Eça sobre Flaubert


Na «Educação Sentimental», Flaubert concebe esta ideia de génio: pintar numa larga acção a fraqueza dos caracteres contemporâneos amolecidos pelo Romantismo, pelo vago dissolvente das concepções filosóficas, pela falta de um princípio seguro que, penetrando a totalidade das consciências, dirija as acções; e explicar por esta efeminação das almas, todas as instabilidades da nossa vida social, a desorganização do mundo moral, a indiferença e o egoísmo das naturezas, a decadência das classes médias, a dificuldade de governar a democracia…

«Madame Bovary» é hoje uma obra clássica e decerto o seu melhor livro. Quem a não conhece e não a relê – essa história profunda e dolorosa de uma pequena burguesa de província, tal qual as cria a educação moderna desmoralizada pelos falsos idealismos e pela sentimentalidade mórbida, agitada de apetites de luxo e de aspirações de prazer, debatendo-se na estreiteza de sua classe como num cárcere social, correndo a esgotar de um sorvo todas as sensações e voltando delas mais triste como dos funerais da sua ilusão, procurando alternadamente a felicidade na devoção e na voluptuosidade, ansiando sempre por alguma coisa de melhor e arrastando uma existência minada desta enfermidade incurável – o desequilíbrio do seu sentimento e da razão, o conflito do ideal e do real. Até que uma mão-cheia de arsénio a liberta de si mesma.

 

Cartas de Paris

 

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