A Semente do Diabo


 

 

Prefácio

 

Abrirei a crónica que se segue da mesma forma que iniciei esta: A Semente do Diabo, apesar de formar com The Shining e «O Exorcista» um trio dourado do cinema de terror, não é (à semelhança dos outros dois) um filme de terror.

Para os que não se recordam, sustentei tal opinião com este argumento:

todos eles esconderam outras temáticas – talvez as verdadeiramente assustadoras – sob a máscara da superstição. A Humanidade fá-lo desde sempre: explica o Desconhecido através da Crença.

Este:

Da mesma forma que as histórias sobre Mortos-Vivos são de facto acerca de Estratificação Social, também este trio de clássicos de «terror» nos remete para o que se encontra atrás do pano: The Shining não é apenas acerca de um hotel assombrado, da mesma forma que A Semente do Diabo não é sobre o filho do Demónio.

E ainda este:

O Exorcista tem exercido a sua magistratura de influência. É talvez o único que ainda não perdeu a capacidade de me espreitar a vigília (a par de The Shining) e foi capaz de criar (à semelhança de A Semente do Diabo) algo em vias de extinção: Atmosfera.

Como já tive ocasião de referir noutros contextos, o grande erro dos filmes de «terror» reside em empurrar o Perigo para o Remoto.

Ou seja, o nosso quotidiano, o nosso bairro, a nossa casa, o nosso quarto permanecem seguros. Para corrermos perigo temos de visitar a casa assombrada, a cabana na floresta, atravessar a estrada deserta ou viajar para os confins do mundo «civilizado» (Drácula). Até The Shining nos envia para o inóspito e distante Overlook Hotel.

A mensagem: se ficarmos no nosso cantinho, está tudo bem.

O Exorcista (e A Semente do Diabo) estilhaçou essa lógica – o que explica em parte o sucesso: O Perigo está em Casa.

A Semente do Diabo foi contudo precursora de todos eles, já que data de 1968 – «O Exorcista» é de 1973 e «The Shining» de 1980.

Da mesma forma que «O Exorcista» era de facto sobre Culpa, Famílias Disfuncionais, Xenofobia ou mesmo Violação e/ou Pedofilia, A Semente do Diabo aborda questões como Paranóia, Feminismo/Emancipação da Mulher, Religião (Catolicismo) vs. Oculto e até o lado negativo da Vida Urbana.

É baseado no romance de Ira Levin e realizado por Roman Polanski, de quem já falámos aqui.

Mia Farrow foi a terceira escolha para encarnar Rosemary, depois de consideradas outras candidatas, como Sharon Tate (noiva do realizador, mais tarde assassinada enquanto grávida pelo culto de Charles Manson – o que abre paralelismos bizarros). Mia, por outro lado, viu-se forçada a equilibrar o assédio fictício do enredo com o assédio real do próprio marido (Frank Sinatra) que pretendia retirá-la do Cinema – tendo por isso enviado os papéis do divórcio para o local de filmagens, através de um advogado. Farrow ponderou desistir, mas optou por terminar o projecto quando ficou patente a real possibilidade do trabalho lhe valer um Óscar (o que não se confirmou, dizem alguns pelo facto da Academia temer a fúria de Sinatra, com conhecidas ligações à Máfia).

Para o papel de Guy, que terminou nas mãos de Cassavetes, foram convidados Robert Redford e Jack Nicholson (que protagonizaria «The Shining», por exemplo).

Hoje, confirma-se o acerto das escolhas, uma vez que o enredo versa sobre uma mulher de aparência frágil e um actor falhado – Redford e Nicholson dificilmente seriam credíveis nesse campo.

Não é preciso acreditar no Oculto, ou sequer no Destino, para notar uma curiosa coincidência: esfumou-se nada menos que uma década desde que me desloquei à Cinemateca Portuguesa – em Janeiro de 2010 – para rever este filme (já o vira antes, sem recordar bem onde nem quando).

Adquiri também o romance original de Ira Levin, ainda hoje uma referência importante no meu trabalho literário.

Mas chega de introitos: é tempo de conhecermos a história de Rosemary.


 

O Filme

 

Esta é «a história de Rosemary» não só por fazer dela (e do seu bebé) protagonistas, mas por ser a história contada por ela.

Ou seja – obedecendo aos cânones do texto gótico – temos um narrador/protagonista na primeira pessoa, mentalmente pouco credível, que decide partilhar connosco a «sua» história, do seu ponto de vista, interpretada a seu modo. O leitor/espectador não conhece o enredo, mas «o enredo de Rosemary».


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A primeira imagem que nos surge é uma vista aérea da cidade de Nova Iorque – da mesma forma que n’ «O Exorcista» nos surgia Washington (em ambos os filmes, a já explanada ideia de que o Perigo se esconde em território familiar). Da paisagem urbana destaca-se um edifício em particular – o mesmo que curiosamente oferece luxuoso abrigo a David Aimes em Vanilla Sky – o Dakota.

Porém, no caso em estudo, este é rebaptizado de «Bramford», talvez para não aborrecer os verdadeiros habitantes do verdadeiro Dakota – que já de si não autorizaram filmagens no interior do edifício. Esta aparente irascibilidade aceita-se melhor quando nos familiarizamos – mais à frente – com a ficcionada (presume-se) história do prédio em causa. Para já, dizer apenas que – tal como também é apanágio do Gótico – o Bramford/Dakota é uma personagem de corpo inteiro.

As imagens são acompanhadas por uma doce, mas também ominosa, canção de embalar, que parece chegar-nos da própria Rosemary (Mia Farrow), de seu nome «Sleep Safe and Warm».

E o que se passa, afinal? Bem…nada.

Nada de anormal, digamos. Nada que não pertença ao habitual quotidiano de um casal vulgar, recém-casado, em busca de novo apartamento.


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Esse casal é formado por Guy Woodhouse (vaga associação a cabana-bosque-história de terror) e Rosemary Woodhouse. Ele é um actor praticamente desconhecido, apesar da mulher tentar a todo o custo e todo o instante aligeirar esse facto, servindo-se de um discurso ensaiado que informa interessados e desinteressados que o marido:

Entrou em duas peças de teatro e faz muitos anúncios de televisão e rádio.

Ela é…bom, ela é Rosemary, jovem provinciana «eterna rapariga do campo, bem lá no fundo», oriunda de numerosa família, cheia de irmãs e sobrinhos e crianças.

E também aqui se encontra um padrão narrativo, o mesmo que nos relembra a imortal odisseia do/a jovem indefeso/a que se aventura na grande e desconhecida (logo ameaçadora) urbe, apenas para ser por esta transformado/a (e quem sabe destruído/a).

Um dos possíveis apartamentos fica, é claro, no Edifício Bramford, um imóvel de charme, clássico e cheio de personalidade (resta saber se boa ou má).

Não esquecer: isto é a história de Rosemary.

Logo, a partir do momento em que com ela entramos no Bramford, conhecemos apenas e só a sua realidade, que Polanski filma e exibe como única. Ou seja, a Realidade e a «realidade de Rosemary» são uma e a mesma coisa.

Assim sendo, de imediato começamos a ver tudo como ela vê.

Rosemary, a «eterna menina do campo», saltita pelos corredores como um pardal entusiasmado/assustado. Adora a ideia de morar num local famoso, que imagina acolhedor (com a sua fonte no pátio de entrada, por exemplo – água equivale a pureza), mas também se deixa intrigar com facilidade pelas indisfarçáveis fragilidades da construção, qual «bruxas atrás do pano». O vetusto elevador geme e ecoa, com as suas manivelas e roldanas manobradas com gestos bruscos pelo funcionário; são forçados a desviar-se de um buraco/armadilha no pavimento e trabalhadores de rosto fechado entregam-se a arranjos incompreensíveis, que incluem abrir (ou fechar) olhos mágicos em portas. Como se verá adiante, passagens e pontos de fuga/vigilância serão de vital importância no enredo.

unnamedO edifício apresenta-se desde logo como palco (uma espécie de sereia – sedutora e arrepiante), mas também como personagem nesse palco, que interage com os visitantes.

No seu interior, obviamente o apartamento em causa, candidato a futura morada dos Woodhouse. Não importa quantas vezes o administrador considera o espaço «antigo», «charmoso», «espaçoso». É difícil conceber terreno mais fértil para toda a espécie de fenómenos perturbadores (tectos altos, decoração vitoriana, sombras, recantos, canos gementes, cozinha transformada em ervanária – indicada para alquimistas e/ou bruxas). Rosemary passa o olhar por uma pilha de cadernos amarelecidos, de onde salta um rabisco enigmático:

Não posso continuar a associar-me a

Presume-se que terá sido escrito pela anterior inquilina, uma idosa que faleceu subitamente, embora aparentasse boa-saúde. Nada de incomum nesta fase da vida, sempre sujeita a colapsos, ataques repentinos, comas irreversíveis. Até mesmo quando fazemos o possível por manter uma dieta saudável, à base de ervas e mezinhas.

Entretanto, num dos recantos, as marcas no chão indicam que um enorme armário foi arrastado do seu local original para ocultar um outro, encastrado na parede. Quem e porquê?

Terá sido a senhora?

Tinha quase 90 anos.

Bom, agora percebo o que a fez entrar em coma.

O tom humorístico de Guy procura camuflar o desagrado por ter de auxiliar o administrador. Esta breve cena está carregada de indícios, que se confirmarão a seu tempo. Note-se:

 – Fica de imediato claro que não foi a idosa a arrastar o armário (a não ser que Guy esteja inadvertidamente certo e esta o tenha feito, de modo a proteger-se de algo/alguém);

 – Logo, outros o fizeram, por razões pouco convincentes, o que significa que a mesma recebeu/recebia visitas, decerto de vizinhos;

 – A lógica mais imediata sugere que estes poderão ser os Castevets, que moram no apartamento situado do outro lado daquela parede, já que «esta área pertencia a um único apartamento, só mais tarde reconvertido em dois»;

 – Se foram eles (ou alguém em seu auxílio), o que pretendem ocultar com o gesto? Seria destes que a defunta pretendia «dissociar-se»?

 – Guy, por outro lado, não parece muito prestável, ainda menos quando o trabalho é físico. E quem não está – pelos vistos – predisposto a sacrificar-se (por pequenas ou grandes coisas), está sempre em busca de um atalho que diminua a distância para o topo.

A inusitada situação é investigada com brevidade. O armário original, bloqueado pelo segundo, oculta apenas um aspirador.

Como é que ela o usava?

Duas hipóteses elementares: ou não o fazia, ou fazia-o – e assim sendo o armário antigo foi arrastado depois do falecimento da inquilina.

O mistério não ocupa demasiado espaço na cabeça dos presentes, porque enfim, passado é passado e nada daquilo irá influenciar a vida do casal. Certo?

Retirada a mobília/vida anterior, o local é agora tela (pouco) imaculada.


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Guy e Rosemary terminam um jantar frugal à luz do único candeeiro existente, rodeados de sombras e ecos.

Vamos fazer amor – propõe ela. O marido concorda, sem dizer palavra mas apagando a luz (o que será significativo a breve trecho).

Este pedido tem pouco de casual ou superficial. O acto é mais do que físico, mais do que sentimental. O que Rosemary procura e pretende é criar. Um relacionamento, um novo ser, um lar, uma existência.

Vamos fazer amor. Vamos nascer. Vamos ser.

Esta aponta para o Futuro.

E esse futuro tem pouco a ver com o passado, sobretudo com o passado do edifício e dos seus inquilinos. Rosemary é ilha de Luz num oceano de Sombra. É nova entre velhos. É cor entre negrura. É alegria e optimismo num terreno que aparenta gerar apenas morte e grotesco.

É difícil conceber terreno mais fértil para toda a espécie de fenómenos perturbadores (paredes altas, decoração vitoriana, sombras, recantos, canos gementes, cozinha transformada em ervanária – indicada para alquimistas e/ou bruxas). – Afirmou-se.

Contudo, não é nesse cenário/apartamento que Rosemary agora vive. O mundo que ela rapidamente gerou, à força de catálogos e ideias modernas, de cursos de decoração e pura imaginação é mais doce, quente e acolhedor que muitas histórias de encantar. Enquanto o marido (parece que) consome os dias em busca de trabalho – audições, entrevistas e afins – ela rodeia-se de paredes brancas, de almofadas, sofás, mantas, lareira, música, à medida que ensaia penteados e alterna vestidos.

Rosemary não vê decadência, estranheza e perigo no Bramford. Vê (e constrói) o que quer ver e viver.

Pergunta: Se notarmos uma erva daninha num jardim florido, o que fazemos? Certo. Exterminamo-la. E quando vemos uma flor, bela e frágil, em terreno lodoso? Que destino lhe damos?

Para os mais curiosos, eis o que está em causa quando se utiliza a expressão «terreno lodoso»:


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O casal janta em casa de um amigo (sobretudo) de Rosemary: Hutch – se trocarmos o T por um N transforma-se em «hunch» ou seja «palpite». E o nosso amigo Hutch está cheio de palpites acerca da nova morada dos protagonistas.

Mais do que palpites, o que este se apressa a revelar são antigas informações com laivos de lenda urbana acerca de anteriores habitantes do Bramford. Há de tudo, desde irmãs que cozinhavam e comiam bebés (bruxaria e canibalismo) até rituais satânicos executados por um tal de Adrien Marcato – que acabou assassinado.

Não esquecer, porém: tudo isto está no passado. O casal está interessado no futuro.

Futuro era algo que não existia na vida de Terry Gionofrio. Rosemary conhece-a numa noite eleita para a lavagem da roupa, cujas máquinas se encontram numa profunda cave «que provoca arrepios».

75v45h0wbki31Terry confessa ter sido mendiga, toxicodependente e «uma série de outras coisas» antes de ser recolhida e «adoptada como filha» pelos Castevets. Exacto, os mesmos que habitam do outro lado da parede dos Woodhouse. Ambas elogiam a bondade do casal idoso e sem filhos, que viu em Terry a oportunidade de oferecer e receber compaixão e companhia.

De caminho, ofereceram-lhe um colar que termina num amuleto. Rosemary nota o estranho odor que este exala, mas Terry explica-lhe que o interior está recheado com uma espécie de erva (certamente retirada do ervanário caseiro da Sra. Castevet, muito semelhante – presume-se – ao que existia no apartamento dos Woodhouse), algo que ela apelida de «tannis root» ou «raiz de tanásia». Não teria sido má ideia se Rosemary tivesse investigado um pouco esta erva/raiz, mas enfim, quem é que tem tempo para isso. Afinal, mais planta menos planta, mais erva, menos erva…

(Curiosidade: se reordenarmos as letras da palavra «tanásia» obtemos «Satanás»).

Por outro lado, se a vizinha abençoada (pela acção dos Castevets e pelo amuleto) se despenha da janela do sétimo andar, poucos dias depois deste encontro e ainda com o colar ao pescoço, talvez alguém menos impressionável e inocente que Rosemary notasse a desafinação da partitura.

Mas não a jovem Rosemary, demasiado «rapariga do campo», demasiado chocada com o cadáver de Terry no pavimento, demasiado bem-educada para fazer perguntas.

Verdade seja dita, os menos impressionáveis, menos educados e mais urbanos agentes da autoridade também não as fazem. Não para além do pré-programado nestas situações.

Os senhores são os Castevets?

Somos.

Moram no sétimo andar?

Moramos.

É melhor prepararem-se para uma má notícia.


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Tudo num tom monótono e desinteressado, de ambas as partes. Roman e Minnie, assim se chamam os membros do casal veterano, dizem todas as coisas certas, servem-se de todas as exclamações de circunstância adequadas «não, não pode ser», «que desgraça, etc.», mas não há um pingo de emoção genuína na respectiva linguagem corporal.

A rapariga tinha família?

Não, que se saiba. (Roman)

Sim, falou-me de um irmão na Marinha. (Rosemary)

Perdão? Quem? Que irmão? Quem se intromete na nossa narrativa? Quem se intromete na nossa vida? Quem é esta jovem mulher, que conhecia Terry e parece habitar no nosso prédio? Dez segundos do olhar de Roman chegam e sobram. Rosemary ainda não aprendeu uma das primeiras regras de um citadino: Sê Invisível.

Portanto, Hutch, não nos fales de velhas histórias do Bramford, já nos basta aquela pobre rapariga que se suicidou. Ah sim, que estranho. E para além disso vais provocar-me pesadelos.

Ora, falar dos pesadelos de Rosemary é falar de algo nuclear em toda a trama.

Isto porque, atentem, os únicos momentos em que assistimos a algo de sobrenatural, por mínimo que seja, são aqueles onde a Sra. Woodhouse sonha. Antes de adormecer, porém, há tempo para Guy brincar com o assunto – «acho que estou a ouvir as gémeas a mastigar os bebés» – e não menos importante, para que ambos escutem uma discussão dos Castevets acerca (presume-se) de Terry.

Bem te disse que ela não ia saber lidar com o assunto. Nunca lhe devíamos ter dito antes.

(…)

Evitava termos de começar tudo de novo.

A mente impressionável de Rosemary cozinha sem dificuldade uma receita onírica, onde freiras falam com a voz de Minnie e a culpa religiosa se mistura com estranhos debates do casal vizinho.


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Dia seguinte. Ruth (Minnie) Castevet a espreitar/ser espreitada pelo olho mágico (reter a teoria sobre pontos de fuga/observação).

Bem-vinda ao nosso lar.

Não duvides, Rosemary. Irá sentir-se em casa.

Se Minnie realmente lamentou terem de «começar de novo», falava de quê, em concreto? Encontrarem uma substituta para Terry? Em que funções? Bom, quem sabe nas de dama-de-companhia.

Olá, somos os vizinhos do lado; têm de vir jantar a nossa casa, estamos sempre sozinhos; que pena isto da Terry; toma, já que eram amigas fica com o amuleto dela; sim, tem um cheiro estranho, mas já sabes, é raiz de tanásia, faz-te bem; sim, sim, avisa o teu marido, não aceito um «não» como resposta.

Bem, bem. Não sei quanto a vocês, mas eu estou cansado. Até um pouco tonto. Afinal como é nos livramos de Minnie Castevet? É possível livrarmo-nos de Minnie Castevet? Hum…

Guy, como é óbvio, não quer ir. Guy não quer fazer nada que não seja do interesse pessoal de Guy, que não contenha em si qualquer espécie de benefício, de vantagem, sobretudo para a carreira moribunda que ele arrasta por audições fracassadas e dias inúteis.

Rosemary, por outro lado, é demasiado bem-educada para voltar atrás. Prometeu que iam visitar os bondosos e provectos Castevets, agora solitários após a morte trágica da pobre Terry. Enfim, Minnie é «a pessoa mais inconveniente que já conheceu», mas deixarão bem claro que aquele encontro «é uma vez sem exemplo».

As coisas não se passarão exactamente assim.

Não esquecer, Roman&Ruth-Ruth&Roman formam uma equipa oleada, veterana de incontáveis batalhas sociais. O jovem casal surge-lhes mais tenrinho e estaladiço do que o assado que sai do forno. Saltitam histórias e anedotas, existem velhos retratos de família pelas paredes (notem-nos bem) e Roman esteve em todo o lado. Em todo o lado.

Será interessante fazer o paralelismo entre os dois jantares: com Hutch e com os Castevets.

No primeiro (onde curiosamente também foi servido um assado), os esforços destilados do anfitrião para que os outros desistam de viver no Bramford revelam-se inglórios.

No segundo, é sem qualquer esforço que os anfitriões convencem Guy e Rosemary (sobretudo o primeiro) das suas opiniões e sugestões.

É religiosa, querida?

Bem, fui educada dessa forma.

Não se sinta obrigada a prestar vassalagem ao Papa, só porque este se considera divino.

E você, Guy? Um actor?

Sim, ele esteve…(já sabemos Rosemary, faz muita televisão e rádio e tal e tal).

Lembro-me de si numa peça de teatro. Teve um gesto muito assertivo.

Bom, de facto a dado instante tenho um gesto, uma espécie de espasmo…

Sim, sim, muito convincente.

Uma criança seria menos manipulável que os Woodhouse. E, nunca esqueçam, de uma criança trata o enredo.


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Enquanto Minnie faz de dona de casa, «é fértil, minha querida?», Roman conspira com Guy num recanto obscuro da sala.

Nada será o mesmo depois desta noite. Porque, Guy não quer fazer nada que não seja do interesse pessoal de Guy, que não contenha em si qualquer espécie de benefício, de vantagem, sobretudo para a carreira moribunda.

É claro, continuamos a observar a realidade de Rosemary. A ver o que ela vê, como ela vê, daí retirando as conclusões/suspeições/receios que ela retira.

– Podem as lendas urbanas de Hutch ser apenas isso?

– Podem os Castevets ser apenas um casal inconveniente e cansativo, estratégia encontrada para mascarar a solidão?

– Pode Terry ter apenas caído da janela?

– Pode aquele amuleto ser apenas uma excentricidade mal cheirosa?

 – Pode a conversa sussurrada de Guy e Roman ser inofensiva e inconsequente?

Sim. Claro que sim.

 – Pode Rosemary ser mais do que uma jovem mulher impressionável e a sua interpretação das coisas ser possível?

Talvez.

Sigamos a realidade da Sra. Woodhouse.

O Roman é cheio de histórias interessantes.

A sério?

Acho que amanhã à noite vou lá outra vez.

Não me apetece.

Não faz mal, não tens de vir.

(…)

Se aceitaste o amuleto é para usares. Não o guardes numa gaveta.

Não gosto do cheiro.

Usa-o, fica-te bem.

Telefonema.

Não pode ser. Bom, é terrível obter o trabalho dessa forma…

O que se passa?

O Donald Baumgart teve um problema de saúde. Acordou cego, os médicos não descobrem as causas. Fiquei com o papel dele.

Dias seguintes.

Tenho sido um egoísta. Ando obcecado com a carreira. Vamos ter um bebé.

Falas a sério?

Claro que sim.


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A agenda passa então a estar organizada em redor dos «períodos férteis» de Rosemary. Há uma certa noite que se quer romântica, logo existe um jantar acolhedor e requintado, um vestido vermelho (entretenham-se com os significados cromáticos mais ou menos evidentes) e – curiosa coincidência – uma breve visita de Minnie, para oferecer a sobremesa. Uma mousse de chocolate que esta pronuncia mouse (rato). Não quer dizer que exista nela um rato escondido, ou que este tenha sido matéria-prima para bruxaria urbana, mas há pelo menos uma qualquer «ratice». Se preferirem, «gato escondido com rabo de fora».

Tem um sabor estranho.

A minha está boa. Come.

Não me apetece.

A mulher matou-se a fazer-nos a sobremesa, fica mal recusar.

Ela não está a ver.

Seja, para ti há sempre um problema com tudo.

Muito bem, não será uma sobremesa de sabor incomum que vai estragar aquela noite especial. Ainda que a ratice não seja um exclusivo de Minnie (Mouse).

Pronto, vês, resmungão? Já comi.

Pois é. Desculpa se fui chato, querida.

Por agora estás perdoado, Guy. Sobretudo porque a tua displicência e egocentrismo te impediram de ver que Rosemary escondeu grande parte do rato, perdão da mousse, no guardanapo.

Em poucos minutos, torna-se evidente e inevitável um conjunto de sintomas que se assemelham a uma embriaguez: dor de cabeça, tonturas, enjoos, iminência de desmaio.

Não devias ter abusado, querida.

Terá Rosemary bebido demais? Não temos provas disso nem do seu contrário, mas sabemos que comeu meia dúzia de colheres da sobremesa.

Seja como for, é obrigatório dormir, o que se revela inconveniente para o consumar da noite romântica/de procriação. Ou talvez não.

Notem, tudo depende do que se passa dentro (ou fora) da mente de Rosemary.

Se esta está prisioneira de outro pesadelo, então temos Guy, louco de desejo e com unhas proeminentes, a fazer sexo entusiasmado (no mínimo) com a mulher, enquanto ela manobra as seguintes imagens:

– Um colchão/barco a navegar águas oscilantes (enjoo, ausência de controlo);

– O habitual funcionário do elevador promovido a marinheiro (ascensão-queda);

– O Papa a «perdoar» Rosemary pelo seu pecado (do sexo) desde que esta beije o anel sagrado – que é na verdade um amuleto com raiz de tanásia (superstição);

– Um culto, no qual um punhado de habitantes do Bramford – com Roman e Minnie à cabeça – estão em redor do leito, nus (invasão da privacidade);

– Um demónio (Guy?) a possuí-la.

Se esta não está prisioneira de outro pesadelo, então:

Isto está mesmo a acontecer.

Ela está acordada – Teme Guy.

Se comeu a sobremesa não vê nem sente nada. Está como morta – Esclarece Ruth.

Chegará isto para «provar» que o ritual é verdadeiro e que Rosemary foi transformada na noiva do Diabo (invertendo a superstição da Virgem noiva de Deus)?

E se nos lembrarmos que no passado a Sra. Woodhouse já mesclou, em sonhos, imagens perturbadoras com vozes conhecidas – de Minnie, inclusive?

Digamos que o enredo afirma constantemente: «Isto é impossível, mas…».

rosemarys-baby-1Pela manhã, algo de inegável. Rosemary acorda nua, ressacada e com o corpo coberto de arranhões.

Já conhecemos a argumentação de Guy. «Esqueci-me de cortar as unhas, não queria perder a noite romântica». Convincente ou não, dependendo da alternativa.

Não podias esperar por esta manhã? Ou por esta noite? (Não podias evitar violar-me?).

Até foi divertido, numa perspectiva necrofílica. (mulher objecto vs. emancipação feminina).

Se Guy aparenta ser um forte obstáculo ao crescimento e afirmação da mulher enquanto tal, não deixa de ser verdade que a própria Rosemary se mutila nessa intenção, à conta da prévia educação religiosa – que lhe assombra sonhos e vivências. É esta que escolhe uma vida conservadora e doméstica, que se coloca na dependência de «mestres» idosos (Hutch, Roman, Dr. Sapirstein), que carece de cumprir o dogma da maternidade.

Este último, concretizado logo depois, sobrepõe-se ao (possível) ultraje de ter sido concebido de forma «impura». Por outras palavras, Rosemary «aceita» que o futuro bebé nasça de uma violação perpetrada por Guy. É tal decisão que torna a criança «impura» e faz de Guy «demónio».

Talvez por isso ela se apresse a dizer, num desespero contido:

Vamos aproveitar para fazer disto um novo começo. Não tens sido bom para mim.

Claro que sim, Rosemary. E para provar as suas boas intenções, o primeiro gesto do teu marido é…correr a partilhar a boa nova com Roman e Minnie.

De imediato chegam estes, efusivos como nunca. É preciso celebrar.

Vais a que médico? Dr. Hill? Nem pensar. Ninguém o conhece. Precisas do melhor, precisas do nosso amigo Dr. Abraham Sapirstein. Mas o Dr. Hill é um jovem médico, recomendado pela minha amiga Elise (modernidade). Qual quê, vou já ligar ao Sapirstein, ele faz-te um desconto generoso (conservadorismo).

Sim. Podes recebê-la amanhã às 11h? Muito bem. Não, de todo. Esperemos que sim.

«Não, de todo». «Esperemos que sim».

Que perguntas foram feitas do outro lado da linha, para motivar estas respostas?

Provavelmente nada de relevante. Contudo, se estamos a ver, ouvir e analisar tudo isto através de Rosemary é inevitável que mais cedo ou mais tarde a imitemos na sua aparente – e por ora ligeira – paranóia. Exemplos:

«Ela desconfia/recorda/sabe de alguma coisa?».

Não, de todo.

«Achas que vamos ter sucesso? / Esperemos que resulte / É desta / Chegou o dia…».

Esperemos que sim.

images (1)Se consideram um exagero, atentem no receituário do conceituado médico:

Não leia livros, não ligue às opiniões dos amigos, não tome remédios convencionais. A Minnie tem um excelente ervanário em casa, ela faz-lhe uma bebida saudável e diária, com tudo o que necessita.

Não leia livros? Ignore os amigos? Esqueça a medicina/ciência convencionais?

Há cultos com abordagens menos agressivas. Mas isto não é um culto, muito menos um conciliábulo. São apenas os prestáveis vizinhos de Rosemary, por quem o seu marido Guy tem grande estima.

Há primeiros trimestres difíceis e há primeiros trimestres difíceis. Este é ainda mais complicado que qualquer um dos anteriores. É na verdade mais complicado que qualquer outra gravidez, anterior ou posterior.

A futura mãe é obrigada a enfrentar horríveis e constantes dores abdominais, anormal perda de peso, palidez cadavérica e bizarros desejos alimentares. Não se trata de comer algo em excesso ou súbitas vontades de gelado em plena madrugada. Aqui lidamos com carne tão mal passada que envergonha o mais ousado bife na pedra ou consumir fígado cru como se este fosse feito de chocolate.

E ainda assim, nada disto impressiona Guy. Não, o que verdadeiramente choca o marido de Rosemary, aquilo que o indigna e arranca dele uma reacção genuína, é o novo corte de cabelo da esposa.

É muito moderno. Vidal Sassoon.

Pensámos que tinhas percebido, Rosemary. Quem te rodeia (aprisiona) não lida com moderno. Lida com antigo. Muito antigo.

Não achas que estou com mau aspecto?

Estás óptima. Esse corte é que te faz horrível.

Hutch, de visita, pensa o contrário. Não que aprove o penteado, mas considera-o acessório perante o estado geral da amiga.

As grávidas costumam ganhar peso, não perdê-lo. E essa palidez? Andas a comer?

Sim. Mas tenho uma dor.

Já foste ao médico?

Ele diz que é normal, que vai passar.

O Dr. Hill?

Não, tenho um novo, o Dr. Sapirstein.

Hutch simboliza a voz do leitor/espectador. A nossa voz. A voz da razão (assumindo que não nos deixámos contagiar pelo ambiente). Qualquer observador externo ao Bramford conclui o mesmo de Hutch. O problema de Rosemary é que esta não sai do Bramford. A dor lancinante encarrega-se disso.

Experimentemos agora ver para além do visível. Ou interpretar o visível.

Quando Rosemary corta o cabelo está em busca da referida Modernidade, a entrar no seu tempo (os anos 60) e a deixar para trás o seu espaço mental (os anos 50). A «dor» é de crescimento. A palidez, agruras e desilusões do estado adulto, oposto ao tom rosado e risonho da infância e juventude, cheia de totós no cabelo, vestidos coloridos e saltinhos pela casa. Rosemary quer crescer e quer lutar (consumo de carne) mas continua prisioneira da «bruxa má» que lhe oferece uma maçã diária (em forma de batido de ervas).

É necessário que assim seja, para que gere um «ser especial» que não é Jesus mas o seu antónimo. Dai a sua camisa de noite azul, de colarinho branco – espelho das roupagens da Virgem (azuis, de touca branca).

Mas voltemos a Hutch. Hutch o visitante. Hutch o «estrangeiro». Hutch o alienígena. A ameaça. Se Rosemary está sob vigilância (paredes finas, olhos mágicos), a inesperada visita de Roman não é inesperada. É obrigatória. Este observa o outro com o mesmo olhar que dispensou à vizinha na primeira noite. Dez segundos bastam.

Entra Guy – também ele súbita e estranhamente.

Que fazes em casa a esta hora?

Cancelaram as filmagens por hoje. De visita, Hutch?

Guy circunda e recua, regressa e serpenteia, sem se perceber o que pretende, faz ou esconde.

Bom, de qualquer modo estou de saída. – O amigo sabe que a presença do outro torna a sua inútil.

Já vais? Toma lá o casaco.

Notem que Guy saiu um instante para comprar tabaco. E todos sabemos que nunca ninguém sai para comprar tabaco. Mesmo quando volta com tabaco.

Não viste por aí uma luva?

Luva? Não, aqui não está.

Deve ter caído noutro sítio.

Sai Hutch.

Ele disse-me que estava com mau aspecto e devia ir ao médico.

Já sabes como ele é. Um eterno optimista.

Sai Guy.

Vou comprar o jornal.

Voltou com um? Não sabemos. Mas sabemos que Hutch não encontrou a luva. E que insiste – contra as evasivas impacientes de Guy – em marcar por telefone um encontro com Rosemary, no dia seguinte.

A que horas? Onde? Para quê? Dá gosto ver o marido extremoso em ação.


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Uma vez que estamos no Natal – o bebé está previsto para fins de Junho do ano seguinte (1966) – não é de estranhar a decoração correspondente, que inclui é claro, uma montra com a Virgem (azul e branco) e o seu Menino.

Entretanto, por mais que Rosemary espere, a conclusão temida (pelos menos optimistas) confirma-se. Hutch falta ao encontro – que se previa de extrema importância para o futuro da amiga – por um motivo de força maior.

Quem fala?

O meu nome é Rosemary, tinha encontro marcado com o Hutch.

Sou uma amiga dele. Lamento mas não vai ser possível. Sentiu-se mal ontem à noite, está num coma profundo.

Mas se ainda ontem falei com ele, por volta das dez e meia.

Aconteceu perto das onze.

«A que horas? Onde? Para quê?».

Terá Rosemary adormecido? Terá Guy ido visitar Roman? Admitindo que sim, de que forma está isso relacionado com a enfermidade de Hutch?

«A anterior inquilina teve uma doença súbita. Entrou em coma».

«O Donald Baumgard teve uma doença súbita. Está cego».

«O Hutch teve uma doença súbita. Entrou em coma».

Sem dúvida um conjunto de coincidências. Do mesmo género daquela que provoca o encontro entre Rosemary e Ruth, à porta do centro comercial.

Vim fazer umas compras de Natal. Está tudo bem, querida?

Sim.

Não me parece, vamos para casa.

Casa. Mais casa que lar, nesta altura. Por mais que se sucedam os jogos de scrabble, no conforto da carpete, com a chuva a bater nas janelas, aquilo já não é um lar.


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É uma cela.

O Ano Novo é recebido, inevitavelmente, nos aposentos dos Castevets. Roman, perante uma plateia de gente mais ou menos idosa e mais ou menos influente, faz um brinde mais ou menos estranho, sempre dependente do ângulo com que se interpreta. Encontramos em tudo a estranheza que queremos.

As boas vindas ao ano de 1966. O Ano Um.

Podemos ou não considerar bizarro que o bebé de Rosemary nasça em Junho (mês 06) de 1966, contexto que forma o número 666, que pode ou não ter algum significado especial, dependendo do nível de credulidade de cada um.

Podemos ou não considerar bizarro que Roman apelide o ano seguinte de «Ano Um». As palavras podem significar tudo e nada, de acordo com o ouvinte.

O que em definitivo não está aberto a debate ou discussão (ou não deveria estar) é a dor mutiladora que afecta Rosemary. O desespero, em vez de lhe toldar o raciocínio, parece aclará-lo.

O que estás a fazer?

A preparar um festa.

Uma festa? Achas que é boa ideia no teu estado?

Acho. Vou convidar os nossos amigos. Sabes, os nossos verdadeiros amigos? É uma festa especial, só está aberta a menores de 60 anos.

Por um instante pensei que me ias deixar de fora.

Entra Ruth.

Uma festa, querida?

Sim.

Não queres ajuda? Posso ajudar a servir bebidas.

Vou contratar um serviço de catering.

Então recolho os casacos das pessoas.

Não é preciso.

Queres que te ajude com a ementa?

Não, Minnie, pode ir, fico muito nervosa quando me invadem a cozinha.

Por esta altura, a invasão terá extravasado as fronteiras da cozinha, cara Rosemary.

Bloqueados os Castevets em nome das (poucas) aparências, Guy é eleito o guardião da (a)normalidade. Ocupa o tempo a representar o mais importante papel da carreira: o de Grande Irmão.

Escuta conversas, vigia movimentos, paira sobre tudo e todos como um corvo.

Estás bem, Rosemary?

Andas a comer?

Meu Deus, que pálida, diz ao teu marido para te alimentar.

Por fim – e por breves minutos – as melhores amigas conseguem trancar o corvo na jaula, ou dir-se-á fora da jaula-cozinha.

Tens uma dor há três meses?

E não vais ao Dr. Hill?

Isto não é normal, Rosemary.

Não quero fazer um aborto.

Se quisermos acreditar que um pretenso conciliábulo de habitantes do Bramford, liderados pelos Castevets e com o conluio de Guy, estão a fazer alguma coisa, então temos de concluir que esticaram os limites dessa coisa até às fronteiras do impossível.

A dor não passa. Isto não é normal. Amanhã vou ao Dr. Hill.

É esse tipo de disparates que aquelas cabras te estavam a dizer na cozinha?

São minhas amigas.

Vais ao Dr. Sapirstein.

Não! Quero o Dr. Hill.

Mas não é delicado para com os Castevets.

Delicado para com os Castevets? Que conversa é essa? E o que é «delicado» para mim?

(…)

Parei de tomar a bebida da Minnie, vai para três dias.

O quê?

Amanhã vou ao Dr. Hill.

Não vais.

Quando uma panela ferve, o risco de transbordar é grande. Quando as paredes são finas e os ouvidos atentos, o risco de sermos escutados é maior.

O súbito desaparecimento da dor, naquele preciso instante, pode ter sido mera coincidência. Mas pode não ter sido.

Parou. A dor parou.

Estás a ver? Eu não te disse para tomares a bebida?

Calma. Está a mexer. Está vivo. Está vivo!

Alguém se lembrou do Dr. Frankenstein? Se calhar fui só eu.

Olho por olho, dente por dente, vida por vida. Rosemary pode ter ganho um bebé, mas perdeu um amigo. O melhor de todos. Hutch.

É incrível como pude esquecer-me dele.

Sim, Rosemary. Mas ele não se esqueceu de ti.

No funeral, Grace Cardiff, a amiga que recebeu a chamada três meses antes, entrega-lhe a última e mais importante prenda de Hutch: um livro.

Caso queiramos dar-lhe demasiada importância, esta confessa que ele «estava delirante nos últimos momentos».

Talvez seja coisa boa que Guy esteja «muito ocupado» para estar presente, no enterro ou em casa, pois tal permite à mulher obter um conjunto de migalhas orientadoras, que ilustrarão um pouco melhor o caminho que esta tem sido obrigada a percorrer.

O nome é um anagrama – derradeiro recado coerente de Hutch, transmitido por Grace.

Que nome? Do livro?

«All of Them, Witches» – Todos Eles, Bruxos.

Poderá ser uma pista, mas não um anagrama.

Por via das dúvidas, talvez toda aquela prática com o scrabble sirva para qualquer coisa.

Vejamos: «All of Them, Witches».

– «Comes with the Fall» (Chega com a Queda/Outono);

– «Elf, Shot, Lame, Witch» (Elfo, Disparo, Mau, Bruxo);

– «How the Hell Fact He» (Como o Inferno, Facto Ele).

Se quisermos, encaixamos significados e pistas em todas estas frases. Porém, não parece ser disto que Hutch falava.

O nome é um anagrama.

rb_us_13021Se não é o nome do livro, terá de ser o nome de alguém. Não de Guy, como é óbvio. Ajuda virar as páginas até encontrar o retrato de Adrian Marcato. Sim, esse Marcato. O que foi, em tempos, acusado de satanismo e assassinado às portas do Bramford. Onde é que já vimos este retrato?

«Roman Castevet» – «Steven Marcato».

Steven Marcato? Não o filho de Adrien Marcato, que aparece num velho retrato de 1887…porque se for esse Steven, o mesmo terá a conveniente idade de 79 anos, em 1966.

Certas passagens do livro ajudam a esclarecer outros detalhes, como a famosa bebida de Minnie. Isto, claro, se estivermos disponíveis para acreditar em Bruxaria e Satanismo, perpetrado no coração de Nova Iorque, em pleno século XX.

Guy, quando chega a casa, certamente não está. Ao ponto de desvalorizar qualquer teoria da mulher e mesmo proibi-la de continuar a ler o livro.

Não leia livros, não ligue às opiniões dos amigos, não tome remédios convencionais. A Minnie tem um excelente ervanário em casa, ela faz-lhe uma bebida saudável e diária, com tudo o que necessita.

Alguém deu estes conselhos a Rosemary no passado. Ah, claro, foi o nosso conceituado Dr. Sapirstein.

Este vai esclarecer Rosemary, a todo o vapor, que «bruxas não existem», muito menos daquelas que fazem «Sabbaths» no apartamento do lado.

E também que «se isso a incomoda, pode deixar de tomar a bebida da Minnie» (que havia sido retomada). Já agora, «não diga a ninguém, mas Roman está muito doente e os Castevets partirão numa última viagem em breve, portanto não se preocupe com mais visitas».

Quando o nó provoca ferida, cedemos maior quantidade de trela.

A tranquilidade experiente do Dr. Sapirstein não é contudo imitada pelo eléctrico Guy, que decidiu deitar fora a essencial prenda de Hutch.

Não tinhas o direito de destruir o livro. Foi uma oferta para mim.

Assim sendo, já que estamos numa limpeza sazonal, Rosemary atira o colar com o amuleto pelo esgoto, de onde – desconfiamos – nunca deveria ter saído.

Guy pode destruir o livro, mas não aquilo que a mulher retirou dele. Entre outras coisas, um estranho método de nos livrarmos de pessoas indesejadas.

«A anterior inquilina teve uma doença súbita. Entrou em coma».

Poderiam os vizinhos «pedir emprestado» a qualquer momento um objecto pessoal da idosa? Sim.

Não posso continuar a associar-me a

«O Donald Baumgard teve uma doença súbita. Está cego».

O Guy marcou encontro consigo?

Refere-se àquela vez em que fomos beber um copo? Mas não, não ficou com nada meu. Bem, trocámos gravatas.

«O Hutch teve uma doença súbita. Entrou em coma».

«Guy circunda e recua, regressa e serpenteia, sem se perceber o que pretende, faz ou esconde.

Bom, de qualquer modo estou de saída. – O amigo sabe que a presença do outro torna a sua inútil.

Já vais? Toma lá o casaco.

Notem que Guy saiu um instante para comprar tabaco. E todos sabemos que nunca ninguém sai para comprar tabaco. Mesmo quando volta com tabaco.

Não viste por aí uma luva?

Luva? Não, aqui não está.

Deve ter caído noutro sítio.».

E depois:

«Mas se ainda ontem falei com ele, por volta das dez e meia.

Aconteceu perto das onze.».

Para que conste, não acreditamos em bruxas. Mas Rosemary acredita. Acredita ainda que Guy – embora este simule o contrário – também acredita.

«E quem não está – pelos vistos – predisposto a sacrificar-se (por pequenas ou grandes coisas), está sempre em busca de um atalho que diminua a distância para o topo».

Não se esqueçam. Isto é a história de Rosemary.

O Dr. Sapirstein mostrou alguma compreensão da última vez. Sem a presença dos Castevets no edifício, tudo será mais simples. O parto aproxima-se, logo, é obrigatória outra consulta.

Revista «Time» à disposição no consultório: «Is God Dead?» – Deus Morreu?

Como sabemos, olho por olho, dente por dente, vida por vida. Se Deus morreu, quem está a caminho?

Que calor horrível.

É verdade.

Gosto muito do seu novo perfume.

Oh, não é novo.

Mas este tem um cheiro muito mais agradável que o antigo.

Ah, não, era um amuleto que eu estava a usar, deitei fora.

Quem me dera que o Dr. Sapirstein fizesse o mesmo.

Desculpe?

Não reparou? Ele usa o mesmo amuleto. Um cheiro insuportável.

Ora, ora, como as peças do enigma de súbito se juntam. Talvez seja tempo de telefonar ao Dr. Hill.

Mente de Rosemary: todos eles fazem parte de um conciliábulo de bruxos e querem roubar-me o bebé para utilizá-lo em rituais satânicos.

Mente do cidadão comum: uma jovem grávida está com um ataque de histeria.

A narrativa estruturada de Rosemary, à luz de tudo o que vimos, é credível. Mas reforçamos: tudo o que vimos é apenas o que ela viu.

dQUSmO tolerante Dr. Hill não testemunhou o que a sua paciente viu/viveu, ainda que há nove meses tenha notado algo nas análises de sangue que não considerou correcto. Não há certezas se considera isso relevante, de momento, até porque esta levou a gravidez até ao fim, mas nunca se sabe: «não acredito em bruxaria, mas não faltam loucos neste mundo».

Claro, desde que a frágil senhora não pretenda incluir o «conceituado Dr. Abraham Sapirstein» nesse grupo. A partir desse momento, é ela a possível louca.

Não digas nada Rosemary. Vem connosco e nada de mal acontecerá, nem a ti nem à criança.

Todos – onde se inclui Guy – a tratam assim porque Rosemary é/está louca, ou porque esta não é/não está louca? Ambas as hipóteses são aterradoras.

Num estertor de desespero, a prisioneira ensaia uma fuga, que inclui uma descontrolada ascensão pelo elevador e uma porta trancada no último segundo. Há só um problema, detalhe de somenos:

Aqueles dois apartamentos costumavam ser um.

«Entretanto, num dos recantos, as marcas no chão indicam que um enorme armário foi arrastado do seu local original para ocultar um outro, encastrado na parede. Quem e porquê?».

Quem quer responder?

Por agora, não perguntemos a Rosemary, demasiado ocupada a ensaiar uma inútil resistência ao que se poderia chamar uma violação (de direitos) colectiva. A primeira, ou a segunda? Fica ao critério.

Na manhã seguinte, esta desperta sem arranhões e sem bebé. O parto ocorreu fora do seu (nosso) conhecimento.

Roubaram-no! Roubaram-no, cambada de loucos!

Não é nada disso. Nasceu morto. Mas poderás ter outros.

Não acredito.

E nós? Acreditamos?

Acreditamos que uma jovem provinciana, dominada pelo seu amor incondicional ao marido, se deixou impressionar de forma progressiva e talvez irreversível pela sufocante vida citadina, pelas lendas urbanas acerca do prédio onde vive, por um conjunto de vizinhos inconvenientes e intrusivos? Que se sentiu abandonada e maltratada por um companheiro egoísta e egocêntrico, que colocou a carreira medíocre acima de tudo? Que ficou traumatizada com a morte do amigo Hutch, com uma gravidez desgastante e complexa, com teorias médicas contraditórias e inúteis? Que não conseguiu destrinçar, na sua mente esgotada, realidade de ficção, violação de pesadelo, crença religiosa de crendice? Que tudo se passou na sua mente?

Ou acreditamos que um conciliábulo de bruxos satânicos manobrou a realidade e múltiplas vidas humanas de modo a permitir o nascimento do Anticristo?

À escolha.

Se escolhermos a visão de Rosemary, então o choro que chega do apartamento vizinho não é «do filho de um novo casal que se mudou para o oitavo andar» mas do seu filho, que lhe foi roubado.

Se escolhermos a visão de Rosemary, Laura-Louise não deita fora o leite que lhe é diariamente retirado do peito, antes utiliza-o para alimentar o recém-nascido.

Se escolhermos a visão de Rosemary, os comprimidos que lhe são dados pelo Dr. Sapirstein não deveriam ser tomados, antes escondidos numa ranhura da parede.

Quando esta colapsou, na noite que se pretendia romântica, foi violada por Guy ou pelo Diabo, convocado pelos outros?

Agora, quando a vemos levantada, a descobrir para além do famoso armário encastrado uma ligação secreta ao apartamento dos Castevets, estamos a acompanhar-lhe um pesadelo ou não? Foi por aquela passagem que se introduziram os outros, naquele dia? Ou estavam no apartamento antes, digamos, com o auxílio de chaves copiadas?

Se não é um pesadelo, não está longe.


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Uma sala com todos reunidos – O Conciliábulo.

Um berço negro, com um crucifixo invertido.

Rosemary…

Não estou a ouvi-lo, você está numa viagem pela Europa…

Talvez esteja, talvez não esteja. Já sabemos que Roman, perdão Steven, está em todo o lado, esteve em todo o lado, conhece tudo e todos.

Os olhos! O que lhe fizeram aos olhos?

Tem os olhos do pai.

Que estão a dizer? O Guy não tem os olhos assim.

O pai dele não é Guy e o seu nome é Adrian!

Adrian? Como em Adrian Marcato?

Embala-o, Rosemary.

Não! Está a tentar que eu seja a mãe dele!

E não és? Não és a mãe dele?

Se não é um pesadelo, não está longe, pois apenas num Guy pode afirmar que «serão generosamente recompensados por tudo». Apenas num Minnie pode afirmar que «é uma honra ter sido escolhida pelo Diabo para sua noiva». Apenas num, todos menos Rosemary podem fazer parte de um culto satânico.

Apenas num pode Rosemary ponderar, enquanto embala um berço (vazio?) ao som da inicial canção «Sleep Safe and Warm», se aceita ou não render-se.


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