Viveu entre 1916 e 2002. Romancista, poeta, contista e ensaísta, ligado ao movimento conhecido como «Geração de 36».
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura em 1989 devido a «uma prosa intensa e rica, capaz de construir uma visão desafiadora da vulnerabilidade do ser humano através de uma sóbria compaixão».
Camilo José Cela nasce em 11 de Maio de 1916, na paróquia rural de Iria Flavia, no concelho de Padrón, situado na região da Corunha. É o mais velho de nove irmãos. Os pais, Camilo Crisanto Cela y Fernández e Camila Emanuela Trulock y Bertorini são galegos, embora a mãe tenha antepassados ingleses e italianos. A família é de classe média alta e Camilo considera ter vivido uma infância «tão feliz que me foi difícil crescer».
Vivem todos em Vigo entre 1921 e 1925, altura em que se mudam para Madrid. Na capital, faz os estudos num colégio católico. Em 1931, é diagnosticado com tuberculose e internado no sanatório de Guadarrama, onde aproveita o tempo livre para se dedicar aos primeiros ensaios do romance «Pabellón de reposo». Ainda convalescente, dedica-se à leitura detalhada das obras de José Ortega y Gasset e Antonio de Solís y Ribadeneyra.
A Guerra Civil Espanhola inicia-se em 1936, quando o autor conta apenas 20 anos e está ainda fragilizado pela doença. O seu pensamento é tendencialmente conservador, fazendo-o escapar para a zona rebelde. Alista-se como soldado, mas é ferido e hospitalizado em Logroño.
O conflito termina em 1939 e Cela não consegue decidir-se acerca dos estudos universitários, pelo que opta por trabalhar no escritório de uma fábrica têxtil. É nesta fase que inicia a escrita daquela que será a primeira obra publicada, A Família de Pascual Duarte, editada em 1942, quando o autor soma 26 anos. Nela, o protagonista, Pascual Duarte, revela dificuldades em adaptar-se à moral instituída e dá por si a cometer vários crimes, incluindo assassinatos, não sentindo com isso qualquer espécie de remorso. O livro contém particular importância, uma vez que alguns consideram ter influenciado decisivamente o caminho do romance espanhol no pós-II Guerra.
Cela, a partir de 1943, transforma-se num censor ao serviço da Espanha franquista. Contraditoriamente, o período áureo da sua escrita ocorre quando se vê escrutinado pelos colegas censores, em especial na obra «A Colmeia», publicada em Buenos Aires, em 1951, depois de proibida em Espanha à conta da pretensa imoralidade das temáticas eróticas do enredo. Tal significa que o nome do autor é banido da imprensa escrita. O romance em causa contém mais de 300 personagens e exibe um estilo onde se identificam influências do realismo espanhol e de autores ingleses e franceses modernos. A linguagem característica de Camilo – uma forma sarcástica e por vezes grotesca de realismo – atinge o ponto alto nesta obra. Cela, apesar disto, permanece leal ao regime franquista, trabalhando até como informante da polícia secreta, denunciando as actividades de grupos dissidentes e traindo colegas intelectuais.
A 26 de Maio de 1957, é eleito membro da Real Academia Espanhola.
A partir da segunda metade dos anos 60, com a publicação de «1936 São Camilo» a escrita do autor torna-se cada vez mais experimental.
É então nomeado Senador Real nas Cortes Constituintes, onde exerce alguma influência na redacção da Constituição Espanhola de 1978. Em 1987, vence o Prémio Príncipe das Astúrias.
Em 1988, escreve «Cristo versus Arizona», onde relata a história do tiroteio no O.K. Corral numa única frase, que se estende por mais de 100 páginas.
Recebe o Nobel da Literatura, em 1989.
Nos últimos anos, fica conhecido pelas altercações públicas. Numa entrevista para a televisão estatal, por exemplo, gaba-se de conseguir absorver litros de água pelo ânus e oferece-se para uma demonstração. Antes, já tinha escandalizado a sociedade espanhola com o «Diccionario secreto», um dicionário de calão e palavras proibidas escrito entre 1969 e 1971.
Camilo havia também considerado o Prémio Cervantes uma distinção «coberta de fezes» mas, em 1995, quando lhe é atribuído, aceita-o.
Em 1996, enquanto reconhecimento pela contribuição oferecida à Literatura, Cela é agraciado pelo Rei Juan Carlos I com o título hereditário de Marquês de Iria Flavia, assinalando a sua entrada na nobreza espanhola. Com a morte, o título passa para o filho, Camilo José Cela Conde.
Em 1998, expressa desconforto com a presença de alguns grupos homossexuais nas comemorações do centenário de Federico García Lorca, afirmando:
Quanto a mim, preferia uma celebração mais convencional e menos pitoresca, sem o apoio dos grupos homossexuais. Não tenho nada contra eles, simplesmente não levo no rabo.
O autor morre de doença cardíaca em Janeiro de 2002, num hospital de Madrid, com 85 anos. É depois enterrado na paróquia natal.
O testamento é objecto de polémica, uma vez que favorece a viúva do segundo casamento, Marina Castaño, em detrimento do filho, originário do primeiro casamento com Rosario Conde.
Romance escrito em 1942. As primeiras duas edições provocaram enorme polémica e o livro foi banido no espaço de um ano. Após revisão, surgiu uma terceira edição no final de 1943.
Enredo
O narrador/protagonista na primeira pessoa, Pascual Duarte, enquanto aguarda a pena capital na cela, recorda a sua história de família e o passado de homicida, que inclui o matricídio. Alega, entre outras coisas, que a sua vida é controlada pelo Destino e que nada mudará, independentemente do que faça.
Há quem diga que o enredo é uma espécie de abordagem espanhola ao Existencialismo uma vez que, tal como em «O Estrangeiro», de Albert Camus, Pascual é tido como um pária, incapaz ou indisponível para cumprir leis e normas. O relato coloca em evidência a inclemente realidade dos camponeses na Espanha rural, no dealbar do regime franquista.
Personagens
Pascual Duarte – Narrador/Protagonista. Vida marcada pela dor e má fortuna. Obedece a impulsos e não à débil consciência, contexto que o transforma num assassino sem escrúpulos e depois num prisioneiro sem remissão.
Rosario – Irmã de Pascual. Controla por completo o pai. Abandona o lar e é provável que se tenha dedicado à prostituição.
Esteban Duarte – Pai de Pascual. Morre depois de ser mordido por um cão raivoso.
Lola – Primeira mulher de Pascual. Perde dois filhos, o primeiro devido a um aborto provocado por uma queda de cavalo e o segundo, Pascualito, com menos de um ano.
Mario – Meio-irmão de Pascual, pelo lado da mãe e filho de Rafael. Morre novo.
Rafael – Amante da mãe de Pascual. Um homem cruel, em especial com o filho Mario.
Mãe de Pascual – Mulher perversa, cruel e alcoólica. Bate nos filhos e trai o marido, Esteban. Devido a tudo isto, acaba por ser morta por Pascual.
Engracia – Bruxa da localidade. Visita com frequência a casa de Pascual e assiste a muitas das coisas que afectam a família deste.
El Estirao – Chulo que vive do trabalho das suas prostitutas. Pascual detesta-o pela desonra a que este sujeitou a irmã e a mulher, acabando por matá-lo.
Don Manuel – Padre da localidade. Pascual visita-o antes do casamento.
Lurueña – Padre do cárcere. Tem boa relação com Pascual e está presente nos instantes que antecedem a morte deste.
Esperanza – Segunda mulher de Pascual e sobrinha de Engracia. Já era apaixonada por ele, mesmo antes de este casar com Lola. Casam quando ele sai temporariamente da prisão.
Don Conrado – Director da prisão. Um homem justo que ajuda Pascual a ser libertado uma primeira vez.
Romance fundamental para a geração do «tremendismo» (conceito nascido a partir da noção de «tremendo» e «terrível»), focado nas personagens e em episódios extensos e frequentes de violência. Considerado o precursor deste estilo de escrita, contém ainda elementos de realismo extremo e existencialismo: as personagens vivem à margem da sociedade e as respectivas vidas estão mergulhadas em angústia e dor. O arquétipo desta temática é o protagonista do romance, Pascual Duarte, alguém convencido de que a violência é a única solução para os seus problemas. A obra apresenta vários narradores, sendo o principal Pascual Duarte, que recorda a sua história num dialecto rural.
Este é originário da região da Extremadura e a sua vida decorre entre 1882 e 1937, época marcada por uma enorme instabilidade social e política em Espanha.
Embora o autor nunca se tenha assumido enquanto homem de fé, o texto contém uma evidente atmosfera religiosa e está cheia de referências a Deus.









