Ernest Hemingway

images (1)Viveu entre 1899 e 1961. Foi jornalista e escritor. O seu estilo contido e rigoroso – que o autor apelidou de «Teoria do Iceberg» – influenciou fortemente a Literatura do século XX. As gerações posteriores admiram-lhe ainda a vida aventurosa. Hemingway produziu a maioria dos seus textos entre as décadas de 20 e 50 do século XX, tendo ganho o Prémio Nobel da Literatura em 1954. Publicou sete romances, seis colectâneas de contos e dois trabalhos de não-ficção. Postumamente, viram ainda a luz do dia mais três romances, quatro colectâneas de contos e três trabalhos de não-ficção. Muitas destas obras atingiram o estatuto de clássicos na Literatura Americana.

Cresceu no Illinois. Terminados os estudos, trabalhou curto período para um jornal antes de se voluntariar como condutor de ambulâncias durante a Primeira Guerra Mundial, em 1918. Acaba por ser ferido com gravidade e retorna a casa. Esta experiência está na base do seu romance «O Adeus às Armas» (1929).

Em 1921, casou-se com Hadley Richardson, a primeira das suas quatro mulheres. Mudam-se para Paris, onde ele trabalha como correspondente e se deixa influenciar literariamente pela comunidade de artistas e escritores modernistas expatriados aí existente nos anos 20, conhecida como a «Geração Perdida». O seu romance de estreia, «Fiesta» na edição portuguesa, é publicado em 1926. Divorcia-se da mulher no ano seguinte, casando-se com Pauline Pfeiffer, relação que por sua vez termina após regressar da Guerra Civil Espanhola, onde cumpriu o papel de jornalista. Transforma essa nova experiência bélica no romance «Por Quem os Sinos Dobram» (1940). Nesse ano, Martha Gellhorn transforma-se na sua terceira mulher, mas separam-se depois do autor conhecer Mary Welsh em Londres, durante a Segunda Grande Guerra. Presenciou o Desembarque da Normandia e a libertação de Paris.

Pouco depois da publicação de O Velho e o Mar (1952), Hemingway partiu para um safari em África, onde esteve à beira de perder a vida por duas vezes, sempre na sequência de desastres aéreos. Apesar de sobreviver, nunca mais recuperou na totalidade, passando a doença e a dor crónica a ser habituais na sua vida. Viveu em Key West, na Flórida (nos anos 30) e em Cuba (nos anos 40 e 50). No ano de 1959, comprou uma casa no Idaho, onde em meados de 1961 cometeu suicídio.

 

Ernest Hemingway nasceu no ano de 1899, em Oak Park, Illinois, um subúrbio de Chicago. O pai era médico e a mãe era artista de música. Formavam uma família culta e respeitada numa comunidade de cariz conservador. O nome Ernest vem-lhe do avô materno, tendo o autor confessado o seu desamor a tal escolha por associá-lo ao «herói ingénuo e meio tolo da peça de Oscar Wilde – ‘A Importância de se Chamar Ernesto’». Viviam num bairro conceituado, numa casa de sete quartos, onde a mãe mantinha o estúdio de música e o pai o consultório médico.

A mãe dava frequentes concertos na comunidade e arredores. Hemingway confessou mais tarde a sua má relação com a progenitora, apesar de alguns biógrafos considerarem que o autor herdou desta o carácter enérgico e entusiasta. Parte dos conflitos advinham da insistência maternal para que este aprendesse violoncelo, ainda que Ernest tenha admitido que tais aulas acabaram por ajudá-lo na escrita, nomeadamente nas questões de ritmo. Os Verões eram passados num lago, na zona de Michigan. O pai ensinou-o a caçar, pescar e acampar nos bosques, lições que despertaram nele a paixão pela aventura e pela vida nómada, sobretudo em zonas remotas.

Frequentou o ensino entre 1913 e 1917, tendo participado em inúmeros desportos – boxe, caminhada, pólo aquático e futebol americano. Era brilhante em Inglês, tendo ainda actuado na orquestra da escola durante dois anos. Cursou também uma cadeira de jornalismo, organizada «como se a sala de aula fosse uma redacção», podendo depois os melhores alunos publicar textos no jornal da escola. O primeiro trabalho de Ernest, surgido em 1916, falava de uma actuação local da Orquestra Sinfónica de Chicago. Acabou por se tornar editor do jornal.

À semelhança de Mark Twain, Hemingway começou por ser jornalista antes de se transformar num escritor. Trabalhou por isso seis meses num jornal de pequena dimensão, como repórter. Apesar do pouco tempo em funções, considera tal experiência uma parte essencial na sua formação literária, devido aos conselhos práticos recebidos: «Usa frases curtas. Começa o texto com parágrafos pequenos. Escolhe uma linguagem forte e positiva».

Nos inícios de 1918, alistou-se como condutor de ambulâncias, em Itália. Abandonou Nova Iorque em Maio tendo chegado a Paris numa altura em que a cidade estava debaixo do fogo da artilharia alemã. Em Junho, chegou à Frente Italiana. Foi provavelmente por esta altura que conheceu pela primeira vez o autor John Dos Passos, com quem manteve uma relação difícil durante décadas. No seu primeiro dia em Milão, foi enviado a socorrer as vítimas de uma explosão numa fábrica de munições, vendo-se obrigado a recolher os cadáveres mutilados das trabalhadoras. Registou esses momentos numa obra de cariz jornalístico, «Morte à Tarde»:

Recordo-me que depois de uma busca intensa por cadáveres, acabámos a recolher pedaços.

A 08 de Julho, foi ferido com gravidade por fogo de morteiro, quando regressava da cantina. Apesar dos ferimentos, ajudou os soldados italianos a atingirem um local seguro, acto que lhe valeu uma condecoração por bravura, com a tenra idade de 18 anos. Sobre isso, comentou:

Quando se vai para a guerra em jovem, estamos completamente dominados pela ilusão da imortalidade. Os outros morrerão, nunca nós…depois de ficarmos feridos com gravidade, essa mentira desvanece-se e sabemos que nos pode acontecer a qualquer momento.

Sofreu extensos ferimentos provocados por estilhaços em ambas as pernas, teve de ser submetido a uma intervenção imediata e passou cinco dias num hospital de campanha antes de ser transferido para uma unidade da Cruz Vermelha milanesa, de modo a poder recuperar. Esteve depois seis meses nesse hospital, onde formou diversas amizades de longa duração.

Durante essa fase, apaixonou-se pela primeira vez por uma enfermeira de nome Agnes von Kurowsky, sete anos mais velha. Chegada a altura de ter alta e regressar aos Estados Unidos, já em Janeiro de 1919, decidiram casar dali a alguns meses, em território americano. Contudo, em Março, esta escreveu-lhe para confessar que tinha ficado noiva de um oficial italiano. Conta-se que o autor ficou devastado com este episódio, nascendo aí o padrão que passou a adoptar nos relacionamentos futuros: abandonar as mulheres antes de ser abandonado por elas.

Ao regressar a casa, Ernest viu-se forçado a passar por um período de adaptação. Com apenas 20 anos, demonstrava já uma maturidade obtida na Guerra que não se coadunava com o facto de passar os dias em casa, desempregado e convalescente.

Era impossível explicar aos pais o que se sente quando se olha para um joelho ensanguentado. O medo que nos domina quando estamos num país estrangeiro na presença de cirurgiões que não nos conseguem explicar em inglês se nos vão cortar a perna ou não.

Chegado o mês de Setembro, decide partir num passeio pelos bosques de Michigan, em busca de caça e pesca, na companhia de velhos amigos. O episódio serve de inspiração para o conto «O Grande Rio de Dois Corações», no qual uma personagem semi-autobiográfica de nome Nick Adams se refugia no campo em busca de solidão, após regressar da Guerra. Pouco depois, um amigo da família oferece-lhe um emprego em Toronto. Sem nada para fazer, decide aceitar. Torna-se então jornalista interno e freelance para um jornal local. Regressa a casa no Junho seguinte e muda-se para Chicago em Setembro de 1920, para viver com amigos.

Aí, arranja emprego como editor num jornal mensal. Pouco depois, o acaso coloca-o no caminho de Hadley Richardson, por quem de imediato se sente atraído. Afirmará mais tarde que «sabia ser aquela a mulher com quem casaria». Hadley, ruiva e dona de um «instinto maternal», tinha mais oito anos que ele, mas apesar de mais velha, tinha sido educada num ambiente demasiado protegido, pelo que se revelava menos madura do que seria de esperar numa mulher daquela idade. É possível que esta se assemelhasse em certas coisas a Agnes, ainda que fosse dona de uma infantilidade que a outra não tinha. Trocam cartas alguns meses e decidem depois casar e viajar pela Europa. Os planos passam por visitar Roma, mas acabam por começar em Paris, onde o autor tinha mais contactos. Casam-se em 1921 e dois meses depois este arranja trabalho como jornalista freelance, situação que lhes permite partir. Hemingway parece enfim obter tudo o que sonhara: o amor de uma bela mulher, um salário confortável, uma vida na Europa.

Em Paris o autor irá conhecer «as pessoas mais interessantes do mundo»: Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound (que ajudava frequentemente jovens escritores) entre vários outros.

O Hemingway destes primeiros anos em França era um homem «alto, bem-parecido, sólido, de olhos castanhos, rosto bronzeado e voz doce». Vive com a mulher num pequeno apartamento do Bairro Latino e trabalha num quarto alugado situado nas imediações. Stein, bastião do Modernismo em Paris, torna-se a sua mentora e madrinha do filho Jack. Apresenta-o a outros artistas e escritores expatriados do bairro de Montparnasse, que ela baptiza de «Geração Perdida» – termo popularizado pelo próprio Hemingway com a publicação de «Fiesta». Frequentador regular da casa de Stein, conhece pintores famosos como Pablo Picasso e Joan Miró. Com o tempo, vai-se no entanto afastando da protecção de Stein e a relação de ambos degrada-se até se transformar numa «guerra literária», que se prolonga por décadas. Um dia, encontra Ezra Pound por acaso numa livraria, corre o ano de 1922. Fazem depois juntos uma viagem a Itália em 1923 e vivem na mesma rua, em 1924. Constroem com o tempo uma amizade sólida e Pound vê nele um jovem talento, que decide proteger. Apresenta-o a James Joyce e a partir daí, estes embarcam em frequentes «festas do álcool».

Nos primeiros dois anos em Paris, Hemingway enviou 88 peças para o jornal de Toronto. Faz a cobertura da guerra entre a Grécia e a Turquia e escreve ainda artigos de viagens e sobre pesca. Fica entretanto desolado ao saber que a mulher perdeu uma mala recheada de manuscritos na Gare de Lyon ao viajar ao encontro dele, para Genebra, no Natal de 1922. Regressam a Toronto para o nascimento de outro filho, no ano seguinte. Publica o que lhe restou do incidente com a mala. Farta-se rapidamente de Toronto, que considera aborrecida, ansiando por voltar a Paris e à vida de escritor, afastando-se cada vez mais das rotinas de jornalista.

Regressam a França em 1924. Hemingway colabora na edição de trabalhos de Pound, John Dos Passos e Stein, e também dele próprio em revistas da especialidade. A crítica, cada vez mais atenta ao seu trabalho, destaca-lhe a capacidade para rejuvenescer o conto enquanto género literário, através do seu estilo directo e incisivo. Entretanto, conhecera F. Scott Fitzgerald, tendo com ele formado uma amizade baseada em «admiração mas também hostilidade». Fitzgerald tinha publicado «O Grande Gatsby» nesse mesmo ano. Hemingway leu, gostou e decidiu que o seu trabalho seguinte tinha de ser um romance.

Na companhia da mulher, tinha visitado o festival de São Firmino, em Pamplona, no ano de 1923, tendo desde logo descoberto o fascínio pelas corridas de touros. Regressam ao evento em 1924 e de novo em 1925. Alguns dias depois, começa a escrever um primeiro ensaio da obra mais tarde conhecida como «Fiesta», com a versão final a aparecer passados dois meses. Em Dezembro desse ano, a família decide passar o Inverno na Áustria, onde são visitados por uma amiga, Pauline Pfeiffer, já em Janeiro. Contra a opinião da mulher, decide seguir o conselho de Pauline e assinar um contrato com uma editora, situação que o obriga a fazer uma curta viagem a Nova Iorque, na companhia desta. De regresso, visitam Paris, local onde iniciam um caso amoroso, só voltando à Áustria em Março. O livro acaba por ser publicado em Outubro.

Revela-se um agradável sucesso, enquanto símbolo da referida «Geração Perdida» e visto como «o melhor trabalho do autor até à data». Hemingway fará notar mais tarde que o tema do livro era menos sobre uma geração «perdida» e mais sobre a capacidade de celebração e criação da mesma, em meio adverso.

O casamento com Hadley estava em queda e por volta de 1926, esta descobriu o caso amoroso com Pfeiffer. Decide separar-se e pede o divórcio definitivo em Novembro desse ano. O processo conclui-se em princípios de 1927. Hemingway casa-se com Pfeiffer em Maio.

Esta, originária de uma rica família católica do Arkansas, muda-se para Paris em trabalho para a revista «Vogue». Antes do casamento, Hemingway converte-se ao catolicismo. Começa a planear uma nova colecção de contos, «Homens sem Mulheres», publicada em 1927. O sucesso repetiu-se.

No final desse ano, Pauline fica grávida e decide regressar a casa. O amigo John Dos Passos recomenda-lhes Key West, pelo que decidem deixar a capital francesa em Março de 1928. Pouco antes, Hemingway sofrera uma grave lesão na casa de banho da residência de Paris, situação que lhe valeu uma enorme e definitiva cicatriz na cabeça. Depois disto, o autor «nunca mais viveu numa grande cidade».

Mudam-se algum tempo para o Kansas, local onde nasce o filho de ambos após um parto difícil, situação transposta para a ficção na obra «O Adeus às Armas». Viajam algum tempo, e chegado o Inverno, encontram-se numa estação de comboios em Nova Iorque, de partida para a Flórida, quando chega a notícia de que o pai de Ernest se suicidou. Este fica devastado, sobretudo porque escrevera ao progenitor para o tranquilizar acerca das dificuldades financeiras. A carta acaba por chegar pouco depois da fatalidade.

Já de regresso a Key West, Hemingway dedica-se ao manuscrito de «O Adeus às Armas». Demora-se no texto final durante meses, tendo reescrito perto de 17 versões. A publicação surge apenas em Setembro, mas a crítica considera o trabalho «a prova definitiva da maturidade literária do autor, com um nível de complexidade ausente em ‘Fiesta’». Já a meio de 1929, inicia a pesquisa para o livro seguinte, «Morte à Tarde», uma tentativa de ensaio sobre a arte taurina, considerada por ele «de grande interesse trágico, ao lidar com os fenómenos de vida e morte».

Na década de 30, adquire o hábito de passar os Invernos na Flórida e os Verões no Wyoming, local onde descobre «uma das mais belas regiões do Oeste». Dedica-se à caça de veados, ursos e outros animais. O amigo Dos Passos junta-se a ele, em Novembro de 1930. Ao dar-lhe uma boleia a partir da estação, sofre um acidente de carro e parte um braço. Passa sete semanas no hospital e conta com o apoio de Pauline. Contudo, os nervos do braço direito, essencial para a escrita, levam um ano a cicatrizar e o autor padece de dores intensas e constantes durante esse período.

O terceiro filho nasce um ano depois, em 1931. O tio de Pauline compra-lhes uma casa em Key West e o segundo andar é transformado num estúdio de trabalho. Diz-se que a localização – numa rua bem iluminada – era essencial para que o autor a encontrasse depois das longas noites de bebida, no bar local onde se reunia com os amigos, incluindo Dos Passos. Fazia visitas frequentes à Europa e a Cuba. Apesar de ter declarado que «temos uma bela casa aqui e os miúdos são felizes», muitos acreditam que o seu espírito estava «sempre inquieto».

Em 1933, Hemingway e Pauline partem para um safari na África Oriental, numa viagem de dez semanas. Daqui se retira o material para diversas obras, incluindo os contos «As Neves do Kilimanjaro» e «A Vida Breve e Feliz de Francis Macomber». Passam pelo Quénia, Serengueti e muitos outros locais. O autor adoece a certa altura, com disenteria, o que o força a ser evacuado de avião. Regressa a casa em 1934, começando a trabalhar em novo livro, menos bem-sucedido que os anteriores.

Nesse ano compra um barco e faz várias viagens pelas Caraíbas. Publica mais um livro, em 1937 – «Ter e Não Ter».

Nessa altura, aceita fazer a reportagem da Guerra Civil Espanhola e chega a Espanha em Março na companhia de um realizador holandês, que estava fazer um filme propagandístico para os Republicanos. Este propõe-lhe que substitua John Dos Passos como argumentista, já que aquele abandonara o projecto depois da prisão e execução de um amigo. O caso acabou por mudar a opinião de Dos Passos sobre o movimento, o que por sua vez originou uma discussão com Hemingway, tendo este espalhado o boato de que o amigo abandonara o país por ser um cobarde.

Uma amiga recente, a jornalista e escritora Martha Gellhorn, junta-se a ele em Espanha. Esta era originária de St. Louis, como Hadley, e trabalhara para a «Vogue», como Pauline. No entanto, «nunca lhe foi subserviente, ao contrário das anteriores», diz-se. Em finais de 1937, desloca-se a Madrid com Martha e aproveita para escrever uma peça de teatro, por entre bombardeamentos franquistas. Regressa a Key West alguns meses, mas logo torna a Espanha por duas vezes em 1938, onde testemunha a Batalha do Ebro, o último bastião Republicano.

Chegado a 1939, Hemingway parte rumo a Cuba no seu barco, decidido a viver no Hotel Ambos Mundos, em Havana. Estava já em marcha o lento e penoso divórcio com Pauline, provocado pela relação do autor com Martha Gellhorn. Esta junta-se de imediato a ele e decidem alugar Finca Vigia, uma propriedade de 61 000 m2, a 24 kms de Havana. Pauline e as crianças abandonam-no nesse Verão, e terminado o processo, este casa com Martha em Novembro de 1940.

À semelhança do que fizera depois do divórcio com Hadley, reorganiza as residências de Verão e Inverno, estabelecendo a base de Verão no Idaho e a de Inverno em Cuba. Hemingway, que na juventude revelara algum desamor pelos gatos, sobretudo no período de Paris, descobre uma paixão oculta por estes animais na fase cubana, criando inúmeros na sua nova propriedade.

O relacionamento com Gellhorn trouxe-lhe inspiração para escrever o seu romance mais famoso, «Por Quem os Sinos Dobram», trabalho que começou em 1939 e terminou em 1940. Foi publicado no final desse ano. Manteve o hábito de se deslocar constantemente durante a feitura do livro, tendo alternado entre Cuba, Wyoming e Sun Valley. A obra vendeu meio milhão de exemplares, foi nomeada para um Pulitzer e «reforçou a reputação literária de Hemingway».

No início de 1941, Martha seguiu em trabalho para a China. Hemingway acompanhou-a, mas a experiência não lhe agradou. Regressam a Cuba antes do fim do ano, à beira da Declaração de Guerra por parte dos EUA.

Entre Maio de 1944 e Março de 1945, o autor alternou entre várias cidades da Europa, sobretudo Londres. É lá que conhece uma jornalista da «Time Magazine», Mary Welsh, por quem se interessa bastante. Martha tinha-se visto forçada a atravessar o Atlântico num navio de mercadorias, carregado de explosivos, já que o companheiro se recusara a fornecer-lhe um passe de imprensa, num avião. Quando finalmente chega a Londres, encontra Hemingway hospitalizado e com um traumatismo craniano, à conta de novo acidente de automóvel. Indiferente ao sucedido, acusa-o de ser um bruto insensível e informa-o que entre eles está «tudo terminado, sem perdão». Encontram-se pela última vez quando ele se prepara para regressar a Cuba, concluindo-se o divórcio no final de 1945. Entretanto, logo no terceiro encontro, Ernest tinha feito um pedido de casamento a Mary Welsh.

Hemingway esteve presente no Desembarque da Normandia, ainda a recuperar do acidente, embora tenha sido considerado «passageiro VIP» e proibido de ir a terra. O navio manteve-se ao largo da costa até cair sob fogo inimigo e voltar para trás. O autor escreverá mais tarde ter visto:

Uma, duas, três, quatro, cinco vagas de ataque a tombarem assim que desembarcavam, enchendo de corpos pesados aquela estreita faixa de areia.

Nesse mês de Julho, junta-se ao 22º Regimento de Infantaria, no seu trajecto até Paris, atrevendo-se depois a liderar um pequeno grupo de milícias às portas da cidade. Historiadores afirmam que:

Hemingway meteu-se numa carga de trabalhos ao decidir brincar às guerras com a ajuda de um grupo de rebeldes franceses, uma vez que não cabe a um jornalista liderar tropas, ainda que o saiba fazer bem.

Contudo, é ilegal aos olhos da Convenção de Genebra e este foi levado à Justiça, que o absolveu após aceitar o seu argumento de que tinha apenas «oferecido conselhos teóricos».

No dia 25 de Agosto, esteve presente na Libertação de Paris, ainda que ao contrário do que diz a lenda, não tenha sido o primeiro a chegar à cidade nem tenha libertado o Hotel Ritz. Visitou contudo alguns amigos, incluindo Picasso, na companhia da nova mulher. Entusiasmado, faz as pazes com Gertrude Stein. Por esta altura, está totalmente recuperado de uma pneumonia, contraída em Dezembro de 1944 numa viagem ao Luxemburgo, quando lá se deslocou para tentar fazer a reportagem de uma importante batalha.

Em 1947, recebe uma condecoração militar por bravura e serviços prestados durante a Segunda Guerra.

Considera ter sido «inexistente enquanto escritor» entre 1942 e 1945. Em 1946, casa então com Mary, que sofre uma gravidez ectópica cinco meses depois. A família Hemingway mergulhou então numa série de acidentes e problemas de saúde nos anos que se seguiram à Guerra. O autor envolve-se em mais um desastre de automóvel, em 1945, no qual «desfez o joelho e sofreu outro grande golpe na testa». Mary parte o tornozelo direito e depois o esquerdo em sucessivos acidentes de esqui. Em 1947, é o filho Patrick quem sofre um acidente de viação, que lhe vale uma ferida na cabeça e outras complicações sérias.

Como se não bastasse, o autor tomba progressivamente numa depressão, ao ir sendo informado da morte de diversos companheiros de escrita. William Butler Yeats em 1939, Scott Fitzgerald em 1940, James Joyce em 1941, Gertrude Stein em 1946, o seu próprio editor em 1947. É ainda atormentado por inúmeras maleitas, desde enxaquecas a pressão arterial alta, passando por problemas de peso e até diabetes – quase tudo em resultado dos inúmeros acidentes ao longo da vida e dos problemas com o álcool. Tenta, contra todas as expectativas, mergulhar em novos livros, mas apesar de escrever centenas de páginas, nada vê a luz do dia.

Em 1948, Hemingway e Mary voltam à Europa, desta vez para Veneza, onde ficam vários meses. Nesse período, o autor cede a nova paixão – desta vez platónica – por uma rapariga de 19 anos de nome Adriana Ivancich. O caso dá origem ao livro «Na Outra Margem, entre as Árvores», escrito em Cuba numa fase de menor fulgor da sua relação com Mary, tendo sido publicado em 1950, sem sucesso. Furioso com o resultado, lança-se na feitura da primeira versão de O Velho e o Mar, trabalho que lhe ocupou dois meses. Do livro dirá que:

É o melhor que sei fazer, hoje e até ao fim dos meus dias.

A obra revela-se um sucesso imediato, transforma-o numa celebridade internacional e granjeia-lhe até o Prémio Pulitzer em Maio de 1952, um mês antes da segunda viagem a África.

Já em 1954, ainda em África, fica à beira de perder a vida por duas vezes, em desastres de avião. Começou por alugar um avião turístico numa viagem através do Congo Belga, como presente de aniversário para a mulher. Durante o percurso, chocam com um obstáculo inanimado e despenham-se na vegetação. O autor sofre mais uma ferida na cabeça e a mulher parte duas costelas. No dia seguinte, manifestam a intenção de obter melhores cuidados de saúde numa vila próxima, pelo que embarcam num segundo avião que sofre uma explosão na descolagem. Hemingway sofre diversas queimaduras e outro traumatismo craniano, este grave o suficiente para lhe provocar uma hemorragia de fluido cerebral. Quando finalmente atingem a civilização, alguma imprensa está já no processo de reportar-lhes a morte. Esclarece tudo com os jornalistas e passa as semanas seguintes no recobro, a ler os diversos obituários que lhe foram escritos.

Apesar dos inúmeros problemas, decide acompanhar um casal amigo numa pescaria, no Fevereiro seguinte, ainda que a dor permanente o torne irascível e mau companheiro. Incrivelmente, o azar continua a persegui-lo. São afectados por um fogo na mata, que lhe agrava o estado de saúde: queimaduras nas pernas, tronco, lábios, mão esquerda e antebraço direito. Mary acaba por confessar a amigos a verdadeira extensão das lesões do marido: duas vértebras partidas, rupturas num rim e no fígado, um ombro deslocado e fracturas no crânio. Tudo isto precipitou uma total decadência física nos meses seguintes. Já de si um «alcoólico controlado durante grande parte da vida», Hemingway iniciou a descida final rumo aos infernos da bebida, de modo a adormecer a intensa dor física provocada pelas lesões.

Em Outubro de 1954, recebe o Prémio Nobel da Literatura. Aceita-o com modéstia, embora satisfeito com as vantagens monetárias. Comenta-se que o autor:

Desejara tal reconhecimento anteriormente, mas no momento da vitória, por esta surgir pouco depois de toda aquela sequência de acidentes, suspeitou que o prémio era uma espécie de consolação por parte da Academia.

Atormentado pela dor, recusa viajar até Estocolmo, tendo enviado um discurso escrito, que acaba por resumir o que foi a sua vida:

Ser escritor é ter – na melhor das hipóteses – uma vida solitária. Existem diversas organizações e dinâmicas que podem aliviar-lhe a solidão, mas duvido que lhe melhorem a escrita. Quanto mais cresce o seu perfil público, maior é a sua solidão interna e mais decadente se torna o seu trabalho. Este deve ser feito em isolamento, e se tiver qualidade suficiente, o escritor deve confrontar-se com a eternidade – ou falta dela – diariamente.

Entre 1955 e 1956, Hemingway esteve acamado. Foi-lhe aconselhado que parasse de beber para poupar o fígado, sugestão que tentou – sem sucesso – seguir. Em Outubro desse ano, viajou para a Europa para conhecer o escritor basco Pio Baroja, já muito doente, tendo mesmo falecido pouco depois. A viagem agrava-lhe o estado de saúde, sobretudo «a pressão alta, a doença de fígado e a arteriosclerose».

Já em Novembro, numa visita a Paris, é-lhe relembrado que deixou um conjunto de malas no Hotel Ritz, nos idos de 1928, que nunca chegou a recolher. Ao fazê-lo, repara que estas estão cheias de apontamentos e cadernos acerca dos seus anos dourados na capital francesa. Entusiasmado com a descoberta, regressa a Cuba e nos princípios de 1957 começa a dar forma às notas, construindo aquilo que se transformará no seu livro de memórias, «Paris é uma Festa». Mantém um período de intensa actividade até 1959, altura em que termina o livro de memórias e outros projectos. Pouco depois, tomba em definitivo na depressão, da qual já não consegue sair.

A propriedade de Finca Vigia torna-se um chamariz para convidados e turistas, pelo que Hemingway, cada vez mais desagradado com a situação, pondera regressar definitivamente a Idaho. Adquire uma casa nessa zona e abandona a ilha, apesar de manter bom relacionamento com Fidel Castro, tendo mesmo declarado à imprensa americana o seu «alegre entusiasmo» com o derrube do ditador Batista. Ainda faz uma visita no ano seguinte, para celebrar o 60º aniversário, passando também por Pamplona antes do regresso a Idaho, mas confirma a decisão de partir depois de saber que o novo governante tenciona nacionalizar toda a propriedade estrangeira. A partida definitiva ocorre a 25 de Julho de 1960, tendo o autor deixado para trás diversas coisas num cofre de Havana, incluindo manuscritos. Depois da Invasão da Baía dos Porcos, em 1961, Finca Vigia será expropriada pelo governo cubano, juntamente com a colecção de livros do escritor, formada por «quatro a seis mil livros».

No Verão de 1960, montou um pequeno escritório em Nova Iorque, numa tentativa de trabalhar, mas abandonou a ideia pouco depois. Faz uma viagem sozinho para Espanha, de modo a ser fotografado para a capa da revista «Life». Poucos dias depois, surge a notícia de que está seriamente doente, quase moribundo, o que provoca o pânico de Mary, que só acalma quando recebe notícias dele: «Boatos. A caminho de Madrid. Beijos, Papa». Porém, o autor estava de facto muito em baixo, quase à beira de um esgotamento. Sozinho, cai de cama durante dias, resguardando-se no silêncio. Em Outubro, regressa por fim a casa e recusa-se a sair do apartamento da mulher em Nova Iorque, revelando indícios de paranóia. Partem assim que possível para Idaho, debaixo de acompanhamento médico.

A sua preocupação com questões financeiras e de segurança torna-se quase permanente. Deixa-se atormentar por problemas de impostos e pela impossibilidade de regressar a Cuba para recuperar os manuscritos lá deixados. A paranóia aumenta, envolvendo querelas com o FBI, quase todas falsas. Em fins de Novembro, Mary estava esgotada e um médico amigo sugere o internamento do autor numa clínica do Minnesota, estando este convencido que ia receber tratamento para a hipertensão. O FBI tinha de facto acompanhado a vida de Hemingway desde a Segunda Guerra, sobretudo o período cubano, e talvez a paranóia do autor em relação a isso não fosse completamente errada. Procurando manter o anonimato, dá entrada no local sob um nome falso. Os tratamentos lá recebidos são ainda hoje alvo de alguma polémica, estando todavia confirmadas as sessões de eletrochoques, num mínimo de quinze, tendo o escritor tido alta no princípio de 1961 «num estado calamitoso». Obtido o acesso aos registos clínicos, concluiu-se que a combinação de medicamentos administrada acabou por contribuir para o seu estado depressivo, forçando o violento tratamento posterior.

Passados três meses, Mary encontrou o marido com uma caçadeira nas mãos, sentado na cozinha. Chamou o médico, que o sedou e fez regressar primeiro ao hospital e depois à mesma clínica, onde foi submetido a nova dose de eletrochoques. Voltou a ter alta em Junho, regressando a Idaho no fim desse mês.

Dois dias depois, a 02 de Julho de 1961, Hemingway conseguiu finalmente os seus intentos, suicidando-se «convictamente» com a caçadeira preferida.


transferirRomance curto publicado em 1952 e considerado o melhor trabalho do autor. Conta-nos a história de Santiago, um envelhecido pescador cubano em luta com um espadarte gigante, ao largo da ilha de Cuba.

Recebeu no ano seguinte o Prémio Pulitzer, que se revelou um grande impulso para a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, em 1954.

A narrativa começa por nos dizer que Santiago passou 84 dias sem apanhar um único peixe, sendo agora visto como alguém «embruxado». A maré de azar é tão grande que o seu jovem aprendiz, Manolin, está proibido pelos pais de navegar com ele, sendo aconselhado a juntar-se a outros pescadores. O rapaz, apesar disso, visita a cabana de Santiago todas as noites. Trata do equipamento de pesca, prepara a comida, fala de basebol americano e do seu jogador preferido, Joe DiMaggio. Santiago confessa a Manolin que no dia seguinte irá aventurar-se ao largo da costa, rumo ao Golfo e ao lado norte da ilha, quase à beira da Flórida, de modo a exorcizar os problemas em definitivo.

Assim, no 85º dia, Santiago faz-se ao mar, prepara o equipamento, e perto do meio-dia, nota que o isco foi mordido por um peixe de grande porte, que ele acredita ser o espadarte. Incapaz de o dominar, é pelo contrário puxado por este, passando um par de dias e noites agarrado à linha. Apesar de ferido pela luta e dominado pela dor, Santiago desenvolve um apreço emocionado pelo adversário, apelidando-o com frequência de «irmão». Decide ainda que, em nome da dignidade do animal, mais ninguém terá o direito de o comer.

Entrados no terceiro dia, o peixe começa a andar em círculos. Santiago, esgotado e quase delirante, reúne as forças que lhe restam para puxar o peixe e atingi-lo com um tiro de arpão. Amarra o adversário na lateral do barco e regressa a casa, fazendo contas ao preço do peixe no mercado e a quantas pessoas conseguirá alimentar com ele.

Ao aproximar-se da costa, o sangue do espadarte começa a atrair vários tubarões. Santiago mata um deles, enorme, mas perde a arma no processo. Consegue fabricar uma nova, amarrando uma faca na ponta de uma lança, e disso se serve para combater nova fornada de tubarões. Cinco são mortos e muitos outros são afugentados. Revelam-se contudo inúmeros e irredutíveis, pelo que caída a noite, pouco resta da carcaça do espadarte, com excepção da coluna vertebral, cauda e cabeça. Santiago está consciente da derrota e acusa os tubarões de terem destruído todos os seus sonhos. Ao chegar a terra, na madrugada do dia seguinte, arrasta-se para a cabana com o mastro aos ombros e abandona o peixe na praia. Chegado a casa, tomba na cama e mergulha num sono profundo.

Um grupo de pescadores reúne-se no dia seguinte em redor do barco, ainda com a carcaça amarrada. Medindo-a, conclui-se que chega aos cinco metros e meio. Pedrico fica com a cabeça do peixe e todos pedem a Manolin para transmitir ao velho pescador a sua admiração e condolências. Os turistas que passam confundem a carcaça com a de um tubarão. O aprendiz, preocupado com o idoso, procura-o, emocionando-se ao vê-lo a dormir e ao constatar as feridas que lhe assolam as mãos. Leva-lhe depois jornais e café. Ao acordar, Santiago conversa com o jovem e prometem ambos partir no futuro em novas pescarias. Voltando a cair no sono, o pescador refugia-se em sonhos de juventude – que incluem leões numa praia africana.

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