Viveu entre 1908 e 1983. Romancista, é considerada uma das mais importantes escritoras em língua catalã, sendo com frequência citada por outros autores. Atingiu fama internacional e foi traduzida em mais de 30 línguas.
É vista como a mais importante romancista catalã do pós-guerra. A Praça do Diamante (1962) transformou-se no mais famoso romance em língua catalã e é tido como um dos melhores publicados em Espanha após a Guerra Civil.
Postumamente, foi revelado outro dos seus talentos – a pintura – que permanecera na sombra devido à importância que a autora atribuía à escrita.
Escrevo porque gosto de escrever. Correndo o risco de parecer exagerada, diria que escrevo para agradar a mim própria. Se os outros gostam do que escrevo, melhor ainda. Talvez seja mais profundo. Talvez escreva para me afirmar. Para sentir que sou… E basta. Tenho falado de mim mesma e das coisas essenciais na minha vida com pouco senso de medida. E o exagero sempre foi algo que me assustou.
Prólogo de «Mirall Trencat»
Mercè Rosa Rodoreda i Gurguí nasceu em Outubro de 1908, em Barcelona. Os pais – Andreu Rodoreda e Montserrat Gurguí, eram ambos da região e gostavam ambos de literatura e teatro, tendo até frequentado aulas no que mais tarde seria o Instituto do Teatro. A mãe interessava-se ainda pela música.
Os problemas financeiros obrigaram Mercè a abandonar a escola aos nove anos. Inscreveu-se mais tarde numa academia onde se dedicou ao estudo do Francês e Contabilidade.
O avô materno, Pere Gurguí, admirava e tinha sido amigo de Jacint Verdaguer (um dos maiores poetas da Catalunha, à época) tendo com ele colaborado na edição das revistas temáticas La Renaixensa e L’Arc de Sant Martí. Em 1910, mandou erguer um monumento no jardim de casa em honra do falecido poeta, ao qual adicionou uma inscrição com os títulos das duas obras principais deste.
O local passou a ser o preferido para festas e reuniões de família. A figura do avô revelou-se uma forte influência e a autora passou a considerá-lo um mestre. Gurguí semeou nela um forte sentimento patriótico (catalão), revelado na língua e na botânica, aspectos muito presentes na obra de Rodoreda.
Lembro-me de me sentir em casa quando, debruçando-me no beiral do telhado, observava as flores azuis do jacarandá a tombarem na relva e nas hortências. Nunca saberei explicá-lo na perfeição, mas nunca me senti tão em casa como no tempo em que morava na casa do meu avô, com os meus pais.
«Imatges d’infantesa» (Imagens de infância)
Em 1913, com apenas cinco anos, estreou-se no teatro com a personagem Kitty na peça The Mysterious Jimmy Samson, no teatro Torrent de les Flors. Anos mais tarde, a autora ressuscitaria a personagem num conto integrado na colectânea «Veintidós cuentos».
Ao longo da infância, leu todos os autores catalães (clássicos e modernos), como Jacint Verdaguer, Ramon Llull, Joan Maragall, Josep Maria de Sagarra e Josep Carner, entre outros, sem dúvida influenciada pela atmosfera literária e boémia que se vivia na casa de família.
Em 1920, volta a participar numa peça na Lourdes School. Adiciona-lhe a leitura de um poema em catalão, intitulado «La negra».
No ano seguinte, o tio Juan muda-se para casa da família e muda o estilo de vida no agregado, impondo rotinas convencionais e austeras. Mercè formara uma imagem ideal a partir das cartas que recebera dele e acaba mesmo por casar com o tio em Outubro de 1928, no dia do 20º aniversário, na igreja de Bonanova. Juan era 14 anos mais velho e, devido ao grau de parentesco, foi necessária uma autorização papal.
Após a cerimónia, o casal vai até Paris, de lua-de-mel e depois assentam numa casa em Barcelona. O marido tinha emigrado para a Argentina quando era muito novo e regressara com uma pequena fortuna.
Em Julho de 1929, nasce o único filho, Jordi Gurguí i Rodoreda. A partir daí, Mercè começa a fazer os primeiros ensaios com a escrita, de modo a ver-se livre da dependência económica e social inerente à monotonia do casamento, ponderando depois fazer da actividade literária uma profissão. Passa a fechar-se todos os dias num pombal azul, uma estrutura existente na casa da mãe de um amigo e que, mais tarde, terá mesmo servido de inspiração para a mencionada n’ A Praça do Diamante. No tempo disponível, produz versos, uma comédia teatral (desaparecida) e um romance. Entretanto, é proclamada a Segunda República em Espanha.
Em 1931, começa a frequentar aulas no Dalmau Lyceum, onde melhora os conhecimentos linguísticos sob a orientação do pedagogo, linguista e esperantista Delfí Dalmau i Enero. Este revela-se um enorme apoio e influência e mais tarde transforma-se numa espécie de amigo. Rodoreda mostra a Dalmau os manuscritos e este encoraja-a a publicar. Considera-a uma estudante exemplar, dona de prometedora alma literária e capacidades intelectuais. Esta admiração serve de base para que este proponha colaborar na tese da autora. Esta concorda e o trabalho é publicado em 1934.
Logo em 1932, Rodoreda publica o primeiro romance, «Sóc una dona honrada?» e outras histórias em diversos jornais. A obra passa quase despercebida até ser nomeada para o Prémio Crexells, em 1933, embora não vença. Ainda nesse ano, entrevista a actriz Maria Vila para a revista Mirador.
Um ano depois, dá início à carreira jornalística na revista semanal Clarisme, onde publica 22 contribuições: cinco textos sobre cultura tradicional, 13 entrevistas, duas críticas, um conto e três comentários sobre cinema, música e política. Ainda em 1933, adere à Barcelona Press Association, gesto que reforça a intenção de produzir trabalhos jornalísticos de modo formal.
Nos inícios de 1934, publica o segundo romance, «Del que hom no pot fugir», através da revista Clarisme. Em Maio do mesmo ano ganha um prémio literário com uma história infantil, da qual se perdeu o rasto.
No seguimento da publicação do segundo romance, Joan Puig i Ferrater, editor das Ediciones Proa, entra em contacto, mostrando interesse em publicar-lhe o livro seguinte, «Un dia en la vida d’un home», que sai ainda em 1934.
Mercè começa então a ganhar acesso ao mundo literário graças ao apoio de Puig i Ferrater que lhe abriu as portas do El Club de los Novelistas, formado por escritores como Armand Obiols, Francesc Trabal ou Joan Oliver. Por esta altura, inicia a leitura das obras de Fiodor Dostoievski.
Entre 1935 e 1939, publica um total de 16 histórias para crianças no jornal La Publicidad, uma das quais dedicada ao próprio filho. Em paralelo, mantém a publicação de textos na imprensa catalã, nomeadamente em La Revista, La Veu de Catalunya e Mirador, entre outros.
Em 1936, surge o quarto romance, «Crim». A autora acabará por rejeitar não só esta obra como os três romances anteriores, considerando-os o resultado da inexperiência.
No ano seguinte, trabalha como revisora de catalão no Generalitat Propaganda Commissariat. É lá que conhece outros autores contemporâneos como Aurora Bertrana e Maria Teresa Vernet. Forma ainda amizade com Susina Amat, Julieta Franquesa, Anna Murià e Carmen Manrubia.
Ainda em 1937, recebe outro Prémio Joan Crexells pelo romance «Aloma». É também nesse ano que se divorcia do marido, após nove anos de casamento. O alegado amante, o político e tradutor Andreu Nin, é preso em meados de Junho em frente à sede do partido, situada nas Ramblas. Pouco tempo depois, é torturado e assassinado na prisão.
O romance «Aloma» é a primeira obra que a autora assume na plenitude, embora tenha mais tarde decidido reescrever o texto e voltar a publicá-lo. Em 1938, em nome do PEN Club da Catalunha, viaja rumo a Praga na companhia do escritor catalão Francesc Trabal, de modo a marcarem presença no congresso internacional do PEN.
No início de 1939, poucos meses antes de se consumar a derrota dos Republicanos na Guerra Civil, foge para o exílio. Convencida que a separação será breve, deixa o filho com a avó materna. Apesar de nunca ter participado na política activa, decide exilar-se a conselho da mãe, que receia poderem surgir problemas devido às colaborações da filha com jornais catalães e revistas de esquerda. Repete o percurso de outros intelectuais da época, atravessando diversas localidades até atingir o norte da Catalunha, no fim de Janeiro.
Depois, seguem para Perpignan, no sul da fronteira francesa, onde passam três dias até partirem de comboio para Toulouse.
A Guerra terminara e tivemos de abandonar Espanha. Eu, à conta de nada, porque nunca estive metida em política, salvo ter escrito em catalão e colaborado em revistas ditas de esquerda, etc. Fui aconselhada pela minha mãe, julgando que voltaria a casa passados três, quatro, cinco meses, mas a situação eternizou-se.
(1981)
Rodoreda chega a Paris no final de Fevereiro, mudando depois para Roissy-en-Brie, nos subúrbios da capital, nos inícios de Abril. Instala-se no castelo de Roissy-en-Brie, um edifício do séc. XVIII reconvertido num refúgio para escritores. Partilha o espaço durante alguns meses com outros autores, nomeadamente Anna Murià, César Augusto Jordana, Armand Obiols, Francesc Trabal e Carles Riba.
O castelo é também palco de vários casos amorosos, um deles entre a autora e Armand Obiols. A situação torna-se problemática, uma vez que que Obiols é casado com a irmã de Francesc Trabal e ambos são pais de um menino, que ficou em Barcelona com a mãe. Além disso, a sogra de Obiol tinha feito a viagem com ele e outros membros da família. Tudo isto divide os residentes em dois grupos. Rodoreda revela a intenção de escrever um livro sobre o episódio, mas acaba por nunca o fazer.
A relativa estabilidade associada à vida no castelo acaba por ser adulterada com o início da Segunda Guerra. A partir daí, alguns decidem fugir rumo a países da América Latina e outros, como Mercè e Obiols, optam por ficar em França. Mudam mais tarde para outra residência, a Villa Rosset, nos arredores de Paris.
A autora e outros escritores ainda refugiados em França acabam por ser obrigados a fugir da capital em meados de Junho de 1940, devido ao avanço do exército alemão. Josep Maria Esverd consegue apropriar-se de um camião para o efeito, mas no dia seguinte o veículo é confiscado pelas tropas francesas. Ainda tentam utilizar um comboio mas, por fim, são obrigados a escapar para sul, a pé.
O objectivo passa por atravessar o rio Loire de modo a ganhar acesso à zona livre, mas pouco antes de chegarem a Orleães encontram a única ponte incendiada, o que força a mudança de planos.
Portanto, iniciámos a fuga a pé, ao longo de três semanas. Foram cerca de três semanas a fugir dos Nazis e a caminhar por estradas francesas. […] Atravessámos uma ponte, rumo a Beaugency, que tinha sido minada pela artilharia francesa. Era uma tarde muito escura e sufocante. Os alemães começaram a bombardear a ponte, fazendo incursões assustadoras; era possível ver as bombas a cair e a explodir muito próximo. […] Estavam cadáveres na ponte. Uma coisa terrível! Assim, avançámos em direcção a Orleães planeando descansar por lá um dia ou dois mas, de súbito, vislumbrámos a cidade… estava em chamas, pois tinha acabado de ser bombardeada. Foi então que optámos por dormir numa quinta, que tresandava a carne podre e vinho azedo, sendo evidente que muita gente tinha estado por ali; passámos lá a noite, observando pelas janelas as chamas de Orleães.
(1981)
Ficam abrigados nessa quinta durante 12 dias, seguindo-se a capitulação francesa a 22 de Junho de 1940. Atravessam, por fim, o rio Loire junto à aldeia de Meung-sur-Loire, completamente arrasada. Daí, avançam ainda mais para sul, instalando-se então em Limoges.
Aí, ficam num quarto. Os tempos revelam-se complicados para Mercè uma vez que, em Junho de 1941, Armand Obiols é preso e condenado a trabalhos forçados numa pedreira. Esta fica sozinha até Outubro mas através de muitos esforços consegue-se a transferência dele para Bordéus. Quando o companheiro obtém melhores condições de vida, a autora integra um grupo de estudo dedicado à leitura e aprendizagem de Inglês.
Nos meses seguintes, o relacionamento entre ambos é sobretudo à distância, com encontros esporádicos. Só em Agosto de 1943 é possível o reencontro em Bordéus. Também nessa cidade passa muitas dificuldades e de acordo com o próprio testemunho é obrigada a trabalhar em costura «até cair», num armazém, contexto que não lhe deixa tempo para escrever.
Costurei blusas para nove franceses e passei muita fome. Conheci gente muito interessante e o casaco que uso, herdei-o de uma mulher russa de ascendência judia que cometeu suicídio com Veronal. Em Limoges ficaram-me com um ovário, mas o que decerto não deixarei em França será a minha energia e juventude pois até aos 50 anos pretendo conservar uma certa postura refinada. […] E, acima de tudo, pretendo escrever, preciso de escrever; nada me proporcionou tanto prazer, desde que apareci no mundo, como um livro meu acabado de imprimir, ainda a cheirar a tinta. Desculpa não ter ido contigo, estaria mais acompanhada, teria trabalhado, todos estes anos inúteis e desmoralizadores pesam-me, mas irei vingar-me. Dar-lhes-ei utilidade, ao fazer tremer os meus inimigos. Assim que puder, farei de novo uma entrada irresistível. Ninguém me conseguirá parar.
Excerto de uma carta para Anna Murià (1945)
O regresso a Paris dá-se em Setembro de 1946, quando Rodoreda e Obiols se mudam para a residência de Rafael Tasis no exílio. Pouco depois, voltam a mudar, desta vez para a zona de Saint-Germain-des-Prés, ponto de encontro para muitos intelectuais da época. A zona transforma-se na sua casa durante oito anos e a autora mantém laços até 1977.
Nos inícios de 1947, Mercè consegue deixar o trabalho de costureira e voltar a colaborar com a publicação Revista de Catalunya. Para além dos vários textos publicados em diversos números da revista, consegue ainda editar alguns no Chile e no México.
Entre 1947 e 1953, vê-se incapaz de ser prolífica a nível literário, uma vez que sofria de problemas de saúde desde 1945, a juntar aos anteriores sintomas de paralisia somática no braço direito. À conta disto, opta por intensificar os textos poéticos e mantém aulas com o intelectual espanhol Josep Carner, com quem forma uma amizade próxima, alimentada por carta. Em 1952, inicia terapia de recuperação num spa de Châtel-Guyon, aldeia no centro de França. Ainda durante os anos parisienses, tenta iniciar dois romances que não conclui.
Em 1947, nos Jogos Florais da Língua Catalã decorridos em Londres, ganha um dos prémios, ao participar com seis sonetos: «Rosa», «Amor novell», «Adam a Eva», «Ocell» e dois sem título.
Com o poema «Món d’Ulisses», Rodoreda vence pela segunda vez o mesmo prémio no ano seguinte, agora em Paris, poema depois publicado na revista La Nostra Revista, ainda em 1948. «Albes i nits» proporciona-lhe a terceira vitória no mesmo prémio, agora em Montevideu, em 1949. Ainda nesse ano, visita Barcelona pela primeira vez após o exílio.
Em 1951, revela interesse na pintura, sobretudo nas obras de Pablo Picasso, Paul Klee e Joan Miró, ensaiando alguns trabalhos. Numa carta, datada de 1954, para Oriols explica já ter adquirido «um estilo e um mundo» na pintura, mas reconhece que a sua vocação é a escrita. Ele, por outro lado, começa também em 1951 a trabalhar como tradutor para a UNESCO graças a Quiroga Plá e, dois anos depois, muda-se definitivamente para Genebra.
No ano seguinte, o casal instala-se num apartamento situado num bairro burguês da cidade. Aqui, a autora considera-se exilada, reconhecendo que Genebra «é uma cidade muito aborrecida, ideal para escrever». Pouco depois, Obiols vê-se obrigado a mudar para Viena, por razões de trabalho. Na mesma altura, Mercè viaja até Barcelona para assistir ao casamento do filho, Jordi Gurguí i Rodoreda.
Vivo num estúdio muito agradável, com vista para um parque, em frente a um prédio com sete andares, mas que está bastante afastado. De um lado um pedaço de lago, do outro o Salève. Do meu terraço, é possível observar uma montanha bastante feia porque tem grandes manchas sem floresta, o que lhe dá um aspecto doentio. Quando o dia está claro, consigo ver o topo do Mont Blanc.
(1972)
Em 1956, vence o Prémio de Ensaio Joan Maragall com «Três Sonetos e uma Canção», depois publicado no suplemento literário de La Gaceta de Letras de La Nova Revista (1955-1958). No mesmo ano, vence também o prémio Joan Santamaria com o conto «Carnaval».
Em 1958, publica então um livro de contos intitulado «Vint-i-dos contes» com o qual tinha vencido o reputado prémio Victor Català, um ano antes. Alguns destes contos tinham sido publicados no México, durante o exílio da autora em França, mas outros são inéditos.
A mesma confessará que o livro é produto de uma crise literária, que fez com que o nível das várias histórias não fosse equivalente, embora todas estivessem unidas numa temática comum.
Em vários registos sobre o período em Genebra, nunca publicados, Rodoreda partilha que nesses anos teve encontros com vários escritores, nomeadamente Eugeni Xammar, Jorge Semprún e Júlio Cortázar acompanhado da mulher.
Durante a prolongada estadia na cidade suíça, dá forma a um jardim que mais tarde replicará numa futura casa. As muitas flores que a rodeavam servem de inspiração para os relatos que depois se encontram em «Viatges i Flors», embora o livro só tenha sido publicado em 1980.
«La Perla del Lago» é o título de um projectado romance que nunca se concluiu e que foi mantido nos arquivos do Instituto de Estudos Catalães. O nome imita o de um restaurante situado nas margens do Lago de Genebra, que a autora frequentava. O espaço ficava próximo do edifício das Nações Unidas e Rodoreda comia lá regularmente, apreciando a excelente vista dos andares superiores.
Ainda em 1958, submete um romance à época intitulado «Una mica d’història» ao Prémio Joanot Martorell, mas não vence. Contudo, o mesmo texto é depois publicado em 1967 sob o título «Jardí vora el mar». A partir desta altura, embora não termine a relação com Mercè, Obiols irá manter até à morte um relacionamento com outra mulher, em Genebra.
No ano seguinte, a autora começa a escrever aquele que é, provavelmente, o melhor livro da sua carreira: A Praça do Diamante. Publicado em 1962 pela El Club de los Novelistas, o romance tinha já sido enviado ao Premi Sant Jordi, anterior Prémio Joanot Martorell, sem sucesso. Obtém, por outro lado, o Enric Massó y Urgellès com a obra «Vivir no es fácil». El Club de los Novelistas está a cargo de Joan Sales, que fica encantado com o romance e começa a corresponder-se com Rodoreda. A partir daqui, esta encontra um espaço onde publicar o trabalho. A versão final de 1962 não é a mesma apresentada ao Sant Jordi, pois tinha já sido corrigida e aumentada por Salas, Obiols e a própria autora.
Explicar a génese da obra poderá ser um exercício interessante, mas será mesmo possível explicar o modo como se constrói um romance, que espécie de impulsos o provocam, até onde vai a força para não desistir dele, mesmo que tudo o que já foi feito tenha de terminar em esforço depois de começado com facilidade? Não será suficiente dizer que ponderei nele em Genebra, a mirar o Salève ou a passear junto ao lago? […] Escrevi-o de modo frenético, como se cada dia de trabalho fosse o último da minha vida. Uma espécie de cegueira. Corrigia depois o que tinha escrito na manhã ou na tarde seguintes garantindo que, apesar da velocidade com que escrevia, o cavalo não me fugia ao controlo, segurando firme naquelas rédeas para não me desviar do caminho. […] Foi uma época de grande tensão nervosa, que me deixou parcialmente doente.
Prólogo de A Praça do Diamante (26ª edição)
Ainda em 1961, envia outro texto para o mesmo prémio, «La mort i la primavera», sem sucesso.
Em 1965, Rodoreda dá os primeiros passos na publicação de uma Obra Reunida, no seguimento de um pedido de Joaquim Molas, mas tal não acontecerá até 1977, nas Ediciones 62. A colectânea não inclui nenhum dos quatro primeiros livros («Sóc una dona honrada?»; «Un dia en la vida d’un home»; «Del que hom no pot fugir» e «Crim») uma vez que a autora considera-os abaixo do exigível. Concorda ainda em reescrever «Aloma» de modo a obter um livro melhor, tendo este sido reeditado em 1969.
Em 1966, perde a mãe, Montserrat Gurguí. Três anos mais tarde, o «tio-marido», Joan Gurguí. Com a morte deste, entra em conflito com o filho a propósito da herança. Também neste ano, publica «El carrer de les Camèlies», que obtém o Sant Jordi, mesmo sem candidatura submetida. A obra vence mais dois prémios – o Serra d’Or (Literatura e Ensaio), em 1967, e o Ramon Llull, em 1969. Logo em 1967, começa a trabalhar no romance «Mirall trencat», que mais tarde se tornará numa das obras de maior sucesso. Publica mais dois trabalhos: «Jardí vora el mar» e uma colectânea de contos intitulada «La meva Cristina i altres contes».
A partir de 1970, as obras começam a ser traduzidas noutras línguas, embora o primeiro livro traduzido tenha sido A Praça do Diamante, para castelhano, logo em 1965. Em 1971, o sentimento de exílio é acentuado com a morte do companheiro de muitos anos, Armand Obiols, em Viena. Esse facto, associado à descoberta da existência de uma outra amante de Obiols, deixa-a cada vez mais destroçada e solitária em território suíço. No seguimento de tudo isto e após reunir-se com alguns amigos do tempo da Guerra Civil, decide mudar-se, no ano seguinte, para o chalet de Carmen Manrubia situado na localidade de Romanyà de la Selva, na província de Girona. Embora mantendo residência oficial em Genebra, a sua presença na Suíça torna-se cada vez mais esporádica.
Passa o Verão de 1972 em Espanha. A amizade com Carmen Manrubia vinha dos tempos em que ambas haviam colaborado com os Republicanos, na Guerra Civil, tendo depois surgido um afastamento quando se exilaram em diferentes países. Acaba por viver no chalet durante seis anos, até 1979, ano em que opta por construir a sua própria casa na localidade.
É ainda na casa de Manrubia que conclui grande parte do romance «Mirall trencat», iniciado em Genebra e depois publicado em 1974. É ainda nesta fase que escreve um conto da colectânea «Viatges i flors» e o romance «Quanta, quanta guerra…». São ambos publicados em 1980 e valem-lhe o Prémio Cidade de Barcelona. No mesmo ano, recebe um prémio de carreira pela contribuição para a língua catalã o que, em resumo, a consagra como escritora. Ainda em 1978, edita «Semblava de seda i altres contes», uma colectânea de histórias escritas ao longo da vida.
Em 1979, escreve a comédia teatral «El Maniquí», estreada no mesmo ano.
Nos últimos anos, assiste à transição de algumas obras para o cinema e televisão, nomeadamente «Aloma», em 1978 (televisão) e depois A Praça do Diamante em 1982 (cinema).
Na derradeira fase da vida, as obras da autora abandonam a sua vertente psicológica e ganham um carácter críptico, próximo do simbolismo.
Na madrugada de 13 de Abril de 1983, Mercè Rodoreda falece de cancro no fígado em estado avançado, numa clínica de Girona. Nos últimos dias, ao ser internada, reconcilia-se com a família. Uma amiga próxima, Isabel Parés, esclarece que a autora, ao conhecer o diagnóstico, colapsa e desiste de viver.
A morte invadiu-me o coração e quando já não existia morte em mim, morri.
De acordo com os seus desejos, é enterrada no cemitério de Romanyà de la Selva, durante uma cerimónia pública assistida por muitos dos companheiros e companheiras de vida, além de múltiplas personalidades da época. É depois criada uma fundação com o seu nome.
Em 1998, cria-se o prémio literário Mercè Rodoreda, na categoria de contos e narrativas.
Torna-se ainda membro de honra da Associació d’Escriptors en Llengua Catalana.
Romance escrito em 1962. O título reproduz o nome de uma praça em Barcelona. Considerado por muitos o melhor trabalho da autora, foi traduzido em mais de 30 línguas e é tido como uma das melhores obras de ficção da literatura catalã contemporânea, fazendo parte do programa de leitura nas escolas secundárias da Catalunha.
Situado em Barcelona no período da Segunda República e da Guerra Civil, o enredo aborda a vida atribulada de uma jovem mulher, de nome Natalia (conhecida por Colometa, a rapariga dos pombos), incluindo os seus dois relacionamentos amorosos: Quimet, o primeiro marido, que morre na guerra e Antoni, o segundo marido.
Em suma, trata-se de uma crónica da vida na cidade, à época, numa fusão equilibrada entre psicologismo e naturalismo.









