Anos 80-00 – Mário Cláudio

Nasceu em 1941, no Porto. O seu verdadeiro nome é Rui Manuel Pinto Barbot Costa. Formou-se em Direito pela Universidade de Coimbra e Ciências Documentais pela University College de Londres. Revelou-se como poeta com o volume «Ciclo de Cypris» (1969). Foi também tradutor de autores como William Beckford, Odysseus Elytis, Nikos Gatsos e Virginia Woolf, embora se tenha afirmado sobretudo como ficcionista.

Colaborador em várias publicações periódicas, como «Loreto 13», «Colóquio/Letras», «Diário de Lisboa», «Vértice», «Jornal de Letras Artes e Ideias», «O Jornal», entre outros, tendo sido considerado pela crítica – desde a publicação de obras como «Um Verão Assim» – um autor para quem o verso e a prosa constituem modalidades intercambiáveis, detentores de características comuns como a opacidade, a musicalidade e a ruptura sintáctica, substituindo a linearidade da leitura por uma escrita feita de «labirintos em espiral».

A obra de Mário Cláudio apresenta uma faceta de investigador e de bibliófilo que, encontrando continuidade na sua actividade profissional, inscreve eruditamente cada um dos livros numa herança cultural e literária, portuguesa ou universal. Dir-se-ia que a sua escrita, seja romanesca, seja em colectâneas de pequenas narrativas («Itinerários», 1993), funciona como um espelho que devolve a cada período a sua imagem, perspectivada através de um rosto ou de um local, em que o próprio autor se reflecte. Isto sem a preocupação de qualquer tipo de realismo, mas num todo difuso, capaz de evocar o sentido ou o tom de uma época que concorre ainda para formar a época presente.

Mário Cláudio recebeu, em 1985, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores por Amadeo (1984), o primeiro romance de um conjunto posteriormente intitulado «Trilogia da Mão» (1993). Em 2001 recebeu o Prémio Novela da mesma associação pelo livro «A Cidade no Bolso» e em Dezembro de 2004 foi distinguido com o Prémio Pessoa. Para além das obras já mencionadas, são também da sua autoria «Guilhermina» (1986), «A Quinta das Virtudes», (1991), «Tocata para Dois Clarins» (1992), «O Pórtico da Glória» (1997), «Peregrinação de Barnabé das Índias» (1998), «Ursamaior» (2000), «Orion» (2003), «Amadeu» (2003), «Gémeos» (2004) e «Triunfo do Amor Português» (2004). O autor tem também trabalhos publicados na área da Poesia (como «Ciclo de Cypris», 1969, «Terra Sigillata», 1982, e «Dois Equinócios», 1996). Ainda do Ensaio, do Teatro («O Estranho Caso do Trapezista Azul», 1999) e da Literatura Juvenil («A Bruxa, o Poeta e o Anjo», 1996).

Em 2006, doou o seu espólio ao município de Paredes de Coura para a criação do Centro de Estudos Mário Cláudio.

Foi um dos principais signatários do Manifesto em Defesa da Língua Portuguesa Contra o Acordo Ortográfico de 1990, petição on-line que, entre Maio de 2008 (data do início) e Maio de 2009 (data da apreciação pelo Parlamento), recolheu mais de 115 mil assinaturas válidas.

Foi agraciado com os graus de Comendador da Antiga, Nobilíssima e Esclarecida Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, do Mérito Científico, Literário e Artístico (9 de Junho de 2000) e Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (29 de Agosto de 2019), ambos das ordens honoríficas portuguesas.

Escritor prolífico, metódico e rigoroso, pesquisador de estilos e investigador da «portugalidade», Mário Cláudio serve-se dos mais variados géneros literários – poesia, romance, teatro, conto, crónica, novela, literatura infantil, ensaio, biografia –, embora confesse sentir-se mais à vontade na narrativa ficcional.

Leitor compulsivo e cronista de costumes, escreveu inúmeros textos de opinião e conferências, mas também séries documentais para a televisão. Fez traduções, organizou antologias e comunidades de leitores, prefaciou inúmeros novos autores e colaborou dispersamente em mais de meia centena de diferentes jornais e revistas, nacionais e estrangeiros, nos últimos 30 anos, tendo-se ainda empenhado na homenagem e divulgação de importantes figuras da cultura portuguesa (Nobre, Camilo, Aquilino, Eça), a par de algumas profissões institucionais ligadas à Cultura, em especial a literária.

Assume um pensamento dicotómico Norte/Sul, não depreciativo para qualquer das partes e não limitado às fronteiras do País, escrevendo frequentemente sobre o Porto e o Norte de Portugal. Denota, na oralidade e na escrita, uma religiosidade abnegada, de cunho católico e barroco.

Nasceu no seio de uma família da média-alta burguesia industrial portuense de raízes irlandesas, castelhanas e francesas, e fortemente ligada à História da cidade nos últimos três séculos. Filho único, foi primeiro instruído por um professor particular, tendo prosseguido os estudos, até à conclusão do liceu, sob a rígida batuta dos padres do Colégio Almeida Garrett. Começou o curso de Direito em Lisboa e terminou-o em Coimbra (1966), onde viria a diplomar-se novamente, em 1973, com o Curso de Bibliotecário-Arquivista. Pelo meio, a Guerra Colonial e uma mobilização para a Guiné, na secção de Justiça do Quartel General de Bissau. Antes de partir, em 1968, entrega ao pai, pronto para publicação, o seu primeiro livro de poemas, «Ciclo de Cypris», publicado no ano seguinte.

Pouco depois de assumir a direcção da Biblioteca Pública Municipal de Vila Nova de Gaia, foi bolseiro da Fundação Gulbenkian, tendo obtido o título de Master of Arts em Biblioteconomia e Ciências Documentais (1976), pela Universidade de Londres, defendendo uma tese que seria parcialmente publicada com o título «Para o Estudo do Analfabetismo e da Relutância à Leitura em Portugal», o único livro que assinou com o seu nome civil. Ainda durante a década de 70, publica dois livros de poesia, um romance, uma novela, um livro de viagens em colaboração e uma antologia de textos sobre Gaia. Pertenceu sucessivamente à Delegação Norte da Secretaria de Estado da Cultura, ao inacabado Museu da Literatura e à direcção da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto. Em 1985, iniciou-se como professor na Escola Superior de Jornalismo do Porto e, foi professor convidado da Universidade Católica do Porto e da Fundação de Serralves.

Em 1984, por convite de Vasco Graça Moura, escreve Amadeo, biografia do pintor futurista Amadeo de Souza-Cardoso – ou «psico-socio-biografia», nas palavras do autor – e início da premiada «Trilogia da Mão», na qual o escritor abordou a vida e obra de outras duas figuras artísticas nortenhas, a violoncelista Guilhermina Suggia («Guilhermina») e a barrista Rosa Ramalho («Rosa»). Através dos três artistas, tipificou distintos estratos sociais (aristocracia, burguesia, povo) e o «imaginário nacional», entre o virar do século XIX e meados do século XX. Nesta primeira trilogia, o autor romanceia o próprio processo de biografar, através de uma escrita fragmentada, mais sensorial que objectiva. Seguiu-se a publicação de um segundo tríptico («A Quinta das Virtudes», «Tocata para Dois Clarins» e «O Pórtico da Glória»), onde a História volta a cruzar a ficção, mas desta feita incorrendo na autobiografia familiar. Entre 2000 e 2004 publicou uma outra trilogia, composta por «Ursamaior», «Oríon» e «Gémeos», e que é descrita pelo autor como relacionada com «situações de alguma marginalidade» e «discurso problemático com o poder», transversais a três gerações de personagens, uma por volume.

A História, a Cultura, a Pátria, a Identidade Nacional e Pessoal são o coração das aturadas pesquisas do escritor Mário Cláudio, resultando em obras que dificilmente podem ser rotuladas de «romances históricos», correspondendo antes à preocupação de revisitar, ou mesmo rever, episódios marcantes da cultura portuguesa onde os factos reais são inspiração e ponto de partida para imaginativas demonstrações.


O livro relata o percurso do pintor Amadeo de Souza-Cardoso, entre as terras de Amarante e Paris dos inícios do século XX.

Primeiro volume da «Trilogia da Mão», mereceu a seguinte apreciação:

«Trata-se, de um romance dotado de qualidades estético-literárias que amplamente justificam a atribuição do prémio. Antes de mais pela estratégia ficcional adoptada: em diálogo tenso com o grande texto da História (…) Amadeo corresponde a uma tendência privilegiada pela ficção portuguesa nos últimos anos, de reinscrição da literatura – e em particular da ficção – no tecido histórico, explicitamente perfilhado como preferencial de práticas ficcionais. Neste caso a personagem que dá nome ao relato, é ela própria, uma figura histórica, com um papel de grande destaque no nosso modernismo; isso não faz, no entanto, de Amadeo uma simples tentativa de reconstituição histórica. A figura do protagonista é verdadeiramente reconstruída pelo recurso a procedimentos de pluridiscursividade que, do registo epistolar ao biográfico, do diarístico ao memorial, fazem desta ficção forjada a partir da História um discurso que suscita o repensar dessa História; por recusar uma solução discursiva de teor monológico, Amadeo convida discretamente o leitor para um diálogo por assim dizer em aberto».

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