Walt Whitman

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Viveu entre 1819 e 1892. Ficou conhecido como poeta, ensaísta e jornalista. Tido como Humanista, contribuiu para a transição do Transcendentalismo para o Realismo, tendo incorporado as duas correntes nos seus trabalhos. Whitman é considerado um dos poetas canónicos americanos, frequentemente tido como o «pai do verso livre». O seu trabalho foi muito controverso, à época, em especial a sua colectânea de poemas Folhas de Erva, considerada imoral devido ao teor sexual explícito.

Nascido em Huntington, Long Island, Walt trabalhou como jornalista, professor, escriturário e até enfermeiro voluntário durante a Guerra Civil Americana – para além de continuar a publicar a sua poesia. Nos primórdios da carreira, escreveu também um romance, «Franklin Evans» (1842). A sua obra mais famosa e importante, Folhas de Erva, teve a sua primeira edição em 1855, em regime de auto-publicação. Esta é vista como uma tentativa de tornar acessível ao grande público um clássico da literatura americana, tendo Whitman introduzido constantes melhoramentos e novas passagens até ao fim da vida. Depois de uma trombose, já com idade avançada, mudou-se para Camden, New Jersey, onde a saúde continuou a deteriorar-se.

A sua sexualidade foi algo sempre tão debatido quanto a sua poesia. Apesar de ainda hoje não existirem consensos, o autor é visto como homossexual ou pelo menos bissexual, sem contudo ter sido provado o seu real envolvimento com outros homens.

Quando morreu, aos 72 anos, o seu funeral foi extremamente participado.

 

Os pais professavam a filosofia Quaker, tendo Walt sido o segundo de nove filhos. Aos quatro anos mudou-se para Brooklyn, trocando frequentemente de casa devido aos problemas financeiros dos progenitores. Tal fez com que guardasse da infância a memória de um período agitado e infeliz.

Aos onze anos, concluiu a escolaridade obrigatória. Começou então em busca de emprego, de modo a auxiliar a família, tendo sido moço de recados de dois advogados e mais tarde aprendiz de tipógrafo num jornal de Long Island. Foi aí que reuniu os conhecimentos necessários sobre impressão e tipografia, havendo também quem sugira que Walt já escrevia alguns artigos de pouca importância para o jornal.

No Verão seguinte, trabalha para outra publicação, desta vez de Brooklyn. A família acabaria por regressar às origens, mas ele deixa-se ficar e consegue emprego num terceiro jornal. Nesta fase, torna-se frequentador assíduo da biblioteca local, priva com grupos de pensadores e descobre o interesse pelo Teatro, tendo ainda começado a publicar os primeiros poemas anonimamente. Com 16 anos, muda-se para Nova Iorque, mas enfrenta dificuldades para descobrir trabalho, muito devido a uma crise económica que surge nessa altura. Acaba por regressar para junto da família, que agora reside em Hempstead, Long Island, decidindo converter-se num professor ocasional em diversas escolas até à Primavera de 1838, embora a função lhe desagrade.

Após este período, Whitman volta a Huntington, em Nova Iorque, com o objectivo de fundar o seu próprio jornal. Acumula as funções de editor, director, jornalista e distribuidor, sendo até capaz de fazer entregas ao domicílio. Contudo, após dez meses, opta por vender a empresa, em 1839. No Verão desse ano, encontra trabalho como tipógrafo em Queens, mas desiste pouco depois, tendo feito nova tentativa no ensino entre 1840 e 1841. Por esta altura, publica um conjunto de dez artigos intitulados «Sun-Down Papers—From the Desk of a Schoolmaster», em três jornais diferentes. Nestes ensaios, cria uma espécie de alter-ego, técnica que iria utilizar com frequência ao longo da carreira.

Volta a mudar-se para Nova Iorque, em Maio, e de novo mergulha em pequenos trabalhos, sobretudo na Imprensa, nomeadamente como editor de jornais obscuros.

Aproveita para ir publicando prosa e poesia, tendo ainda tempo para se incompatibilizar com diversos superiores hierárquicos nos diferentes jornais, devido a posições políticas.

 

Folhas de Erva

Por fim, anuncia que após anos de labuta para obter «os trocos do costume», está decidido a tornar-se poeta. Começa por fazer algumas experiências com géneros considerados populares, na altura, mas a partir de 1850 inicia a obra que mais tarde ficará conhecida como Folhas de Erva, livro que sempre considerou inacabado. Whitman tinha como objectivo escrever um inconfundível clássico americano, tendo recorrido à técnica do «verso livre», ritmo que admite ter ido buscar à Bíblia. Em meados de 1855, surpreende os irmãos com a primeira edição – já impressa – do famoso livro. Um deles, George, não considerou a obra «digna de leitura».

Whitman financiou ele próprio a primeira edição da obra, tendo recorrido aos serviços de uma gráfica local. Esta imprimiu as cópias pedidas nos intervalos do expediente, num total de 795. O nome do autor nunca aparece na capa, sendo preciso ler 500 linhas até se descobrir a seguinte passagem:

Walt Whitman, an American, one of the roughs, a kosmos, disorderly, fleshly, and sensual, no sentimentalist, no stander above men or women or apart from them, no more modest than immodest.

O texto principal é precedido de um prefácio em prosa com 827 linhas. Os doze poemas seguintes, sem título, perfazem 2315 linhas, sendo que destas, 1336 compõem o primeiro poema. O maior elogio à obra chegou de Ralph Waldo Emerson, que enviou uma elogiosa carta de cinco páginas ao autor e recomendou com entusiasmo o livro aos amigos. A edição acabou por obter ampla distribuição e despertou interesse significativo, muito devido à aprovação de Emerson, ainda que por vezes alvo de críticas devido à natureza dita «obscena» dos poemas. Uma das reprovações mais violentas incluiu uma carta a Emerson, onde se apelidava o livro de «vulgar, profano e obsceno» e o autor era tido como um «idiota pretensioso». Poucos dias depois da publicação da obra, morre o pai de Whitman, com a idade de 65 anos.

Nos meses seguintes, a crítica começou a focar-se cada vez mais no (pretenso) carácter sexualmente ofensivo da obra. Apesar da segunda edição estar já impressa e pronta a expedir, o editor fica a ponto de não a libertar. Acaba contudo por sair, com 20 novos poemas, no Verão de 1856. O texto é depois revisto e reeditado em 1860 e de novo em 1867, tendo assim acontecido diversas vezes ao longo da vida do autor, que acabou por ir conquistando admiradores reputados entre os pares.

Porém, ao tempo da primeira edição, Whitman debateu-se com dificuldades financeiras e viu-se forçado a trabalhar de novo como jornalista, corria o ano de 1857. Estava encarregue de rever conteúdos, fazer crítica literária e até escrever editoriais. Acabou por abandonar de novo, em 1859, não tendo ficado claro se foi despedido ou se saiu por sua iniciativa. Apesar de manter uma profusão de diários e registos pessoais, sabe-se pouco da sua vida nesta fase.

 

Guerra Civil

Com o advento da Guerra Civil Americana, publica o poema «Beat! Beat! Drums!» com o intuito de servir de panfleto à causa do Norte. O irmão George juntara-se ao exército da União e envia a Walt diversas cartas emocionadas, repletas de detalhes vívidos da frente de batalha. Em Dezembro de 1862, uma lista de mortos e feridos inclui um tal de «G. W.», e o autor teme tratar-se do seu irmão George. Parte de imediato para o Sul, de modo a encontrá-lo:

Andando dia e noite, por ser incapaz de montar a cavalo, procurei informação, tentei por todos os meios obter os favores de gente importante.

Acaba por encontrar o irmão vivo, apenas com uma ferida superficial no rosto. Contudo, profundamente chocado com as visões de soldados feridos e amputados, parte para Washington pouco depois, decidido a nunca mais voltar a Nova Iorque.

Na capital, um amigo ajuda-o a arranjar trabalho temporário, o que lhe deixa tempo livre para ser enfermeiro voluntário nos hospitais do Exército. O relato de tal experiência mereceu o título de «The Great Army of the Sick», tendo sido publicado num jornal de Nova Iorque, em 1863.

O final de 1864 foi penoso. George é feito prisioneiro pelo inimigo e outro irmão, Andrew, morre de tuberculose acelerada pelo alcoolismo. Na sequência disto, um terceiro irmão tem de ser internado num hospício. A única boa notícia para Whitman é a obtenção de um trabalho bem remunerado como escriturário no Departamento do Interior, devido à influência de um amigo, também ele poeta. Um mês depois, já em 1865, George é libertado, sendo-lhe concedida uma pensão por motivos de saúde. Walt é promovido e aumentado.

Contudo, em Junho desse ano, Whitman acaba por ser despedido, sendo colocada a hipótese de os motivos se prenderem com a sua polémica obra, Folhas de Erva. O amigo que lhe conseguira a posição protesta e consegue que Walt seja admitido noutro cargo, mas não contente com isso, lança-se na feitura de um panfleto sobre o autor, exageradamente elogioso e retratando-o como um patriota de mão-cheia, o que faz maravilhas pela sua popularidade. A cereja no topo do bolo é a publicação do poema «O Captain! My Captain!», um trabalho relativamente banal sobre a morte de Abraham Lincoln, mas o único texto a figurar numa antologia durante o tempo de vida de Whitman.

Em Agosto de 1866, tira um mês de férias para preparar nova edição de Folhas de Erva, que seria publicada apenas em 1867, mais uma vez devido a dificuldades com editores. Um ano depois, um novo livro de poemas é publicado em Inglaterra com a ajuda de um amigo. Apesar da fama internacional do autor crescer, este permanece nas funções de escriturário.

Depois de sofrer uma trombose paralisante nos inícios de 1873, Whitman aceita a sugestão de se mudar para Washington, para casa do irmão. A mãe já lá estava, também ela doente, acabando por morrer pouco depois. Tudo isto se revela doloroso para Walt, que cai numa depressão. Contudo, arranja ainda forças para comprar uma nova casa e depurar por mais três vezes a sua obra Folhas de Erva.

Conhece Óscar Wilde e outros escritores.

A doença acaba por se revelar mais forte e o autor passa muito tempo de cama. Entretanto, conhece uma viúva de nome Mary Oakes Davis, que aceita mudar-se para a sua casa como governanta em troca de alojamento gratuito. Este auxílio permite o surgimento de novas versões do livro em 1876, 1881 e 1889.

Em finais de 1891, começa a preparar a versão definitiva, alcunhada «Edição Moribunda». Adivinhando a proximidade da morte, Whitman encomenda a construção de um mausoléu em granito, em forma de habitação e acompanha a obra de perto. Na última semana de vida, fica demasiado fraco para levantar os talheres, confessando:

Sofro permanentemente. Não encontro alívio ou escapatória: monotonia, monotonia, monotonia, sempre em dor.

Morre em Março de 1892. A autópsia revela uma pneumonia associada a bronquite.

Tendo-se organizado um velório público, o seu corpo é visitado por mais de mil pessoas, durante três horas, que praticamente soterram o caixão de flores.

É enterrado quatro dias depois, o que dá origem a nova cerimónia, com discursos, música e homenagens.

 

Temas

A obra de Whitman quebrou barreiras na Poesia e mesmo na Literatura em geral. Fez uso de imagens e simbologia invulgares, escrevendo sem pudores sobre Morte e Sexualidade. É considerado por muitos o «pai do verso livre», apesar de não ter sido o primeiro a utilizá-lo.

No prefácio da edição de 1855 de Folhas de Erva, escreve o autor:

A relevância de um poeta descobre-se no momento em que a sua pátria o absorve com a mesma afeição com que este absorveu a pátria.


Folhas-de-ErvaColectânea de poemas, teve a sua primeira edição em 1855. Whitman passou grande parte da vida a escrever e a depurar a obra, regressando constantemente às suas páginas até aos últimos dias de vida. Tal atitude deu origem a múltiplas versões ao longo de 40 anos, tendo nascido enquanto pequena colectânea com 12 poemas e culminado numa obra final com mais de 400. 

Os poemas presentes estão relacionados entre si de forma muito ligeira, sendo cada um deles uma celebração da filosofia de vida do autor. É uma obra que se torna relevante devido ao debate que gera sobre o prazer da sensualidade, numa época em que tais coisas eram vistas como imorais. Enquanto a maioria da poesia, sobretudo a inglesa, se refugiava em simbolismos, alegorias ou meditações espirituais e religiosas, Folhas de Erva (em especial na primeira edição) exalta o corpo e o mundo material. A poesia de Whitman faz a apologia da Natureza e do papel do Homem na mesma, sem nunca subalternizar o poder da mente e do espírito. Eleva a existência humana, em todas as suas manifestações, considerando-as dignas de elogio.

Exceptuando um, nenhum dos poemas obedece às regras canónicas de métrica e rima.

A obra tornou-se altamente controversa na sua época, devido às metáforas sexualmente explícitas, tendo o autor sofrido variadas críticas dos seus pares. Com o tempo, porém, o livro penetrou na cultura popular e passou a ser reconhecido como um dos trabalhos centrais da poesia americana.

A ênfase colocada na cultura americana favoreceu a intenção do autor em criar um poema épico acima de qualquer suspeita, comparável aos trabalhos de Homero. Escrito num período de intensa urbanização da sociedade americana, a obra responde ao impacto que tal fenómeno criou nas massas. Ainda assim, a presença no título da palavra «Erva» aponta para uma visão pastoral e de idealismo rural.

Whitman editou, reviu e republicou o seu trabalho inúmeras vezes, tendo mudado o foco e natureza das ideias ao longo dos anos.

 

É possível identificar três períodos:

 – Amor e Liberdade (1855-1859);

 – Melancolia (1859-1865);

 – Imortalidade (1866 em diante).

 

O poeta tornou-se cada vez mais conservador com a idade, abraçando a ideia de que a noção de Lei tinha de se sobrepor à ideia de Liberdade. Também a sua visão materialista acaba por dar lugar a um conceito mais espiritual, cedendo à opinião de que a vida não tinha qualquer sentido fora de um contexto divino.

 

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