Na Barca de Caronte

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Este texto é um excerto dos «Diálogos dos Mortos», obra na qual o escritor grego Luciano (séc. II d.C.) põe em causa os precários valores que regem a vida dos Homens. As personagens são deuses, heróis e pessoas ilustres que, encontrando-se nos Infernos após a morte, constatam a desvalia das grandezas terrenas, que de nada servem além-túmulo.

Este excerto corresponde ao momento em que o escritor Menipo atravessa o rio Letes na barca de Caronte. Segundo os Gregos e os Romanos, o homem tinha como destino último os Infernos e, para chegar até lá, deveria atravessar um rio, pagando uma moeda ao barqueiro Caronte. Uma vez atravessado esse rio, tinha ainda de impedir que o cão Cérbero devorasse a sua alma.


 

Caronte – Paga, oh maldito, o preço da passagem.

Menipo – Grita, oh Caronte, se isso te apraz.

Caronte – Paga, repito, o que deves por te ter transportado.

Menipo – Não podes receber de quem nada tem.

Caronte – Mas existe alguém que não tenha um óbulo?

Menipo – Se na verdade existe algum outro, não sei. Eu não tenho.

Caronte – Pois vou estrangular-te, por Plutão, oh infame, se não me pagares.

Menipo – E eu racho-te a cabeça com o bastão.

Caronte – Então terás tu feito de graça tão longa travessia?

Menipo – Que Hermes te pague por mim, ele que me entregou a ti.

Hermes – Por Zeus! Belo proveito se ainda tivesse que pagar pelos mortos!

Caronte – Não te largarei.

Menipo – Bem, nesse caso põe a barca a seco e aguarda. De resto, como podes receber o que realmente não possuo?

Caronte – Tu não sabias que era preciso trazê-lo?

Menipo – Sabia, claro, mas não o tinha! Quê?! Por isso não devia eu ter morrido?

Caronte – Serás tu então o único a vangloriar-se de ter atravessado de graça?

Menipo – De graça não, oh amigo! De facto até lancei água fora, ajudei a remar e, de todos os passageiros, eu era o único que não se lamentava.

Caronte – Isso nada tem a ver com o preço da passagem. É necessário que pagues o óbulo. Não é permitido proceder-se de outro modo.

Menipo – Então reconduz-me à vida.

Caronte – Tu tens graça! Para que, ainda por cima, eu apanhe açoites de Gaco!

Menipo – Então não me maces!

Caronte – Mostra o que tens no alforge!

Menipo – Tremoços, se te agradam…e também a refeição de Hécate.

Caronte – Oh Hermes, donde nos trouxeste este cão? O que ele tagarelava durante a travessia, rindo e zombando de todos os passageiros, cantando sozinho, enquanto eles choravam!

Hermes – Tu ignoras, Caronte, que espécie de homem transportaste? Totalmente livre e a quem não dá cuidado coisa nenhuma. É o famoso Menipo.

Caronte – Ah! Se um dia te volto a apanhar…

Menipo – Sim, oh amigo, se apanhares…mas não me apanharias segunda vez…

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