Sobre Irracionalidade

The Old Cedar Point Lighthouse


À medida que os anos passam, há uma ideia que se torna progressivamente mais nítida.

Como tantos outros já o descobriram no passado e muitos mais confirmarão no futuro, a parcela de tempo que podemos dedicar ao usufruto da vida é bastante diminuta.

Não falo aqui de modos de existência, filosofias, conciliação entre trabalho e lazer, ou outros sinónimos. Apenas e só de viver. Entender e aproveitar, não somente num plano ocioso, mas em pleno.

Parece-me, por exemplo, que gastamos demasiado tempo (sendo difícil fugir aos genes e ao meio social) em confusos preâmbulos. No chamado processo de amadurecimento. Demoramos tanto, que não poucas vezes transitamos directamente do amadurecimento para o apodrecimento, sendo o período consagrado à exibição plena das faculdades quase irrisório.

A infância é todo um manancial de desilusões adiadas. Recordo-me de ouvir incontornáveis lugares comuns da boca dos mais velhos que atestavam esse facto, sendo o mais óbvio um tal de «aproveita enquanto podes» seguido do reforço «se não fizeres agora, quando o farás?» Por vezes, mais soturno e esporádico, também espreitava um «terás tempo para as preocupações».

Entrados na adolescência, um sem-fim de realidades perturbadoras, combatidas por uma enorme nuvem de esperança. Uma mistura tão mal concebida está obrigada a redundar num oceano de angústias, internas e externas, que mal nos permitem viver o tão falado «momento». Tudo se foca no futuro, num tal de Futuro que não percebemos bem quando (ou se) chega. Tudo é acerca de «como vamos ficar» ou «o que vamos ser».

Tal fase pode estender-se perigosamente até ao primeiro quarto de século e parece-me inconcebível sermos obrigados a desperdiçar 25 anos a compreender a razão de existirmos. Seria, apesar disso, quase desculpável se a partir daí tudo se compusesse. Com o beneplácito da sorte restaria ainda meio século para a Vida.

Mas não é assim.

Sem sabermos por que razão aqui estamos, tratamos tantas e tantas vezes de trazer para o nosso seio novas pessoas, a chamada descendência. Em nome de um obscuro instinto de procriação ou, mais prosaicamente, de patetas convenções sociais, mergulhamos nessa titânica tarefa de ensinar a outro tudo aquilo que não sabemos, numa espécie de transmissão de desconhecimento.

Assumindo que escapamos desse trilho, ainda assim estamos rodeados por turbilhões de futilidades, distracções, prisões, obrigações e incompreensões que se limitam a empurrar-nos para o tal de Futuro, que passa assim a ser uma entidade mística, meio pagã, meio religiosa, uma pitada alienígena. No Futuro estará tudo, idealmente uma resposta, no mínimo um qualquer conforto.

Com frequência, o que chega, como se carimbada com o código postal errado, é a decadência. O envelhecimento, a desilusão, a doença. Um fechar de olhos que não mais se abrem, sem que ao menos nos confessem as soluções.

Talvez por isso tanta gente se enerve com histórias de final aberto. Ao menos na Ficção as respostas, os vilões derrotados e os heróis (seja lá o que isso for, mas sempre muito semelhantes a nós mesmos) recompensados com esclarecimentos, com a felicidade, com o Futuro.

Até mesmo os que abraçam a ilusão de ter entendido (não tanto o modo como a espécie humana deverá viver, mas tão-somente como eles, entidade individual, manifestação aleatória de energia, o pretendem fazer) são cerceados antes de tempo.

É que, voltando ao início, parecemos condenados a perder demasiado tempo em preparativos. Temos 25 anos para a formação, 25 para transmissão, 25 para a decadência e extinção.

Como alguém um dia afirmou, «agora que aprendi como viver, tenho de me ir embora».

Costumo passar por pragmático. É talvez apropriado, assim sendo, mencionar o oxigénio: simultaneamente, o que nos dá vida e o que nos acelera a morte.

Sermos racionais, passa pela admissão da irracionalidade das coisas.

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