A Morte do Riso

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Foi em 2015 que a estrela de cinema Robin Williams foi encontrada morta no quarto. As primeiras informações apontaram desde logo para o suicídio, primeiro na forma tentada com um canivete, finalmente bem-sucedida por enforcamento. A causa oficial da morte foi estabelecida como sendo asfixia.

Sucederam-se capas e contracapas, com todos a desenterrar os pormenores mais escabrosos. Começou por se falar em depressão, logo a seguir veio a lume a longa dependência do álcool e cocaína, por fim as questões financeiras e as dívidas incomportáveis que assolavam o actor. Qualquer um destes factores, isolado, tem o poder de levar ao desespero e ao suicídio, portanto quando se juntam, parece difícil descobrir outra saída.

Comentou-se que, aos 63 anos, a melhor fase da carreira de Robin já tinha passado e que os grandes papéis tinham desaparecido. Outros salientaram que Williams se via obrigado a aceitar ofertas de trabalho pouco condizentes com o seu estatuto, como forma de amenizar o buraco financeiro.

Seja como for, não são estas as questões que primeiro me saltam à vista.

O que me faz ponderar em mais uma história amarga no meio artístico, é precisamente o carácter dual que envolve todas estas vidas. Williams acabou por se tornar noutro cliché. A estafada versão do menino tímido e com excesso de peso que passava os dias fechado no quarto, a brincar e a inventar histórias, isolado do mundo e deixando que as primeiras sementes da carência afectiva germinassem. A partir daqui, a natural fuga à carreira tradicional para ingressar em Teatro, que de imediato o empurrou para o palco da stand up comedy.

O que por vezes escapa à percepção é que todos estes magos do riso, estes comediantes que carecem desesperadamente da gargalhada e da aprovação do mundo, armazenam nas zonas mais obscuras uma tristeza e um drama existencial infinitos. Era assim com Charlie Chaplin, com Lenny Bruce, com Chris Farley, com tantos outros.

Quanto a Williams, bastava prestarmos atenção aos seus olhos, enquanto o resto do corpo se contorcia em macacadas e o discurso disparava como uma metralhadora. Era um olhar, uma alma, em contra-ciclo. Toda a gargalhada que as plateias lhe dispensavam não era suficiente para encher aquele vazio.

A Robin faltou-lhe o escape que pavimentou o caminho de Bill Hicks ou George Carlin.

Hicks era o tipo que não dava um tostão furado por nada. O tipo que simplesmente não queria saber. Se nos seus espectáculos de stand up provocava o riso, não era à custa de contorcionismos e vozes em falsete. Não me parece tão-pouco que a sua primeira intenção fosse fazer alguém rir. O seu único objectivo era dizer o que tinha a dizer, transmitir uma mensagem. Depois, cada um que lidasse com isso à sua maneira. Muitos escolhiam o riso, da mesma forma que somos capazes de rir de nós mesmos e da Humanidade em geral, da mesma maneira que uma tragédia pode ser irónica, patética e por isso risível. Contudo, outros odiavam-no, insultavam-no, tentavam agredi-lo. Os espectáculos de Hicks eram tudo menos um serão em família, onde todos se reúnem para gargalhar com as piadas fáceis, podia no máximo ser a reunião de uma família disfuncional e violenta. Hicks não queria saber. Deveras. Quando morreu com trinta e poucos anos, absolutamente consumido por um cancro, continuava a fumar. Continuava a aparecer em entrevistas, cadavérico, de óculos e barba rala, a contorcer-se com dores nas cadeiras mas até ao fim pronto para uma boa polémica, alertar, denunciar e sim, fazer rir.

Carlin começou por seguir o caminho tradicional, a querer imitar precisamente Lenny Bruce e outros que sentiam a necessidade de «entreter». Durante anos construiu textos em redor das diferenças entre cães e gatos, ou «os sete palavrões que não se podem dizer na televisão». Poderia ter redundado exactamente no mesmo tipo de desespero de Williams, condenado a tentar fazer rir de forma vulgar todo um conjunto de pessoas perfeitamente indiferentes ao seu terramoto interno. Felizmente para ele e para nós, no final dos anos 70 do século XX, Carlin fez uma curva apertada na direcção certa e começou a aparecer nos clubes alternativos lotados com audiências 20 anos mais novas do que o seu público-alvo anterior, com rotinas que abordavam (e criticavam cruelmente) temas fracturantes como a Religião, o Imperialismo, o Consumismo, a Política, o Marketing e de uma forma geral todos os vícios da sociedade ocidental, a própria filosofia de vida do homem moderno. Ter esta plataforma, que mais uma vez provocava o riso de forma casual e não obcecada, salvou-o, permitindo-lhe continuar até depois dos 80 anos a fazer pouco dele mesmo, brincando com a velhice, morte e professando as vantagens de desenvolver a doença de Alzheimer.

Robin Williams nunca conseguiu (ou não quis) seguir este caminho, nem mesmo quando o aconselharam a aceitar papéis mais negros (o que apenas fez em «Insomnia»). E mesmo nesse filme, estamos sempre à espera que de cada vez que o assassino por ele representado se vê em apuros à conta de Al Pacino, comece a dançar um mambo ao melhor estilo de Jim Carrey – outro que nunca foi levado a sério, porque tem medo de se levar a sério.

Williams confessou até ao fim a sua absoluta necessidade de ser amado, coisa que ele só conseguia conceber através do riso descontrolado da audiência. E então era vê-lo, estimulado por anos e anos de cocaína, a saltar pelo palco como um homem-criança.

Quando as luzes começaram a apagar-se e Robin se viu envolvido nos piores pesadelos do mundo real, o destino estava traçado.

Tornou-se um planeta demasiado cinzento para ele.

 

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