Viveu entre 1859 e 1930. Foi escritor e médico. Tornou-se famoso ao escrever quatro romances e 56 contos acerca de um fictício detective privado, de seu nome Sherlock Holmes, sempre assistido pelo amigo Dr. Watson. As obras tornaram-se marcos incontornáveis do género policial. Além disso, criou a personagem do Professor Challenger, na obra de ficção científica «The Lost World» (1912), título que passou a designar um subgénero da chamada ficção especulativa. Escritor prolífico, criou cerca de 200 histórias e artigos, quatro livros de poesia e diversas peças de teatro. Foi condecorado com o título de cavaleiro pelo Rei Eduardo VII, em 1902.
Nascido em Edimburgo, Arthur publicou as primeiras histórias ainda durante o curso de Medicina, que frequentou na University of Edinburgh Medical School. Prestou serviços como médico e cirurgião em duas viagens marítimas e depois abriu, sem sucesso, um consultório médico na cidade inglesa de Portsmouth. O tempo que passou embarcado serviu-lhe de inspiração para o conto «J. Habakuk Jephson’s Statement» (1884), enredo que tornou popular o caso real ocorrido com a embarcação «Mary Celeste», encontrada abandonada e à deriva ao largo dos Açores. A primeira história acerca de Sherlock Holmes, o romance «Um Estudo em Vermelho», foi publicada em 1887 e o conto «Um Escândalo na Boémia» (1891) é o primeiro de um total de 24 histórias mensais relativas a Holmes publicadas na The Strand Magazine, que transformou Doyle num dos autores mais famosos e mais bem pagos da época. Porém, sentimentos contraditórios do autor em relação à personagem fizeram com que Holmes acabasse por morrer na obra «O Problema Final» (1893), apenas para ser, de certa forma, ressuscitado no enredo de «O Cão dos Baskervilles» (1901), devido à pressão dos leitores. Doyle continuará a escrever histórias acerca do detective até 1927. O autor é ainda conhecido pelas histórias humorísticas acerca de um soldado napoleónico, de seu nome Brigadeiro Gérard.
Doyle era também comprometido politicamente e por duas vezes foi candidato ao Parlamento. Defendeu causas como a vacinação obrigatória, pronunciou-se acerca da Primeira Guerra Mundial e outros conflitos e ainda sobre a libertação do Congo. Acérrimo defensor da justiça, investigou a título pessoal dois casos jurídicos encerrados que resultaram na exoneração dos acusados, abrindo assim, de certa forma, um precedente que levou à criação do Tribunal Penal de Segunda Instância, em 1907.
Foi-lhe também reconhecido algum talento para a arquitectura e envolveu-se em vários desportos, quer como jogador quer como árbitro.
Arthur recebeu educação católica, mas tornou-se agnóstico em jovem adulto e depois num místico espiritualista devido às várias tragédias ocorridas na família. Esteve também envolvido com a Maçonaria, em duas épocas distintas. O autor deixou-se envolver por vários fenómenos do sobrenatural, incluindo espiritismo, telepatia, mentalismo e fotografia espírita, tendo inclusive apoiado publicamente um embuste denominado Cottingley Fairies, situação que provocou o fim da amizade que mantinha com o famoso mágico Harry Houdini. As obras do escritor ainda são lidas e apreciadas hoje em dia, com Sherlock Holmes a ser a personagem de ficção mais representada e adaptada ao Cinema e à Televisão.
Arthur Conan Doyle nasce em Maio de 1859, na cidade de Edimburgo, na Escócia. O pai, Charles Altamont Doyle, tinha nascido em Inglaterra e possuía ascendência irlandesa e católica. A mãe, Mary Foley, era por sua vez uma irlandesa católica. O casamento ocorrera em 1855. Em 1864, o agregado familiar desfaz-se à conta dos crescentes problemas de alcoolismo de Charles. Arthur é entregue a Mary Burton, tia de um amigo.
Em 1867, a família reúne-se novamente e passa a viver num edifício de apartamentos degradados. O pai acabará por morrer em 1893, num hospital psiquiátrico, após muitos anos de doença. Desde tenra idade, Doyle ganha o hábito de escrever à mãe e manterá essa rotina ao longo da vida. Muitas dessas cartas estão preservadas.
Sustentado por tios abastados, Arthur é enviado para Inglaterra e frequenta uma escola jesuíta em Lancashire, a partir dos nove anos (1868-70). Prossegue depois os estudos no Stonyhurst College, até 1875. Embora não tivesse uma existência infeliz na instituição, Doyle confessará mais tarde que tampouco guardava memórias agradáveis, uma vez que o local se regia por princípios medievais: as únicas disciplinas leccionadas eram a retórica, a geometria, a álgebra e os clássicos. Acrescenta que o regime escolar era rígido e que no lugar da compaixão e do carinho se dava primazia às ameaças, aos castigos corporais e a diversas humilhações.
Entre 1875 e 1876, estuda noutra escola jesuíta – Stella Matutina – na vila austríaca de Feldkirch. A família considera útil que ele aí passe um ano, para melhorar o nível de alemão e expandir os horizontes académicos. Recebe uma educação católica, que mais tarde rejeita, tornando-se agnóstico. Há quem diga que tal afastamento se deve, em parte, a este período na escola austríaca. Arthur tornar-se-á, também, um místico espiritualista.
Entre 1876 e 1881, Doyle estuda Medicina na University of Edinburgh Medical School. Em paralelo, trabalha em locais como Aston (hoje em dia parte integrante de Birmingham), Sheffield e Shropshire. Arranja ainda tempo para se dedicar ao estudo da Botânica no Royal Botanic Garden de Edimburgo. Ainda enquanto estudante, Arthur começa a escrever contos. Envia a primeira história, «The Haunted Grange of Goresthorpe», para a Blackwood’s Magazine mas esta não é aceite. O primeiro trabalho publicado, «The Mystery of Sasassa Valley», cujo enredo decorre na África do Sul, sai no Chambers’s Edinburgh Journal, a 06 de Setembro de 1879. A 20 de Setembro do mesmo ano, publica o primeiro artigo académico no British Medical Journal, um estudo que depois é considerado potencialmente útil numa investigação criminal do séc. XXI.
Doyle embarca como médico pela primeira vez em 1880, numa expedição de um baleeiro. Após concluir os estudos no ano seguinte, volta a embarcar – desta vez para exercer as funções de cirurgião no SS Mayumba, numa viagem até à costa ocidental de África. Em 1885, completa o doutoramento.
Antes disso, em 1882, Arthur tinha-se já associado a um colega de estudos na abertura de um consultório em parceria, em Plymouth, mas a relação entre ambos complica-se e Doyle não perde tempo a mudar de ideias e a tornar-se independente. Muda-se para Portsmouth, em Junho desse ano, com o equivalente a apenas 1500€ nos dias de hoje, para abrir um consultório. Mais uma vez, não tem sucesso, mas enquanto espera pelos pacientes, durante o horário de expediente, regressa à escrita de ficção.
Arthur revela-se um defensor convicto da vacinação universal e escreve vários artigos a defender essa prática e a desconstruir as ideias dos cidadãos anti-vacinas.
Nos inícios de 1891, reforça o interesse pela especialidade de oftalmologia e decide aprofundar os conhecimentos em Viena – tendo já feito estudos preliminares em Portsmouth que lhe permitem fazer testes oculares e receitar óculos. A cidade austríaca é-lhe sugerida por um amigo, enquanto lugar apropriado para viver um semestre e adquirir habilitações de cirurgião oftalmologista. Doyle, porém, encontra grandes dificuldades para entender os termos médicos em alemão, durante as aulas, optando rapidamente por abandonar o objectivo. Nos dois meses restantes, dedica-se a outras coisas, tais como patinar no gelo com a mulher, Louisa, ou beber copos com um amigo, jornalista do London Times. Escreve também um romance de ficção científica: «The Doings of Raffles Haw».
Após visitar Milão e Veneza, passa uns dias em Paris a observar os trabalhos de Edmund Landolt, um perito em doenças oculares. Três meses depois de abandonar Viena regressa, enfim, a Londres. Tenta de novo abrir um consultório, mas repete-se a ausência de pacientes, provando-se em definitivo o falhanço enquanto oftalmologista.
Destino contrário terá a carreira literária. Apesar das vulgares dificuldades iniciais em publicar, o autor de 27 anos escreve a primeira história acerca de Sherlock Holmes e do Dr. Watson, «Um Estudo em Vermelho», em três semanas e esta é aceite pela editora Ward Lock & Co, em 1886. Os direitos autorais valem-lhe o equivalente a 3500€, nos dias de hoje. A história aparece depois numa revista literária e obtém boas críticas na imprensa.
A personagem de Holmes é parcialmente inspirada num antigo professor universitário de Arthur, de seu nome Joseph Bell. Em 1892, numa carta que lhe dirige, afirma:
É sem dúvida a si que se deve a personagem Sherlock Holmes. É em redor das suas capacidades de dedução, raciocínio e observação, que sempre nos transmitiu, que eu tentei construir um homem.
Acrescenta, numa autobiografia de 1924:
Não admira que, perante o convívio com tal personalidade, eu tenha usado e amplificado os seus procedimentos quando, numa fase mais adiantada da vida, procurei construir um detective de cariz científico, que resolvia os casos através dos próprios métodos, sem se deixar influenciar pelas artimanhas dos criminosos.
Robert Louis Stevenson acaba mesmo por reconhecer a forte semelhança entre Joseph Bell e a personagem Sherlock Holmes:
Os meus parabéns pelas inteligentes e muito interessantes aventuras de Sherlock Holmes. Será este inspirado no meu velho amigo Joe Bell?
Outros escritores sugerem, por vezes, diferentes influências, tais como o detective criado por Edgar Allan Poe, C. Auguste Dupin, que chega mesmo a ser mencionado negativamente por Holmes em «Um Estudo em Vermelho». O Dr. (John) Watson deve o apelido (e aparentemente nada mais) a um colega médico do autor em Portsmouth, o Dr. James Watson.
É-lhe encomendada uma sequela, que surge nos inícios de 1890 na revista literária Lippincott’s Magazine, sob autorização da Ward Lock, intitulada «O Signo dos Quatro». Doyle, contudo, apercebe-se que tem sido gravemente explorado pela editora enquanto novo autor e, pouco depois, opta por terminar a ligação. As histórias de Sherlock Holmes passam a surgir na The Strand Magazine. As primeiras cinco tinham sido escritas nos tempos do consultório médico de oftalmologia, enquanto aguardava por clientes.
Apesar do relativo sucesso, o entusiasmo de Arthur é comedido. Em Novembro de 1891, confessa, numa carta à mãe: «Estou a pensar em dar cabo do Holmes (…) livrar-me dele de uma vez por todas. Rouba-me o tempo para fazer coisas melhores». A progenitora replica: «Não farás tal coisa! Não podes! Não deves!». Opta então, numa tentativa de reduzir o interesse dos editores, por pedir quantias cada vez mais elevadas pelas histórias, mas descobre que estes se mostram disponíveis para lhe oferecer o que for preciso. Isto faz com que o autor se torne num dos mais bem pagos do seu tempo.
Em Dezembro de 1893, todavia, uma vez que lhe interessa estar mais livre para se dedicar aos romances históricos, Doyle faz com que Holmes e o Professor Moriarty (o arqui-inimigo) mergulhem para a morte na Cascata de Reichenbach, em «O Problema Final».
Isto levou a protestos generalizados dos leitores, obrigando o autor a promover o regresso de Holmes em 1901, no famoso romance «O Cão dos Baskervilles».
Em 1903, Doyle escreve um conto no qual Holmes é o protagonista, após dez anos de interregno: «A Casa Vazia». Nele se explica que, afinal, apenas Moriarty tombou na Cascata mas uma vez que Holmes tinha outros inimigos perigosos – em especial o Coronel Sebastian Moran – o detective optou por simular a própria morte. Este acaba por surgir num total de 56 contos, o último dos quais publicado em 1927 e em quatro romances. Mais tarde, surge também em muitas obras de outros autores.
Arthur escreve ainda outros romances, nomeadamente «The Mystery of Cloomber», publicado apenas em 1888, ou uma obra incompleta intitulada «The Narrative of John Smith», surgida postumamente em 2011. Reúne também um conjunto de contos, onde se incluem «The Captain of the Pole-Star» e «J. Habakuk Jephson’s Statement», ambos inspirados no período em que esteve embarcado. Este último populariza o mistério acerca do navio «Mary Celeste» e acrescenta detalhes fictícios, como a hipótese de o mesmo ter sido encontrado em perfeitas condições (quando na verdade já metia água) ou a ideia de que todos os botes estavam presentes (quando na verdade faltava um). Estes detalhes falaciosos acabam por se tornar predominantes na memória popular sobre o caso e até a gralha cometida por Doyle ao escrever o nome do navio – «Marie Celeste» – é transformada em nome verdadeiro.
Entre 1888 e 1906, o autor conclui sete romances históricos, considerados por este e por muitos críticos como os melhores trabalhos. Escreve ainda outros nove romances e – num período mais avançado da carreira (1912-29) – cinco novelas nas quais o protagonista é um irascível cientista, conhecido como Professor Challenger. Entre estas, está a sua obra mais conhecida se excluirmos o fenómeno Holmes: «The Lost World». É ainda um prolífico contista, criando duas colecções passadas na época napoleónica onde o protagonista é o Brigadeiro Gerard.
Em 1885, Doyle casa-se com Louisa (por vezes apelidada de «Touie») Hawkins, irmã de um dos pacientes. Esta contrai tuberculose e acaba por morrer em 1907. No ano seguinte, casa-se com Jean Elizabeth Leckie, que já tinha conhecido e por quem já nutria sentimentos desde 1897, mas com quem mantivera uma ligação meramente platónica por respeito à esposa, enquanto esta foi viva. Toda a família, incluindo a mãe de Arthur, tem conhecimento do caso, com excepção de Louisa. Jean sobrevive ao marido e falece em plena II Guerra Mundial, em Junho de 1940.
É pai de cinco filhos, dois da primeira mulher e três da segunda. Nenhum deles teve descendência.
Doyle presta depois serviço como médico voluntário no Langman Field Hospital, na cidade sul-africana de Bloemfontein, entre Março e Junho de 1900, no contexto da Segunda Guerra dos Bóeres, na África do Sul (1899-1902). No final desse ano, escreve um livro sobre o conflito intitulado «The Great Boer War», bem como um outro mais pequeno a que chama «The War in South Africa: Its Cause and Conduct», no qual responde às críticas feitas ao papel do Reino Unido no conflito, defendendo a intervenção britânica. A obra é amplamente traduzida e o autor considera que é essa a razão pela qual é depois nomeado cavaleiro pelo Rei Eduardo VII, em 1902.
Doyle apoia igualmente a campanha para a libertação do Congo, liderada pelo jornalista E. D. Morel e pelo diplomata Roger Casement. Em 1909, escreve «The Crime of the Congo», um longo panfleto que denuncia os horrores perpetrados naquela colónia belga. Constrói uma relação cordial com Morel e Casement, sendo possível que estes tenham inspirado algumas das personagens na obra «The Lost World», em 1912. Anos mais tarde, no seguimento da Revolta da Páscoa (Irish Easter Rising), Casement é acusado de traição à Coroa e condenado à morte. Arthur tenta, sem sucesso, salvá-lo, com o argumento de que o irlandês tinha sofrido de insanidade temporária e portanto não era responsável pelos seus actos.
Com a ameaça crescente da I Guerra Mundial, que alimenta o aumento da germanofobia entre a população, Doyle deixa-se igualmente influenciar e acaba por fazer um donativo para uma associação anti-imigração. Em 1914, é um dos 53 autores britânicos de renome – onde se incluem H. G. Wells, Rudyard Kipling e Thomas Hardy – que assinam uma declaração justificativa do envolvimento no conflito mundial. O manifesto declara que a invasão alemã da Bélgica constitui um crime brutal e que a Grã-Bretanha «não pode, sem cair na desonra, recusar uma participação no presente conflito».
O autor revela-se um defensor acérrimo do que entende como justiça e decide investigar a título pessoal dois casos jurídicos encerrados, o que redunda na posterior absolvição de dois indivíduos erradamente condenados. O primeiro caso, ocorrido em 1906, envolve um tímido advogado com dupla nacionalidade (inglesa e indiana) chamado George Edalji, que teria alegadamente enviado cartas ameaçadoras e mutilado animais na aldeia de Great Wyrley. A polícia mantém-se firme na acusação, sem levar em conta que as mutilações prosseguem mesmo após a captura do suspeito. Para além da ajuda prestada a George Edalji, as acções de Arthur contribuem para que seja estabelecido um método de correcção para outros erros da Justiça, uma vez que são em parte os resultados deste caso que levam à criação do Tribunal da Relação (Court of Criminal Appeal) em 1907.
O segundo caso é o de Oscar Slater – um judeu de origem alemã que gere uma casa de jogo clandestina e é condenado pelo suposto espancamento de uma mulher de 82 anos em Glasgow, no ano de 1908. Doyle ganha interesse ao encontrar algumas inconsistências no processo de acusação, baseando-se ainda na percepção pública da inocência do indivíduo. Como tal, acaba mesmo por financiar as custas do recurso de Slater, que é finalmente libertado após 20 anos de trabalhos forçados.
Em Julho de 1930, o autor é encontrado de mãos no peito, no hall da sua propriedade situada na vila de Crowborough, na região de Sussex. Tendo sofrido um ataque cardíaco, acaba por falecer com 71 anos, não sem antes dirigir à mulher as derradeiras palavras: «És maravilhosa».
O enterro está envolto em alguma polémica, uma vez que Doyle não se considerava cristão, mas espiritualista. Este começa por ser enterrado no jardim privado da propriedade de família e depois transferido juntamente com a mulher para uma igreja em New Forest, Hampshire.
Hoje em dia, é possível encontrar uma estátua do personagem Sherlock Holmes na Picardy Place, em Edimburgo, muito perto da casa onde o autor nasceu.
Terceiro de quatro romances sobre o famoso detective Sherlock Holmes. A acção decorre sobretudo na zona desértica de Dartmoor, no condado de Devon, situado no sudoeste de Inglaterra. Holmes e Watson investigam a lenda relacionada com um cão de aspecto diabólico e ameaçador, de origem sobrenatural. Trata-se da primeira aparição do detective após a suposta morte em «O Problema Final». O sucesso deste romance leva ao reaparecimento da personagem em obras seguintes.
Enredo
Em Londres, no ano de 1889, Sherlock Holmes e John Watson recebem a visita do Dr. James Mortimer que, em busca do auxílio do detective, começa por descrever-lhe uma lenda associada à família Baskerville desde os longínquos tempos da Guerra Civil Inglesa, altura em que Sir Hugo Baskerville raptou a filha de um camponês. Quando esta se colocou em fuga, Hugo perseguiu-a e, numa espécie de loucura raivosa, amaldiçoou-se pelo sucedido. Acto contínuo, os companheiros testemunharam então a morte do cavaleiro, atacado por um cão demoníaco e a morte da rapariga, devido a um ataque de pânico. A lenda professa que o animal tem assombrado a zona de Dartmoor desde então, causando a morte prematura de muitos elementos da família Baskerville. Mortimer acrescenta que um amigo com problemas cardíacos, o filantrópico Sir Charles Baskerville, tendo feito fortuna na África do Sul, residia ultimamente em Baskerville Hall, apesar de levar a lenda muito a sério. O corpo deste não tardou a ser encontrado num ermo, com uma expressão horrorizada. A causa oficial da morte foi atribuída a uma paragem cardíaca, mas Mortimer terá notado as marcas de grandes patas junto ao cadáver.
Sir Charles era o mais velho dos três irmãos Baskerville e Sir Henry, o filho canadiano do falecido irmão do meio, é agora o herdeiro. O irmão mais novo, Rodger, dono de um carácter bastante duvidoso, morreu de febre-amarela na América do Sul, em 1876. Mortimer, o executor do testamento de Sir Charles, teme agora que seja muito arriscado chamar Sir Henry a Dartmoor, não vá ocorrer outra tragédia de contornos sobrenaturais.
Holmes, apesar de considerar tudo aquilo uma fantasia, aceita encontrar-se com Sir Henry quando este chega a Londres. Logo se depreende que o mesmo tem sido perturbado por um conjunto de episódios incomuns: perdeu ou foi-lhe roubada uma bota, recebeu uma carta anónima que o avisa acerca dos perigos da zona e alguém anda a segui-lo numa carruagem. Mortimer informa que a herança de Sir Henry ascende a quase 100 milhões de euros (aos dias de hoje). Tendo em conta isto, Holmes pede a Watson para que este cumpra o papel de guarda-costas de Sir Henry e proceda a algumas investigações em Dartmoor.
À chegada, Watson, Mortimer e Sir Henry descobrem que Selden, um assassino condenado, se colocou em fuga da prisão de Princetown e anda à solta na zona. Em Baskerville Hall, apresentam-se a John e Eliza Barrymore, mordomo e governanta, que são também um casal. Watson envia relatórios detalhados a Holmes, focando-se em especial nos elementos da vizinhança.
Destes, sobressaem os irmãos Stapleton. Jack exibe uma simpatia exagerada, faz menções discretas ao famoso cão e avisa Watson acerca dos perigos associados à travessia do pântano local, o Grimpen Mire. A irmã, Beryl, sugere com insistência (nas costas do irmão) que Sir Henry regresse a Londres. Outro vizinho, Frankland, mostra-se um bisbilhoteiro constante e uma fonte de problemas, ameaçando mesmo processar o Dr. Mortimer se este escavar alguns túmulos milenares, existentes na zona. Sir Henry apaixona-se por Beryl Stapleton, para grande desagrado de Jack.
Torna-se claro, entretanto, que John Barrymore troca com frequência sinais luminosos com alguém, oculto na paisagem. Ao segui-lo, certa noite, Watson e Sir Henry descobrem que Selden é o irmão mais novo de Eliza Barrymore e que, devido a isso, utilizam aquela artimanha para lhe fornecer comida. Watson faz uma tentativa, fracassada, para apanhar Selden e no seguimento observa uma figura misteriosa por entre uma formação rochosa.
Watson e Sir Henry ficam a saber através de Barrymore que a filha desaparecida de Frankland, Laura, terá em tempos enviado uma carta a Sir Charles. Watson, sem sucesso, procura falar com ela e depois identificar o homem que se esconde na formação rochosa. Descobre que se trata nada menos do que Holmes, que tem procedido a investigações secretas e paralelas, sob a capa do anonimato.
O detective revela que Jack Stapleton é o verdadeiro assassino e que Beryl é, na verdade, a mulher deste (violentada e forçada a fingir-se a irmã). Não tem, contudo, provas concretas do que afirma, de modo a convencer as autoridades. Entretanto, ambos julgam ouvir Sir Henry a fugir de um cão ameaçador e, em consequência, a cair de um penhasco, mas descobrem que o moribundo é Selden. Barrymore tinha oferecido ao mesmo algumas roupas velhas descartadas por Sir Henry e o cão de Stapleton, colocado na pista do filantropo através da bota roubada, confundiu os rastros.
Já em Baskerville Hall, Holmes menciona a Watson que o retrato de Sir Hugo Baskerville exibe curiosas parecenças com o rosto de Stapleton. O detective decide então usar um desorientado Sir Henry como isco, dizendo-lhe para este visitar Stapleton nessa noite e depois caminhar ao longo do campo. Holmes e Watson simulam regressar a Londres mas, em vez disso, escondem-se nas proximidades da casa de Stapleton, acompanhados pelo Inspector Lestrade, da Scotland Yard. Apesar do intenso nevoeiro, conseguem encontrar e matar o cão de Stapleton, que tinha sido lançado em perseguição de Sir Henry. Entrando na casa de Jack, descobrem que este amarrou a mulher e desapareceu rumo aos pântanos, onde se terá afogado.
Enquanto Sir Henry e o Dr. Mortimer partem numa viagem marítima, de modo a que o primeiro recupere das emoções, Holmes explica a Watson que Stapleton era, na verdade, Rodger Baskerville II, o filho secreto do irmão mais novo de Sir Charles. Este, sentindo-se identificado, física e espiritualmente, com Sir Hugo, terá comprado um enorme e selvagem cão preto e depois pintado o pêlo deste com fósforo para lhe dar uma aparência diabólica. Esperava, assim, fosse por ataque directo ou mero pânico, eliminar os restantes herdeiros da fortuna dos Baskerville. Além disso, prometera casamento a Laura, convencendo-a desse modo a atrair Sir Charles para fora de casa, na noite fatal. Apostada em ajudar Sir Henry, Beryl tinha sido a autora da carta anónima, numa tentativa de sabotar os planos do marido.
Holmes considera Stapleton um dos melhores oponentes de sempre.









