Anos 50-70 – Agustina Bessa-Luís

x83019013_portrait-de-Augustina-Agustina-Bessa-Luis-Bessa-luis-ecrivain-portu.jpg.pagespeed.ic._BWPpoqwpIViveu entre 1922 e 2019. Nasceu em Amarante. Estudou no colégio das Doroteias, na Póvoa do Varzim. Logo aos seis anos de idade leu «As Mil e Uma Noites».

Muda-se para Coimbra em 1945, enquanto o marido estuda na Faculdade de Direito. Em 1946 nasce a filha de ambos e concluídos os estudos, a família muda-se em definitivo para o Porto.

Estreou-se como romancista em 1948, ao publicar a novela «Mundo Fechado», mas seria o romance A Sibila, publicado em 1954, a revelar-se um enorme sucesso e a trazer-lhe imediato reconhecimento geral. É com esta obra que Bessa-Luís atinge a total maturidade do seu originalíssimo processo criador.

É também conhecido o seu interesse pela vida e obra de um dos grandes expoentes da escola romântica, Camilo Castelo Branco, cuja herança se faz sentir quer a nível temático (inúmeras obras da autora se relacionam com a sociedade de Entre Douro e Minho), quer a nível da técnica narrativa (explorou ficcionalmente a própria vida de Camilo). Essa filiação associa Agustina à corrente neorromântica, como defende Eduardo Lourenço.

A sua criação é bastante fértil e variada. A autora escreveu mais de cinquenta obras, entre romances, contos, peças de teatro, biografias romanceadas, crónicas de viagem, ensaios e livros infantis. Foi traduzida para Alemão, Castelhano, Dinamarquês, Francês, Grego, Italiano e Romeno. O seu livro-emblema, A Sibila, já atingiu a 25ª edição.

Em 2004, aos 81 anos, recebeu o mais importante prémio literário da língua portuguesa: o Prémio Camões. Na acta da XVI edição, pode ler-se que «o júri tomou em consideração que a obra de Agustina Bessa-Luís traduz a criação de um universo romanesco de riqueza incomparável, que é servido pelas suas excepcionais qualidades de prosadora, assim contribuindo para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum».

A partir de Julho de 2006, pouco depois de terminar a sua última obra, «A Ronda da Noite», a autora deixou de escrever e retirou-se da vida pública, devido a razões de saúde.

Faleceu em 2019, com 96 anos.

 

Influências

 

 – Alexandre Herculano – Ensaio filosófico, autobiografia e novela rústica.

 – Camilo Castelo Branco – Crítica de costumes, pertinência dos pormenores, verdade psicológica, sobriedade dramática, frustração amorosa.

 – Raúl Brandão – Prolongamento do instante através de imagens, mistério do tempo, linguagem simbólica.

 – Teixeira de PascoaesSaudosismo, Simbolismo.


3380429._UY260_SS260_Trata-se de um romance de personagem, um texto rural, em que as relações de força entre dominados e dominadores estão bem patentes. Pode considerar-se o romance da burguesia rural nortenha.

Insere-se no chamado romance português do século XX:

 – Pendor introspectivo e memorialístico;

 – Análise cruel das almas, com as suas misérias e interrogações éticas;

 – O travo de se viver incerto e repartido no tempo;

 – A estranheza do «sonho» e até do maravilhoso, incrustados na matéria viscosa do «real», no tédio do quotidiano.

 

Temas

 

– Espiritualismo/Materialismo;

 – Vida/Morte;

 – Cidade/Campo;

 – Sociedade matriarcal;

 – Crenças e Costumes.

O título remete para as figuras clássicas das sibilas, como Delfos, a mais célebre de todas. No romance, a palavra indica a protagonista, Quina. A Sibila da Antiguidade vivia só e em castidade. Guardava a casa do seu deus, mantendo acesa a chama do seu culto. Na sua solidão recebia a inquietação dos homens e transmitia o recado dos deuses. Ouvindo as preocupações, os problemas, as angústias, os segredos da vida humana, alcançava a capacidade de entender o mistério da existência.

 

Acção

 

A acção do romance gira em redor de Quina, a sibila, de acordo com o título. Apresenta os seus antecedentes (os pais, Maria e Francisco Teixeira com a sua libertinagem); a infância de Quina, a sua relação com a mãe, o pai e a irmã; conta depois a grande mudança operada na jovem quando esta, mercê de dotes que entretanto se revelam, se descobre capaz de domínio sobre os que a rodeiam; a partir daqui, esta é já a sibila, quer junto de elementos da camada popular, quer junto de um mundo feminino socialmente mais elevado (caso especial da Condessa de Monteros). Entretanto, entra no romance a pequena Germa, que aos poucos vai descobrir a protagonista como «possuidora de todo o puro enigma do ser humano, vórtice de paixões onde subsiste, oculta, nem sempre declarada, às vezes triunfante, uma aspiração de superação, alento sobre-humano que redime e que transfigura». A morte de Quina acontece quando Germa é já adulta.

 

Tempo

 

Cronologicamente, a acção do romance decorre entre 1850 (1870 é só a data da reconstrução da Casa da Vessada, quando Maria já estava casada há anos) e 1950. Um século, portanto.

São evocados alguns acontecimentos históricos anteriores a 1870 (Patuleia, José do Telhado…) e posteriores, como a chegada da República (1910).

Para o leitor, o tempo é sobretudo o da biografia de Quina: o da sua infância, o da sua juventude, o do alargamento da sua influência, o da entrada em cena de Germa, o da sua velhice e morte. A história de Quina é uma grande analepse na memória de Germa. Dentro desta analepse há muitas outras analepses e prolepses.

 

Espaço

 

O espaço (físico, social e cultural) onde decorre a história de Quina é o das proximidades de Amarante (o das raízes familiares de Agustina). De facto, o leitor sente-se num Entre Douro e Minho que parece mesmo Minho.

A narradora conhece profundamente esse espaço rural nas suas casas, nas suas produções agrícolas, nos processos dessa produção, na sua fauna e flora, na sua geografia estreita, nos seus hábitos familiares, na sua linguagem, na sua culinária, na educação dada aos novos, nas amizades e maledicências, nas traições, na sua magra economia, nas relações que as casas estabelecem com as outras casas vizinhas, na sua história, na sua rotina religiosa.

A princípio somos levados para a Casa do Freixo, a de Maria e seus irmãos; depois assentamos arraiais na Casa da Vessada, a casa de Francisco Teixeira, para onde Maria vai viver depois de casar. É lá que nasce e cresce Quina, é essa casa que, arruinada pela leviandade de Francisco Teixeira, ela vai restaurar e impor pela abastança e que vai por fim deixar em testamento a Germa, por fidelidade ao sangue familiar.

 

As personagens

 

 – Francisco Teixeira, pai de Quina, «o maior conquistador da comarca», que leva a casa da Vessada à ruína mas que deixará uma profunda e não desagradável memória;

 – Maria, sua esposa, sobre quem recai o peso da criação dos filhos e da economia familiar até à juventude de Quina e que morre com 94 anos, mentalmente debilitada;

 – Dos irmãos de Maria, assinalam-se José, que emigrara, fizera fortuna e adquirira a Quinta de Folgosinho e Balbina, madrinha de Quina;

 – Dos irmãos de Quina, a irmã Estina é frequentemente mencionada. Casa com Inácio Lucas, a quem não ama e que a trata rudemente. Também muito mencionado é o irmão Abel, pai de Germa. Menos referido é o irmão João, que faz um casamento muito criticado pela mãe.

Outras personagens com certo relevo são Narcisa Soqueira e o seu filho Augusto (duma casa que pega com a da Vessada), Adão (um ex-pretendente de Quina) e a Condessa de Monteros (Elisa Aida, parente não muito próxima de Maria).

Na geração mais recente temos Germa, Custódio e Libória. Germa possui uma enorme importância no romance: tendo, na infância e adolescência, conhecido muito bem Quina e o seu mundo tradicional e rural, afasta-se para voltar mais tarde, dotada de uma cultura urbana e geral muito vasta que a vai capacitar para interpretar a sedutora figura da protagonista. A devoção que a idosa Quina tem por Custódio faz também dele uma personagem relevante.

 

Quina

Esta personagem é apresentada em três fases:

 – A «Gata Borralheira» (até aos 15 anos);

 – A Sibila (até aos 58 anos);

 – Decadência (até aos 73 anos).

É a personagem central do clã familiar de uma aldeia do norte do país. Teve uma infância pouco sadia. A doença prolongada aos 15 anos alterou por completo a sua vida.

Curada, é uma personalidade diferente, forte, decidida, empenhada numa dupla missão: reconstruir a Casa da Vessada – destruída pelas leviandades do pai – e conquistar o prestígio espiritual da sua aldeia. Interpreta a noção do povo sobre propriedade – herança sagrada a transmitir ao herdeiro seguinte.

Aos 58 anos recebe em sua casa uma criança, filho de um escudeiro de Elisa Aida, aquela que a apelidou pela primeira vez de sibila e que a consultava frequentes vezes. Depressa se deixa dominar por ela.

É uma personagem vulnerável, interesseira, solitária, fiel à noção de propriedade.

Se a narradora, com Germa, vê Quina «possuidora de todo o puro enigma do ser humano», isso não significa que adopte perante ela uma atitude de aceitação ou até exaltação continuadas; pelo contrário, assinala-lhe também defeitos variados e relativamente graves.

Admira-lhe o que chama o seu «condão», a capacidade para improvisar «uma prece, cheia duma verbosidade genuína, [que] era como um improviso de melodia, sempre viva e sempre tocante, e em que o aspecto ingénuo ficava sepultado sob a força trágica da insistência, do impulso místico, duma espécie de ordem apaixonada e violenta, porém fundamentalmente resignada e triste».

Descreve-a como possuidora de um conhecimento congénito dos homens:

Mercê dum sentido finíssimo para se embrenhar nos fenómenos da natureza humana ou simplesmente do meio vital, com os seus elementos, suas causas e efeitos, depressa adquiriu uma sabedoria profunda acerca de todos os ritmos da consciência, do instinto, das forças telúricas que se conjugam no fatalismo da continuidade. Conhecia os homens sem o aprender jamais. Sabia, uma por uma, qual a reacção que correspondia a determinado tipo, perante determinado facto. Adivinhava-lhes os pensamentos, mesmo antes de os poder raciocinar.

E foi este conhecimento que lhe proporcionou uma ascendência espiritual de sibila:

Simples era, portanto, para ela atingir uma ascendência espiritual sobre todos aqueles para quem essas qualidades inatas só poderiam significar símbolos de magia. Aos poucos, foi ganhando títulos de adivinha, de mulher de virtude.

Mas sabemos também que Quina era uma «intriguista sorrateira e mesquinha de coração quando cismava uma vingança, intentava um lucro, sempre estuante de actividade e ambiciosa de considerações mundanas, ela, tão rasteira como o pó, fardo de malícia e de estultícia incríveis».

A sua soberba não conhecia limites: «Há mistérios – dizia – mas não para mim. Há Deus, mas é ele que me procura», embora coexistisse com uma «inesgotável dádiva de ternura».

Tem em comum com as sibilas de Apolo o facto de ser a guardiã da sua casa, ter por herói o pai, o seu Apolo, possuir um discurso sentencioso e sibilino, um poder mediador, interferindo na vida das pessoas, captando os segredos, entrando em êxtase.

Contudo, o seu apelo ao triunfo imediato, às coisas terrenas, a sua vaidade insaciável, as suas intrigas mesquinhas, tudo isto a condenou.

Trata-se de uma mulher cujas circunstâncias não suscitam a sua realização como esposa e mãe, cuja experiência infantil e adolescente lhe desperta o gosto de se impor como dirigente económica do clã familiar rural e como conselheira ou oráculo da aldeia.

A autora propõe personagens como seres individuais sempre em tensão, em fuga, que se vão formando e reformando pela acção que exercem no universo em que se inserem, sem obedecer a modelos.

 

Germa

Nasceu na cidade, filha de Abel. O seu nascimento não foi bem visto pela família da casa da Vessada.

Criança dotada de excepcional perspicácia e capacidades mentais, depressa descobriu que Quina era um ser intriguista, traiçoeiro e individualista.

Educada por freiras, ostenta crueldade e cinismo. Criada num meio burguês e detentora de um estatuto de intelectual, é na casa da Vessada, em contacto com a Natureza, que se regenera.

Dotada de forte personalidade, entra frequentes vezes em conflito com o pai, interesseiro e calculista. Dedica a Quina um respeito eterno. O convívio com esta proporciona-lhe um perfeito conhecimento do ser humano. Adopta as posições de Quina quanto ao casamento e visão dos homens.

Manifesta por vezes uma certa estagnação mental, falha da força e equilíbrio da mentora. Recebe contudo dela a passagem de testemunho.

 

Técnica narrativa

 

Aparentemente, a focagem a partir da qual ouvimos a história de Quina é a da sua sobrinha Germa: «E, bruscamente, Germa começou a falar de Quina», diz a narradora numa das páginas iniciais, sugerindo que é de Germa o ponto de vista que nos é veiculado sobre os acontecimentos. Esta sugestão é retomada no final do romance.

Acompanhando em paralelo o fio condutor principal, bastante descontínuo, do relato da vida de Quina, sucedem-se episódios variados com numerosas personagens; tudo muito marcado pela elipse.

A sucessão das múltiplas narrativas segue, na aparência, a lógica da conversa comum, onde os temas ocorrem por uma associação muitas vezes ténue, sem nenhuma lógica de causalidade ou até de parentesco significativo: como quem recorda.

Sobretudo a narradora, muito culta e opinativa, é dotada duma soberba capacidade de análise. Descobre a sua cultura em breves acenos, que nos levam para o mundo da Literatura (mais europeia que nacional), da Cultura Clássica, da Pintura, da Moda, da Etnografia, da Sociologia, da Psicologia, duma alargada Geografia, da História, da Mística…

 

Estilo

 

O que a narradora nos quer mostrar é a profunda dimensão humana que encontrou naquele espaço rural tradicional, onde à mulher cabe um papel de primeira grandeza. Não busca a página de efeito estético imediato; percebe-se que a poderia escrever se quisesse, mas subordina tudo ao plano global da obra.

Este original romance não é psicologista, ao modo dos presencistas (José Régio), nem neorrealista (dos autores comunistas que se começam a manifestar a partir de 1940), nem existencialista (movimento que dava os seus passos iniciais). À margem de escolas, é surpreendente.

Nota-se um certo prazer da narradora em denegrir as figuras quer masculinas quer femininas; não é inteira aliada de nenhuma: mesmo quando encontra traços mais dignos de admiração, coloca-os lado a lado com outros merecedores de decidida reprovação (casos de Quina e de Maria em particular). Vale para ela a imagem que Germa aplica a Quina, como se estivesse continuamente a saltar de um lado para outro da sebe que separa as propriedades da Vessada e da vizinha de Maria Soqueira, passando do ataque à defesa como um advogado oportunista.

Quase todas as personagens possuem traços de crueldade: Francisco Teixeira, para com a esposa e filhos, que põe sempre abaixo dos seus incorrigíveis interesses libertinos; Maria, no seu modo de falar da noiva e esposa do filho João; Quina, em várias circunstâncias (por exemplo, quando acompanha o fim do marido de Lisa, quando embebeda o carteiro…); Domingas, que mata os sucessivos maridos, embora os elogie; Augusto, que não reconhece a paternidade dos seus bastardos; Inácio Lucas, com o seu feitio e os seus actos assassinos, entre outros exemplos possíveis.

No romance é mencionado o místico Santo Inácio de Loyola (o fundador dos Jesuítas) e não será despropositada alguma aproximação de Quina a Santa Teresa de Ávila, como chave para a descrição de certos estados de alma que lhe são atribuídos.

A história começa e termina com Germa, filha do irmão Abel, que representa uma geração já urbana, desenraizada dum espaço a que Quina sempre se sentira presa.

 

Narrador

 

Assemelha-se a um contador de histórias, privilegiando em absoluto o contar. Daqui resulta o facto de se assistir a uma acumulação de episódios, digressões sucessivas e a inexistência de uma intriga à maneira tradicional.

Toda a narrativa é formalmente apresentada como uma longa analepse (100 anos) na memória de Germa.

Tradição Oral: A obra inicia-se com o diálogo entre Germa e Bernardo Sanches e assim termina. Tal situação pode filiar o romance na tradição de narrativas orais, o que aliás é fortalecido pelo narrador de 1º nível (presença ominosa de Quina), cuja opção foi contar e resumir, em vez de mostrar e construir cenas. A sua voz é omnipresente e omnipotente.

 

Símbolos

 

 – A Casa da Vessada – local da evocação, revelação, oração e cristalização do tempo, relicário da memória dos tempos, das gentes e das coisas.

 – Incêndio – o ouro é purificado pelo fogo. A casa foi purificada das manchas e impurezas pelo incêndio.

 – Terra/Campo – autenticidade, ingenuidade e fertilidade.

 – Cidade – imitação, postiço e castigo para os que abandonam as origens. Esterilidade.

 – Maçãs – beleza, encanto feminino e contraste entre sabedoria e tentação.

 – Cadeira de baloiço – pólos opostos de Quina (ternura-vaidade) e passagem do tempo (pêndulo).

 – Mancha sépia – predestinação.

 – Pombal – ternura e refúgio.

 – Eira – comunhão e solidão.

 – Sala – reflexão.

 – Cozinha – convívio.

 – Quarto – amor, drama, doença, morte.

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