «La casa de Aizgorri», surgido em 1900, está incluído numa trilogia conhecida como «Tierra vasca», concebida entre 1900 e 1909. A mesma inclui ainda «El mayorazgo de Labraz» (1903), que se transformou num dos seus livros mais famosos em Espanha. Nesta fase, publicou ainda «Camino de perfección» (1902), parte integrante de um conjunto de obras conhecido como Romances de 1902. Estes são considerados um marco na renovação do romance espanhol, estabelecendo a transição do realismo para o modernismo.

Baroja é ainda conhecido internacionalmente por outra trilogia, «La lucha por la vida» (1922-1924), onde estabelece um retrato vívido da existência nos bairros de lata em Madrid. O autor John Dos Passos nutria grande admiração por estes livros, tendo inclusive escrito acerca deles.

Outra obra importante, «Memorias de un hombre de acción» (1913-1931), elabora acerca de um dos antepassados do autor, que terá vivido na região basca no séc. XIX.

Uma das tetralogias tem por título «La mar», nela se incluindo «Las inquietudes de Shanti Andía» (1911), «El laberinto de las sirenas» (1923), «Los pilotos de altura» (1929) e «La estrella del capitán Chimista» (1930). Baroja dedicou-se ainda à escrita de uma biografia acerca de Juan Van Halen, um militar aventureiro espanhol.

A sua obra-prima, no entanto, é A Árvore da Ciência (1911), um bildungsroman pessimista que aborda a futilidade inerente à busca de conhecimento e à vida em geral. O título escolhido é simbólico: quanto mais o protagonista – Andres Hurtado – aprende e acumula experiências de vida, mais pessimista se sente e mais inútil lhe parece a existência.

Obedecendo à tradição literária espanhola, o autor optava quase sempre por um estilo derrotista e picaresco. A descrição hábil que fez das personagens e cenários que formam a região basca colocou a mesma no mapa. Os livros eram com frequência interessantes mas nem sempre donos de enredos apurados. Eram escritos num estilo arrebatado, vivo mas algo impessoal. Foi por vezes acusado de cometer erros gramaticais e nunca se deu ao trabalho de negá-lo.

Na juventude, Baroja defendia de forma vaga o anarquismo, à semelhança de outros integrantes da Geração de 98. Mais tarde, desenvolveu admiração pelos chamados «homens de acção», na linha do «super-homem» de Nietzsche. Conservadores e católicos tinham fraca opinião dele, tendo tido mesmo a vida em risco durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Descreve assim as suas crenças:

Fui sempre um liberal radical, um individualista e um anarquista. Em primeiro lugar, sou um inimigo da Igreja; em segundo lugar, sou um inimigo do Estado. Quando estes dois grandes poderes entram em conflito, tomo partido pelo Estado, contra a Igreja, mas no dia em que o Estado triunfa, transformo-me num inimigo do Estado. Se tivesse vivido durante a Revolução Francesa, teria sido um internacionalista pertencente à escola dos Anacharsis Cloots; durante as lutas pela liberdade, teria sido um dos Carbonieri.

Ernest Hemingway foi muito influenciado por Baroja, tendo-lhe comunicado, quando o visitou em Outubro de 1956, poucos dias antes da morte deste:

Permita-me que preste este singelo tributo à sua pessoa, uma vez que ensinou tanto a todos os jovens que pretendiam ser escritores. Lamento profundamente que ainda não tenha recebido o Prémio Nobel, já que o mesmo foi atribuído a tantos que o mereciam menos, como é o meu caso – não passo de um aventureiro.

O autor faleceu pouco depois, a 30 de Outubro e foi enterrado em Madrid.


Romance publicado em 1911, embora o enredo decorra entre os anos de 1887 e 1898. Trata-se de uma obra com traços autobiográficos, dividida em duas partes simétricas (I–III e V–VII). No centro, existe um longo diálogo filosófico entre o protagonista e o tio – Doutor Iturrioz (IV).

A primeira parte do romance aborda a vida do estudante de Medicina Andrés Hurtado. Através do retrato de familiares, professores, colegas e outros amigos, Baroja constrói um cenário rigoroso dos cidadãos de Madrid no séc. XIX, quer da burguesia, quer do proletariado.

A segunda parte foca-se na estadia de Hurtado (agora um médico) em Alcolea, uma vila fictícia situada na região de Castilla-La Mancha (onde o autor aproveita para demonstrar as péssimas condições de vida dos mais pobres, vítimas de caciquismo, ignorância, apatia e resignação), no regresso deste a Madrid (onde se destacam as agruras das prostitutas da época) e ainda no casamento infeliz do protagonista com Lulú, uma jovem que este conhecera nos tempos de estudante.

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