Jonathan Swift

Viveu entre 1667 e 1745. Escritor, ensaísta, satirista e clérigo anglicano. Em 1713, assumiu as funções de deão na Catedral de St. Patrick, em Dublin, o que lhe valeu a alcunha de «Dean Swift». Dono de um estilo de escrita famoso pela ironia e mordacidade, sobretudo em obras como «Uma Proposta Modesta» (1729), deu origem ao chamado género «Swiftiano». Foi também autor do livro satírico As Viagens de Gulliver (1726), que se transformou na sua obra mais famosa e popularizou a ilha fictícia de Lilliput. No seguimento do enorme sucesso obtido, Swift passou a ser considerado por muitos o maior satirista da era georgiana e um dos melhores da literatura em língua inglesa.

Escreveu também «A Tale of a Tub» (1704) e «An Argument Against Abolishing Christianity» (1712). Começou por publicar todos os trabalhos sob pseudónimos – onde se incluem Lemuel Gulliver, Isaac Bickerstaff, e M. B. Drapier – ou sob anonimato. Dominava vários estilos de sátira e, no início da carreira, viajou com frequência pelo território irlandês e britânico, actividade que lhe foi muito útil para melhor compreender a natureza humana e as diferentes condições sociais, mais tarde explanadas nas obras satíricas. Era também muito activo nos círculos clericais, devido às ligações com a Catedral de St. Patrick, em Dublin. Apoiou a Revolução de 1688 em Inglaterra e afiliou-se no Partido Liberal (Whigs) em oposição aos Conservadores (Tories). Manteve amizade com muitas figuras proeminentes do seu tempo, incluindo John Temple, John Dryden, William Davenant e Francis Godwin.

Em 1700, mudou-se para a vila de Trim, no condado de Meath, tendo aí escrito as principais obras. Estas reflectiam muito do que tinha sido a experiência política do autor na década precedente, em especial a governação britânica sob os Conservadores. Este optou por usar, como se disse, um conjunto de pseudónimos na publicação das obras iniciais. Alguns estudiosos sugerem que poderá ter sido um artifício para isentá-lo de processos e perseguições, num ambiente politico considerado sensível, à época, em território inglês e irlandês.

A partir do final do séc. XVIII, Swift transformou-se no autor irlandês mais popular a nível global, tendo o seu romance satírico As Viagens de Gulliver – considerado um dos clássicos mais famosos da literatura em língua inglesa – mantido o estatuto de obra mais vendida. Conserva ainda hoje grande reputação em território irlandês, dando nome a inúmeras ruas, monumentos, festivais e eventos regionais. Swift tem igualmente servido de influência para outros autores de renome nas gerações seguintes, como John Ruskin e George Orwell.

 

Jonathan Swift nasce a 30 de Novembro de 1667, em Dublin, numa altura em que o território estava sob domínio inglês. Trata-se do segundo filho (primeiro rapaz) de Jonathan Swift e de Abigail Erick (ou Herrick) originária da aldeia inglesa de Frisby on the Wreake, em Leicestershire. O pai, por sua vez, nascera na aldeia (também inglesa) de Goodrich, situada em Herefordshire, mas acompanhara os irmãos na mudança para a Irlanda, em busca de formação na área do Direito, uma vez que a família perdera a propriedade durante a Guerra Civil Inglesa. Do lado materno, o avô de Jonathan – James Erick – era o pároco da aldeia de Thornton, em Leicestershire. No ano de 1634, este viu-se envolvido em problemas e pouco tempo depois a família (incluindo a jovem filha Abigail) escapou para a Irlanda.

O pai de Swift associa-se ao irmão mais velho, Godwin, na prática do Direito na Irlanda. Contudo, falece em Dublin sete meses antes do nascimento do filho, vitimado pela sífilis, que alega ter apanhado em lençóis contaminados numa viagem aos arredores.

A mãe regressa a Inglaterra após o nascimento da criança, deixando-a ao cuidado do tio, Godwin Swift, amigo próximo e confidente de Sir John Temple, cujo filho mais tarde empregará Jonathan como secretário.

Com apenas um ano, a criança é levada por uma ama-de-leite para a terra natal desta – Whitehaven, na região inglesa de Cumberland. Jonathan afirma ter sido lá que aprendeu a ler a Bíblia. É devolvido à mãe (de novo na Irlanda) aos três anos.

O tio e benfeitor, Godwin Swift, assume depois a responsabilidade, enviando-o na companhia de um primo para o Kilkenny College, um colégio interno também frequentado pelo filósofo George Berkeley. Jonathan chega lá com seis anos, numa idade em que era suposto já ter aprendido as declinações elementares do Latim. Não sendo o caso, inicia os estudos numa classe inferior. Completa, apesar disso, a formação em 1682, aos 15 anos.

Nesse mesmo ano, entra no Trinity College, uma universidade em Dublin, com o apoio financeiro de um primo (Willoughby), filho do tio Godwin. O curso de quatro anos baseia-se sobretudo em matérias relacionadas com a Teologia. As aulas focam-se na Lógica Aristotélica e na Filosofia. A valência predominante é a técnica do Debate, sendo esperado que os alunos saibam apresentar argumentos para ambos os lados de qualquer questão ou tema. Swift revela-se um aluno acima da média, sem no entanto ser excepcional e recebe o diploma no ano de 1686.

Dois anos depois, quando se dedica à continuação dos estudos, surgem problemas de cariz politico na Irlanda, relacionados com a Revolução de 1688. Tal obriga-o a mudar-se para Inglaterra onde, com a ajuda da mãe, obtém um trabalho como secretário e assistente pessoal de Sir William Temple, um diplomata envolvido na assinatura da Tripla Aliança de 1668. Agora retirado de funções públicas, este vive numa propriedade de província situada em Farnham, onde passa o tempo dedicado ao jardim e à escrita de memórias. Jonathan ganha a confiança do diplomata e é com frequência incumbido de «assuntos de grande importância».

É nesta localidade que Swift conhece Esther Johnson, de apenas oito anos, filha de uma viúva caída na pobreza e dama de companhia de uma irmã de Temple: Lady Giffard. Jonathan transforma-se no seu tutor e mentor, dando-lhe a alcunha de «Stella». Ambos manterão uma relação próxima e misteriosa até ao fim da vida de Esther.

Em 1690, Swift abandona o serviço a Temple e volta à Irlanda por questões de saúde, embora esteja de regresso no ano seguinte. Os sintomas incluem ataques de vertigens ou tonturas, que hoje em dia são atribuídos à doença de Ménière, um distúrbio no ouvido interno. O problema continuará a afectá-lo ao longo da vida.

Durante a segunda fase com Temple, recebe o diploma de Oxford, em 1692. Parte então em definitivo, tendo aparentemente perdido a esperança de obter um cargo superior através do patrono. Opta assim por ser ordenado padre na Igreja da Irlanda.

Aparenta ser bastante infeliz no novo cargo, ao ver-se deslocado para a localidade de Kilroot, uma comunidade minúscula e isolada dos grandes centros de poder e influência, situada no condado de Antrim. Parece ter, apesar de tudo, iniciado um envolvimento com Jane Waring, a irmã de um velho amigo de faculdade, que ele trata por «Varina».

Temple falece em 1699. Jonathan, por norma bastante intolerante com a natureza humana, afirma que «tudo o que era bom e afável na Humanidade morreu com Temple». Permanece mais algum tempo em Inglaterra, de modo a completar a revisão das memórias do falecido e, quem sabe, esperançado em ver o trabalho reconhecido, o que lhe permitiria um bom cargo no país. A publicação do terceiro volume das memórias de Temple, em 1709, traz-lhe contudo a inimizade de alguns familiares e amigos do defunto, em especial da influente irmã Marta (Lady Giffard), que lamenta a inclusão de certos episódios privados. Além disso, alega que Swift terá retirado elementos da biografia dela, acusação que este nega. O mesmo decide então contactar directamente o Rei, motivado por uma suposta ligação através de Temple e pela crença rebuscada de que lhe teria sido prometido um cargo. O fracasso é tal que se vê obrigado a aceitar a modesta posição de secretário e capelão do conde de Berkeley, então estabelecido na Irlanda. Ao lá chegar, porém, descobre que a posição já foi atribuída a outra pessoa, vendo-se obrigado a recorrer a outros meios.

A partir daqui, Jonathan reside sobretudo em Trim, no condado de Meath. A maioria das obras é escrita nesta fase. Tendo já recebido o Doutoramento em Teologia pelo Trinity College Dublin, viaja na primavera até Inglaterra e regressa à Irlanda em Outubro, acompanhado por Esther Johnson – agora com 20 anos – e por uma amiga desta chamada Rebecca Dingley, que também habitara em tempos na residência de William Temple. A relação entre o autor e Esther despoleta grande curiosidade e controvérsia. Muitos, como por exemplo o grande amigo Thomas Sheridan, estão convencidos que existiu um casamento secreto entre ambos no ano de 1716 mas outros, como a governanta de Swift e a própria Rebecca, que vive com «Stella» durante a totalidade da estadia desta na Irlanda, consideram o boato absurdo.

O autor torna-se, com os anos, cada vez mais activo politicamente. Tinha já apoiado a Revolução de 1688 e pertencera aos Liberais. Enquanto membro da Igreja Anglicana, teme o regresso da monarquia católica e do absolutismo «papal».

É considerado «liberal na política e conservador na religião». Swift, em geral, está de acordo, declarando-se «um amante da liberdade, aquilo a que se chama um liberal na política…mas, no que diz respeito à religião, confesso ser um defensor da alta igreja». Receando as intensas polémicas religiosas que dominavam a Inglaterra do séc. XVII, escreve que «cada cidadão, enquanto membro da commonwealth, deve contentar-se com a privacidade da respectiva opinião». Notar ainda que, à época, as designações «liberal» e «conservador» referiam-se a um vasto número de opiniões e alianças, pelo que nenhuma delas equivale ao que hoje se considera um partido político moderno com os respectivos alinhamentos ideológicos.

Ainda durante o período em Londres, o autor associara-se à família Vanhomrigh, mercadores holandeses que se tinham estabelecido na Irlanda e depois mudado para a capital inglesa. «Envolvera-se» com uma das filhas, também chamada Esther. A esta, atribuíra a alcunha de «Vanessa», ligando «Essa», um habitual nome carinhoso para Esther, ao «Van» presente em Vanhomrigh. Além disso, a mesma transformara-se numa das personagens principais do poema «Cadenus and Vanessa». Esse facto e a correspondência trocada entre ambos sugerem que Esther estaria atraída por Swift e que este partilharia o sentimento. No entanto, depressa se arrepende e tenta concluir a ligação. Esther segue-o para a Irlanda em 1714 e estabelece-se na velha residência de família, Celbridge Abbey, no condado de Kildare. O conturbado relacionamento prossegue durante alguns anos, supondo-se que terá depois existido um confronto, onde terá sido mencionado o nome de Esther Johnson. Esther Vanhomrigh falece em 1723, com 35 anos, após destruir o testamento que tinha feito a favor dele.

O autor alimenta durante muito tempo a esperança de ser nomeado para um cargo numa igreja de Inglaterra. Contudo, a rainha nutre um certo desagrado por ele e impede sempre que tal aconteça. Tal desagrado é atribuído ao conteúdo da obra «A Fábula de um Barril», que ela considera blasfemo, à qual se acrescenta o poema «The Windsor Prophecy» onde Swift, revelando uma espantosa falta de decoro, aconselha a rainha acerca da maior ou menor fiabilidade das respectivas damas de companhia.

Após várias convulsões e intrigas, conclui que a melhor opção é voltar em definitivo à Irlanda. Desapontado, encara o facto como um acto de exílio, para viver «como um rato de esgoto».

Uma vez lá chegado, porém, começa a aplicar os talentos literários a favor de causas irlandesas, tendo então produzido os melhores trabalhos: «Proposal for Universal Use of Irish Manufacture» (1720), «Drapier’s Letters» (1724) e «Uma Proposta Modesta» (1729), transformam-no num patriota irlandês. O novo estatuto agrada pouco ao governo, que tenta de forma atrapalhada silenciá-lo. O editor, Edward Waters, é condenado judicialmente em 1720, mas quatro anos depois um júri considera que «Drapier’s Letters», escrita sob pseudónimo mas atribuída sem discussão a Jonathan, não é uma obra que infrinja a lei. Este aproveita para lançar um ataque feroz ao sistema judicial irlandês, em particular a William Whithed, um chefe de justiça que o autor considera «um vilão miserável e devasso».

É também nesta altura que Swift começa a escrever a sua obra-prima: «Travels into Several Remote Nations of the World, in Four Parts, by Lemuel Gulliver, first a surgeon, and then a captain of several ships», mais conhecida como As Viagens de Gulliver. Grande parte do enredo baseia-se nas experiências políticas do autor na década antecedente. Em 1726, decide por fim visitar velhos amigos em Londres.

Repete a viagem em 1727, para ver os mesmos amigos, mas é obrigado a reduzir o tempo de estadia quando recebe a notícia de que Esther Johnson está no leito de morte. Regressa apressadamente e passa o tempo a rezar à cabeceira, reconfortando-a. Não consegue estar presente nos derradeiros instantes, mas na noite fatídica começa a escrever «The Death of Mrs Johnson». Esta falece no início de 1728. Ele fica demasiado abalado para assistir ao funeral, na Catedral de St. Patrick.

A partir desta altura, o tema da morte passa a ser recorrente no pensamento de Swift. Em 1731, escreve «Verses on the Death of Dr. Swift», enquanto obituário, depois publicado em 1739. Em 1732, falece um grande amigo e colaborador, John Gay.

Em 1735, é a vez de John Arbuthnot, outro amigo dos tempos de Londres. Por fim, em 1738, ele próprio exibe os primeiros sinais de doença, especulando-se que terá mesmo sofrido uma trombose em 1742, já que perde a fala.

Redobra o medo de ficar mentalmente incapacitado. «Serei como aquela árvore», afirmara uma vez, «morrerei de pé». Torna-se cada vez mais quezilento e, em consequência disso, várias amizades de longa duração, como a que mantinha com Thomas Sheridan, acabam por desvanecer-se. De modo a protegê-lo de parasitas sem escrúpulos, que procuram aproveitar-se da situação, os restantes amigos mais chegados declaram que o autor está «perturbado e amnésico», embora se desconfie há muito que Swift está, de facto, louco. Na obra «Literature and Western Man», J. B. Priestley recorre mesmo aos capítulos finais de As Viagens de Gulliver de modo a provar uma iminente insanidade, definindo-a enquanto «demência terminal».

Outro autor, Will Durant, descreve assim os anos finais:

Exibe sintomas evidentes de loucura, que terão surgido por volta de 1738. Em 1741, são nomeados tutores para as questões legais e pessoais, nomeadamente para controlar os ataques violentos, de modo a evitar que se mutile. Em 1742, lida com enormes dores provocadas por uma inflamação no olho esquerdo, que incha ao ponto de se parecer com um ovo de galinha. São necessários cinco empregados para evitar que ele arranque o próprio olho. Passa depois um ano inteiro sem murmurar uma palavra.

Em 1744, morre Alexander Pope, outro grande amigo. Por fim, a 19 de Outubro de 1745, chega a vez de Jonathan, à beira dos 78 anos. Após um período em exibição pública, de modo a que a população de Dublin preste as homenagens, o autor é enterrado em St. Patrick ao lado de Esther Johnson, de acordo com o estipulado. O grosso da fortuna serve para financiar a construção de um hospital psiquiátrico, que é inaugurado em 1757 e ainda existe.


Originalmente intitulado «Travels into Several Remote Nations of the World. In Four Parts. By Lemuel Gulliver, First a Surgeon, and then a Captain of Several Ships», trata-se de um romance satírico escrito em 1726. A obra satiriza a natureza humana e o imaginário associado ao subgénero literário da «literatura de viagens». É um dos clássicos mais famosos em língua inglesa e popularizou a ilha fictícia de Lilliput. O poeta inglês John Gay fez notar que «esta é uma obra de alcance universal, pois tanto é lida no gabinete do ministro como no berçário». Apesar de esta ser, com frequência, considerada literatura infantil, Swift prefere vê-la enquanto sátira política. Foi adaptada ao Teatro, Cinema, Televisão e Rádio, ao longo dos séculos.

 

Enredo

 

O enredo foca-se em Lemuel Gulliver, um aventureiro inglês que visita um conjunto de territórios bizarros e distantes, todos eles habitados por seres incomuns que simbolizam variadas características da natureza humana e da sociedade. Em Lilliput, o protagonista encontra seres minúsculos, que se ocupam de querelas políticas medíocres. Em Brobdingnag torna-se, pelo contrário, um pequeno homem entre gigantes muito críticos dos hábitos europeus. Em Laputa, trava conhecimento com intelectuais e teóricos que se revelam desligados da realidade. Por fim, no território dos Houyhnhnms, encontra cavalos racionais que vivem de forma pacífica ao lado de criaturas humanóides selvagens, conhecidas como Yahoos. Através de todas estas viagens, o romance satiriza os defeitos de várias civilizações.

 

Parte I: Viagem a Lilliput

O enredo começa com um breve preâmbulo, no qual Lemuel Gulliver fornece um resumo da sua história de vida, anterior às viagens.

04 de Maio de 1699 – 13 de Abril de 1702

Na primeira viagem, o protagonista é arrastado para a costa após um naufrágio e vê-se prisioneiro de um povo minúsculo, com menos de 15 cm de altura (na linha dos mitológicos anões) que habita na ilha de Lilliput. Após oferecer garantias acerca das intenções pacíficas, é-lhe facultada uma residência e torna-se um dos cidadãos favoritos. O rei concede-lhe autorização para calcorrear a cidade, desde que não coloque em risco a integridade física dos habitantes.

Embora, numa fase inicial, Gulliver seja bem aceite pelos lilliputianos, estes nunca se esquecem da ameaça que ele representa, devido ao tamanho. Demonstram ainda ser uma comunidade demasiado preocupada com questões menores. Por exemplo, descobrir qual o melhor lado para quebrar um ovo transforma-se numa querela política fulcral e generalizada. Adoram, também, demonstrações de poder e tiques de autoridade. O protagonista ajuda-os numa batalha contra a nação insular rival de Blefuscu, ao roubar a frota naval do inimigo. Contudo, não permite que Lilliput converta o adversário numa colónia, posição que desagrada ao rei e aos tribunais.

É acusado de traição por, entre outras minudências, urinar sobre a capital, embora isso tenha sido uma solução de recurso para extinguir um incêndio. É condenado e sentenciado à perda de visão. Porém, com o auxílio de um amigo generoso «com influência no tribunal», consegue escapar para Blefuscu. Aí chegado, descobre e utiliza um barco abandonado e faz-se ao largo até ser recolhido por um navio, que o devolve a casa em segurança na companhia de alguns animais lilliputianos que trouxe consigo.

 

Parte II: Viagem a Brobdingnag

20 de Junho de 1702 – 03 de Junho de 1706

 

Gulliver depressa volta a partir. Quando o veleiro «Adventure» é desviado da rota à conta de várias tempestades e forçado a procurar terra firme para se reabastecer de água potável, o protagonista é abandonado pelos companheiros numa península da costa oeste do continente norte-americano. A erva desta nova terra, Brobdingnag, tem a altura das árvores.

É então encontrado por um agricultor com cerca de 22 metros – especulação feita a partir da pegada deste, que Gulliver estima que ocupe nove metros. O gigante leva-o para casa e deixa-o ao cuidado da filha, Glumdalclitch. De uma forma geral, o agricultor considera-o uma mascote e exibe-o em público de modo a ganhar dinheiro.

Com o tempo, esta agitação afecta a saúde do protagonista, obrigando o gigante a vendê-lo à rainha. Glumdalclitch (que acompanhava sempre o pai nas exibições públicas) fica também ela ao serviço da rainha, de modo a cuidar de Gulliver. Uma vez que este é demasiado pequeno para usar os objectos (mobiliário, talheres), a rainha encomenda a construção de uma pequena casa, apelidada de «caixa de viagem», para transportar o protagonista.

No intervalo de pequenas aventuras (nomeadamente uma luta com vespas gigantes e ser levado para o telhado por um macaco), Gulliver debate o estado da Europa com o rei de Brobdingnag. Este fica pouco satisfeito com os relatos, em especial após se inteirar do uso frequente de armas e canhões. Numa viagem até à costa, a «caixa» é roubada por uma águia enorme e depois atirada (com o protagonista no interior) ao mar. Gulliver é de novo salvo por marinheiros, que o devolvem a Inglaterra.

 

Parte III: Viagem a Laputa, Balnibarbi, Luggnagg, Glubbdubdrib e Japão

05 de Agosto de 1706 – 16 de Abril de 1710

 

Em nova viagem, o navio onde se encontra sofre um ataque pirata e vê-se preso numa ilha rochosa e deserta, situada próximo da Índia. É então salvo pela ilha voadora de Laputa, um reino dedicado às artes da Música, Matemáticas e Astronomia, embora incapaz de aplicar esse conhecimento de forma útil. Em vez de utilizar exércitos, Laputa tem o hábito de atirar rochas a partir do céu sobre as cidades inimigas no solo.

O protagonista faz então uma visita a Balnibarbi, um reino sob o jugo de Laputa e apercebe-se dos problemas causados por uma investigação científica sem objectivos práticos, numa espécie de sátira à burocracia e às experiências da Academia.

Na Grande Academia de Lagado, uma cidade em Balnibarbi, utilizam-se enormes recursos e mão-de-obra na investigação de causas absurdas, como extrair raios solares de pepinos, suavizar o mármore para utilização em almofadas, aprender a misturar tintas através do olfacto e desmascarar conspirações políticas mediante o estudo dos excrementos de suspeitos. Gulliver menciona ao de leve o território de Tribnia (ou seja, a Bretanha), que alguns apelidam de Langden (ou seja, Inglaterra), onde as principais actividades são conspirar e denunciar. É então levado até Maldonada, o porto mais importante de Balnibarbi, onde aguarda transporte até ao Japão.

Entretanto, opta por dar um salto até à ilha de Glubbdubdrib, a sudoeste de Balnibarbi. Lá chegado, visita o refúgio de um mágico e debate factos históricos com os espectros de famosos, incluindo Júlio César, Brutus, Homero, Aristóteles, René Descartes e Pierre Gassendi.

Na ilha de Luggnagg, trava conhecimento com os struldbrugs, seres humanos imortais. Estes não beneficiam, no entanto, do privilégio da juventude eterna, antes padecendo de todos os problemas associados à velhice, sendo considerados legalmente mortos aos 80 anos.

Após a chegada ao Japão, pede ao Imperador que o isente «da cerimónia imposta aos congéneres europeus que consiste em pisar o crucifixo» e este aceita. Regressa então a casa, determinado a lá permanecer até à morte.

 

Parte IV: Viagem à Terra dos Houyhnhnms

07 de Setembro de 1710 – 05 de Dezembro de 1715

 

Apesar das intenções, o protagonista regressa de novo ao mar, desta vez enquanto capitão de um navio mercante, para fugir ao que considera ser a monotonia da sua actividade de cirurgião. Durante a viagem, vê-se forçado a tentar apaziguar uma tripulação que, aparentemente, se virou contra ele. Pouco depois, ocorre um motim. Após um breve aprisionamento, é abandonado no primeiro pedaço de terra disponível e a tripulação segue viagem, agora dedicada à pirataria. Gulliver cedo encontra uma desagradável espécie humanóide, cujos modos selvagens lhe causam enorme desagrado. Um pouco mais tarde, conhece os Houyhnhnms, uma raça de cavalos falantes. São estes quem de facto governa e as deformadas criaturas humanas são apelidadas de Yahoos.

Parece existir uma dinâmica de mestre/escravo entre as espécies.

O protagonista é acolhido numa família de cavalos e começa então a respeitar e imitar os Houyhnhnms no modo de vida. Em paralelo, rejeita os seres humanos enquanto meros Yahoos que, embora dotados de alguns fiapos de lógica, utilizam a mesma para exacerbar os vícios que a Natureza lhes deu. Apesar disso, uma Assembleia de Houyhnhnms decreta que Gulliver, que para eles é um Yahoo com uma aparente racionalidade, constitui um perigo para a civilização e ordena que ele regresse a nado para o sítio de onde veio. O Houyhnhnm que o acolheu em família arranja forma de lhe conceder um prazo, permitindo assim que ele construa uma canoa para facilitar o regresso. Após outra viagem desastrosa, é salvo contra a própria vontade por um navio português. Fica revoltado por confirmar que o capitão, Pedro de Mendez, que ele considera um Yahoo, é na verdade uma pessoa sensata, cortês e generosa.

Regressa em definitivo a Inglaterra, mas vê-se incapaz de retomar uma existência normal entre «Yahoos» e tornar-se cada vez mais recluso, permanecendo em casa, evitando a família (incluindo a mulher) e ocupando várias horas por dia a falar com os cavalos, nos estábulos.

 

A obra teve grande sucesso após o lançamento e foi amplamente discutida em diversos círculos sociais. A reacção do público foi variada. Os leitores elogiaram o carácter satírico e a inteligência do enredo que, segundo alguns, oferecia uma visão realista da experiência de um viajante. James Beattie elogiou o trabalho de Swift pela narração «realista», alegando que «o estadista, o filósofo e o crítico irão admirar-lhe o talento para a sátira, a energia para a descrição e a vivacidade da linguagem», fazendo notar que até mesmo as crianças poderiam apreciar o romance. Com o aumento da popularidade, os críticos passaram a elogiar as características mais complexas da obra, tendo esta passado a ser vista enquanto estudo apurado da moralidade, libertando-se assim do carimbo satírico.

Contudo, após esta fase inicial, o livro começou a sofrer as primeiras críticas. O visconde Bolingbroke, amigo de Swift, criticou-o pelo excessivo misantropismo. Outros reparos visavam o modo como fora retratada a Humanidade, visto como prejudicial e ofensivo. Chegaram até a criticar o aspecto satírico, alegando que o mesmo excedia o que era tido por aceitável e apropriado, sobretudo o capítulo dedicado aos Houyhnhnms e Yahoos. Surgiram ainda polémicas relacionadas com as alegorias de teor político.

Os leitores, pelo contrário, apreciaram as referências políticas, considerando-as humorísticas. O mesmo não aconteceu com elementos do partido liberal, que se declararam ofendidos e alegaram que Swift os tinha ridicularizado.

O romancista e jornalista inglês William Makepeace Thackeray considerou a obra «blasfema», afirmando que tal visão crítica da Humanidade era ridícula e cruel, afirmando não conseguir entender o motivo para tais reparos na obra de Swift.

 

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