Gustave Flaubert

Viveu entre 1821 e 1880. Romancista extremamente conceituado, foi considerado o expoente máximo do Realismo francês. De acordo com alguns teóricos, «em Flaubert, o Realismo ambiciona a perfeição formal, logo o retrato da realidade tende a ser neutro, valorizando acima de tudo o estilo enquanto modo objectivo de apresentação». É sobretudo conhecido pelo seu romance de estreia, Madame Bovary (1857), e pela devoção escrupulosa ao estilo e estética do Realismo. O famoso contista Guy de Maupassant foi um delfim de Flaubert.

O autor nasceu em Rouen, cidade localizada na região da Normandia, no norte de França. Foi o segundo filho de Anne Justine Caroline e Achille-Cléophas Flaubert, cirurgião e director do principal hospital de Rouen. Começou a escrever muito novo, com apenas oito anos segundo alguns testemunhos.

Fez os estudos no Liceu Pierre-Corneille, na cidade natal, que só abandonou em 1840, quando decidiu cursar Direito em Paris. Porém, transformou-se num estudante desinteressado e nunca se adaptou à capital. Conheceu entretanto algumas pessoas, incluindo Victor Hugo. No final desse ano, viajou até aos Pirenéus e à Córsega. Em 1846, após sofrer um ataque de epilepsia, abandonou Paris e o curso de Direito.

Entre 1846 e 1854, Flaubert manteve um relacionamento com a poeta Louise Colet, comprovado pelas cartas que resistiram ao tempo. Ao abandonar Paris, instalou-se em Croisset, local próximo de Rouen e lá permaneceu até ao fim dos seus dias. Fez contudo algumas visitas à capital e a Inglaterra, país onde é provável que tivesse uma amante.

Politicamente, o autor considerava-se um «romântico e liberal da velha guarda» (vieille ganache romantique et libérale), um «fervoroso liberal» (libéral enragé), um inimigo de todas as ditaduras e alguém que defendia qualquer tipo de protesto individual contra os monopólios e estruturas de poder.

Acompanhado pelo eterno amigo Maxime Du Camp, viajou até à região da Bretanha, ainda em 1846. Na transição de 1849 para 1850 efectuou um longo périplo pelo Médio Oriente, Grécia e Egipto. Contraiu sífilis em Beirute, Líbano. Passou ainda cinco semanas em Istambul e alguns anos mais tarde (1858) visitou Cartago, na Tunísia, a propósito da investigação para o romance «Salammbô».

Flaubert nunca casou nem teve filhos. Justifica esta opção numa carta a Colet, em 1852. Nela confessa a sua oposição à paternidade, afirmando não desejar «impor a ninguém os problemas e agruras da existência».

O autor era também muito franco acerca do seu relacionamento frequente com prostitutas, registado nos diários de viagem. A certa altura, convenceu-se que uma ferida que lhe surgiu no ventre era o resultado do encontro com uma rapariga árabe. Experimentou também envolvimentos com prostitutos masculinos no Líbano e no Egipto.

De acordo com o seu biógrafo, a ligação com Louise Colet foi o único relacionamento sério que teve.

Flaubert era um trabalhador aplicado e queixava-se com frequência, em cartas para amigos, acerca da natureza fatigante da sua actividade. Sentia-se próximo da sobrinha, Caroline Commanville, mantendo ainda uma amizade próxima (que incluía troca de correspondência) com George Sand. De forma esporádica, fazia visitas aos conhecimentos que deixara em Paris, sobretudo Émile Zola, Alphonse Daudet, Ivan Turgenev e os irmãos Goncourt.

A década de 70 do século XIX foi atribulada. Soldados prussianos ocuparam-lhe a casa, durante a guerra de 1870 e a mãe faleceu em 1872. Com a sua morte, o autor viu-se a braços com dificuldades financeiras, à conta dos negócios falhados do marido de Caroline.

Flaubert padeceu de doenças venéreas durante grande parte da vida. A saúde começou a faltar-lhe e acabou por morrer após uma hemorragia cerebral, em 1880, com apenas 58 anos. Foi enterrado no jazigo de família, no cemitério de Rouen.

O primeiro trabalho completo foi «Novembro», uma novela concluída em 1842.

Em finais de 1849, Flaubert terminou a primeira versão de outra novela, «La Tentation de Saint Antoine». Leu o texto em voz alta aos amigos Louis Bouilhet e Maxime Du Camp, ao longo de quatro dias, sem permitir interrupções ou opiniões prévias.

No final, estes aconselharam-no a deitar tudo fora e a concentrar esforços nos temas prosaicos, em detrimento do fantástico.

Em 1850, depois de regressar do Egipto, o autor começou a trabalhar em Madame Bovary. O romance, que levou cinco anos a escrever, acabou por ser publicado como folhetim na revista literária «Revue de Paris», em 1856. O governo levantou um processo jurídico ao autor e editor por imoralidade e o julgamento decorreu no ano seguinte, mas foram ambos ilibados. Quando o manuscrito finalmente saiu em formato livro, obteve grande sucesso.

Em 1858, Flaubert viajou até Cartago, de modo a recolher material para o romance seguinte, «Salammbô». Este ficou pronto em 1862, após quatro anos de trabalho.

Servindo-se de memórias de juventude, o autor dedicou-se em seguida à «Educação Sentimental», projecto que lhe tomou sete anos. Acabou por ser o último romance que completou, publicando-o em 1869.

Tentou ainda, sem sucesso, uma peça de teatro, «Le Candidat» e publicou uma nova versão de «La Tentation de Saint Antoine», do qual já existiam excertos disponíveis desde 1857. Por esta altura, dedicava a maioria do tempo a um longo projecto apelidado «Les Deux Cloportes», que mais tarde se transformará em «Bouvard e Pécuchet», interrompendo a obsessão apenas para escrever alguns contos, em 1877.

Os «Três Contos» incluem «Um Coração Simples» e «A Lenda de São Julião Hospitaleiro». Depois disto, o resto dos dias foram ocupados com revisões sucessivas de «Bouvard e Pécuchet», que só foi publicado após a sua morte, em 1881. O texto aborda de forma satírica a futilidade do conhecimento humano e a mediocridade generalizada. O autor considera ser esta a sua obra-prima, embora a versão final não tenha merecido mais do que elogios modestos.

Aquando da sua morte, é possível que estivesse a trabalhar num futuro romance histórico, baseado na Batalha das Termópilas.

Flaubert era famoso por evitar incongruências, abstracções e outros sinais de indolência, renegando totalmente os lugares-comuns. Numa carta para George Sand, explica que consome grande parte do tempo «na busca da frase harmoniosa».

O autor acreditava na existência (e procurava constantemente) «le mot juste» (a palavra certa), considerada fundamental para a criação de uma obra de arte literária. Embrenhava-se numa profunda solidão, consumindo por vezes uma semana numa única página e ficando raras vezes satisfeito com os resultados. Nas suas cartas, refere-se ao processo, admitindo que uma prosa fluída não lhe era natural, pelo que o seu estilo tinha de nascer do trabalho árduo e da revisão.

Esta dolorosa abordagem à escrita torna-se evidente quando comparamos o tamanho da sua obra à dos seus contemporâneos (Balzac ou Zola, p. ex.). Flaubert publicava muito menos do que a norma da época e jamais atingiu o ritmo de um romance anual, como era frequente entre outros escritores em auge de carreira. Há quem o considere um «mártir do estilo».

Segundo um dos críticos:

Os romancistas deviam agradecer a Flaubert da mesma forma que os poetas agradecem à Primavera: tudo se rejuvenesce com ele. Existe, de facto, um «antes» e um «depois» de Flaubert. Este estabeleceu de forma decisiva aquilo que a maioria dos escritores e leitores considera ser uma narrativa realista moderna e a sua influência é já demasiado estruturante para ser notada. Já quase não salientamos uma prosa de qualidade que dê primazia ao detalhe; que privilegie imagens reveladoras; que saiba manter uma compostura livre de sentimentalidade e retirar-se no momento certo, como um bom mordomo, evitando comentários supérfluos; que se refira ao Bem e ao Mal de forma neutra; que procure a Verdade, mesmo que a sua descoberta nos repugne; tudo isto num texto em que a marca do autor esteja, paradoxalmente, identificável mas invisível. Pode adivinhar-se alguma coisa disto em Defoe ou Austen ou Balzac, mas só de forma plena em Flaubert.

Como escritor, para além de um estilista puro, Flaubert era um misto de Romântico e Realista. Tal fez com que adeptos de várias escolas, em especial realistas e formalistas, se identificassem com a sua obra. A precisão com que adapta o discurso ao objectivo é visível na generalidade dos textos, em especial no modo como retrata os protagonistas dos romances principais. O nível de popularidade atingido por Flaubert após a sua morte representa, em si mesmo, «um importante capítulo da história literária».

O estilo do autor influenciou fortemente vários escritores do século XX, como Franz Kafka e J. M. Coetzee. Note-se o testemunho de Vladimir Nabokov:

A maior influência literária de Kafka foi Flaubert. Este último, que detestava a «escrita bonitinha», teria apreciado a abordagem do checo. Kafka gostava de socorrer-se da linguagem do Direito e da Ciência, emprestando-lhe uma espécie de rigor irónico e sem permitir nela qualquer intrusão dos sentimentos do autor; era exactamente esta a técnica de Flaubert, através da qual conseguia atingir um curioso efeito poético. O legado que nos deixa pode ser resumido, portanto, no desbravar de um estilo de escrita mais lento e introspectivo.

A edição de Madame Bovary, em 1856, provocou maior dose de escândalo do que aprovação, não ficando imediatamente claro que o romance era o princípio de algo novo na Literatura: o retrato meticulosamente fiel da existência. Com o tempo, esta faceta do seu talento começou a ser aceite, obtendo mesmo lugar cimeiro. Aquando da sua morte, era já considerado o mais importante dos Realistas franceses. Acabou por se revelar forte influência para Guy de Maupassant, Edmond de Goncourt, Alphonse Daudet e Émile Zola. Mesmo após o declínio da escola Realista, Flaubert manteve intacto o seu prestígio na comunidade literária, continuando a ser apelativo para outros autores devido ao seu compromisso inalienável para com os princípios estéticos, a sua devoção ao estilo e a sua busca infatigável pela «frase perfeita».

Foi elogiado ou analisado por grande parte das personalidades literárias do século XX, incluindo filósofos e sociólogos como Michel Foucault, Roland Barthes, Pierre Bourdieu e Jean-Paul Sartre. Georges Perec elegeu «Educação Sentimental» como um dos seus romances favoritos. O peruano Mário Vargas Llosa é outro grande admirador.


Romance de estreia, publicado em 1856. Nele, a protagonista do título leva uma vida acima das suas possibilidades económicas, enquanto escape para a banalidade e vazio espiritual da vida provinciana.

Aquando da publicação em folhetim, entre Outubro e Dezembro de 1856, as autoridades do Estado acusaram a obra de obscenidade. O julgamento daí resultante acabou por tornar o livro extremamente famoso. Logo após a absolvição do autor, no ano seguinte, Madame Bovary tornou-se num sucesso de vendas, tendo sido publicado em dois volumes. Obra cimeira do Realismo, é hoje considerada a obra-prima do autor e um dos livros mais influentes da História.

 

 

Enredo

A história decorre numa província do norte de França, perto da cidade de Rouen, na Normandia. Charles Bovary é um adolescente tímido, que se veste de maneira invulgar. Recém-chegado à nova escola, é ridicularizado pelos colegas. Completa com esforço um elementar curso de Medicina e principia funções no Serviço de Saúde Público. Aceita casar-se com a mulher que a mãe lhe escolheu, uma viúva antipática mas supostamente rica, chamada Héloïse Dubuc. Opta por instalar um consultório na aldeia de Tôtes.

Certo dia, Charles visita uma quinta local, de modo a tratar a perna partida do proprietário e trava conhecimento com a filha deste, Emma Rouault. Esta é uma jovem bela e vestida de forma encantadora, que beneficiou de uma «educação respeitosa» num convento. Alimenta, no entanto, uma forte inclinação para as fantasias amorosas e para o luxo, influenciada pela leitura de romances sentimentais. Charles sente-se de imediato atraído por ela e aparece na casa do paciente muito mais vezes que o necessário, até ser obrigado a refrear-se à conta dos ciúmes de Héloïse.

Quando esta morre de forma súbita, Charles sujeita-se a um período de luto adequado até começar a seduzir apaixonadamente Emma. Obtida a bênção do pai dela, os dois decidem casar-se.

A partir daqui, o foco do romance passa a ser Emma. Charles tem boas intenções, mas possui um temperamento monótono e atrapalhado. Após marcarem presença num baile elegante organizado pelo Marquês d’Andervilliers, Emma começa a achar a vida de casada desinteressante e cai num certo desencanto. O marido conclui que esta precisa de uma mudança de cenário e transfere o consultório para Yonville, uma vila mais agitada. Emma dá à luz uma filha, mas também a maternidade se revela uma desilusão. É então que começa a sentir-se atraída por Léon Dupuis, um jovem inteligente que conhece na vila. Este é um estudante de Direito que partilha com ela um interesse por Literatura e Música. Também ele desenvolve uma atracção romântica por Emma. Preocupada em manter a sua reputação de mulher fiel e mãe dedicada, esta reprime a sua paixão por Léon e oculta o seu desinteresse por Charles, procurando orgulhar-se da sua moralidade. Léon acaba por desistir de conquistar Emma e vai-se embora para Paris, de modo a continuar os estudos.

Passado algum tempo, um proprietário abastado e marialva, Rodolphe Boulanger, vem ao consultório do médico para que este trate um serviçal. Repara em Emma e logo adivinha que esta se deixará seduzir com facilidade. Convida-a para um passeio a cavalo, que segundo ele lhe fará bem à saúde. Charles, preocupado com o bem-estar da mulher e sem ponta de ciúme, concorda. Sem surpresa, Emma e Rodolphe iniciam uma ligação. Esta, absorvida pela sua fantasia amorosa, arrisca cada vez mais a reputação através de múltiplas cartas indiscretas e visitas ao amante. Após quatro anos, insiste numa fuga a dois. Rodolphe, contudo, não partilha do mesmo entusiasmo e na véspera da suposta partida termina a ligação através de uma carta delicada e dolorosa, colocada no fundo de um cesto de pêssegos, que lhe envia de presente. O choque de Emma é tão grande que esta tomba gravemente doente e pondera mesmo entregar-se à religião.

Apesar de tudo, reage e já na fase final da recuperação aceita o repetido convite de Charles para assistirem a uma ópera em Rouen. O libreto em questão é «Lucia di Lammermoor», de Gaetano Donizetti, baseado no romance histórico de Walter Scott «The Bride of Lammermoor».

O evento reacende as emoções de Emma e esta reencontra por acaso Léon, que de estudos concluídos e a trabalhar na cidade, está também presente na ópera. Ambos consumam por fim o desejo. Convencendo o marido que se inscreveu em aulas de piano, Emma pode assim deslocar-se todas as semanas à cidade para se encontrar com Léon, sempre no mesmo quarto do mesmo hotel, que ambos encaram como um lar. O caso amoroso começa por ser intenso, mas Léon acaba por se ir aborrecendo com os excessos sentimentais dela e esta, por sua vez, principia a duvidar do futuro entre ambos. Emma vai alimentando o seu gosto pelo luxo através de compras a crédito ao talentoso comerciante Lheureux, que chega ao ponto de lhe arranjar uma procuração para que esta tenha direitos sobre o património de Charles. A dívida aumenta consideravelmente.

Quando, por fim, Lheureux exige o pagamento, Emma pede dinheiro a várias pessoas, incluindo Léon e Rodolphe, mas ninguém a salva. Desesperada, engole arsénico e tem um fim horroroso. Charles, destroçado, entrega-se ao luto, transforma o quarto dela num templo e adopta os seus hábitos e gostos de modo a preservar-lhe a memória. Por fim, abandona o trabalho e sobrevive da venda do património. Entretanto, tudo o que lhe sobra é arrestado, de modo a saldar a dívida com Lheureux. Logo depois, encontra as cartas de amor que a mulher trocou com Rodolphe e Léon e desfalece. Acaba por morrer, fazendo com que a sua jovem filha, Berthe, tenha de viver com a avó, que também não sobrevive muito tempo. Berthe é então forçada a morar com uma tia empobrecida, que a obriga a trabalhar numa plantação.

No epílogo, descreve-se o modo como o farmacêutico local, Homais, antigo rival de Charles, ganha proeminência entre a população de Yonville e é recompensado pelas suas façanhas médicas.

 

 

Personagens

Emma Bovary é a protagonista que titula o romance (a mãe de Charles e a primeira esposa também são conhecidas como «Madame Bovary», enquanto a filha permanece «Mademoiselle Bovary»). É dona de uma visão exageradamente romântica do mundo e ambiciona a beleza, a riqueza, a paixão e a entrada na alta sociedade. É a enorme contradição entre estes ideais românticos e a realidade monótona da sua vida campestre que alimenta grande parte do enredo e que a envolve em dois casos extraconjugais, em paralelo com o acumular de uma dívida gigantesca. Tudo isto redunda no seu inevitável suicídio. Emma vive uma existência mental, sendo a sua introspecção e análise dos conflitos internos que assinalam o crescimento psicológico de Flaubert enquanto autor.

Charles Bovary é o marido de Emma e um homem muito simples, raiando a monotonia. Profissionalmente é um médico de província mas, como em quase tudo, não é muito talentoso. Não detém, sequer, as qualificações suficientes para ser considerado um médico, apenas médico assistente. Apesar de tudo, é um homem abastado que aprecia o que faz e se esforça por acorrer a todos os pacientes. É sociável e simpático, decora nomes e rostos com facilidade e a população recorre aos seus serviços quase sempre em questões de primeiros socorros. Consegue executar as suas tarefas ao ponto de obter a lealdade e simpatia dos seus doentes na pequena localidade de Tôtes, mas ao mudar-se para Yonville vê-se obrigado a rivalizar com o farmacêutico local, Homais.

Charles adora a mulher e não lhe encontra defeitos, apesar dos evidentes indícios em contrário. Jamais desconfia das aventuras amorosas e entrega-lhe o controlo das finanças, abrindo caminho à falência de ambos. Apesar da sua paixão total por Emma, esta despreza-o, pois vê nele o símbolo de tudo o que é vulgar e monótono.

Rodolphe Boulanger é um rico cidadão local que transforma Emma numa das suas múltiplas amantes. Apesar de por vezes se deixar encantar por ela, Rodolphe não alimenta emoções demasiado fortes. À medida que esta se torna mais e mais desesperada, vai perdendo o interesse e ficando apreensivo com a sua falta de cuidado. Embora concorde por momentos em fugir, arrepende-se, sentindo-se incapaz de lidar com a situação e sobretudo com a filha dela, Berthe.

Léon Dupuis é um escriturário que desperta em Emma o interesse pela poesia e acaba por se apaixonar por ela. Abandona Yonville quando se cansa de esperar que esta assuma o que sente por ele, mas reencontram-se depois do colapso entre ela e Rodolphe. Iniciam um caso extraconjugal, o segundo da protagonista.

Monsieur Lheureux é um comerciante manipulador e ardiloso que convence grande parte da população de Yonville a comprar mercadoria a crédito ou a pedir-lhe dinheiro emprestado. Depois de levar muitos pequenos empresários locais à falência, de modo a eliminar a competição, Lheureux empresta dinheiro a Charles e manobra Emma na perfeição, arrastando os Bovary para uma dívida tão grande que a família fica arruinada e ela opta mesmo pelo suicídio.

Monsieur Homais é o farmacêutico local. Revela-se um ateu fervoroso e exerce medicina sem licença. Apesar de simular uma amizade com Charles, empenha-se a boicotar a sua actividade como médico, roubando-lhe vários clientes e mais tarde convencendo-o a tentar uma cirurgia complicada, que obviamente não resulta, destruindo assim a credibilidade profissional do outro em Yonville.

Justin é primo em segundo grau de Monsieur Homais e seu aprendiz. Foi recolhido por caridade e utilizado como criado. Esconde uma atracção por Emma. A certa altura, rouba as chaves do armário dos remédios, ao acreditar numa história dela segundo a qual «precisa de arsénico para matar uns ratos que não a deixam dormir». Entrega-lhe o veneno, que ela utiliza para o suicídio, deixando-o horrorizado e consumido pelos remorsos.

O cenário do romance é importante, quer no modo como ilustra o estilo de Flaubert, baseado no realismo e na análise social, quer no modo como influencia a protagonista, Emma.

Estima-se que o enredo se inicia em Outubro de 1827 e termina em Agosto de 1846. Este período corresponde ao reinado de Luís Filipe I, que se passeava pela capital a segurar a própria sombrinha, em jeito de homenagem a uma classe média burguesa em ascensão. Ao descrever os hábitos da população rural francesa, o autor insere-a quase sempre numa classe média emergente.

Flaubert empenhou-se em ilustrar detalhadamente o quotidiano. O relato de uma feira rural em Yonville comprova isto, ao acompanhar o evento em tempo real, em paralelo com um comportamento íntimo atrás de uma janela que se abre sobre a feira. O autor conhecia bem os ambientes rurais, palco da sua infância e juventude, em redor da cidade de Rouen, na Normandia. É esta fidelidade aos elementos mundanos da vida campestre que valorizaram a obra enquanto símbolo do movimento realista.

A preocupação de Flaubert com o mundano contrasta com os desejos da sua protagonista, uma vez que são as inevitabilidades práticas na vida de Emma que destroem as suas fantasias românticas. O autor serve-se disto para ilustrar o ambiente e a personalidade. Emma surge-nos mais caprichosa e patética quando inserida nesse quotidiano vulgar. Por outro lado, os seus desejos amplificam a banalidade egocêntrica dos habitantes locais. Emma, embora irrealista e aprisionada pela sua deficiente educação provinciana, alimenta apesar de tudo um certo idealismo associado à beleza e à grandeza, sentimento que parece ser completamente estranho à burguesia.

O romance foi de certa forma inspirado na vida de um colega de escola do autor, que se formou em Medicina. Um amigo e mentor de Flaubert, Louis Bouilhet, sugeriu-lhe que poderia estar ali um tema «prosaico» para um romance e que o escritor deveria tentar um estilo «natural», sem divagações. Como se disse, o estilo era algo primordial para Flaubert. Enquanto trabalhava, comentou que se tratava de um livro «sobre nada, um enredo independente de factores externos, que faria sentido à conta do estilo», objectivo que fez do autor, segundo alguns críticos, «o primeiro dos romancistas não-figurativos», na linha de James Joyce e Virginia Woolf. Apesar deste recusar qualquer apreço pelo estilo de Balzac, o romance que construiu terá sido um exemplo acabado de realismo literário, à maneira de Balzac. O «realismo» do romance tornou-se importante elemento de discussão ao longo do julgamento por obscenidade, uma vez que o advogado de acusação afirmava não só que a obra era imoral, mas que o Realismo na Literatura era atentatório à Arte e à Moral.

Como se sabe, o Movimento Realista foi, em parte, uma reacção ao Romantismo. Emma pode ser considerada um símbolo romântico, uma vez que a sua dinâmica mental e emocional não está em nada relacionada com o lado concreto do seu quotidiano. Apesar de em certos momentos ficar sugerido que o autor se identifica com o drama de Emma, Flaubert também a ridiculariza com frequência, sobretudo os delírios românticos e o gosto literário. A veracidade da sua frase «Madame Bovary, c’est moi» (Madame Bovary sou eu) terá de ser questionada. Em diversas cartas, distanciou-se das emoções presentes no romance:

 – «Tudo o que amo está dali ausente»;

 – «Não inseri na obra nenhuma das minhas emoções, nada da minha vida»;

 – «Se Emma Bovary não tivesse lido aqueles terríveis romances, talvez o seu destino fosse diferente».

Madame Bovary tem sido considerado uma análise da burguesia, um retrato de ambições irrealistas ou a confirmação de uma cultura pessoal ilusória e indulgente, típica da época de Flaubert e especialmente notória no reinado de Luís Filipe, período em que a classe média se tornou mais relevante, em comparação com as classes trabalhadoras ou a nobreza. Flaubert era conhecido por desprezar a burguesia, descrita por ele como intelectual e espiritualmente superficial, ambiciosa, culturalmente irrelevante, materialista, gananciosa e acima de tudo, um depositário de emoções e crenças irracionais.

Para Vargas Llosa, «O drama de Emma ilustra a cisão entre fantasia e realidade, o vácuo entre o desejo e a sua concretização» e evidencia «os primeiros sinais de uma alienação que, um século mais tarde, dominará os homens e mulheres da sociedade industrial». Porém, o romance não trata apenas do romantismo sonhador de uma mulher, já que também Charles é incapaz de ver a realidade ou sequer entender as necessidades e sonhos de Emma.

Há muito considerado um dos melhores romances de sempre, o livro tem sido descrito enquanto trabalho «perfeito». Segundo Henry James:

«Madame Bovary» é dono de uma perfeição que não só o eleva como o deixa quase sozinho no cume – sustém-se com uma confiança tão inatingível que desafia e motiva toda a espécie de análises.

Marcel Proust elogia a «pureza gramatical» da obra e Vladimir Nabokov considera que «estilisticamente, temos a prosa a cumprir o papel que cabe à poesia».

Milan Kundera escreve: «só Flaubert libertou a prosa do estigma da inferioridade estética. É Madame Bovary quem coloca ao mesmo nível a arte da prosa e a arte da poesia».

O romance exemplifica a tendência para o Realismo se tornar, ao longo do século XIX, um movimento cada vez mais psicológico, preocupado acima de tudo com a representação fiel de pensamentos e emoções, não só com elementos externos, abrindo assim caminho a Marcel Proust, Virginia Woolf, e James Joyce.

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