Viveu entre 1547 e 1616. Considerado o maior escritor em língua espanhola e um dos primeiros romancistas mundiais. Atingiu fama universal com o romance Dom Quixote de la Mancha, tido como o primeiro romance da era moderna e o «primeiro grande romance da literatura mundial». Num inquérito realizado em 2002, um conjunto de 100 grandes autores considerou a obra de Cervantes «o livro mais relevante de sempre».
O autor passou grande parte da vida mergulhado na pobreza e no anonimato, contexto que provocou o desaparecimento de muitos dos seus primeiros trabalhos. No entanto, a influência e contribuição deste para o mundo literário estão bem patentes no facto de ainda hoje a língua espanhola ser conhecida como «a língua de Cervantes».
Em 1569, Cervantes viu-se forçado a sair de Espanha e a mudar-se para Roma, onde prestou serviço na residência de um cardeal. Em 1570, alistou-se no regimento de infantaria da Real Marinha Espanhola, sendo posteriormente ferido com gravidade na Batalha de Lepanto, em Outubro de 1571, perdendo assim o uso do braço esquerdo. Continuou a prestar serviço como soldado até 1575, altura em que foi capturado por piratas otomanos. Após cinco anos de cativeiro, foi pago um resgate e pôde enfim regressar a Madrid.
O primeiro romance assinalável, «La Galatea», foi publicado em 1585, mas o autor continuou a ter outros trabalhos, nomeadamente cobrador de impostos. A primeira parte de Dom Quixote… saiu em 1605 e a segunda em 1615. Entre outras, destaque ainda para as obras «Novelas Exemplares», «Viaje del Parnaso» e «Entremezes». «Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda» é editada postumamente, em 1616.
Apesar da fama adquirida mais tarde, grande parte da vida de Miguel é incerta ou até mesmo desconhecida, incluindo o próprio nome, origens e aparência. Apesar de o autor assinar «Cerbantes», os tipógrafos imprimiram a palavra «Cervantes», que acabou por ser adoptada. Numa fase avançada, Cervantes assinava com o apelido «Saavedra», adquirido de um parente distante, em vez do mais esperado «Cortinas», de origem materna. Contudo, um historiador alega que o dito nome surge afinal da palavra «shaibedraa», que num dialecto árabe significa «maneta», alcunha recebida nos tempos de cativeiro.
Outro tema controverso está relacionado com as origens religiosas. Tem sido alegado que os pais do autor podem ter sido cristãos-novos. «Embora a família possuísse eventuais e distantes laços com a nobreza, estava com frequência em dificuldades financeiras. Para além disso, é provável que fossem convertidos, ou seja, com raízes judias. Nos tempos de Cervantes, em Espanha, tal estatuto significava viver sob uma nuvem de suspeição constante (por parte do governo e da sociedade), o que se reflectia em muito menos oportunidades, em comparação com os «cristãos originais». Esta teoria não possui, contudo, grande aceitação, considerando-se que as provas apresentadas são «muito débeis», uma vez que a referida penúria financeira do autor está em linha com o que sucedia à grande maioria dos cidadãos espanhóis, independentemente das origens sociais.
Miguel de Cervantes terá nascido em 29 de Setembro de 1547, em Alcalá de Henares, nos arredores de Madrid. Tratava-se do segundo filho de Rodrigo de Cervantes, um barbeiro-cirurgião (profissão muito comum na Idade Média), e da mulher, Leonor de Cortinas. Rodrigo vinha de Córdova, situada na Andaluzia, onde o avô de Miguel, Juan de Cervantes, era um famoso advogado.
O pai do autor estava com frequência mergulhado em dívidas e em busca de trabalho, vendo-se obrigado a viagens constantes. A mãe, também dos arredores de Madrid, faleceu com 73 anos, tendo ficado registado em documentos que esta deu à luz sete filhos, sabia ler e escrever e era dona de um carácter independente e empreendedor, com apetência para os negócios. Quando o marido foi preso durante seis meses, por dívidas, entre 1553 e 1554, foi ela quem sustentou a família.
Os irmãos de Cervantes eram Andrés, Andrea, Luisa, Rodrigo, Magdalena e Juan. A família morou em Córdova até 1556, ano da morte do avô. Por motivos desconhecidos, o pai do autor não foi beneficiado no testamento e o agregado sobrevive em parte incerta até 1564, quando Rodrigo abre um processo legal, em Sevilha.
Esta cidade beneficiava, à época, de uma expansão económica e o pai de Cervantes consegue alojamento através de um irmão, que era magistrado. Julga-se que o autor terá frequentado o colégio jesuíta local, sendo um dos professores o dramaturgo Pedro Pablo Acevedo, que para lá se mudara em 1561, também vindo de Córdova. No entanto, os registos mostram que Rodrigo deixou-se enredar de novo em dívidas e no ano de 1566 a família regressou a Madrid.
No século XIX, um biógrafo encontrou um mandato de captura em nome de Miguel de Cervantes, datado de 15 Setembro de 1569, onde o autor é acusado de ferir um tal de Antonio de Sigura, num duelo. Embora o facto tenha sido posto em causa na altura, sobretudo por aqueles que consideravam tal comportamento indigno de um grande escritor, hoje em dia considera-se que terá sido essa a causa mais provável para este abandonar a capital espanhola.
Acabou por chegar a Roma, onde encontrou trabalho como serviçal na residência de Giulio Acquaviva, um bispo italiano que vivera um ano em Madrid, entre 1568 e 1569, tendo logo depois sido nomeado cardeal, em 1570. Com o despoletar da Guerra Otomana-Veneziana (1570-1573), Espanha aderiu à Liga Santa, uma coligação militar criada para fornecer apoio à República de Veneza. Vendo aí, talvez, a possibilidade de ter o mandato de captura anulado, Cervantes viajou até Nápoles, na altura parte integrante da Coroa de Aragão.
O comandante militar na cidade era Álvaro de Sande, um amigo da família, que deu a Miguel uma comissão sob as ordens do Marquês de Santa Cruz. A certa altura, recebeu a companhia do irmão mais novo, Rodrigo. Em Setembro de 1571, Cervantes estava a bordo do navio «Marquesa», integrante da frota às ordens da Liga Santa.
É esta que derrota a frota Otomana a 07 de Outubro, na Batalha de Lepanto.
Esta batalha naval histórica, a maior desde a Batalha de Áccio (32 A.C.), permitiu deter o avanço muçulmano rumo ao continente europeu e pela primeira vez forneceu aos cristãos europeus uma relativa sensação de segurança no que diz respeito a futuras invasões a partir do Oriente.
De acordo com o próprio e apesar de estar doente com malária, Cervantes recebeu o comando de um bote com 12 soldados, normalmente usado no assalto a galeões inimigos. O «Marquesa» acumulou 40 mortos e 120 feridos, incluindo o próprio Miguel, que foi vítima de três ferimentos diferentes – dois no peito e outro que lhe inutilizou o braço esquerdo. Este último valeu-lhe, assim, o eterno título de «El Manco de Lepanto». Os feitos bélicos revelaram-se, apesar de tudo, uma permanente fonte de orgulho, tendo o autor visto ser-lhe aprovados quatro aumentos salariais.
Na obra «Viaje del Parnaso», publicada dois anos antes da sua morte, Cervantes alega que «perdeu os movimentos da mão esquerda em nome da glória literária da mão direita». Como em quase tudo, a verdadeira gravidade das lesões é incerta, uma vez que não existem outras fontes e futuros estudiosos confirmam a tendência do autor para uma certa vaidade. Seja como for, os ferimentos foram suficientemente graves para exigirem uma estadia de seis meses num hospital da Sicília.
Embora se tenha apresentado ao serviço em meados de 1572, parecem existir evidências de que as feridas do peito não sararam na totalidade até princípios de 1573. Sediado em Nápoles, participou contudo nas expedições às cidades gregas de Corfu e Navarino, bem como na ocupação, nesse ano, das cidades tunisinas de Tunes e La Goulette, logo recuperadas pelos Otomanos em 1574. Apesar do sucesso de Lepanto, a Guerra foi globalmente vencida pelos muçulmanos e a perda de Tunes revelou-se mesmo um desastre para Espanha. Cervantes regressou a Palermo, onde recebeu as devidas recompensas e louvores.
Nos primeiros dias de Setembro, em 1575, Miguel e Rodrigo despediram-se de Nápoles, rumo a casa, a bordo do galeão «Sol». Já próximo de Barcelona, no dia 26, o navio foi tomado por piratas otomanos e os irmãos levados para Argel, de modo a serem vendidos como escravos ou – como se confirmou – serem feitos prisioneiros até ao pagamento de um resgate.
Rodrigo foi salvo em 1577, mas a família ficou sem dinheiro para libertar Cervantes, que se viu obrigado a permanecer. Terão sido encontradas hipotéticas provas acerca da colaboração do autor na construção da mesquita de Ali Pasha, o que indicaria a presença deste em Istambul, a dado momento. Não existem, porém, conclusões definitivas sobre o assunto.
Por volta de 1580, o reino de Espanha estava embrenhado na anexação de Portugal e em conflito com a Holanda. Por seu lado, os Otomanos estavam em guerra com a Pérsia (actual Irão). À conta disto, ambos concordaram em estabelecer uma trégua, o que melhorou as relações diplomáticas. Após quase cinco anos e quatro tentativas de fuga, Cervantes foi libertado de uma vez por todas, devido às acções de uma instituição religiosa especializada no resgate de prisioneiros cristãos.
Regressou de imediato a Madrid.
Durante o longo cativeiro, dois eventuais patronos do autor morreram e a economia atravessava uma grave crise, dificultando em muito a busca de emprego. Com excepção de um curto período entre 1581 e 1582, durante o qual exerceu as funções de espião no Norte de África, pouco se conhece sobre a sua vida até 1584.
Em Abril desse ano, Cervantes deslocou-se à povoação de Esquivias, perto de Toledo, de modo a resolver assuntos relacionados com a morte de Pedro Lainez, seu amigo e poeta quase anónimo. É lá que conhece Catalina de Salazar y Palacios, filha mais velha de uma viúva com o mesmo nome. O marido desta legara apenas dívidas mas Catalina tinha algumas terras em seu nome. Poderá estar aqui a razão para o casamento do autor com a filha da viúva, que teria entre 15 e 18 anos, em Dezembro de 1584. Os primeiros registos do apelido «Cervantes Saavedra» surgem por volta de 1586, em documentos anexos ao casamento.
Pouco antes, em Novembro, o autor tinha já sido pai de uma filha ilegítima, de nome Isabel. A mãe, Ana Franca, era casada com um estalajadeiro de Madrid. A gravidez terá sido ocultada, embora Cervantes tenha perfilhado a criança. Quando Ana Franca morreu, em 1598, este pediu à irmã Magdalena para cuidar da sobrinha.
Em 1587, Cervantes foi nomeado, em Sevilha, responsável pelo fornecimento de matérias-primas à Armada Espanhola. Tornou-se depois cobrador de impostos em 1592, tendo sido preso por «irregularidades financeiras» mas de imediato libertado. Candidatou-se ainda a diversos cargos nas colónias centro-americanas, nomeadamente a Cônsul das Índias em 1590, sem sucesso, embora se encontrem imagens coloniais na sua obra.
Entre 1596 e 1600, viveu sobretudo em Sevilha, tendo depois regressado a Madrid em 1606, onde permaneceu o resto da vida. Nos últimos anos, recebeu algum apoio financeiro de patronos e aderiu a uma ordem franciscana, um gesto habitual na época para os católicos que pretendiam obter reputação espiritual. Segundo as fontes mais credíveis, o autor terá falecido a 22 de Abril de 1616. Os sintomas conhecidos, onde se inclui a sede intensa, remetem para diabetes, uma doença incurável na altura.
Em obediência ao testamento, Cervantes foi enterrado num convento, no centro de Madrid. Os restos mortais desapareceram aquando de obras de restauro em 1673. Em 2014, lançou-se um projecto para a sua recuperação.
Em Janeiro de 2015, Francisco Etxeberria, o antropólogo forense responsável pela busca, anunciou a descoberta de caixões em cujo interior se guardavam fragmentos de ossos e uma inscrição com as letras «M.C.». Com base nos ferimentos que o autor sofreu em Lepanto, foi confirmado que os vestígios pertenciam de facto a Cervantes, à mulher e a outros, tendo o conjunto sido de novo sepultado numa cerimónia pública, em Junho de 2015.
Cervantes alega ter escrito mais de 20 peças de teatro, com destaque para «El trato de Argel», baseada nas experiências em cativeiro. Contudo, os lucros provenientes deste tipo de trabalhos eram de muito curta duração e até Lope de Vega, o mais famoso dramaturgo da época, se via incapaz de viver apenas desses rendimentos. Em 1585, o autor publicou «La Galatea», um romance pastoral vulgar que passou quase despercebido. Embora estivesse prometida uma sequela, esta acabou por não surgir.
Por volta de 1605, Cervantes – aparte estes trabalhos, a que se juntam alguns poemas – não publicava nada há 20 anos. Com a obra Dom Quixote, este procura reconverter um género de literatura bastante apreciado durante um século, declarando abertamente que tinha por objectivo subverter a natureza «empolada e superficial» dos romances de cavalaria. O retrato que faz da vida comum e o uso de uma linguagem popular em contexto literário são técnicas consideradas inovadoras e ganham apoio imediato. Publicada em Janeiro de 1605, a obra é desde logo utilizada em cerimónias de rua, dedicadas ao nascimento de Filipe IV.
Com isto, obteve por fim uma certa estabilidade económica e vários pedidos para escrever uma sequela. No prefácio da obra «Novelas Exemplares», de 1613, o autor promete dedicar-se a isso, mas são diversos os factores que levam a um adiamento, hoje em dia considerado voluntário de modo a garantir um apoio consolidado do editor e do público. A segunda parte é finalmente editada em 1615.
As duas partes da obra apresentam diferentes objectivos embora se notem semelhanças na clareza da linguagem e realismo. A primeira é mais humorística e popular, a segunda é tida por mais sofisticada e complexa, exibindo maior profundidade na caracterização das personagens e nas questões filosóficas.
Acrescente-se ainda um conjunto de trabalhos surgidos entre 1613 e a sua morte, em 1616. Tais incluem «Novelas Exemplares», «Viaje del Parnaso» ou «Os Trabalhos de Persiles e Sigismunda», este último editado já postumamente, em 1617.
Dom Quixote foi traduzido na maioria das línguas, acumulando mais de 700 edições, sugerindo-se que Cervantes, a par de William Shakespeare, devem ser incluídos numa tradição narrativa que inclui autores como Homero, Dante, Defoe, Dickens, Balzac e Joyce.
Romance épico publicado em dois volumes, entre 1605 e 1615. Considerada uma das obras fundadoras da Literatura Ocidental, é com frequência vista como o primeiro romance moderno e um dos melhores jamais escritos. Dom Quixote é ainda um dos livros mais traduzidos no mundo e um dos romances mais vendidos de sempre.
O enredo aborda as aventuras de um membro da baixa nobreza, um fidalgo de La Mancha chamado Alonso Quijano, que ao ler obsessivamente inúmeros romances de cavalaria, acaba por ficar meio louco e decide transformar-se num cavaleiro andante, ressuscitar as artes de cavalaria/cavalheirismo e servir o seu país sob o nome de Dom Quixote de la Mancha. Como seu escudeiro, recruta um modesto trabalhador agrícola, Sancho Pança, que empresta à situação equilíbrio terreno e perspicácia, em contraste com a retórica densa do fidalgo. Na primeira parte da obra, Dom Quixote não analisa o mundo tal como ele é, preferindo imaginar que está mergulhado numa aventura de cavalaria destinada a ficar nos livros de História. Apesar de tudo, a opinião de alguns críticos é a de que ambos se deixam influenciar e modificar entre si, ou seja, assistimos à ascensão de Sancho da realidade para a ilusão e ao declínio de Quixote da ilusão para a realidade.
A obra influenciou grandemente a comunidade literária de então, de que são exemplo as referências em «Os Três Mosqueteiros», de Alexandre Dumas (1844) e «Cyrano de Bergerac», de Edmond Rostand (1897), para além de ter estabelecido o conceito de «quixotesco». Mark Twain considerou que o livro «eliminou para sempre a tola admiração dos leitores pelos romances de cavalaria».
Parte 1
Primeira Campanha
Cervantes, recorrendo à metaficção, elucida que os primeiros capítulos foram retirados dos «arquivos de La Mancha» e os restantes traduzidos de um texto árabe escrito pelo historiador muçulmano Cide Hamete Benengeli.
Alonso Quijano é um fidalgo à beira dos 50 anos de idade, que vive numa parte não identificada da região de La Mancha, na companhia da sobrinha e da governanta. Embora tenha uma vida modesta, passada sobretudo a ler romances de cavalaria, o seu espírito está recheado de fantasias sobre esses ideais. Com o tempo, acaba por ficar meio louco e toma a decisão de se transformar num cavaleiro andante. Para tal, recupera uma velha armadura, assume o nome «Dom Quixote», baptiza o velho cavalo de «Rocinante» e elege Aldonza Lorenzo (uma talhante especialista na salga do porco) como sua amada, passando esta a ser conhecida como Dulcineia de Toboso.
Na sua primeira viagem em busca de aventuras, pára numa estalagem, transformada pela sua imaginação num castelo. Trata as prostitutas que lá encontra como «damas» e exige que o estalajadeiro – por ele considerado o lorde do castelo – faça dele cavaleiro. O outro acede e Quixote dedica as primeiras horas da noite a vigiar a manjedoura de uma cavalariça, vista como uma capela. Envolve-se depois numa escaramuça com muleteiros, que tentam afastá-lo de modo a darem de beber às mulas. Numa cerimónia fictícia, o estalajadeiro faz dele cavaleiro, tentando assim livrar-se dele e ordena-lhe depois que parta.
Quixote encontra mais tarde um criado chamado Andrés, que está amarrado a uma árvore e a ser espancado pelo patrão à conta de um desacordo sobre salários. Quixote obriga o patrão a deter-se e a soltar Andrés, exigindo ainda que o primeiro jure que irá tratar o criado com justiça dali em diante. Contudo, assim que o fidalgo se vai embora, o espancamento recomeça, com o dobro da violência.
Quixote, no seguimento, interage com mercadores provenientes de Toledo. Desafia-os a aceitar que Dulcineia de Toboso é a mulher mais bonita do mundo. Um deles exige ver um retrato, de modo a emitir uma opinião informada. Enraivecido, o fidalgo investe contra eles, mas o cavalo tropeça, provocando a sua queda. Um dos outros agride-o com violência e o grupo abandona-o à beira da estrada. Quixote lá permanece até ser recolhido por um camponês, que o leva para casa.
Durante o período de convalescença, sobrinha, governanta, pároco e barbeiro unem-se e queimam grande parte da biblioteca, sobretudo os romances de cavalaria. Selam aquela divisão da casa e informam o fidalgo que tudo aquilo foi obra de um feiticeiro.
Segunda Campanha
Dom Quixote convida um vizinho, um modesto trabalhador agrícola chamado Sancho Pança, para seu escudeiro, a troco de uma recompensa irrisória. Este concorda e os dois partem de madrugada. As novas aventuras em parceria iniciam-se quando o fidalgo decide investir contra um punhado de moinhos de vento, que este imagina serem perigosos gigantes. Logo depois, encontram dois frades beneditinos e, muito perto, uma dama numa carruagem, sem que exista qualquer ligação entre eles. Quixote considera que os frades são feiticeiros que mantêm a dama prisioneira, portanto derruba um deles do cavalo, sendo depois confrontado por um homem basco, armado, que segue viagem com o grupo. A luta é interrompida quando a dama em causa sai da carruagem e ordena a quem a acompanha uma falsa rendição.
Segue-se um encontro amigável com pastores de cabras e outro, menos amigável, com negociantes vindos de Yangas que transportam póneis da Galiza. Quixote e Sancho regressam então ao «castelo» (estalagem), onde está em curso um desentendimento provocado pelo encontro romântico entre uma criada e um hóspede. O fidalgo explica ao escudeiro que «o castelo está enfeitiçado». Preferem por isso ir embora, mas Quixote, imitando o comportamento dos cavaleiros fictícios, sai sem pagar. Sancho acaba inadvertidamente por ser enrolado num cobertor e atirado ao ar por outro grupo de hóspedes mal comportados, antes de encontrar condições para fugir.
Após mais aventuras que envolvem um cadáver, um capacete lendário (segundo Quixote) e um grupo de escravos das galés, o par vagabundeia até à Serra Morena. É lá que encontram um homem abandonado e praticamente louco chamado Cardénio, que partilha a sua história. Quixote decide imitá-lo e passar a viver como um eremita. Ordena que Sancho entregue uma carta a Dulcineia, mas este acha melhor contactar o barbeiro e o pároco da aldeia. Juntos, elaboram um plano para convencer o fidalgo a regressar a casa, para isso recrutando a ajuda de Doroteia, uma mulher que encontram na floresta. Convencem-na a fazer-se passar por uma tal de princesa Micomicona, uma «dama em apuros».
O plano resulta e Quixote, acompanhado pelos restantes, hospeda-se na estalagem. Este está agora convencido, graças à mentira de Sancho, que Dulcineia quer vê-lo, após ter «recebido a carta». Na estalagem, há diversos enredos que se interligam e concluem. O fidalgo, entretanto, tomado pelo sonambulismo, entra em duelo com alguns odres, que ele imagina serem os gigantes que invadiram o reino da Princesa Micomicona. Um oficial da Santa Irmandade apresenta-se no local com um mandato de prisão em nome de Quixote, pelo facto deste ter libertado os escravos das galés, mas o pároco implora por misericórdia, justificando tal acção com a loucura do fidalgo. O oficial concorda e o outro é aprisionado numa jaula, a caminho de casa, sendo mais uma vez convencido de que se trata de um feitiço. Durante a viagem, enceta um debate com uma figura religiosa de Toledo, que se cruza com eles. O outro confessa o desprezo que sente por romances de cavalaria fantasiosos. Quixote, obviamente, discorda.
Fazem uma pausa para comer e optam por abrir uns minutos a porta da jaula. O fidalgo afasta-se e envolve-se em mais um conflito, desta vez com um pastor de cabras e depois com um grupo de peregrinos. Estes aplicam-lhe outro correctivo até que, de uma vez por todas, o infeliz é levado para casa.
O narrador conclui, afirmando que «encontrou» novos manuscritos com mais aventuras de Quixote.
Parte 2
Apesar de hoje em dia estarmos a falar de uma obra num único volume, na época Dom Quixote foi editado em dois volumes, com um intervalo de uma década. Naquele que é considerado um dos primeiros exemplos de metaficção, existem personagens na segunda parte que, «teoricamente», leram a primeira parte e estão por isso familiarizados com o enredo e as especificidades dos protagonistas.
Terceira Campanha
Dom Quixote e Sancho metem-se a caminho de Toboso, ao encontro de Dulcineia, apesar do segundo estar consciente de que enganou o fidalgo acerca do assunto. Chegam ao amanhecer, mas optam por entrar na cidade apenas ao fim do dia. Entretanto, Quixote deixa-se influenciar por um mau pressentimento e ambos decidem partir apressadamente. Sancho é então incumbido de regressar sozinho e contactar Dulcineia, como representante do fidalgo. Este beneficia de um golpe de sorte quando encontra, em sentido contrário, um trio de camponesas. Informa então Quixote que estas são nada menos do que Dulcineia e respectivas damas de companhia, belas como sempre. O fidalgo observa apenas as camponesas, mas Sancho convence-o de que este foi, uma vez mais, vítima de um qualquer feitiço.
Um duque e uma duquesa cruzam-se com a parelha. Estes nobres leram a Parte Um do enredo e são adeptos dos romances de cavalaria. Tal motiva-os a inventar, por graça, um cenário pleno de aventuras e ratoeiras. Numa delas, procuram convencer os outros dois de que a única forma de libertarem Dulcineia do feitiço é Sancho infligir a si próprio 3300 chicotadas. O escudeiro, obviamente, discorda da ideia, dando origem a uma querela com o fidalgo. Com o auxílio do duque, Sancho acaba por receber um título fictício e demonstra que poderia transformar-se num governante eficaz e sensato, mas tudo redunda em chacota e humilhação. Com o passar do tempo, Quixote vai admitindo um regresso à normalidade.
Antes, porém, entra em duelo com o Cavaleiro da Lua Branca (um jovem conterrâneo que já antes fingira ser o Cavaleiro dos Espelhos) numa praia de Barcelona. Derrotado, submete-se às regras oficiais da cavalaria: o vencido terá de submeter-se à vontade do vencedor. É-lhe ordenado que baixe as armas e se abstenha de qualquer acção de cavalaria durante um ano, prazo considerado aceitável por familiares e amigos para que o fidalgo se cure definitivamente da sua condição delirante.
No regresso a casa, Quixote e Sancho imaginam uma solução final para Dulcineia. Já na aldeia, o fidalgo confessa a intenção de se retirar para o campo e transformar-se num pastor, mas a governanta pede-lhe que não abandone o lar. Pouco depois, tomba na cama com uma doença grave, mas consegue recuperar, anunciando então ter «despertado de um sonho» e regressado à condição simples de Alonso Quijano.
Sancho ainda tenta que ele recupere o antigo ânimo e o interesse amoroso em Dulcineia, mas o outro rejeita por completo a ideia e penitencia-se por qualquer erro que possa ter cometido. Faz um testamento, no qual declara que a sobrinha será deserdada caso decida casar-se com alguém que leia romances de cavalaria.
Após a morte de Quijano, o autor faz questão de deixar claro que não existem aventuras posteriores e quaisquer livros futuros sobre Quixote serão inúteis.
Significados
O crítico Harold Bloom afirma que se trata do primeiro romance moderno e que nele, o protagonista entra em conflito com o princípio da realidade freudiano, que defende a aceitação da inevitabilidade da morte. Bloom encontra múltiplos significados no texto, destacando um dos mais recorrentes: a necessidade do sofrimento humano.
Outros alegam que o livro pretende convocar as emoções do leitor através de constantes mudanças no rumo da narrativa, sempre à beira de um momento trágico ou cómico.
Contexto Histórico
Dom Quixote é considerado um reflexo da sociedade espanhola contemporânea de Cervantes. O prestígio da nação enquanto potência mundial estava em declínio e os cofres estavam vazios, à conta das múltiplas e onerosas campanhas militares. O domínio cultural estava também em queda, uma vez que a Reforma Protestante colocara em alerta a Igreja Católica, que reagira criando a Inquisição. Por outro lado, o estatuto do fidalgo perdia relevância e a sociedade espanhola considerava agora os ideais de cavalaria algo de obsoleto.









