Vladimir Nabokov

e9800443074cd81cf0614a6829c4d5f6Viveu entre 1899 e 1977. Apesar de escrever os primeiros nove livros em língua russa, conquistou fama internacional quando passou a escrever em inglês.

Lolita (1955) é o romance mais famoso e muitas vezes considerado o seu melhor trabalho em inglês. Nele é visível o detalhe e a densidade dos jogos de palavras, característica comum a todos os seus trabalhos. Foi finalista do National Book Award sete vezes, mas nunca ganhou.

Nasceu a 22 de Abril de 1899, em São Petersburgo, no seio de uma família poderosa e endinheirada da classe alta. É o mais velho de cinco irmãos.

Passou a infância e juventude entre São Petersburgo e uma casa de campo a sul da cidade. A infância, que o autor apelidou de «perfeita», foi de facto singular em muitos aspectos. Em casa falava-se russo, inglês e francês, pelo que Nabokov se tornou trilingue desde muito cedo. Aliás, para grande desgosto do patriótico pai, o filho lia e escrevia melhor em inglês do que em russo. O autor recordava com frequência inúmeros detalhes da infância privilegiada, hábito que lhe foi muito útil no seu futuro exílio e que se reflectiu em diversas obras. Apesar de pertencer a uma família oficialmente ortodoxa, não existia grande fervor religioso e Vladimir não foi obrigado a frequentar a igreja, após perder o interesse. Em 1916, herdou um imóvel de um tio, mas perdeu-o no ano seguinte com a Revolução Russa. Acabou por ser a única propriedade que alguma vez teve.

Após a Revolução de 1917, o pai tornou-se membro do Governo Provisório, mas pouco depois viram-se obrigados a deixar a cidade rumo à Crimeia, situação que julgavam ser breve. Viveram na casa de um amigo e em Setembro de 1918 transitaram para uma região ucraniana. O pai é eleito ministro da Justiça do Governo Regional da Crimeia.

Com a retirada do Exército Alemão, em Novembro, e a chegada ao poder do Exército Vermelho, em 1919, a família exilou-se no Ocidente. Passaram um curto período em Inglaterra, onde Nabokov frequentou Cambridge, estudando Zoologia e depois Línguas e Literatura. Apesar de perturbados pela morte paterna, os resultados académicos foram brilhantes e valeram-lhe a conclusão dos estudos em 1922. Nabokov serviu-se mais tarde desta experiência para escrever vários livros.

Em 1920, a família já se tinha mudado para Berlim, onde o pai criou um jornal para emigrantes. Vladimir seguiu-os dois anos depois, quando terminou os estudos.

Em Março de 1922, o pai é atingido mortalmente em Berlim por um monárquico russo, que tencionava assassinar um líder politico exilado. Esta morte fortuita e violenta assombrará com frequência as obras do autor, nas quais várias personagens acabam por morrer acidentalmente. Pouco depois deste episódio, a mãe e uma irmã mudam-se para Praga.

Nabokov decide ficar, uma vez que se tornara um escritor e poeta reconhecido entre a comunidade emigrante, tendo mesmo publicado textos sob pseudónimo. Para se conseguir sustentar, e em paralelo com a escrita, dava explicações de línguas, ensinava ténis e boxe. Acerca dos 15 anos que passou em Berlim escreveu-se que:

nunca teve estima pela cidade, e nos últimos tempos acabou mesmo por detestá-la. Vivia mergulhado na animada comunidade russa, um núcleo mais ou menos auto-suficiente, tendo acabado por permanecer na urbe mesmo depois daquela se desintegrar, pois não tinha para onde ir. Pouco falava da língua e não conhecia ninguém alemão, com excepção das senhorias, lojistas, polícias e impertinentes oficiais da imigração.

Em 1922 ficou noivo de Svetlana Siewert, mas esta deixou-o no início de 1923, pois os pais temiam que ele não conseguisse sustentá-la. Em Maio desse ano, conhece uma judia russa, Vera Evseyevna Slonim, num baile de caridade e acabam por se casar em Abril de 1925. O único filho nasce em 1934.

Em 1936, Vera perde o emprego, à conta do crescente ambiente antissemita, isto no mesmo ano em que o assassino do pai de Nabokov é nomeado para um alto cargo dentro da comunidade russa. O autor começa então a procurar trabalho num país de língua inglesa. Em 1937, abandona a Alemanha a caminho de França, onde tem um breve caso com uma imigrante russa. A família segue-o pouco depois, passando por Praga. Acabam por assentar em Paris, visitando também Cannes e outros locais. Em Maio de 1940, são forçados a fugir ao avanço das tropas alemãs e acabam por embarcar num navio americano rumo aos Estados Unidos, com excepção do irmão Sergei, que morre num campo de concentração em Janeiro de 1945.

Estabelecem-se em Manhattan e Vladimir faz trabalho voluntário para o Museu Americano de História Natural.

Entra depois nos quadros do Wellesley College, em 1941, como professor residente em Literatura Comparada. O cargo, criado de propósito para ele, permite-lhe um salário fixo e tempo livre para escrever. Passam a viver em Massachusetts, entre 1941 e 1942. Em Setembro desse ano mudam-se para Cambridge, onde vivem até Junho de 1948. Ainda regressa a Wellesley durante o período de 1944–45, ano em que se naturaliza americano. As suas aulas eram populares, devido ao seu estilo único e também ao interesse generalizado na altura por tudo o que vinha da Rússia. Acaba por deixar Wellesley em 1948, para dar aulas de Literatura Russa e Europeia na Universidade de Cornell, onde fica até 1959.

Nabokov escreveu Lolita durante as viagens que fazia, como caçador de borboletas, na costa oeste dos EUA, algo que ocorria todos os Verões. A mulher cumpria o papel de «secretária, dactilógrafa, editora, revisora, tradutora e bibliógrafa. Também de agente, gestora, conselheira jurídica e motorista. Ainda de investigadora, assistente e estagiária». Quando este tentou queimar rascunhos incompletos do livro, foi ela que o impediu. Vladimir define-a como a mulher mais bem-humorada que conheceu.

Após o enorme sucesso financeiro de Lolita, Nabokov teve a possibilidade de regressar à Europa e dedicar-se em exclusivo à escrita. Em Outubro de 1961, mudam-se para a Suíça, onde o autor ficará até ao fim da vida. Em 1976, é internado com uma febre que os médicos não conseguem esclarecer. Regressa ao hospital em 1977, com uma bronquite grave. Morre a 02 de Julho, rodeado da família.

É cremado e enterrado em Montreux.


350x

Última obra que o autor escreveu em russo e considerada uma despedida do mundo que Nabokov deixava para trás. Foi escrita entre 1935 e 1937, enquanto este vivia em Berlim, e publicada sob o pseudónimo de Vladimir Sirin.

O quarto capítulo, uma pseudo-biografia do escritor russo Nikolay Chernyshevsky, foi inicialmente censurado.

O protagonista da história parece ser Fyodor Godunov-Cherdyntsev, um escritor russo a viver em Berlim depois da fuga da família à revolução bolchevique. O que dá forma ao livro são as ambições literárias de Fyodor e o seu progresso enquanto escritor. No quinto e último capítulo, este declara a sua intenção de escrever um livro muito semelhante a O Dom. Nabokov cita Fyodor enquanto um exemplo de que nem todas as suas personagens têm vidas grotescas ou trágicas, descrevendo-o como alguém «abençoado por um amor fiel e por um reconhecimento precoce do seu talento».

 

Capítulo Um

Fyodor Cherdyntsev é um emigrante russo a viver em Berlim nos anos 20 e o enredo começa com a sua mudança para uma estalagem na rua Seven Tannenberg. Este publicou recentemente um livro de poemas e recebe uma chamada de Alexander Chernyshevsky a dar-lhe os parabéns e a convidá-lo para uma festa, onde será lida uma crítica favorável que foi publicada num jornal. Os poemas recordam a sua infância, passada com a irmã Tanya numa Rússia pré-revolucionária. Fyodor chega à festa, onde descobre que tudo não passa de uma brincadeira de mau gosto, uma vez que o livro não recebeu qualquer destaque por parte da Imprensa. Os Chernyshevsky tinham um filho, Yasha, parecido com Fyodor e amante de poesia. Este suicidou-se, ao ser envolvido num trágico triângulo amoroso. A mãe quer que Fyodor imortalize o destino de Yasha na sua escrita, mas este recusa. A morte do rapaz provoca no pai frequentes episódios de loucura. Quando Fyodor regressa ao seu «novo buraco», apercebe-se que trouxe consigo as chaves erradas, pelo que tem de esperar que alguém saia do prédio para poder entrar. Passa o Verão sem fazer nada. Com a chegada do Outono, assiste a um evento literário de emigrantes russos, onde conhece Koncheyev, desde logo visto como um rival. A leitura de uma peça aborrece a audiência. À saída, Fyodor e Koncheyev debatem temas da literatura russa com grande detalhe e fervor, ainda que mais tarde se descubra que tudo não passa de imaginação.

 

Capítulo Dois

Fyodor permanece nostálgico acerca da sua Rússia natal, tema que lhe ocupa os pensamentos durante uma viagem de eléctrico a caminho de um encontro com o seu pupilo, a quem ensina línguas. De súbito, impacienta-se e regressa a casa. Quando a mãe, Elizaveta Pavlovna, chega de Paris para uma visita, o encontro é ensombrado pelo fantasma do falecido pai, pois esta acredita que o marido ainda está vivo. Antes da despedida, assistem a outro evento literário russo, no qual Fyodor participa, recitando um dos seus poemas. Ainda que praticamente desconhecido por todos, este sente-se inspirado pela visita da mãe e pelos estudos que faz sobre Pushkin, pedindo-lhe ajuda para o seu novo projecto, um livro sobre o pai, Konstantin Kirillovich. Recolhe informação, encontra por acaso um conhecido do avô, Kirill Ilyich, um jogador que ganhou e perdeu uma fortuna na América antes de regressar à Rússia, e começa a estudar o trabalho do pai enquanto explorador e escritor científico, cujas viagens entre 1885 e 1916 levaram-no até à Sibéria e Ásia Central. Fyodor limitou-se a acompanhar o pai em viagens domésticas, mas também ele é um apaixonado por borboletas e imagina-se frequentemente ao lado do progenitor nas suas viagens pelo Oriente. Em 1916, este partiu a caminho da sua última expedição e está desde então desaparecido. Entre outras dificuldades, Fyodor vê-se na necessidade de procurar novo alojamento. Com a ajuda de Mrs. Chernyshevsky, encontra um lugar junto dos Shchyogolevs. Aceita ficar com eles porque vê de relance um curto vestido azul claro, numa sala lateral, assumindo que o mesmo pertence à filha do casal.

 

Capítulo Três

O capítulo começa por descrever um dia na rotina do protagonista. Pela manhã, Fyodor ouve os Shchyogolevs a acordar e começa o dia a pensar em poesia. Reflecte sobre a sua evolução enquanto poeta. Cerca do meio-dia, junta-se à família para o almoço. Shchyogolev fala sobre política, a mulher (Marianna) cozinha, e a filha (Zina) exibe um comportamento ostensivamente rude. Pela tarde, o protagonista dá explicações e passa por uma livraria, onde se depara com o livro de poemas de Koncheyev, «Comunicação», no qual lê algumas críticas que parecem não ter entendido a obra. Lê ainda um artigo sobre Chernyshevsky e o Xadrez, numa revista da especialidade, e por fim visita o editor, Vasiliev. Depois, regressa a casa e janta no quarto. Mais tarde, encontra-se secretamente com Zina. Enquanto espera por ela, escreve um poema. Descobre-se que esta foi uma das poucas a comprar uma cópia do livro de Fyodor e que é apenas filha adoptiva de Shchyogolev. Dorme no quarto contíguo ao dele. Recorda-se a história dos seus encontros, onde se revela também que Zina já o conhecia quando ele morava noutros locais. Os encontros são secretos, às escondidas dos pais. Shchyogolev sugere ter casado com Marianna como meio de chegar a Zina, razão provável para o ódio que esta tem por ele. A mesma trabalha para um escritório de advogados. Fyodor estuda em maior detalhe o trabalho de Chernyshevsky. Zina revela-se a musa e crítica de Fyodor. O primeiro editor a quem este apresenta o seu trabalho, rejeita-o, dizendo-o «amador, anti-social e enganador». Contudo, a sorte será melhor com o editor seguinte.

 

Capítulo Quatro

Este capítulo, um livro dentro do livro, intitulado «A vida de Chernyshevsky», é a biografia crítica do escritor russo do século XIX, que era por acaso o autor favorito de Lenine. Fyodor ridiculariza a estética de Chernyshevsky e a sua noção de literatura.

 

Capítulo Cinco

O livro acerca de Chernyshevsky sai no meio de «uma atmosfera propícia, animada e temperada de escândalo, o que ajudou nas vendas». A maioria dos críticos reage mal, uma vez que o livro desconstrói o protagonista enquanto escritor e pensador, mas a opinião de Koncheyev é positiva. Fyodor não consegue mostrar o livro a Chernyshevsky, já que este falece de súbito. Descreve-se a sua morte e enterro. No regresso a casa, Fyodor caminha ao lado do escritor Shirin, «um homem cego e surdo, com problemas respiratórios». Shirin tenta atraí-lo para as actividades da Sociedade de Escritores Russos na Alemanha, mas ele recusa, apesar de assistir a algumas reuniões, onde se luta ferozmente pelo controlo da instituição. Oferecem um trabalho a Shchyogolev em Copenhaga e este revela a intenção de deixar Zina no apartamento de Berlim. Fyodor fica encantado e dá um passeio na floresta de Grunewald, onde imagina nova conversa com Koncheyev. Nesse processo, roubam-lhe as roupas e as chaves do apartamento e este vê-se obrigado a regressar em roupa interior. Durante a noite, sonha com o regresso do pai. Na manhã seguinte, a família Shchyogolev parte para Copenhaga e Zina fica para trás. Fyodor, que planeia escrever um romance clássico (O Dom), pode agora viver com ela. Não têm dinheiro mas estão felizes, sentem que o destino decidiu juntá-los e ela declara que ele será «um escritor como nunca se viu».


 

Análise

Apesar dos paralelismos, Nabokov pediu para não se confundir «o escritor com a escrita», tendo insistido que não se revê em Fyodor, o seu pai nunca foi um explorador da Ásia e ele nunca cortejou Zina Mertz. O desprezo do autor pela Alemanha poderá ter sido causado pela «ditadura perturbadora» a que assistiu enquanto escrevia o livro. O romance descreve o mundo fechado e de curta duração dos escritores russos emigrados no pós-Primeira Guerra, nomeadamente em Berlim, uma cidade «fantasma».

É considerada por muitos «uma das obras mais originais, invulgares e interessantes» vindas de um autor russo emigrado e um dos romances mais difíceis de Nabokov em língua russa. A complexa obra não foi bem recebida inicialmente, tendo sido ignorada ou criticada enquanto ataque incendiário à Literatura Russa. Foi também vista como um romance onde se descrevia o progresso de um artista. Outros interpretam-na enquanto:

…declaração de amor – do criador pela criação e da criação pelo criador, de um filho pelo pai, de um exilado pela pátria, pela linguagem e por todos os que a admiram, pela beleza do mundo e por fim, pelos leitores.

O Dom é visto como o dom artístico, que se equilibra, como um jogo de xadrez, em duas linhas narrativas: o desenvolvimento de Fyodor e a sua relação com Zina. Existem outros temas, como o das «chaves», Tempo, Realidade, Natureza, Amor, Parentalidade, Rússia, Literatura, Arte, Morte, Luz, Sonhos, Cores, Viagem e Exílio. Contém ainda literatura dentro de literatura (poemas), e uma biografia «real» acerca de um escritor «irreal». Oscila entre a primeira e terceira pessoas, presente e passado, e sonhos lúcidos. É escrita de forma circular, pois no seu final o narrador/protagonista decide escrever o romance que o leitor acabou de ler.

 

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