Oscar Wilde

Viveu entre 1854 e 1900. Foi autor, poeta e dramaturgo. Após experimentar diferentes géneros literários ao longo da década de 1880, tornou-se um dos dramaturgos mais populares e influentes de Londres no início da década seguinte, sendo mesmo considerado o maior dramaturgo da «era vitoriana». Foi também elemento essencial de um movimento conhecido como Esteticismo, surgido em finais do séc. XIX. A obra mais conhecida do autor é o romance gótico O Retrato de Dorian Gray (1890), além dos epigramas, peças e histórias infantis. Na vida privada, destaca-se a condenação em tribunal, no ano de 1895, que o levou à prisão devido à prática de actos homossexuais.

Os pais de Wilde, de origem inglesa e protestante, faziam parte da comunidade anglo-irlandesa na cidade de Dublin. Logo na juventude, este tornou-se proficiente em Francês e Alemão. Na Universidade, cursou o equivalente a Humanidades e tornou-se versado no estudo dos Clássicos, primeiro na Trinity College, Dublin e depois na Magdalen College, Oxford. Associou-se então ao Esteticismo devido à influência de dois mestres, Walter Pater e John Ruskin. Concluídos os estudos académicos, mudou-se para Londres, ingressando nos círculos sociais e culturais mais relevantes.

Wilde experimentou várias actividades no panorama literário: escreveu uma peça de teatro, publicou um livro de poemas, deu palestras nos Estados Unidos e Canadá sobre Arte e Decoração de Interiores, voltou depois a Londres onde relatou as viagens pela América do Norte e publicou artigos em vários jornais. Famoso pela inteligência mordaz, guarda-roupa exuberante e excepcionais dotes de oratória, transformou-se numa das personalidades mais conhecidas da época. Por volta de 1890, aprimorou as ideias acerca da Arte numa série de diálogos e ensaios e incorporou os temas da Decadência, Duplicidade e Beleza naquele que se revelaria o único romance: O Retrato de Dorian Gray. Regressou depois à dramaturgia escrevendo «Salomé» (1891) em francês, quando estava em Paris, peça que não foi levada a palco em Inglaterra. Sem desistir, escreveu quatro comédias de costumes, que o tornaram num dos dramaturgos mais bem-sucedidos da «era vitoriana».

No auge da fama e do sucesso, com duas peças em cena em Londres – «Um Marido Ideal» e «A Importância de Ser Earnest» (ambas de 1895), o autor abre um processo judicial contra John Sholto Douglas, o 9º Marquês de Queensberry, por difamação.

Este era o pai do amante de Wilde, Lord Alfred Douglas. O processo acabou por revelar um conjunto de provas que levaram o autor a desistir da acusação e provocaram, pelo contrário, a prisão deste, acusado de indecência grave com outros homens. O júri foi incapaz de tomar uma decisão, tendo sido ordenado um novo julgamento. Nesse, é considerado culpado e condenado a dois anos de trabalhos forçados (a pena máxima nestes casos), estando preso entre 1895 e 1897. No último ano do cárcere, escreveu «De Profundis» (editado postumamente, primeiro numa versão parcial em 1905 e depois na totalidade em 1962), uma longa carta acerca da viagem espiritual que experimentou e que serviu de contraponto sombrio à anterior filosofia hedonista. No dia em que foi libertado, apanhou um barco a vapor nocturno com destino a França, nunca mais regressando a Inglaterra ou à Irlanda. Entre França e Itália, escreveu a última obra, «The Ballad of Reading Gaol» (1898), um longo poema a evocar as duras rotinas da vida na prisão.

Oscar Wilde nasce a 16 de Outubro de 1854 na 21 Westland Row, Dublin (agora sede do Oscar Wilde Centre, Trinity College), sendo o segundo dos três filhos de um casal anglo-irlandês: Jane Elgee e Sir William Wilde. Oscar é dois anos mais novo que o irmão, William (Willie) Wilde.

Jane (Elgee) Wilde era sobrinha (através do casamento) do romancista, dramaturgo e clérigo Charles Maturin, que terá influenciado a carreira literária de Jane. Esta gostava de acreditar (embora nada o provasse) que tinha ascendência italiana, tendo escrito poesia sob o pseudónimo “Speranza” (a palavra italiana para «esperança») para um movimento cultural e político revolucionário conhecido como Young Irelanders, em 1848. Jane considerava-se uma irredutível nacionalista irlandesa e tinha o hábito de ler a poesia de membros dos Young Irelanders aos filhos, Willie e Oscar, inculcando-lhes desde cedo o apreço por estes assuntos. O interesse desta no revivalismo neoclássico estava ainda bem patente nos quadros e bustos da Grécia Antiga e de Roma que mantinha em casa.

Sir William Wilde era o mais renomado cirurgião de olhos e ouvidos do país, tendo sido feito cavaleiro em 1864 pelos serviços prestados. Além disso, escreveu livros sobre arqueologia irlandesa e folclore local. Renomado filantropo, esteve na origem de um hospital dedicado a tais especialidades médicas. O avô paterno do autor era um soldado holandês, o coronel de Wilde, que chegou à Irlanda integrado no exército invasor do Rei Guilherme III de Inglaterra, em 1690. Do lado materno também existiam emigrantes ingleses, chegados na década de 1770.

Oscar é baptizado em criança na igreja de St. Mark, em Dublin, pertencente à Igreja da Irlanda (anglicana), embora um padre católico no condado de Wicklow alegue ter baptizado os dois irmãos.

Para além dos irmãos legítimos, existiam ainda três meios-irmãos nascidos antes do casamento do pai (um rapaz de uma mulher em 1838 e duas raparigas de outra mulher entre 1847 e 1849). Sir William assumira a paternidade das crianças e preocupara-se com a educação destas, organizando as coisas para que fossem acolhidas por outros familiares.

A família muda-se para o nº1 da Merrion Square, em 1855. Devido à reputação de que os pais usufruíam socialmente, a residência depressa se torna um palco para «reuniões culturais e científicas», recheadas de convidados do meio académico, político e artístico.

A irmã de Wilde, Isola Francesca Emily Wilde, nasce em Abril de 1857. Este descreverá mais tarde que Isola era «um raio de sol dourado a dançar pela casa fora» e como ficou destroçado quando esta falece com apenas nove anos, vítima de uma febre. O poema «Requiescat» é-lhe dedicado. Podemos ler na primeira estrofe:

 

Tread lightly, she is near

Under the snow

Speak gently, she can hear

The daisies grow.

 

Até aos nove anos, Oscar é educado em casa, tendo aprendido as respectivas línguas com uma ama-seca francesa e uma governanta alemã. Junta-se depois ao irmão Willie na Portora Royal School em Enniskillen, no condado de Fermanagh, na Irlanda do Norte, entre 1864 e 1871. Na instituição, embora não seja tão popular como o irmão mais velho, já é capaz de impressionar os colegas através das histórias humorísticas que se entretém a contar, sobre a realidade da escola. Mais tarde, alegará que os colegas o viam como um prodígio, pois era capaz de ler a uma velocidade estrondosa, supostamente mais do que uma página em simultâneo e terminar uma obra de três volumes em meia hora, retendo informação suficiente para fornecer uma sinopse do enredo. Torna-se um aluno excelente, em particular no estudo dos Clássicos, ficando no quarto lugar geral no ano de 1869. A capacidade demonstrada para fazer traduções orais de textos em Grego e Latim valem-lhe múltiplos prémios. Faz parte de um grupo restrito de apenas três alunos vindos da Portora Royal School a vencer uma bolsa de estudos para a Trinity, em 1871.

Nesse mesmo ano, conta Wilde 17 anos, as meias-irmãs deste, Mary e Emily, morrem com apenas 22 e 24 anos, após sofrerem queimaduras fatais num baile que decorria em Drumacon, no condado de Monaghan. Existem diferentes versões do acidente mas, em princípio, uma delas terá sido apanhada pelas chamas de uma lareira ou de um candelabro, tendo a outra sido envolvida pelo mesmo fogo ao procurar socorrer a irmã.

Até perto dos 20 anos, Oscar e o irmão passam as férias de Verão em Moytura House, uma villa construída pelo pai no condado de Mayo.

Ambos prosseguem então os estudos na Trinity College Dublin (TCD), entre 1871 e 1874. Nessa prestigiada faculdade encontra variados mestres e académicos, incluindo o tutor, J. P. Mahaffy, que o inspira no estudo da Literatura Grega. Wilde colabora com o professor num livro deste e considera-o «o meu primeiro e melhor professor», bem como «o académico que me ensinou a amar a cultura grega». Por outro lado, Mahaffy apregoava mais tarde ter sido o «criador de Wilde».

Este torna-se um membro regular da University Philosophical Society, um clube de leitura e estudo dentro da instituição onde os integrantes podem debater assuntos intelectuais e artísticos semanalmente. O livro de sugestões no ano de 1874 contém duas páginas amigavelmente humorísticas acerca da emergente estética de Oscar, que apresenta um trabalho intitulado precisamente «Aesthetic Morality».

Wilde torna-se, uma vez mais, um aluno extraordinário: é o líder da turma no primeiro ano, vence uma bolsa no segundo e no derradeiro vence o prémio máximo da instituição para o estudo do Grego. É-lhe então sugerido que concorra a outra bolsa, equivalente a 10 mil euros anuais nos dias de hoje, para a Magdalen College, Oxford, desafio que vence com facilidade.

Em Inglaterra, dedica-se ao estudo dos Clássicos entre 1874 e 1878. Procura entrar na Oxford Union, um prestigiado clube de debate, mas não consegue.

Atraído pelas roupagens, secretismo e rituais associados, associa-se depois a um clube maçónico em Oxford. Alternando períodos de maior e menor interesse em tais reuniões, acaba por se afastar assim que termina os estudos, deixando caducar a subscrição por falta de pagamento.

Deixa-se então atrair pelo Catolicismo devido à riqueza da liturgia e pondera mesmo converter-se após várias conversas com clérigos. Em 1877, fica encantado após uma audiência com o Papa Pio IX, em Roma. Lê com sofreguidão os livros do Cardeal Newman, um famoso anglicano convertido ao catolicismo que ganhou influência na hierarquia da Igreja. O assunto ganha ainda mais importância em 1878, quando se encontra com o reverendo Sebastian Bowden, um clérigo que já procedera a algumas conversões de membros famosos. Nem Mahaffy, nem o pai (que ameaça cortar-lhe a mesada) gostam de tal ideia. Entretanto, Oscar – o supremo individualista – decide à última hora não se deixar integrar num credo formal. Na data prevista para a conversão, envia a Bowden um ramo de lírios para o altar. Apesar disto, manterá o interesse pela teologia e liturgia católicas ao longo da vida.

Durante o período na Magdalen College, Wilde torna-se bastante conhecido pelo papel que desempenha nos movimentos do Esteticismo e Decadentismo. Usa cabelo comprido, desdenha abertamente dos desportos considerados masculinos – embora pratique boxe de vez em quando – e decora o quarto com penas de pavão, lírios, girassóis, porcelana azul e branca (chinesa) e outros objectos artísticos.

Dá festas exuberantes e terá comentado, certa vez, com amigos: «Acho cada vez mais difícil, dia após dia, estar à altura da minha porcelana azul». A frase torna-se famosa, os estetas adoptam-na enquanto divisa, mas é considerada por outros uma declaração extremamente oca.

Alguns críticos desdenham dos estetas mas os comportamentos lânguidos e hábitos exibicionistas começam a tornar-se um padrão reconhecível. Quando, a certa altura, é atacado fisicamente por quatro colegas universitários, Oscar derrota-os sozinho, um a um, para grande surpresa dos detractores. Por volta do terceiro ano, este começa de facto a construir uma imagem mítica, já que o nível de aprendizagem suplantava o programa académico estabelecido. Entretanto, é suspenso durante um trimestre ao regressar atrasado de uma viagem à Grécia, efectuada com Mahaffy.

Wilde só conhece Walter Pater no terceiro ano, embora já tivesse gostado da obra deste – «Studies in the History of the Renaissance» – publicada no último ano na Trinity. Pater defende que o Homem deve aprimorar a sensibilidade à Beleza acima de qualquer outra coisa e que cada momento deve ser assimilado na plenitude. Anos mais tarde, na obra «De Profundis», Oscar considera que o texto do mestre foi «aquele livro que teve uma influência tão estranha na minha vida». Aprende passagens de cor e transporta o livro consigo em viagens, nos últimos anos. De Pater, Wilde retira a devoção irreverente à Arte, adquirindo depois um propósito para a mesma através das palestras e artigos do crítico John Ruskin. Este não suporta o esteticismo indulgente de Pater, argumentando que a importância da Arte advém do potencial que esta apresenta para modificar a sociedade. Ruskin admira a Beleza, mas acredita que esta deve estar alinhada e direccionada para o bem moral. Oscar, ao assistir com todo o interesse a uma série de palestras de Ruskin sobre Estética e Matemática, passa a encarar a primeira enquanto elementos não-matemáticos da Pintura. No seguimento, embora avesso a levantar-se cedo e a trabalho manual, voluntaria-se para um projecto de Ruskin que consiste em converter uma estrada de campo lamacenta numa via agradável, harmoniosamente ladeada de flores.

Wilde vence também um prémio literário da Universidade de Oxford em 1878 (Newdigate Prize) com o poema «Ravenna». Em Novembro desse ano, forma-se em Artes e Humanidades com mérito e honras.

Escreve a um amigo, jocosamente: «Os fulanos estão ‘passados’, sem palavras – o Mau da Fita a safar-se tão bem, afinal».

Após a conclusão dos estudos, regressa a Dublin, onde volta a encontrar Florence Balcombe, uma namoradinha de infância. Esta acaba por ficar noiva de Bram Stoker, casando-se com ele ainda em 1878. Oscar fica desapontado, mas permanece firme. Escreve-lhe uma carta, recordando «aqueles dois anos doces – os mais doces de toda a minha juventude» durante os quais tinham sido próximos. Declara-lhe ainda a intenção de «regressar a Inglaterra, provavelmente de vez». Acaba por cumprir a promessa antes do fim do ano, fazendo apenas duas curtas visitas à Irlanda depois disso.

Indeciso sobre o próximo passo, Wilde escreve a vários conhecidos a inquirir sobre vagas para o ensino dos Clássicos, em Oxford ou Cambridge. Embora já não sendo estudante, ainda é elegível para um prémio académico nessa área em 1879, na vertente do Ensaio, que parece feito de propósito para ele, versado como é em Composição e Estudos Clássicos, mas experimenta dificuldades em encontrar uma voz no estilo longo, monótono e académico que o trabalho exige. De forma pouco usual, o prémio não é atribuído nesse ano.

Com o que lhe sobra da herança resultante da venda de algumas propriedades do pai, decide estabelecer-se enquanto celibatário na cidade de Londres. Fixa morada numa rua do bairro de Chelsea, onde também mora Frank Miles, um pintor retratista das classes altas.

É no estúdio deste que conhece Lillie Langtry, considerada a mulher mais charmosa de Inglaterra. Esta assume grande importância na vida de Oscar durante os primeiros anos deste em Londres, tendo ambos ficado bons amigos durante muito tempo. É ele quem lhe dá aulas de Latim e sugere que esta se dedique a ser actriz. Por sua vez, Lillie escreverá na autobiografia que ele «tinha uma personalidade absolutamente sedutora e fascinante» e que «a inteligência das suas observações saía reforçada pelo modo como as enunciava».

Wilde frequenta o Teatro com regularidade e deixa-se impressionar por actrizes famosas como Ellen Terry e Sarah Bernhardt. Em 1880, dá por concluída a sua primeira peça, intitulada «Vera ou Os Niilistas», um melodrama trágico acerca do niilismo russo.

São distribuídas algumas cópias de forma privada a diversas actrizes, na esperança que alguma aceite ser a protagonista. É anunciada uma actuação única em Londres, em Novembro de 1881, com Bernard Beere a assumir o papel de Vera, mas o espectáculo é cancelado pelo próprio Oscar à conta do suposto ambiente político em Inglaterra.

Este já publicava poemas em revistas desde os tempos da Trinity College, em especial na Kottabos e na Dublin University Magazine. Em meados de 1881, com 27 anos, edita a obra «Poemas», uma compilação revista e aumentada dos textos iniciais.

Embora essa primeira edição de 750 cópias tenha esgotado, não é muito bem recebida pelos críticos: «O poeta é Wilde (selvagem) mas os poemas são mansos», afirma uma revista humorística. A obra sofre também discutíveis acusações de plágio e algumas bibliotecas recusam aceitar um exemplar.

O livro é, contudo, reeditado em 1882, num trabalho vistoso e cuidado, sendo oferecido pelo autor a dignatários e escritores que assistem às palestras.

Entretanto, o movimento do Esteticismo ganha suficiente interesse para ser caricaturado na ópera cómica «Patience» (1881). Richard D’Oyly Carte, um empresário inglês, decide convidar Wilde para uma série de palestras na América do Norte, cumprindo assim o duplo objectivo de aumentar o interesse pela ópera do outro lado do Atlântico e publicitar aquele charmoso esteta ao público americano. Oscar viaja no SS Arizona, entre 02 e 03 de Janeiro de 1882. Com uma duração prevista de quatro meses, o sucesso do projecto faz com este se prolongue por um ano. A intenção de Wilde passa por transpor a beleza que encontra na Arte para o quotidiano. O objectivo tem tanto de prático como de filosófico. Se em Oxford este se rodeara de lírios e porcelana azul, agora dá palestras sobre decoração de interiores. Sobre ele se escreve, num artigo sobre Esteticismo e Decadência:

Wilde provoca os leitores com a alegação de que a Vida imita a Arte e não o contrário. O argumento é válido: reparamos nos nevoeiros londrinos, alega, porque a Arte e a Literatura assim nos ensinaram. Wilde, entre outros, «encena» estes axiomas. Apresenta-se enquanto diletante impecavelmente vestido e amaneirado, cuja existência é, em si mesma, uma obra de arte.

Quando lhe é pedido um comentário sobre a alegação segundo a qual terá desfilado ao longo da Piccadilly, em Londres, com um lírio na mão, com os longos cabelos ao vento, Oscar responde: «O importante não é se o fiz ou não, mas se as pessoas acreditam ou não que o fiz». Este defende que o artista deve enunciar ideais mais altos e que o prazer e a beleza irão substituir a ética utilitária.

O autor e o Esteticismo são vítimas de críticas e caricaturas ferozes em alguns sectores da imprensa, que sugerem, por exemplo, que o comportamento deste é mais uma jogada publicitária do que verdadeira convicção no movimento: «Wilde, cujo único mérito literário é ter escrito um curto e medíocre livro de versos, arrisca-se a influenciar negativamente a conduta de homens e mulheres».

De acordo com um biógrafo, Oscar enfrenta múltiplos preconceitos na imprensa americana, sendo caricaturado enquanto irlandês, macaco e negro adorador de girassóis. Ao visitar São Francisco, um jornal local escreve:

A cidade dividiu-se em dois grupos: o que considerou Wilde um orador cativante e um pensador original e o que viu nele a fraude mais pretensiosa alguma vez imposta a um público desagradado.

Apesar destas recepções hostis, é acarinhado em alguns círculos. Alega ter bebido whiskey com os mineiros do Colorado e causa sensação na maioria dos salões que visita, nas diferentes cidades.

Os ganhos obtidos, a juntar ao lucro que espera ter com a peça «A Duquesa de Pádua», motivam-no a mudar-se para Paris entre Fevereiro e Maio de 1883. Lá, conhece o jornalista e escritor inglês Robert Sherard, de quem se torna amigo e a quem convida frequentemente para eventos: «Esta noite jantamos por conta da Duquesa», brinca, sempre que o leva a mais um restaurante caro. Em Agosto, regressa brevemente a Nova Iorque a propósito da peça «Vera…», tendo vendido os direitos à actriz americana Marie Prescott. Embora a produção seja bem recebida pelo público numa fase inicial, as coisas mudam quando os críticos fazem artigos pouco entusiasmados e a peça acaba por ser cancelada no final da primeira semana.

Em Londres, Wilde já conhecera Constance Lloyd, filha de Horace Lloyd, um rico advogado da Rainha. Por mero acaso, esta visita Dublin em 1884, numa altura em que ele está a leccionar no Gaiety Theatre. O autor pede-a em casamento e a cerimónia tem lugar a 29 de Maio desse ano, numa igreja de Londres. Embora Constance tenha uma pensão anual generosa para uma jovem esposa da época (o equivalente a 25 mil euros nos dias de hoje), a família Wilde mantém um estilo de vida luxuoso, prisioneiros que estão das próprias teorias estéticas e decorativas.

A residência em Londres, no bairro de Chelsea, é totalmente renovada no espaço de sete meses, a elevado custo. Da união nascem dois filhos, Cyril (1885) e Vyvyan (1886).

Nesse ano de 1886, Oscar conhece Robert Ross, em Oxford. Ross, que já conhecia os poemas do outro antes do encontro, parece indiferente à lei vitoriana que proíbe a homossexualidade. Trata-se de um rapaz precoce, de apenas 17 anos, «muito jovem mas muito conhecedor, determinado a seduzir Wilde». Este, que há muito se referia ao amor Grego, aparenta iniciar a sua actividade homossexual com Ross, num período em que o casamento entra em crise à conta da segunda gravidez da mulher. Segundo consta, o autor passa a sentir-se «fisicamente incomodado» com ela.

Mantém, entretanto, o mesmo estilo de vida exuberante, entre cafés, livrarias e lojas de luxo, incluindo os Armazéns Harrods, onde é dos primeiros clientes exclusivos a beneficiar de crédito alargado.

Um conjunto de críticas na imprensa sobre questões artísticas motivam-no a exercer o direito de resposta através de uma carta, situação que origina diversas contribuições para jornais entre 1885/87. Contrariando a percepção pública, a mulher confessa a amigos que «o Sr. Wilde detesta o jornalismo».

Tal como os pais, Oscar é um defensor da causa irlandesa pelo que, quando Charles Stewart Parnell é falsamente acusado de homicídio, escreve uma série de artigos incisivos em defesa do político.

O estilo de Wilde, até àquele momento utilizado apenas no trato social, adapta-se perfeitamente ao tom jornalístico e começa a despertar interesse. Com a juventude a fugir e a família a aumentar, o autor decide tornar-se editor da revista feminina The Lady’s World, que logo rebaptiza The Woman’s World e mudando também o estilo – de uma publicação leve para algo contendo artigos sérios sobre parentalidade, cultura e política, embora mantendo textos sobre moda e artes. Passam a estar ainda incluídos dois textos de ficção, um de carácter infantil e outro para adultos. Oscar esforça-se bastante para manter o nível das contribuições, recorrendo aos contactos que mantém na sociedade artística.

Contudo, a energia e entusiasmo iniciais começam a faltar à medida que as agruras administrativas, as constantes deslocações e a vida de escritório contribuem para o cinzentismo da rotina. Em simultâneo com o progressivo desinteresse de Wilde, os restantes editores revelam preocupações com os números da tiragem que, também devido ao elevado preço da revista, se mantêm baixos. O autor dá então início a um novo período criativo, passando a enviar as instruções para a sede através de carta e diminuindo a regularidade da própria coluna na publicação. Por volta de Outubro de 1889, encontra por fim uma voz no texto em prosa e não tarda a abandonar por completo a colaboração na The Woman’s World, que dura apenas mais um ano. Ainda assim, a experiência revela-se essencial no desenvolvimento do escritor, tendo facilitado a ascensão deste para a fama. Enquanto o «Wilde jornalista» se limitava a fornecer artigos aos editores, o «Wilde editor» aprendeu agora a lidar com os humores do mercado literário.

Ao longo da década de 1880, Oscar mantém amizade íntima com o artista James McNeill Whistler, jantando com ele múltiplas vezes. Num desses encontros, Whistler sai-se com uma frase que Wilde considera particularmente cómica e este afirma: «Quem me dera ter dito isso». Whistler responde: «Dirás, Oscar, dirás». Herbert Vivian – um amigo de ambos – está também presente e utiliza o episódio para escrever um artigo sobre o tema. Nele se alega que Wilde tem o hábito de fazer passar as frases inspiradas de outros por suas, em especial as de Whistler. O caso redunda numa enorme discussão e no fim da amizade entre Oscar e os outros. A polémica, contudo, não diminuiu a reputação do autor, que mantém o hábito de comentar os outros com acidez. De Whistler afirma que este «não tem inimigos mas é odiado pelos amigos», de Rudyard Kipling que «revela a vida através de espasmos fantásticos de vulgaridade», de Henry James que «escreve ficção como se de um penoso dever se tratasse».

Wilde tinha já o hábito de escrever histórias para revistas. Publica, por exemplo, «O Príncipe Feliz e Outros Contos» em 1888. Em 1891, mais duas colectâneas: «O Crime de Lord Arthur Savile e Outros Contos» e «A Casa das Romãs», dedicada à mulher. «O Retrato de Mr. W. H.», iniciado em 1887, só é publicado numa revista em meados de 1889. A obra é vista como um dos primeiros exemplos do génio de Oscar, ao combinar várias características que o definem: eloquência, literatura e a teoria de que para abdicarmos de uma opinião, temos primeiro de convencer o interlocutor da sua validade.

Cansado do jornalismo, o autor prefere estabelecer os pilares da conhecida estética através de uma série de longos artigos em prosa, publicados nos jornais literários mais prestigiados da época. Em Janeiro de 1889, surge «O Declínio da Mentira». Dois dos quatro textos de Wilde sobre a estética são diálogos, uma vez que, apesar de feita a transição das palestras para a escrita, este ainda conserva algumas características da tradição oral – sempre excelente na figura do espirituoso contador de histórias, os textos são muitas vezes um tricotado de frases, aforismos e graças.

Mantém ainda a preocupação com os efeitos da moralização da Arte, defendendo que esta deverá funcionar enquanto redenção:

Arte é individualismo e este é uma força perturbadora e disruptiva. Aí reside o imenso valor. Aí se procura agitar a monotonia do estilo, a escravidão da rotina, a tirania do hábito e a redução do Homem a simples máquina.

No único texto de cariz político, «A Alma do Homem Sob o Socialismo», defende que se deve estabelecer o seguinte contexto politico: a propriedade privada deve ser abolida e a cooperação substituída pela competição. Acrescenta que «o Socialismo, o Comunismo, ou aquilo que quisermos chamar, ao converter a propriedade privada em riqueza pública e ao substituir a cooperação pela competição, irá devolver a sociedade à sua condição natural de organismo saudável e assegurar o bem-estar material de cada cidadão. Irá, de facto, devolver à Vida a sua base elementar e o seu ambiente original». Reforça dizendo que o melhor tipo de governo para os artistas é a total ausência de governo. Tal como Vian, no futuro, o autor concebe uma sociedade onde a mecanização liberta o esforço humano do fardo da necessidade, esforço esse que pode então ser direccionado para a criação artística. George Orwell resume:

O mundo será habitado por artistas, cada um deles apostado em atingir a perfeição do modo que melhor se adapte a cada um.

Os ensaios e diálogos demonstram da melhor forma todo o génio e personalidade de Oscar: espirituoso, romancista, orador, académico e humanista. O ano de 1891 acaba por se tornar o «annus mirabilis» (ano maravilhoso) do autor: para além das três colectâneas, termina ainda o único romance.

A primeira versão d’ O Retrato de Dorian Gray é publicada em meados de 1890 numa revista literária. O enredo inicia-se com um artista a pintar o retrato de Gray. Quando este, dono de um «rosto de mármore e pétalas de rosa», observa o trabalho concluído, tem um colapso emocional, destroçado por saber que a beleza desaparecerá apesar de eternizada no retrato. Devido a isto, faz uma espécie de acordo faustiano segundo o qual a situação poderá inverter-se: o quadro envelhecerá permitindo que ele fique para sempre belo e jovem. Wilde reforça aqui a ideia de que o único objectivo da Arte é a Beleza. Ao fazer com que o retrato de Gray o impeça de lidar com a decadência do próprio hedonismo, Oscar procura justapor a beleza da Arte à beleza da Vida.

Os críticos, porém, não tardam a reprovar a decadência e o subtexto homossexual na obra, considerando-a «impura», «venenosa» e «carregada dos odores inerentes à putrefacção moral e espiritual». Wilde responde de imediato:

Se uma obra de arte é rica, vital e plena, os que possuem instintos artísticos nela encontrarão a beleza e os que se preocupam mais com as questões éticas nela encontrarão a lição moral.

Apesar de tudo, concorda em rever extensivamente o texto, antes de este ganhar o formato de livro. Acrescenta seis capítulos e corta as passagens mais obviamente associadas à decadência e homossexualidade. Adiciona ainda um prefácio com 22 epigramas, como por exemplo: «Os livros são bem escritos ou mal escritos. Eis tudo».

Alguns críticos modernos dedicaram-se a enumerar as possíveis fontes para o enredo, exercício considerado fútil por outros, incluindo o autor: «o enredo provém de uma ideia tão antiga como a História da Literatura, à qual me limitei a dar novas roupagens».

Outras opiniões defendem que o romance é tecnicamente sofrível e que o sucesso ocorre devido ao tema, ainda que o mesmo nunca seja explorado na totalidade.

Alvo de inúmeras adaptações ao Cinema e Teatro, a obra contém uma das frases mais citadas de sempre: «Só existe no mundo uma coisa pior do que falarem de nós: não falarem de nós».

Oscar, agora com 37 anos, mantém residência oficial com a mulher e os dois filhos em Londres, onde é mais famoso do que nunca. Contudo, insatisfeito, regressa a Paris em finais de 1891, desta vez com o estatuto de escritor respeitado. É recebido nos diversos salões literários, incluindo no do famoso poeta simbolista Stéphane Mallarmé.

As duas peças de teatro que o autor escrevera na década anterior, «Vera ou Os Niilistas» e «A Duquesa de Pádua» não tinham obtido muito sucesso. Wilde manteve, porém, o interesse no Teatro e tendo agora encontrado a voz literária na prosa, volta a dedicar-se ao género dramático devido, em parte, ao facto de ter descoberto a iconografia religiosa de Salomé. Certa noite, após debater acerca das várias representações desta ao longo da História, regressa ao hotel e encontra um bloco de folhas em branco na secretária, decidindo de imediato escrever sobre o tema. O resultado é uma nova peça de teatro, «Salomé», uma tragédia escrita de forma célere e em Francês.

Ao voltar a Londres, antes do Natal, alguma imprensa apelida-o de «le great event» da temporada. O texto é publicado em França e Inglaterra em simultâneo, no ano de 1893, mas só vai a cena três anos depois (em Paris e já com o autor preso).

Oscar, cujo principal objectivo era irritar a sociedade vitoriana através do discurso e indumentária e depois chocá-la com a publicação d’ O Retrato de Dorian Gray, encontra por fim a maneira de criticar a sociedade de forma clara: «O Leque de Lady Windermere» vai a cena em Fevereiro de 1892, num teatro recheado de membros da alta sociedade. Revelando-se uma comédia mordaz à superfície, contém no cerne o elemento subversivo, uma vez que «termina com uma ocultação planeada em vez de uma revelação colectiva». O público, tal como a protagonista, são forçados a abdicar dos códigos sociais rígidos a favor de uma opinião mais neutra. A peça revela-se um sucesso de bilheteira, percorrendo o país durante meses, embora tenha sido vilipendiada pelos críticos mais conservadores.

O sucesso comercial rende ao autor, só no primeiro ano, o equivalente a 700 mil euros nos dias de hoje.

A este primeiro êxito seguem-se «Uma Mulher Sem Importância», em 1893, outra comédia vitoriana acerca do espectro dos filhos ilegítimos, identidades trocadas e revelações tardias, bem como «Um Marido Ideal», escrito em 1894 e levado à cena em 1895.

De acordo com alguns analistas, o sucesso das peças deve-se sobretudo à forma como são anunciadas: «Wilde, com um olho no génio de Ibsen e outro no lado comercial da alta sociedade londrina, identificou o público-alvo com olho de lince».

Entretanto, o autor mantém uma relação com Lord Alfred Douglas, mais conhecido por «Bosie», um jovem bonito e caprichoso. O caso torna-se mais sério a partir de 1893. Se Wilde é relativamente indiscreto, por vezes mesmo exuberante em público, Douglas consegue ser, de facto, irresponsável. Oscar, que enriqueceu bastante, mima o amante de todas as formas: materiais, artísticas e sexuais.

Douglas não perde tempo a iniciar Wilde no submundo vitoriano da prostituição masculina, fazendo com que o autor tenha encontros regulares com uma série de jovens prostitutos de classes inferiores. Estes decorrem sempre do mesmo modo: Oscar encontra-se com o rapaz, oferece-lhe prendas, paga-lhe um bom jantar e leva-o para um hotel. Ao contrário das ligações romantizadas com Ross, John Gray e Douglas, todas elas integrantes do círculo estético do autor, estes jovens tinham poucos estudos e não percebiam nada de Literatura. Esta fase representa o início de uma profunda cisão entre a vida privada e pública de Oscar. Mais tarde, em «De Profundis», afirmará que tudo aquilo «era como apreciar um banquete com panteras, metade do entusiasmo residia no perigo inerente».

O pai de «Bosie», Marquês de Queensberry, era conhecido pelo ateísmo convicto, modos rudes e pela criação das regras do boxe moderno. Queensberry, que discutia regularmente com o filho, confronta ambos acerca da natureza do relacionamento por várias vezes, mas deixa-se quase sempre acalmar por Wilde. Porém, em meados de 1894, faz uma visita surpresa a casa do autor e declara:

Não estou a afirmar que você o é, mas parece-o e age como se fosse, o que é igualmente grave. E se eu o apanho uma vez mais com o meu filho num restaurante ou noutro local público, dou cabo de si.

Oscar responde:

Não conheço as regras de Queensberry, mas a regra de Oscar Wilde é atirar à vista.

O relato dos acontecimentos em «De Profundis» não é tão triunfante:

Foi então que, na biblioteca da minha casa, acenando as mãos pequenas numa fúria epiléptica, o teu pai soletrou cada palavra suja que lhe surgiu na mente suja e berrou as profundas ameaças que depois cumpriu com total mestria.

Queensberry, por sua vez, só se pronuncia uma vez sobre o episódio, afirmando que Wilde «se foi abaixo nas canetas» – dando a entender uma suposta cobardia. Embora procurando manter a calma, o autor percebe que está cada vez mais enleado num enorme drama familiar. Embora desagradado com os insultos de Queensberry, está ciente de que confrontá-lo pode levar ao desastre, caso tais segredos sejam tornados públicos.

A derradeira peça de teatro de Wilde, «A Importância de Ser Earnest», recupera o tema das identidades trocadas: os dois protagonistas dedicam-se ao artifício de trocar identidades conforme estejam no campo ou na cidade, de modo a escaparem às convenções sociais vitorianas. O enredo é ainda mais leve do que nas comédias anteriores, pois apesar das personagens serem capazes de abordar temas mais sérios em momentos de crise, não encontramos as personagens-tipo do autor: não existe a «mulher com um passado», os protagonistas não se revelam obscuros ou estrategas, limitando-se a ser ociosamente cultos e as jovens mulheres idealistas acabam por não ser assim tão inocentes. O cenário é quase em exclusivo feito de interiores, sem qualquer tipo de acção ou violência, faltando à peça a decadência consciente que se pode encontrar no famoso romance ou em peças como «Salomé».

Hoje em dia considerada a melhor peça de Wilde, esta foi escrita rapidamente no período de maturidade artística do autor, nos finais de 1894. Estreia em Fevereiro de 1895, mais uma vez no St James’s Theatre, em Londres.

O texto é revisto, preparado e ensaiado ao detalhe, meses antes da estreia, de modo a construir uma representação cuidada da sociedade vitoriana, para depois a ridicularizar. Durante o processo, a peça é reduzida de quatro para três actos.

As estreias em St James redundam em «excelentes festas» e a abertura de «A Importância de Ser Earnest» não foge à regra. Um dos actores confessará: «Nos meus 53 anos de profissão, não me recordo de um sucesso tão retumbante como aquela estreia». A peça consolida, de uma vez por todas, a reputação artística de Wilde. Numa análise, afirma H. G. Wells:

É difícil conceber maior exercício humorístico com as convenções do Teatro. O Sr. Oscar Wilde abraça esse humor e decora-o com inúmeros polvilhos de uma ironia pessoal, que é marca distintiva.

O sucesso profissional é, no entanto, acompanhado pela escalada do conflito com Queensberry. Este planeara insultar o autor em público, atirando um molho de vegetais podres para o palco, mas Oscar é avisado e faz com que o Marquês seja barrado à entrada. Menos de quatro meses depois, Wilde é preso.

Queensberry deixa o cartão-de-visita no clube frequentado por Oscar, onde se lê: «Para Oscar Wilde, aparente sodomita». O visado, encorajado por «Bosie» e contra os melhores conselhos dos amigos, decide processar Queensberry por difamação.

O Marquês começa por ser preso, arriscando uma sentença que pode chegar aos dois anos de cadeia. No entanto, o mesmo pode ser ilibado caso demonstre a veracidade da acusação e acrescente que existe «benefício público» nesse acto acusatório. No seguimento, os advogados de Queensberry contratam detectives privados para que se obtenham provas das ligações homossexuais de Wilde.

Os amigos voltam a sugerir que este retire o processo contra o Marquês, num jantar conjunto no mês de Março. Frank Harris avisa que «eles vão conseguir provar que cometeste sodomia» e aconselha-o a fugir para França. Oscar e «Bosie» saem de rompante, com o primeiro a declarar: «É em momentos como este que se conhecem os verdadeiros amigos». O episódio é testemunhado por George Bernard Shaw, começando a formar-se a ideia de que «Bosie» vai ser a causa da desgraça pública de Wilde, tese depois confirmada pelo próprio em «De Profundis».

O julgamento transforma-se num circo mediático à medida que os detalhes mais escandalosos começam a surgir nos jornais. Os detectives privados instruem os advogados de Queensberry a mergulhar no submundo vitoriano, assim descobrindo as ligações de Oscar com chantagistas e prostitutos, travestis e bordéis homossexuais. São entrevistadas várias pessoas, com algumas delas a serem coagidas a testemunhar, uma vez que são cúmplices dos crimes.

A audiência preliminar ocorre em Abril, perante um juiz irlandês nascido em Dublin. Provoca enorme curiosidade na sociedade vitoriana e mesmo episódios de alguma histeria, quer nas galerias, quer na imprensa. A quantidade de provas reunidas contra Wilde obrigam-no a declarar, intimidado: «Neste processo, sou eu o acusador». O advogado deste inicia a sessão a questionar preventivamente o autor acerca do conteúdo de duas cartas sugestivas, de Oscar para «Bosie» e que estavam já na posse da defesa. Wilde procura estabelecer que as cartas são meras obras de arte, exercícios estilísticos dos quais não tem que se sentir envergonhado.

O advogado do Marquês, também ele nascido em Dublin e antigo colega de Oscar na Trinity College, contra-interroga, questionando o autor acerca da percepção deste sobre o conteúdo moral na generalidade da obra. Wilde responde com a ironia e manipulação habituais, alegando que obras de arte não possuem a capacidade de ser morais ou imorais, apenas boas ou más, pelo que apenas «brutos e iletrados» cujas opiniões sobre Arte são «incrivelmente estúpidas» se atrevem a fazer esse tipo de julgamento. O advogado, contudo, muito experiente, pressiona o visado de todos os ângulos, espremendo cada entoação nas respostas deste, retirando-lhes o contexto estético e traçando um retrato de Oscar enquanto figura evasiva e decadente. Embora o autor arranque as maiores gargalhadas, é o advogado quem acumula mais pontos no campo jurídico. Para melhor descredibilizar o visado e ao mesmo tempo justificar a alegação de Queensberry, este faz com que Wilde admita a sua tendência para as aparências, ao demonstrar que o autor mentiu sob juramento acerca da idade. Acrescenta ainda que a expressão do Marquês advém do conteúdo do romance do próprio Wilde, citando um episódio do segundo capítulo no qual a personagem Lord Henry Wotton explana a sua filosofia decadente a Dorian, um «jovem inocente».

O advogado passa então para as provas factuais e interroga o autor acerca das amizades deste com jovens rapazes de classe baixa, alguns com apenas 16 anos na altura. Wilde admite conhecê-los pelo nome e ter-lhes oferecido presentes caros mas insiste que não se passou nada de errado e que os outros são apenas bons amigos. O advogado foca-se então na natureza invulgar de tais amizades, insinuando que se tratam de prostitutos. Oscar alega desprezar as barreiras sociais e declara gostar da companhia de jovens rapazes. Nesse momento, o outro pergunta-lhe directamente se ele alguma vez beijou um determinado rapaz de classe baixa e o autor responde: «Credo, não. Trata-se de um rapaz bastante vulgar – feio, infelizmente – e tive pena dele por isso». O advogado continua a pressioná-lo, insistindo na razão pela qual é importante para o caso se o rapaz é feio ou não. Wilde hesita e pela primeira vez perde a compostura: «Insiste em provocar-me, insultar-me e tirar-me do sério, fazendo com que eu acabe por dizer coisas sem pensar, em vez de manter um discurso civilizado».

No seguimento, o advogado anuncia que localizou diversos prostitutos prontos a testemunhar que mantiveram relações sexuais com o visado. Aconselhado pelos próprios advogados, Oscar desiste da acusação contra Queensberry. Este é inocentado, uma vez que o tribunal declara que a alegação contra Wilde se justifica, por ser comprovadamente verdade. De acordo com a Lei, o autor é assim obrigado a assumir todas as custas do processo, situação que o deixa falido.

Oscar abandona o tribunal enquanto é emitido um mandato de prisão em seu nome, sob a acusação de sodomia e indecência. Um dos amigos (e possíveis amantes) encontra-o num hotel com outro companheiro, um dos poucos que não o abandonam. Ambos o aconselham a tentar embarcar para França, mas a mãe sugere-lhe que fique e se defenda. Wilde, apático, murmura apenas: «O comboio está em andamento, é tarde demais». Ainda em Abril, o autor é preso. Instruídos por Oscar, alguns amigos entram na casa deste e retiram objectos pessoais, manuscritos e cartas, de modo a evitar que tais elementos sejam apreendidos pelas autoridades. Na prisão, recebe visitas diárias de «Bosie».

O processo avança rapidamente, ao longo de 1895. Wilde declara-se inocente, tendo já implorado a «Bosie» para que este troque Londres por Paris, embora o outro proteste com veemência e queira mesmo fornecer novos elementos. Por fim, cede e foge para um hotel em França.

Receando problemas legais, muitos outros elementos do círculo abandonam o Reino Unido provisoriamente. Ao prestar novas declarações, Oscar começa hesitante mas depois adquire eloquência:

Advogado de Acusação: A que se refere o «amor que não pode ser nomeado»?

Wilde: «O amor que não pode ser nomeado» neste século refere-se a uma grande afeição entre um homem mais velho e um mais novo, na linha do que é descrito por Platão na sua filosofia, ou que podemos encontrar nos sonetos de Michelangelo e Shakespeare. Trata-se da profunda afeição espiritual que é tão pura quanto perfeita. Está presente e influencia grandes obras de arte como as destes autores e como essas duas cartas minhas, sem tirar nem pôr. Neste século é algo incompreendido, tanto que necessita de ser descrito com essa frase e faz com que eu esteja envolvido na presente situação. É algo de belo, de próprio, é a mais nobre forma de afeição. Nada existe de impuro nisso. É algo intelectual e existe com frequência entre um homem mais velho e um mais novo, quando o primeiro tem intelecto e o segundo tem alegria, esperança e a beleza de uma vida inteira pela frente. Contudo, o mundo não compreende nada disto, prefere ridicularizá-lo e, por vezes, colocar-nos na prisão.

A resposta, que arranca muitos aplausos entrecortados por apupos, acaba por se revelar ainda mais prejudicial em termos legais uma vez que, de forma clara, reforça a acusação de comportamento homossexual. O júri revela-se incapaz de chegar a um veredicto e consegue-se, por fim, que o autor saia sob fiança. Assim que possível, Wilde escapa dos holofotes e esconde-se em casa de amigos chegados. Entre elementos da Justiça, alguns sugerem «deixar o homem em paz» mas outros respondem que o caso se tornou demasiado politizado para ser esquecido.

O julgamento final tem lugar em Maio. Oscar é condenado a dois anos de trabalhos forçados, a pena máxima para estes casos. O próprio juiz considera a sentença inadequada, concluindo ser aquele «o pior caso que me vi obrigado a julgar». O apelo de Wilde – «E eu? Não tenho direito a dizer nada, Meritíssimo?» – é abafado por gritos de «vergonha» na sala do tribunal.

Apesar da indignação, hoje em dia considera-se que o autor abusou, de facto, de rapazes adolescentes e que presentemente seria julgado por isso:

Por exemplo, não há dúvida de que ele pagou para ter sexo com jovens menores de 18 anos, o que é crime. Além disso, mesmo que o comportamento tivesse resultado apenas na revelação do mesmo e não em crime, teria sido destruído sem piedade na comunicação social. É preciso ver que Wilde tinha 39 anos quando seduziu um dos rapazes, que tinha apenas uns inocentes 16.

Outro adolescente de 16 anos, que também confessou ter-se envolvido em comportamentos sexuais com o autor, afirmou ainda que este o tinha ameaçado com «consequências muito sérias» se confessasse a alguém o ocorrido.

Condenado naquele que é visto como um dos primeiros exemplos de um «julgamento de uma celebridade», Wilde é preso entre 25 de Maio de 1895 e 18 de Maio de 1897.

Cumpre a sentença em três prisões diferentes, num regime duro que lhe afecta a saúde delicada. Em Novembro, colapsa durante a missa, de fome e doença. A queda provoca-lhe uma lesão no tímpano direito, situação que irá revelar-se fatal, mais tarde. Passa dois meses na enfermaria.

Um político de esquerda, Richard B. Haldane, faz-lhe uma visita e consegue que o autor seja transferido para a prisão de Reading, a 48 km de Londres. A deslocação revela-se o ponto mais baixo desse período, pois é o momento onde se reúne uma multidão que o insulta e cospe. Oscar cumpre o resto da pena em Reading, conhecido e identificado apenas por «C.3.3» – o ocupante da terceira cela no terceiro andar da ala C.

Cinco meses depois, dá entrada Charles Thomas Wooldridge, um militar condenado pelo assassínio da mulher. Em Junho o mesmo é condenado à morte e em Julho é executado – o primeiro enforcamento naquela prisão em 18 anos. Baseado neste episódio, Wilde escreverá, mais tarde, «The Ballad of Reading Gaol».

Este, numa fase inicial, não é sequer autorizado a ter papel e caneta, mas o referido político consegue depois que o autor beneficie de livros e material de escrita. Wilde pede, entre outras coisas, a Bíblia em Francês, gramáticas italianas e alemãs, textos clássicos em Grego e a «Divina Comédia» de Dante.

Entre Janeiro e Março de 1897, Oscar escreve uma carta de 50 mil palavras a «Bosie». Não tem autorização para enviá-la, mas poderá levá-la consigo no dia em que for libertado. Iniciando um processo reflexivo, este examina friamente a sua vida e carreira até àquele momento, notando até que ponto fora um exuberante «agente provocador» na sociedade vitoriana e o quanto a sua arte pretendia subverter, além de inspirar. Considera ter sido alguém «profundamente ligado à arte e cultura do seu tempo», sendo a partir deste planalto que dá início à relação com «Bosie». Wilde debruça-se bastante nesse ponto, repudiando o antigo companheiro ao ver nele, de uma vez por todas, um carácter vaidoso e arrogante – nunca esquecerá um comentário do outro, ao vê-lo doente: «Quando não estás no teu pedestal, és desinteressante». Oscar acaba por culpar-se a si mesmo, no entanto, por ter permitido uma tão grande degradação ética de carácter, sob a influência de «Bosie», assumindo a responsabilidade pela própria queda: «Estou aqui porque tentei meter o teu pai na prisão». A primeira parte do texto conclui-se com o autor a perdoar «Bosie», para o bem de ambos. A segunda parte retrata a viagem espiritual de Oscar, feita de redenção e realização através da leitura. Conclui que aquela provação lhe preencheu a alma com o fruto da experiência, por mais amargo que este tenha sido:

Tive a intenção de comer o fruto de todas as árvores presentes no jardim do mundo…logo, de facto, apresentei-me nele e, de facto, vivi. O meu único erro foi ter-me cingido de forma tão exclusiva às árvores do que me pareceu ser o lado luminoso desse jardim, desprezando o outro lado à conta de uma pressentida sombra e melancolia.

Ao sair da prisão, Wilde apanha nessa mesma noite um barco para a localidade de Dieppe, em França. Nunca mais regressa ao Reino Unido.

No momento da libertação, oferece o manuscrito a Ross, que pode ou não ter obedecido ao pedido de Oscar para que «Bosie» recebesse uma cópia (este, mais tarde, nega ter recebido fosse o que fosse). De qualquer forma, a longa carta é publicada em 1905, com o título «De Profundis».

Apesar da saúde de Wilde ter sido bastante afectada pelas condições de vida na prisão, este recupera a liberdade com um sentimento de renovação espiritual. Escreve de imediato aos Jesuítas, de modo a obter autorização para um retiro de seis meses.

Quando o pedido é recusado, não evita a comoção. «Pretendo ser acolhido pela Igreja Católica em breve», explica, quando interrogado por um jornalista.

Vive os derradeiros três anos quase sempre empobrecido e no exílio. Adopta o nome «Sebastian Melmoth», a partir de São Sebastião e do protagonista de um romance gótico escrito pelo tio-avô – «Melmoth the Wanderer». Envia duas longas cartas ao editor de um jornal, onde descreve as condições duríssimas das prisões inglesas e defende a reforma do sistema prisional.

O escritor inglês Ernest Dowson, amigo de longa data e um dos poucos que o apoiara antes e depois da prisão, retoma aparentemente o contacto, em Dieppe. É voz corrente, história mais tarde repetida por W.B. Yeats, que Dowson terá encorajado o autor a visitar um bordel e a ter sexo com uma prostituta «de modo a restabelecer a reputação». Ainda segundo Dowson, este terá depois confessado, em voz baixa: «Foi a primeira vez em dez anos e será a última. Foi como ingerir comida fria…mas podes espalhar a notícia em Inglaterra, porque irá restabelecer por completo a minha reputação».

Wilde passa metade do ano de 1897 com o velho amigo Robert Ross, na aldeia costeira de Berneval-le-Grand, no norte de França, onde escreve «The Ballad of Reading Gaol». Esta evolui de um relato objectivo dos acontecimentos para uma identificação simbólica com os prisioneiros, não sendo feita qualquer tentativa de avaliação acerca da justiça das penas. Em vez disso, o poema destaca a brutalidade dos castigos, transversais a todos os condenados. O escritor justapõe o prisioneiro executado e ele próprio através da frase: «Contudo, cada homem mata aquilo que ama». Assina «C.3.3». Propõe ser publicado na Reynolds’ Magazine, «uma vez que circula bastante entre a classe criminosa – à qual agora pertenço. Por uma vez serei lido pelos meus pares, o que é uma experiência nova para mim». O poema transforma-se num sucesso comercial retumbante, sendo feitas sete edições em menos de dois anos. A partir daqui, o nome «Oscar Wilde» é finalmente adicionado à capa, embora muitos nos círculos literários já conhecessem a verdadeira autoria.

Apesar de «Bosie» ser o responsável pelo declínio do autor, os dois voltam a reunir-se em Agosto de 1897, em Rouen. O encontro merece a reprovação dos amigos e familiares de ambos. Constance Wilde recusa-se a vê-lo ou a permitir que este veja os filhos, embora continue a enviar-lhe algum dinheiro.

Nos meses finais desse ano, vivem juntos nas proximidades de Nápoles, antes de serem obrigados pelas respectivas famílias a separar-se, sob a ameaça de corte total dos fundos.

A morada final é um hotel parisiense. «Esta pobreza é de quebrar o coração. É tão sale (suja), tão absolutamente deprimente, tão definitiva. Faz, por favor, o que puderes», relata Oscar ao editor.

Logo depois, recusa escrever mais. «Sou capaz de escrever, mas perdi a alegria da escrita». Vagueia pelas avenidas e gasta o pouco dinheiro que lhe resta na bebida. Uma série de encontros fortuitos com turistas ingleses hostis ou cidadãos franceses que o reconhecem dos velhos tempos, abatem-lhe o espírito. Wilde não tarda a confinar-se ao hotel, soltando uma última piada amarga:

Estou a travar uma batalha mortal com o meu papel de parede. Um de nós irá desaparecer.

Em Outubro de 1900, envia um telegrama a Ross: «Muitíssimo fraco. Vem, por favor». O espírito torna-se oscilante. Um dos conhecidos encontra-o extremamente deprimido, por causa de um pesadelo: «Sonhei que tinha morrido e estava a cear com os mortos». O outro responde: «Tenho a certeza que foste a estrela da festa».

Em finais de Novembro, surge o diagnóstico de meningite. Ross, que chegara, manda chamar um padre, que o baptiza e dá a extrema-unção em simultâneo.

Oscar falece a 30 de Novembro de 1900. As versões para a causa da meningite são várias. Embora alguns considerem que a mesma é consequência de uma hipotética sífilis, o neto do autor considera isso um erro, fazendo notar que a doença surge após uma intervenção cirúrgica ao ouvido, à conta da velha lesão no tímpano direito sofrida na cadeia.

Em 1909, é transferido do anterior local e enterrado no cemitério Père Lachaise, em Paris. O epitáfio é retirado de «The Ballad of Reading Gaol»:

 

And alien tears will fill for him

Pity’s long-broken urn,

For his mourners will be outcast men,

And outcasts always mourn.

 

Em 2017, Wilde está entre os cerca de 50 mil homens que são perdoados por actos homossexuais, uma vez que já não são considerados crime (a homossexualidade é legalizada em Inglaterra e no País de Gales em 1967).

Em 2025, a Biblioteca Britânica recupera o cartão do autor, que tinha sido revogado 130 anos antes. O novo cartão é entregue ao neto de Wilde, Merlin Holland.


Romance gótico e filosófico publicado em 1890. É considerado um clássico do género e da literatura em língua inglesa, em geral. Foi alvo de inúmeras adaptações ao Cinema, Teatro e outro tipo de manifestações artísticas, tendo mesmo inspirado a criação dos «Dorian Awards» desde 2009.

O enredo foca-se num retrato de Dorian Gray pintado por Basil Hallward, um amigo de Dorian que se deixa encantar pela beleza deste. Através de Basil, Dorian conhece Lord Henry Wotton e deixa-se rapidamente seduzir pelas teorias do aristocrata, plenas de hedonismo: este defende que a beleza e a satisfação dos desejos são as únicas coisas que merecem ser valorizadas na vida. Consciente de que a passagem do tempo lhe roubará a formosura, Dorian faz uma escolha impulsiva, aceitando um estranho acordo segundo o qual os efeitos da passagem do tempo serão visíveis no quadro e não em si mesmo. A partir daí, o protagonista entrega-se a uma vida libertina, recheada de experiências imorais, sem nunca perder a juventude.

Em paralelo, todos os efeitos dessa vida são reflectidos no quadro, que envelhece e regista cada um dos pecados de Dorian.

Alvo de muita controvérsia à data da publicação, é hoje considerada a obra mais conhecida de Wilde.

 

Enredo

 

Na Inglaterra vitoriana, Lord Henry Wotton assiste enquanto um amigo, o artista Basil Hallward, pinta o retrato de Dorian Gray, um jovem rico que se transformou na principal fonte de inspiração do pintor. O hedonista Lord Henry defende que a beleza é a única coisa na vida que merece ser valorizada, motivando Dorian a desejar que os efeitos do tempo se reflectissem no quadro e não em si próprio.

Influenciado por Lord Henry, o protagonista entrega-se à sensualidade e aquela nova amizade entre ambos coloca Basil numa posição secundária. Dorian conhece a actriz Sibyl Vane, que integra o elenco de algumas peças de Shakespeare num pequeno teatro de classe baixa. Encantado com o talento dela, este não perde tempo a seduzi-la e a pedi-la em casamento. Sibyl, enamorada, apelida-o de «Príncipe Encantado». O irmão mais novo, James, está prestes a embarcar como marinheiro, mas avisa-a que se o dito «Príncipe Encantado» a magoar, será morto.

Dorian convida Basil e Lord Henry para assistirem a uma peça (Romeu e Julieta), de modo a que estes possam apreciar o talento de Sibyl mas esta, demasiado encantada por ele, tem uma actuação pobre, fazendo com que os outros se convençam que Dorian só gosta dela pela beleza. Envergonhado, o protagonista afasta-se de Sibyl, dizendo-lhe que a beleza dela reside no talento e que, sem isso, não tem qualquer interesse. Ao regressar a casa, este nota que o retrato mudou: o desejo concretizou-se e a imagem parece agora exibir uma expressão de ligeira crueldade.

Solitário e de consciência pesada, Dorian tenta reconciliar-se com Sibyl, escrevendo-lhe uma carta. Porém, na manhã seguinte, Lord Henry aparece e informa-o de que ela cometeu suicídio. Racionalizando o acto cruel da véspera, o jovem decide que, de qualquer modo, não tem qualquer necessidade de amor, uma vez que a insólita imortalidade de que beneficia o protege de qualquer consequência. Assim sendo, tranca o retrato numa divisão e, ao longo de 18 anos, entrega-se a todos os vícios – também inspirado por um romance francês imoral, que lhe foi oferecido por Lord Henry.

Uma noite, antes de viajar até Paris, Basil faz uma visita a Dorian, de modo a questioná-lo acerca daquele estilo de vida indulgente. O outro admite o comportamento e decide mostrar o retrato ao amigo. A imagem está agora tão deformada que o pintor só consegue identificá-la através da assinatura. Horrorizado, este apela ao protagonista para que o mesmo procure na fé a salvação. Enfurecido pela reacção, Dorian apunhala-o mortalmente. Em seguida, chantageia um outro amigo, o cientista Alan Campbell, obrigando-o a utilizar os conhecimentos de Química para destruir o cadáver de Basil. Embora obedeça, o cientista comete suicídio pouco depois.

Procurando abafar o sentimento de culpa pelo novo crime, Dorian refugia-se numa casa de ópio. Por mero acaso, também lá se encontra um envelhecido James Vane, que tem passado todos estes anos em busca de vingança pela morte da irmã. Contudo, a falta de pistas (nada sabe acerca do outro excepto a alcunha dada por Sybil) não lhe permitiu ir mais longe. De súbito, julga ouvir alguém a ser chamado de «Príncipe Encantado». Sem perder tempo, aproxima-se de Dorian mas este argumenta que é impossível, cronologicamente, ter conhecido Sybil, uma vez que é «tão jovem». James deixa-se convencer, mas logo depois é abordado por uma mulher, que o censura por não ter aproveitado a oportunidade para matar Dorian. Explica-lhe que se trata, de facto, da mesma pessoa e que por alguma razão este não envelheceu ao longo de 18 anos.

James decide vigiar o protagonista, que começa a temer pela vida. Porém, num evento organizado, o primeiro – que se escondera num conjunto de arbustos – acaba por ser alvejado mortalmente e de forma involuntária por um caçador. De regresso a Londres, Dorian confessa a um envelhecido Lord Henry que tomou a decisão de se reabilitar e viver de acordo com as regras. O primeiro gesto que considera nobre passa por não desiludir sentimentalmente Hetty Merton, a sua mais recente conquista. Não demora até que o protagonista se interrogue acerca dos efeitos que a nova postura moral poderá ter no quadro, no sentido de reverter a decadência da imagem.

Ao espreitar, conclui que a mesma, em vez de recuperar, se tornou ainda mais repugnante. Percebe então que, daquele modo, nunca poderá reabilitar-se, já que no fundo deseja apenas ser absolvido pelos crimes sem de facto estar arrependido dos mesmos. Convencido que apenas uma confissão total será suficiente, agarra no punhal que utilizou para matar Basil e, enfurecido, esfaqueia a imagem do retrato.

Os serviçais são acordados por um grito que ecoa no interior da divisão, fechada à chave. Na rua, um transeunte decide chamar a polícia. Forçada a entrada, todos descobrem o cadáver de um idoso decrépito, apunhalado no coração. Através dos anéis que este usa nas mãos, identificam Dorian Gray. O retrato, pendurado na parede, recuperou a beleza original.

 

Personagens

 

Dorian Gray – Jovem protagonista, bonito e egocêntrico, seduzido pelo hedonismo de Lord Henry. Entrega-se a todo o tipo de prazeres, primeiro, e pecados, depois, à medida que analisa os efeitos de tais actos em si próprio.

Basil Hallward – Um homem profundamente moral, autor do retrato, que se deixa encantar por Dorian. É-lhe reconhecido o potencial artístico e o retrato de Dorian Gray é a consumada obra-prima de Basil.

Lord Henry Wotton – Um aristocrata arrogante e um libertino decadente que professa uma auto-indulgente filosofia hedonista. Embora, inicialmente, se diga amigo de Basil, logo o despreza a favor do belo Dorian. Simboliza a cultura vitoriana e britânica da época (finais do séc. XIX). A visão do mundo corrupta de Lord Henry envenena Dorian, que depois o imita com sucesso. O perspicaz Basil diz-lhe, a certa altura: «Nunca enuncias uma frase moral e nunca fazes uma coisa imoral». De facto, Lord Henry entretém-se a impressionar, influenciar e até a desviar do rumo as pessoas que vai conhecendo (recorrendo para isso aos charmosos dotes de oratória) mas prefere, aparentemente, não seguir os próprios conselhos hedonistas, optando por analisar tudo com um olhar científico. Distingue-se, em especial, por revelar uma total indiferença pelas consequências dos seus actos.

Sibyl Vane – Talentosa actriz e cantora. Uma bela rapariga oriunda de uma família modesta, por quem Dorian se apaixona. O amor que sente por ele acaba por arruinar-lhe o talento para a representação, pois a partir do momento em que se apaixona na vida real deixa de se sentir motivada para simular um amor fictício. Suicida-se com veneno quando descobre que Dorian já não a quer. Lord Henry vê nesse gesto um paralelismo com a personagem Ofélia, na peça «Hamlet».

James Vane – Irmão mais novo de Sibyl. Um marinheiro que embarca rumo à Austrália. Revela-se muito protector da irmã, sobretudo porque a mãe de ambos parece mais interessada na fortuna de Dorian. Convencido que este irá, de alguma forma, magoar a irmã, James hesita em partir e depois, apesar de fazê-lo, promete vingança caso algo aconteça. Após a morte de Sibyl, assume a missão de assassinar Dorian e começa a vigiá-lo, mas no processo é acidentalmente abatido por um caçador. O acto de exercer uma vingança sobre o amante (Dorian Gray) pela morte da irmã (Sibyl) remete para a vingança da personagem Laertes sobre Hamlet.

Alan Campbell – Químico e velho amigo de Dorian, de quem se afastou quando o mesmo iniciou a vida libertina. Este chantageia-o, mais tarde, para que se destrua o cadáver de Basil Hallward. Campbell aceita mas depois suicida-se com um tiro.

Lord Fermor – Tio de Lord Henry, que elucida o sobrinho acerca da linhagem familiar de Dorian Gray.

Adrian Singleton – Jovem amigo de Dorian, por ele introduzido no consumo de ópio. O adquirido vício obriga-o a falsificar um cheque, gesto que o bane sem remissão do círculo familiar e social.

Victoria, Lady Henry Wotton – Mulher de Lord Henry, que ele trata com desdém. Esta acaba por abandoná-lo.

Hetty – Camponesa com quem Dorian termina uma ligação, não só para poupá-la de um futuro desgosto mas sobretudo para tentar reconstituir a imagem do famoso quadro.

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