Autores Irlandeses-Escoceses – Intro

Considera-se Literatura Irlandesa toda a literatura escrita em irlandês, latim, inglês e escocês (dialecto usado em partes da Irlanda do Norte), ou seja, as línguas utilizadas no passado e/ou presente na ilha da Irlanda. Os primeiros registos escritos em irlandês datam do longínquo séc. VII, tendo sido criados por monges que alternavam entre o latim e o irlandês antigo. Os conteúdos variavam entre textos religiosos, poesia e contos mitológicos. Sobrevive até aos dias de hoje um vasto conjunto de textos mitológicos irlandeses, com destaque para «The Táin» e «Mad King Sweeny».

A língua inglesa foi introduzida na Irlanda no séc. XIII, no seguimento da invasão Normanda. Nos séculos XVI e XVII, assistiu-se a uma enorme expansão do poderio inglês na ilha, facilitando o crescimento de uma população falante do chamado inglês moderno. Se por um lado existe a teoria de que, a partir da segunda metade do séc. XIX, a língua irlandesa foi abruptamente substituída pelo inglês na maioria do território devido à Grande Fome e consequente declínio da população local devido à malnutrição e emigração, por outro defende-se entre os estudiosos modernos que a mudança das línguas não ocorreu de forma súbita, provocada por um evento trágico e único, mas estaria já em progressão muito antes. No final do século, apesar de tudo, assiste-se a um renascimento do nacionalismo cultural, fenómeno conhecido como «Gaelic Revival» (propulsor de uma literatura moderna em irlandês) e de uma forma mais abrangente pelo «Irish Literary Revival».

Esta tradição literária é com frequência designada «Anglo-Irish» embora muitos, senão mesmo a grande maioria dos autores que a compõem, possuam origens irlandesas em vez de inglesas. Em alguns casos, apresentam ambas. Os primeiros autores em destaque são Richard Head e Jonathan Swift, seguidos por Laurence Sterne, Oliver Goldsmith e Richard Brinsley Sheridan. Outros autores irlandeses a escrever em inglês são Mary Tighe, Thady Connellan, Arthur Murphy, John O’Keeffe, Nicholas Brady, Sydney Lady Morgan, Edmond Malone, Hugh Kelly, Matthew Concanen, Anne Donnellan, Samuel Madden, Henry Brooke, Mary Barber e Thomas Dermody.

Os descendentes dos colonos escoceses na Irlanda do Norte (Ulster) mantiveram a sua tradição literária própria, que se manifestou sobretudo na poesia em rima.

No final do séc. XIX e ao longo do séc. XX, a literatura irlandesa escrita em inglês beneficiou do contributo de autores como Oscar Wilde, Bram Stoker, James Joyce, W. B. Yeats, Samuel Beckett, Elizabeth Bowen, C. S. Lewis, Kate O’Brien e George Bernard Shaw, embora alguns destes não tenham permanecido em território irlandês.

Apesar do inglês ser a língua dominante na literatura irlandesa do séc. XX, surgiram igualmente trabalhos de grande qualidade em língua irlandesa. Um desses autores pioneiros foi Pádraic Ó Conaire. A vida tradicional irlandesa foi vivamente retratada numa série de trabalhos autobiográficos por autores nativos da costa ocidental da ilha, sendo disso exemplo Tomás Ó Criomhthain e Peig Sayers. Máiréad Ní Ghráda, por sua vez, escreveu múltiplas e bem-sucedidas peças de teatro, com frequência influenciada por Bertolt Brecht, e dedicou-se ainda à primeira tradução conhecida da obra «Peter Pan» (Tír na Deo) e de «Manannán», o primeiro livro de ficção científica em língua irlandesa. Na prosa modernista em irlandês, destaca-se Máirtín Ó Cadhain e na poesia Caitlín Maude, Máirtín Ó Direáin, Seán Ó Ríordáin e Máire Mhac an tSaoi. No que concerne a escritores bilingues, destacam-se Brendan Behan (autor de poemas e de uma peça de teatro em irlandês) e Flann O’Brien. Dois romances deste último, «At Swim Two Birds» e «The Third Policeman», são considerados exemplos iniciais de ficção pós-moderna, tendo o autor escrito também um romance satírico em língua irlandesa, intitulado «An Béal Bocht» («The Poor Mouth», em inglês). Liam O’Flaherty, tornado famoso com as suas obras em inglês, foi também autor de um livro de contos em irlandês. A literatura em língua irlandesa tem conservado a sua vitalidade no séc. XXI.

O foco principal, porém, manteve-se nos escritores irlandeses que optaram pela língua inglesa e que lideraram o movimento modernista, em especial James Joyce, cujo romance «Ulisses» é considerado uma das obras mais importantes do século. O dramaturgo Samuel Beckett, para além de inúmeros textos em prosa, é autor de importantes peças de teatro, com destaque para «À Espera de Godot». Muitos autores irlandeses ganharam destaque através da escrita de contos, em particular Edna O’Brien, Frank O’Connor, Lord Dunsany e William Trevor. Outros escritores de relevo no séc. XX são os poetas Eavan Boland e Patrick Kavanagh, os dramaturgos Tom Murphy e Brian Friel e os romancistas Edna O’Brien e John McGahern.

No final do séc. XX, ganharam destaque alguns poetas irlandeses, em especial os originários da Irlanda do Norte. Exemplo disso são Derek Mahon, Medbh McGuckian, John Montague, Seamus Heaney e Paul Muldoon. Hoje, continuam a surgir autores de sucesso nessa região, como Anna Burns, Sinéad Morrissey ou Lisa McGee.

Entre os escritores irlandeses que escrevem em língua inglesa, hoje em dia, salientam-se Edna O’Brien, Colum McCann, Anne Enright, Roddy Doyle, Moya Cannon, Sebastian Barry, Colm Toibín e John Banville, todos amplamente premiados. Na geração mais recente, destaque para Sinéad Gleeson, Paul Murray, Anna Burns, Billy O’Callaghan, Kevin Barry, Emma Donoghue, Donal Ryan, Sally Rooney, William Wall, Marina Carr e Martin McDonagh.

 

Considera-se Literatura Escocesa toda a literatura produzida na Escócia ou por autores escoceses. Tal inclui obras em inglês, escocês gaélico, escocês, francês, latim ou outra língua usada no interior das modernas fronteiras da Escócia.

A primeira literatura surgida no território que hoje em dia é a Escócia utilizou o discurso britónico (ramo da língua celta), por alturas do séc. VI, tendo sobrevivido enquanto parte integrante da literatura gaélica. Nos séculos posteriores, temos exemplos de textos em latim – à conta da influência da Igreja Católica – e em inglês antigo, dialecto trazido pelos colonos germânicos. A partir do momento em que o condado de Alba se transformou no reino da Escócia, no séc. VIII, surgiu uma elite literária que produzia com regularidade textos em gaélico e latim, integrando uma cultura abrangente onde se incluía a irlandesa. Após múltiplas alterações no reinado de David I, no séc. XIII, floresceu uma dominante cultura francesa (incluindo a língua), tendo outras regiões, anteriormente colonizadas por povos escandinavos, desenvolvido outros dialectos. O mais antigo dos textos escoceses a sobreviver ao tempo data do séc. XIV, da autoria de John Barbour. Trata-se do poema épico «Brus». A este, seguiram-se diversos romances medievais, aos quais se juntaram outros trabalhos em prosa, já no séc. XV.

No início da era moderna, as artes literárias (poesia, prosa e teatro) dependiam do patrocínio real. A corte de Jaime V assistiu a obras como «The Thrie Estaitis», de Sir David Lindsay of the Mount. No final do séc. XVI, Jaime VI patrocinou e tornou-se membro de um círculo de poetas e músicos de corte, conhecido como o «Castalian Band». Quando este atingiu o trono inglês, em 1603, muitos elementos do grupo acompanharam-no mas, desprovido do mesmo tipo de apoio, o movimento desvaneceu-se. Uma certa tradição de poesia escocesa renasceu após a união com a Inglaterra, em 1707, destacando-se figuras como Allan Ramsay e James Macpherson. Este último tornou-se no primeiro poeta escocês a obter reconhecimento internacional. Inspirou assim Robert Burns, considerado por muitos o poeta nacional e Walter Scott, cujos romances históricos ajudaram em grande parte a construir a identidade escocesa do séc. XIX. No final da época vitoriana, um conjunto de autores nascidos na Escócia atingiram reputação internacional, nomeadamente Robert Louis Stevenson, Arthur Conan Doyle, J. M. Barrie e George MacDonald.

No séc. XX, houve um aumento de produção na literatura escocesa, conhecido como Renascimento Escocês. A liderar esta fase esteve Hugh MacDiarmid, que procurou ressuscitar a língua escocesa enquanto veículo para uma literatura de prestígio. Os membros deste movimento foram seguidos por uma nova geração de poetas do pós-Guerra, onde se inclui Edwin Morgan. A partir dos anos 80, a literatura escocesa conheceu nova vitalidade, associada sobretudo aos trabalhos de James Kelman e Irvine Welsh. Poetas escoceses surgidos nesta altura incluem, por exemplo, Carol Ann Duffy.

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