William Faulkner

transferirViveu entre 1897 e 1962. Nascido no Mississippi, ganhou notoriedade como escritor ao vencer o Prémio Nobel. É autor de romances, contos, teatro, poesia, ensaio e guiões de cinema, embora a fama lhe advenha dos contos e romances, sobretudo os que decorrem na região fictícia de Yoknapatawpha, inspirada no condado de Lafayette, no Mississippi, onde viveu grande parte do tempo.

Faulkner é um dos autores mais famosos da Literatura Americana. Apesar de ter trabalhos publicados logo a partir de 1919 e depois ao longo das décadas de 20 e 30, nunca granjeou especial reputação até receber o Prémio Nobel da Literatura em 1949. É ainda hoje o único autor nascido no Mississippi a atingir tal estatuto. É autor de «A Fábula» (1954) e «Os Desgarrados» (1962). Nas obras famosas inclui-se ainda O Som e a Fúria (1929) e «Uma Rosa para Emily» (1930).

 

Nasceu no Mississippi, o primeiro de quatro filhos. Com apenas um ano,  mudou de cidade, à conta do trabalho do pai enquanto tesoureiro do negócio de família – uma empresa de caminhos-de-ferro. Este mantinha a esperança de herdar a companhia do avô de William, mas o ancião desconfiou da capacidade do filho para gerir uma empresa e optou por vendê-la por uma boa maquia. Confrontado com o facto, o pai de William planeou então um novo começo, que passava por partir rumo ao Texas para se tornar um rancheiro. A mulher discordou de tal ideia, contudo, pelo que acabam por se manter no estado do Mississipi, ainda que numa nova cidade – Oxford, local onde o avô de William mantinha outros negócios, o que tornava a tarefa de encontrar trabalho muito mais fácil. Assim sendo, pouco depois do quinto aniversário de Faulkner, a família assenta definitivamente nessa cidade, onde o escritor viverá a esmagadora maioria dos seus dias.

As mulheres da família – mãe, avó materna e aia – foram de capital importância para o desenvolvimento do lado artístico de William. Mãe e avó eram leitoras ávidas, revelando ainda interesse pela pintura e fotografia, o que lhe permitiu uma boa relação com as artes visuais. Enquanto o pai dava primazia às actividades ao ar livre – caça, caminhadas, pesca – a mãe valorizava a educação académica, sobretudo através da leitura. É ela que ensina os filhos a ler, antes mesmo de estes entrarem na escola, mostrando-lhes autores como Charles Dickens ou os irmãos Grimm.

Por outro lado, a convivência diária com a aia de raça negra revelou-se fulcral nos futuros trabalhos, sobretudo em temas como o racismo e a sexualidade.

Mostrou-se bom aluno desde cedo. Roçou a perfeição na primeira classe e foi dispensado da segunda, mantendo o bom nível na terceira e quarta. Contudo, algures entre o quarto e o quinto ano, William tornou-se muito mais discreto e reservado. Começou lentamente a perder o interesse pelos estudos oficiais, virando-se para a História do Mississippi, actividade com que ocupava os tempos livres a partir do sétimo ano. O declínio académico manteve-se de forma sustentada, acabando o autor por chumbar no 11º e 12º, nunca concluindo o secundário.

Faulkner passou a adolescência a ouvir histórias que lhe eram relatadas pelos mais velhos, acerca de temas como a Guerra Civil, a Escravatura, o Ku Klux Klan e a sua própria história de família. O avô falava-lhe sobretudo do seu pai, bisavô de William, empresário de sucesso, escritor e herói da Guerra Civil. Tal actividade era uma espécie de passatempo familiar, sendo este bisavô visto quase como um «deus».

Já com 17 anos, Faulkner conheceu Philip Stone, que se revelou uma das primeiras influências na sua escrita. Stone era quatro anos mais velho e pertencia a uma das famílias mais importantes da cidade. Era apaixonado por Literatura e tinha já obtido o grau de bacharel em duas Universidades – Yale e Mississippi. Faulkner acaba por frequentar algumas aulas na segunda, inscreve-se numa Fraternidade e decide abraçar o sonho de ser tornar escritor. Stone fica impressionado com os primeiros poemas de William, sendo um dos primeiros a reconhecer-lhe e a encorajar-lhe o talento. Acaba por se tornar uma espécie de mentor, pondo-o em contacto com a obra de diversos escritores, como James Joyce, que acabam por se revelar influências na escrita de Faulkner. No princípio dos anos 20, este oferece a Stone alguns poemas e contos, na esperança de os ver publicados. O amigo, por sua vez, mostrava-os a diversos editores, mas os trabalhos acabam por ser todos rejeitados.

O jovem Faulkner deixou-se influenciar bastante pela sua história de família e pela sua região. O estado do Mississippi irá moldar-lhe o sentido de humor, a sua opinião sobre a «dupla América» feita de brancos e negros, a sua caracterização dos sulistas e todos os temas que o definem – nomeadamente personagens de grande inteligência escondidas atrás da máscara de «simplórios bonacheirões». Rejeitado no serviço militar devido à pouca altura, Faulkner alistou-se numa unidade de reservistas do Exército Britânico, situada em Toronto. Apesar de por vezes afirmar o contrário, os registos provam que William nunca foi um membro efectivo do Exército Britânico e nunca participou em qualquer acção de combate na I Guerra Mundial.

Em 1918, o apelido de William mudou de «Falkner» para Faulkner. Diz a lenda que tudo não passou de um erro de impressão numa gráfica. Quando o novo nome surgiu na capa do seu primeiro livro, foi perguntado ao autor se queria corrigir o sucedido. Conta-se que terá respondido: «Ambos os nomes me agradam».

Na adolescência, Faulkner dedicou-se exclusivamente à poesia, tendo o primeiro romance aparecido apenas em 1925. As suas influências são diversas e complexas, tendo uma vez declarado que se baseava no período Romântico da Literatura Inglesa do século XVIII e XIX. A partir de 1919, frequenta a Universidade do Mississippi, fazendo três semestres até desistir, em Novembro de 1920.

William teve a possibilidade de assistir a algumas aulas na Universidade porque o seu pai obtivera um emprego na instituição, mas faltava com frequência, o que lhe valeu nota negativa a Inglês, por exemplo. Ainda assim, alguns dos seus poemas foram publicados em jornais da faculdade.

Apesar de Faulkner ser claramente identificado com o Mississippi, este mantinha residência em Nova Orleães, no Louisiana, no período em que escreveu o seu primeiro romance, «A Recompensa do Soldado», em 1925. Nessa fase, foi fortemente influenciado por um amigo escritor, Sherwood Anderson, que o ajudou na publicação desse livro e também do segundo, «Mosquitos», cuja acção decorre em Nova Orleães.

A minúscula residência do autor à época está hoje transformada em espaço cultural.

Após as primeiras experiências, foi já em 1927 que William se dedicou ao primeiro trabalho cujo cenário é o estado fictício de Yoknapatawpha, a que deu o nome de «Sartoris». Este romance retrata de forma clara as tradições e contexto histórico do Sul, ambiente que rodeou o autor desde sempre. Aparentemente, William ficou bastante orgulhoso com o resultado final, estando convencido que se tratava de um progresso assinalável em relação aos trabalhos anteriores. Contudo, ao submeter a obra aos editores, a publicação foi rejeitada. Faulkner ficou devastado, mas acabou por autorizar o seu agente literário a fazer alterações significativas ao texto, o que permitiu que o livro fosse publicado em 1929.

No Outono de 1928, pouco depois do 31º aniversário, começou a trabalhar no manuscrito de O Som e a Fúria. A versão inicial continha três contos acerca de um grupo de crianças cujo apelido era Compson, mas depressa percebeu que aquelas personagens seriam melhor desenvolvidas num romance. Devido, quem sabe, à desilusão que sentira aquando da publicação de «Sartoris», Faulkner tornou-se indiferente à opinião dos editores e decidiu emprestar a esta obra um carácter muito mais experimental. Segundo o próprio:

Um dia, decidi cortar com todos os editores e demais gente do meio. Senti que só a partir dessa altura fiquei livre para escrever.

Concluído o trabalho, fez questão de proibir qualquer edição por parte do agente.

Em 1929, Faulkner casou-se com Estelle Oldham. Esta tinha dois filhos de uma relação anterior e William decidiu sustentar a nova família através da sua actividade como escritor. Inicia a feitura de «Na Minha Morte», para além de trabalhar à noite na Universidade do Mississippi. O romance seria publicado em 1930. Nesse ano, envia também vários contos para diversas revistas de tiragem nacional, conseguindo publicar em algumas. Os rendimentos daí decorrentes permitiram-lhe comprar uma casa em Oxford a que deu o nome de «Rowan Oak». O livro seguinte, «Santuário», trouxe-lhe novos lucros, tendo sido sobejamente lido e analisado, embora também muito condenado devido às críticas veladas que faz ao Sul.

Chegados a 1932, Faulkner depara-se com problemas financeiros. Pede ao agente para que lhe venda os direitos do seu novo trabalho, «Luz em Agosto», a uma qualquer revista, por quantia considerável, mas ninguém aceitou a proposta. É então que os estúdios da MGM lhe oferecem trabalho como argumentista, em Hollywood. Apesar de não ser grande apreciador de cinema, as dificuldades monetárias obrigam-no a aceitar e a mudar-se para a Califórnia em Maio desse ano. Começa a trabalhar com o realizador Howard Hawks, com quem cria uma rápida amizade, já que tinham em comum o gosto pela caça e pela bebida. O irmão deste, William Hawks, torna-se o agente de William em Hollywood. Faulkner conserva assim um fluxo consistente de trabalho entre as décadas de 30 e 50.

O autor foi capaz de produzir em quantidade e qualidade, apesar de se debater com o alcoolismo desde sempre. Era contudo raro beber durante um projecto, preferindo cair em exageros depois da sua conclusão.

São-lhe também conhecidos os diversos casos extra-conjugais. Um deles com a secretária de Howard Hawks, Meta Carpenter, outro com uma jovem escritora, Joan Williams, ainda um terceiro com Else Jonsson, viúva de um jornalista.

Em meados de 1962, Faulkner lesionou-se gravemente ao cair de um cavalo, situação que lhe provocou uma trombose. Menos de um mês depois, sucumbe a um enfarte, com a idade de 64 anos.

 

Entre o princípio dos anos 20 e a II Grande Guerra, Faulkner publicou 13 romances e um vasto conjunto de contos. Tal volume de trabalho revelou-se o pilar da sua reputação e valeu-lhe o Prémio Nobel da Literatura aos 52 anos. Entre os livros mais famosos contam-se O Som e a Fúria (1929), «Na Minha Morte» (1930), «Luz de Agosto» (1932), e «Absalão, Absalão!» (1936).

A sua primeira colectânea de contos, «These 13» (1931), inclui muitas das histórias mais conhecidas, incluindo «Uma Rosa para Emily» ou «Folhas Vermelhas». Faulkner baseou grande parte dos seus trabalhos na região fictícia de Yoknapatawpha – moldada à semelhança da sua região de Lafayette, onde se situa Oxford. Yoknapatawpha é o seu «cartão postal», sendo considerada pelos críticos uma das maiores criações da história da Literatura.

O conto «Uma Rosa para Emily» foi a primeira das suas histórias a ser publicada numa revista de grande tiragem, embora tenha passado despercebida aos olhos do público. Após várias revisões e republicações, foi conquistando popularidade e é hoje vista como uma das melhores.

O autor tornou-se conhecido pelo seu estilo experimental, dando especial ênfase à dicção e cadência. Em directo contraste com o estilo minimalista de Ernest Hemingway, Faulkner usava com frequência o denominado «fluxo de consciência», criando narrativas subtis, inteligentes, emotivas e até de cariz gótico ou grotesco, onde se encontra uma enorme variedade de personagens, incluindo escravos libertados, descendentes de escravos, sulistas brancos de parcos meios, ou membros das classes altas.

Dirá, numa entrevista, em 1956:

Que o escritor faça carreira como cirurgião ou construtor civil se o seu interesse reside na técnica. Não existe uma fórmula mecânica para lá chegar, nem nenhum atalho. O aprendiz de escritor cometerá um erro se ficar preso à teoria. Aprendam com os próprios erros, é a única maneira de aprender. O melhor artista é aquele que acredita que ninguém é bom o suficiente para lhe fornecer conselhos. É o supremo vaidoso. Pouco importa o quanto venera autores que o precederam, o seu objectivo é ser melhor do que todos eles.


 

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Publicado em 1929, trata-se do quarto romance do autor, não tendo obtido sucesso imediato. Faulkner mesclou vários tipos de narrativa, incluindo a técnica conhecida como «fluxo de consciência» – da qual foi um dos pioneiros no século XX, à semelhança de James Joyce ou Virginia Woolf. Só em 1931, ao lançar o sexto trabalho, «Santuário» – um romance mais sensacionalista escrito por razões financeiras – é que O Som e a Fúria foi «descoberto», recebendo então por arrasto o devido reconhecimento comercial e literário. Hoje é visto como uma das melhores e mais importantes obras literárias do século XX.

 

Enredo

A acção decorre no condado fictício de Yoknapatawpha e exibe como tema central a história de uma antiga família aristocrática do Sul, descendente de um herói da Guerra Civil Americana – General Compson. Ao longo de quatro partes distintas, acompanhamos o declínio e dissolução da família Compson.

 – A primeira parte, iniciada a 07 de Abril de 1928, é escrita na perspectiva de Benjamin “Benjy” Compson, um deficiente mental de 33 anos, e a narrativa é caracterizada por um estilo altamente desarticulado, com frequentes saltos cronológicos.

 – A segunda parte, recuando a 02 de Junho de 1910, apresenta Quentin Compson, irmão mais velho de Benjy, e os eventos que levaram ao seu suicídio.

 – A terceira parte, de regresso a 06 de Abril de 1928, é escrita sob o ponto de vista de Jason, o cínico irmão mais novo de Quentin.

 – Na quarta e última parte, um dia após a primeira – 08 de Abril de 1928, Faulkner introduz um narrador omnisciente. O ponto de vista recai sobretudo em Dilsey, uma das servas negras dos Compsons.

O título do romance foi tirado do famoso solilóquio de «Macbeth», de William Shakespeare. Imediatamente óbvia é a referência a uma «história contada por um idiota», neste caso Benjy. A referência pode também incluir Quentin e Jason, cujas narrativas exibem diversos traços de idiotice. O romance aborda o declínio e morte de uma família tradicional da classe alta sulista.

As quatro partes do enredo relatam muitos dos mesmos episódios, mas sob diferentes pontos de vista e com ênfase em diferentes temas ou eventos. Esta estrutura não-linear e intercalada dificulta a sua compreensão, na medida em que os narradores não são confiáveis.

 

Primeira Parte: 07 de Abril de 1928

A primeira parte é narrada por Benjamin “Benjy” Compson, um motivo de vergonha para a família devido ao seu autismo. Os únicos personagens que demonstram um cuidado genuíno para com ele são Caddy, a irmã mais velha, e Dilsey, uma serva negra matriarcal. A narrativa é caracterizada sobretudo pela não-linearidade: abrangendo o período entre 1898 e 1928, a história de Benjy é um pastiche de eventos apresentados em «fluxo de consciência». Esta não-linearidade faz com que o estilo desta secção seja bastante desafiador, mas desenvolve uma cadência que, apesar de cronologicamente incoerente, fornece uma visão imparcial sobre as verdadeiras motivações de muitas personagens. Além disso, o prestador de cuidados de Benjy muda para indicar o avanço cronológico: Luster no presente, T.P. na adolescência e Versh durante a infância.

Benjy tem três paixões: o fogo, o campo de golfe na terra que pertencera à família Compson e a irmã Caddy. Esta, por volta de 1928, fora banida do lar dos Compson, após um escândalo de adultério e filhos bastardos. A família vende o terreno favorito ao clube de golfe local, para financiar a educação de Quentin em Harvard. Na cena de abertura, Benjy, acompanhado de Luster, um servo ainda menino, observa os jogadores de golfe enquanto aguarda  que estes chamem o carregador (caddie) – o nome da sua irmã favorita. Quando um deles o faz, Benjy, na sua mente, embarca num turbilhão de memórias sobre a irmã, concentrando-se numa cena crucial.

Em 1898, quando a sua avó morreu, os quatro filhos dos Compsons foram forçados a permanecer fora do funeral. Para ver o que se passava no interior, Caddy subiu a uma árvore do quintal e enquanto olha lá para dentro, os irmãos — Quentin, Jason e Benjy — olham para cima e notam que a roupa interior da irmã está enlameada. O modo como cada um reage a esta cena é a primeira visão que o leitor tem das tendências que irão moldar a vida dos rapazes: Jason é aborrecido, Quentin é revoltado e Benjy parece ter um «sexto sentido», com o qual interpreta a natureza simbólica da sujidade de Caddy, que sugere a sua promiscuidade sexual mais tarde. Na época, Quentin tinha nove anos, Caddy sete, Jason cinco e Benjy três anos.

Outras memórias cruciais nesta primeira parte são a troca do nome de Benjy (antes chamado Maury, como o tio) em 1900, após a descoberta da sua deficiência; o casamento e o divórcio de Caddy (1910) e a castração de Benjy, resultantes de um ataque a uma menina.

Esta parte do romance utiliza uma linguagem impressionista, ditada pelo autismo de Benjamin e pelas mudanças frequentes no tempo e no ambiente.

 

Segunda Parte: 02 de Junho de 1910

Quentin, o mais inteligente e atormentado dos Compson, representa da melhor forma a técnica narrativa de Faulkner. Encontramo-lo enquanto caloiro da Universidade de Harvard, vagueando pelas ruas de Cambridge, contemplando a morte e relembrando o afastamento da sua irmã Caddy da família. Como na primeira parte, a narrativa não é estritamente linear, embora dois elementos se entrelacem, intercalando de um lado Quentin na Universidade de Harvard e do outro as suas memórias, de forma bastante discernível.

A principal obsessão de Quentin é a virgindade e a pureza de Caddy. Este é obcecado pelos ideais sulistas de cavalheirismo e é altamente protector das mulheres, sobretudo da irmã. Quando Caddy mergulha na promiscuidade sexual, Quentin fica horrorizado e aborda o pai em busca de ajuda e conselhos, mas o pragmático Mr. Compson afirma que a virgindade é uma invenção masculina que não deve ser levada a sério. Diz-lhe ainda que o tempo vai curar tudo. Quentin, frustrado e decepcionado, passa o tempo a tentar provar que o pai está errado, mas não consegue. Pouco antes de deixar Harvard, no Outono de 1909, Caddy fica grávida de Dalton Ames, que é confrontado por Quentin. O irmão sai vergonhosamente derrotado dessa luta mas Caddy promete nunca mais falar com Dalton.

Quentin «confessa» ao pai que cometeu incesto com a irmã, mas este não se deixa enganar. Quentin, contudo, sente a necessidade de assumir a responsabilidade pelo pecado de Caddy. Grávida e sozinha, esta tenta casar-se com Herbert Head, de preferência antes do nascimento da criança. Herbert descobre que o filho não é dele e afasta-se. A divagação de Quentin por Harvard segue o padrão do seu desgosto com Caddy. Por exemplo, a dada altura, conhece uma rapariga imigrante italiana, que não fala inglês. Começa a tratá-la por «irmã» e passa o tempo a tentar comunicar e tomar conta dela, sem sucesso. Reflecte com tristeza sobre a queda e a miséria do Sul após a Guerra Civil Americana. Por fim, incapaz de lidar com a amoralidade do mundo, comete suicídio.

Ainda que o relato de Benjy seja difícil de entender, o de Quentin é-o ainda mais. Não só há uma mescla de eventos cronológicos, como o autor ignora (sobretudo no fim) qualquer noção de gramática, ortografia ou pontuação. Essa confusão ilustra a depressão severa de Quentin e a sua deterioração mental.

 

Terceira Parte: 06 de Abril de 1928

A terceira parte é narrada por Jason, o terceiro filho e o favorito da mãe, Caroline. A acção ocorre  numa Sexta-Feira Santa. Das três partes narradas pelos irmãos, a de Jason é a mais simples, reflectindo a sua vontade obstinada de obter riqueza material. Em 1928, Jason é o pilar económico da família após a morte do pai. Sustenta a mãe, Benjy e Miss Quentin (filha de Caddy), bem como os servos da família. É amargo e cínico, ao contrário da sensibilidade apaixonada que marca os irmãos. Chantageia a irmã para fazer dele o único guardião da sobrinha e, em seguida, usa esse poder para roubar a pensão que Caddy envia para a filha.

Segue-se o curso da sexta-feira, um dia em que Jason decide deixar o trabalho para procurar Miss Quentin, que fugiu outra vez, aparentemente em busca de aventuras. Aqui visualizamos com maior clareza o conflito entre os dois traços predominantes da família Compson, que a mãe de Jason, Caroline, atribui à diferença entre o seu sangue e o do marido: de um lado, a imprudência e a paixão de Miss Quentin, herdadas do avô e do lado dos Compson; do outro, o cinismo implacável de Jason, herdado do lado da mãe. Esta parte também nos dá uma imagem mais nítida da vida doméstica na família Compson, em que Jason e os serventes cuidam da hipocondríaca Caroline e de Benjy.

 

Quarta Parte: 08 de Abril de 1928

Domingo de Páscoa. Nesta parte, a única sem um narrador na primeira pessoa, Dilsey, a poderosa matriarca dos serventes negros da família, é protagonista. Esta, em contraste com o franco declínio dos Compsons, apresenta uma grande força religiosa, revelando-se uma figura orgulhosa entre a família agonizante.

Nesse Domingo de Páscoa, Dilsey leva a família e Benjy à Igreja. Através dela, sentimos as consequências da decadência e da depravação em que os Compsons viveram durante décadas. Dilsey é maltratada e abusada, mas permanece fiel. Com a ajuda do neto Luster, cuida de Benjy, leva-o à Igreja e tenta conduzi-lo à «salvação». O sermão do pregador fá-la chorar pela família Compson.

Enquanto isso, a tensão entre Jason e Miss Quentin atinge a conclusão inevitável. A família descobre que esta tentara fugir durante a noite com um artista de circo, depois de encontrar e se apoderar do dinheiro oculto no armário de Jason (a pensão enviada por Caddy, que este roubara). O tio chama a Polícia e declara que o dinheiro foi roubado, mas para não admitir o desvio do dinheiro da sobrinha, não se empenha demasiado na resolução do caso, preferindo encontrá-la por conta própria. Contudo, perde-lhe o rasto e desiste.

 

Personagens

Jason Compson III – Pai da família Compson, um advogado que dá aulas na Universidade de South – um pensador niilista e alcoólico, com opiniões cínicas que mais tarde perturbam o filho, Quentin.

 

Caroline Bascomb Compson – Esposa de Jason. Uma egocêntrica neurótica que nunca demonstrou afecto por qualquer um dos filhos, excepto Jason, que ela parece admirar apenas por este revelar traços do seu lado da família. Na velhice, transforma-se numa hipocondríaca abusiva.

 

Quentin Compson III – O filho mais velho dos Compson. Passional e neurótico. O suicídio é a culminação trágica da influência nociva da filosofia niilista do pai e da incapacidade em lidar com a promiscuidade sexual da irmã.

 

Candace “Caddy” Compson – A segunda criança dos Compson, a única cuidadora carinhosa de Benjy e a melhor amiga de Quentin. De acordo com Faulkner, a verdadeira heroína do romance. Caddy nunca desenvolve uma voz, mas permite que as emoções dos irmãos revelem o seu carácter.

 

Jason Compson IV – O amargo e racista terceiro filho, perturbado por dívidas financeiras e frustração sexual. Trabalha numa loja de mercadorias agrícolas pertencente a um homem chamado Earl e torna-se chefe da família em 1912. Apodera-se da pensão de Miss Quentin por muitos anos.

 

Benjamin (“Benjy”, nascido Maury) Compson – O filho deficiente mental dos Compson, fonte constante de vergonha e desgosto para a família, especialmente para a mãe, que insiste na mudança de nome para Benjamin. Caddy é o único membro da família que demonstra amor genuíno por ele. Tem um «sexto sentido» quase animal acerca das pessoas e é capaz de adivinhar que a irmã perdeu a virgindade só pelo cheiro.

 

Dilsey Gibson – A matriarca da família de servos, que inclui os seus três filhos – Versh, Frony e T.P. – e o neto Luster (filho de Frony); São os cuidadores de Benjamin durante toda a vida. Dilsey é uma testemunha da destruição da família Compson.

 

Miss Quentin Compson – Filha de Caddy que passa a viver com os Compson, sob a guarda de Jason IV, quando Herbert se divorcia de Caddy. Selvagem e promiscua, acaba por fugir de casa. Muitas vezes conhecida como Quentin II ou Miss Quentin.

 

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