Henry James

GetResourceViveu entre 1843 e 1916. Nasceu nos Estados Unidos mas emigrou para a Europa muito novo, tendo mesmo adquirido a cidadania britânica nos últimos anos de vida. É visto como um autor de transição entre o Realismo e o Modernismo, sendo considerado um dos grandes romancistas da Língua Inglesa.

As suas obras mais famosas abordam questões sociais e relações entre emigrantes americanos, cidadãos ingleses e outros europeus – «O Retrato de uma Senhora», «Os Embaixadores» e «The Wings of the Dove». Os derradeiros trabalhos foram de cariz mais experimental. Para descrever os estados de alma e dinâmicas sociais das suas personagens o autor adoptou com frequência um estilo único, marcado pela existência de várias camadas psicológicas. Por esta razão, os seus últimos livros são muitas vezes comparados a pinturas impressionistas.

Para além das obras de ficção, este publicou ainda crítica literária, relatos de viagens, biografia, autobiografia e teatro. Foi nomeado para o Prémio Nobel da Literatura em 1911, 1912 e 1916.

 

Henry James nasceu em Nova Iorque, em 1843. O pai era conferencista e filósofo, dono de uma cultura apreciável. A mãe provinha de uma família abastada. Teve quatro irmãos (três rapazes e uma rapariga).

A infância foi passada em diferentes residências de Nova Iorque. O pai fez questão de lhe oferecer uma educação ecléctica, apesar da primazia dada às Ciências e Filosofia, o que fez com que James fugisse à tradicional formação em Latim e Clássicos Gregos. Entre 1855 e 1860, viajou com a família até Londres, Paris, Genebra, Boulogne-sur-Mer e Rhode Island, ao sabor dos interesses e negócios do pai, regressando a casa quando o dinheiro começou a escassear. Henry começou por ser ensinado por tutores, tendo depois frequentado brevemente algumas escolas durante as viagens pela Europa. A estadia mais prolongada foi em França, o que lhe despertou o interesse pela língua e pelo país, tendo-se tornado fluente em francês. Apesar de lidar com problemas de expressão (gaguez) controlava a situação ao falar de forma pausada e simples.

Em 1860, a família regressou a casa. James tornou-se então amigo de um pintor, que o introduziu na Literatura Francesa, sobretudo Balzac. O autor irá mais tarde considerá-lo «o grande mestre».

No Outono seguinte, teve um acidente, lesionando as costas ao combater um fogo. Foi esse problema, nunca debelado, que o fez reprovar no serviço militar e por conseguinte escapar à Guerra Civil Americana.

Em 1864, a família muda-se para Boston, Massachusetts. Henry tentara dois anos antes seguir a carreira de Direito, mas rapidamente percebeu que não era o seu meio. Acabou por assumir em definitivo o interesse na Literatura, tendo conseguido fazer algumas amizades entre autores e críticos, situação que o ajudou na futura carreira de escritor.

O seu primeiro texto profissional foi uma crítica teatral, publicada em 1863. Um ano depois, consegue editar o seu primeiro conto. Os primeiros lucros, porém, surgem somente com a publicação num jornal de uma crítica literária aos romances de Sir Walter Scott. Começa depois a escrever ficção e não-ficção no jornal de um amigo. Por fim, em 1870, publica o primeiro romance.

Ao encetar uma viagem de alguns meses pela Europa, em 1869-70, trava conhecimento com Charles Dickens e George Eliot, entre outros. Impressiona-se ao chegar a Roma:

Aqui estou, na Cidade Eterna. Por fim – e pela primeira vez – sinto-me vivo.

Tenta sustentar-se trabalhando como escritor independente em Roma e assegura ainda uma posição enquanto correspondente para Paris de um jornal americano, pertencente a um amigo. Apesar dos esforços, tais planos não resultam e acaba por regressar a Nova Iorque.

Entre 1874 e 1875 publica mais três trabalhos, assumindo agora influências de Hawthorne.

Entretanto, estabelecera-se em Londres. É lá que diversos editores lhe abrem portas, situação que lhe vale novas publicações. O seu público nesta fase é feito sobretudo de leitoras de classe média, o que lhe dificulta sobremaneira o objectivo de criar um trabalho literário sério, livre das regras e normas consideradas «apropriadas» para esse mercado.

Vive em quartos alugados, mas consegue fazer-se membro de clubes de cavalheiros, que disponibilizam bibliotecas e lhe permitem socializar com amigos masculinos. É assim que dá os primeiros passos na «sociedade britânica».

Chegado o Outono de 1875, muda-se para Paris. Se exceptuarmos duas viagens que fez aos Estados Unidos, pode dizer-se que passará o resto da sua vida – os 40 anos seguintes – na Europa. Em Paris conhece Zola, Alphonse Daudet, Maupassant e Turgenev. Acaba no entanto por ficar apenas um ano, antes de regressar a Londres.

Em Inglaterra é apresentado à nata política e cultural do país. Estabelece-se como escritor prolífico, publicando mais cinco obras entre 1877 e 1879. Torna-se famoso nos dois lados do Atlântico, sobretudo depois de criar personagens femininas cujo comportamento foge às normas de etiqueta europeias existentes na altura. Dá início à sua primeira grande obra, «O Retrato de uma Senhora», que seria publicada em 1881.

Ainda em 1877, visita uma abadia em Shropshire, onde mora um amigo, tendo ficado bastante impressionado com o local e ambiente circundante. Os lagos que rodeiam a abadia, por exemplo, são tidos como fonte de inspiração para o cenário de A Volta do Parafuso.

Apesar de viver em Londres, James continuou a seguir o trabalho dos Realistas Franceses, em especial Émile Zola e esse movimento literário permaneceu a sua influência mais forte nos anos seguintes. Com o tempo, abandonou a sombra de Hawthorne, gravitando na direcção de George Eliot e Ivan Turgenev. Entre 1879 e 1882 publica quatro livros, incluindo o mencionado «O Retrato de uma Senhora». Faz uma viagem aos Estados Unidos entre 1882 e 1883, mas regressa de novo a Londres.

O período entre 1881 e 1883 é marcado por diversos infortúnios. Em 1881, perde a mãe e o pai no intervalo de poucos meses. Segue-se um dos irmãos e um velho amigo da família em 1882 e por fim um dos amigos escritores – Turgenev – em 1883.

Em 1884 regressa a Paris, onde reencontra Zola, Daudet e Goncourt. Em 1886, publica duas obras bastante influenciadas por esta corrente «realista», mas obtém pouco sucesso comercial e literário. Acaba por admitir que o episódio lhe prejudica a carreira, uma vez que:

reduziu a minha motivação e a procura pelas minhas obras, quase ao nível da insignificância.

Torna-se amigo de Robert Louis Stevenson, George du Maurier e outros. Escreve um terceiro romance.

Por fim, a prolongada ausência de sucesso literário e comercial levam-no a tentar a dramaturgia. Perante o diminuto sucesso também nesta área, torna-se um homem desesperado e até atormentado com pensamentos suicidas.

Contudo, não se pode falar num fracasso total ao nível da escrita para Teatro, já que ao entrar na derradeira fase da carreira, descobriu por fim o modo certo de conciliar as técnicas do texto dramático e as normas do romance.

Nos anos seguintes, volta a viajar pela Europa. Passa um longo período em Itália, em 1887 e publica dois novos romances.

Dez anos depois, regressa a Inglaterra e escreve A Volta do Parafuso.

Entre 1902 e 1904 completa mais três obras, voltando depois aos Estados Unidos para uma sessão de conferências sobre Balzac. Perde outro irmão em 1910.

Em 1913 conclui as autobiografias, passando a dedicar-se ao tema da guerra com o advento da Primeira Guerra Mundial, em 1914.

Adquire a nacionalidade britânica em 1915 e acaba por falecer no ano seguinte, em Londres. As cinzas estão enterradas no país natal, em Massachusetts.

 

Obra

Henry James é um dos principais autores da chamada «Literatura Transatlântica». As suas obras mesclam com frequência personagens da «velha Europa» (vista como uma civilização cativante e secular, ainda que por vezes corrupta) e do «Novo Mundo» (com habitantes quase sempre empreendedores e honestos mas algo rudes, símbolos de uma nova liberdade e firmeza de carácter associadas ao imaginário norte-americano). O autor explora o choque destas duas culturas e das suas diferentes personalidades através de enredos que exemplificam as diversas lutas de poder. Os protagonistas são quase sempre jovens mulheres americanas que se debatem com situações de opressão ou abuso.

Segundo uma secretária:

Quando (o autor) saía do espaço protegido do seu estúdio, (…) tudo o que via era um planeta atormentado, no qual uma imensidão de predadores crava incessantemente as garras na carne flácida dos condenados e dos indefesos… os seus romances expõem sempre essa crueldade, revelando-se um apelo apaixonado e reiterado em nome do desenvolvimento sem amarras, livre da ignorância bárbara e irresponsável.

A importância dada aos aspectos da consciência na construção das suas personagens principais, visível sobretudo nos derradeiros textos, acaba por ser premonitório acerca do rumo seguido pela ficção no séc. XX. É possível que o autor tenha servido de influência a escritores conhecidos pela sua técnica de «fluxo de consciência», como Virginia Woolf, que era não só leitora dos seus livros, como também autora de ensaios sobre a obra de Henry James. Estas características, muito presentes nos últimos anos, não agradaram a todos. H. G. Wells, por exemplo, descreveu o autor como:

Um hipopótamo a tentar freneticamente apanhar uma ervilha escondida num recanto da sua jaula.

Essencial para o seu trabalho foi também a condição de expatriado e de certa forma de alienado, a partir do momento em que passou a viver na Europa. Originário da classe média e da província americanas – analisar isto a partir do ponto de vista das elites europeias – foi obrigado a subir a pulso em todos os aspectos.

Devido a isso, o seu panorama ficcional abrange a totalidade do espectro social – da classe trabalhadora à aristocracia – focando-se sobretudo nos esforços feitos por americanos de classe média para sobreviver nas capitais europeias. O autor chega a confessar que as melhores ideias lhe surgiram quase sempre a partir de conversas tidas em jantares festivos ou em fins-de semana no campo. Por outro lado, faltava-lhe a experiência das melhores escolas, universidades e mesmo do serviço militar, sectores considerados essenciais na sociedade da época. Acrescente-se que os seus gostos eram por vezes tidos – para os padrões vigentes – como demasiado femininos, o que aumentava o preconceito, surgindo mesmo alguns rumores de homossexualidade.

É também possível interpretar muitos dos trabalhos do autor enquanto experiências psicológicas. Este descreve o processo de criação de uma história como:

um compatriota americano, resistente mas em dificuldades, traído e prejudicado, sempre focado na sua capacidade de redenção.

«O Retrato de uma Senhora» pode ser encarado enquanto experiência social, na qual se procura descobrir o que acontece quando uma mulher jovem e ingénua enriquece de forma repentina. É comum ver as suas personagens lidarem com futuros alternativos e diversas possibilidades de vida, seja na existência de «duplos» que alternam entre vidas «americanas» e «inglesas» ou na passagem do tempo, onde um personagem envelhecido contempla com carinho um momento crucial da sua vida enquanto jovem.


A-Volta-no-Parafuso

Novela publicada pela primeira vez em 1898, em Londres, é considerada uma história de terror com características góticas.

Devido à sua originalidade, a obra tornou-se uma das favoritas de uma certa corrente de académicos, tendo provocado diferentes interpretações, muitas vezes contraditórias. Grande parte dos críticos concentrou-se em descobrir a natureza do «mal» aludido pelo autor ao longo da narrativa, mas há quem defenda que o brilhantismo do livro está precisamente na sua capacidade de criar um sentimento genuíno de confusão e ansiedade no leitor.

 

Enredo

Um narrador anónimo permanece atento enquanto Douglas, um amigo, lê um manuscrito redigido por uma antiga tutora, já falecida, mas que este alega ter conhecido. O texto revela como esta foi contratada por um homem, de súbito responsável pelos jovens sobrinhos órfãos. Vivem sobretudo em Londres, mas possuem também uma casa de campo. O indivíduo revela pouco interesse em educar as crianças.

O rapaz, de nome Miles, frequenta um colégio interno, enquanto a sua irmã, Flora, vive na casa de campo, em Essex. Está de momento à guarda de uma tal de senhora Grose, a governanta. O tio das crianças decide conceder à nova tutora a total responsabilidade pela educação dos sobrinhos, fazendo questão de esclarecer que não pretende ser incomodado com informações de qualquer espécie. Esta muda-se em permanência para a residência e dá início às funções.

Miles regressa quase de imediato do colégio, para passar as férias de Verão, no seguimento de uma carta por parte do director a informar da sua expulsão. A criança recusa abordar o assunto e a nova tutora hesita em esclarecer a questão. Receia em parte que o episódio esteja manchado por um qualquer segredo perturbador, mas por outro lado simpatiza demasiado com o rapazinho e opta por não insistir. Pouco depois, junto aos limites da propriedade, esta nota a presença de um casal que não reconhece. Tais vultos deslocam-se livremente, sem nunca serem incomodados ou sequer vistos pelos restantes membros da família, pelo que a tutora desconfia estar na presença de uma espécie de fantasmas. Entretanto, é informada pela senhora Grose que a sua antecessora no cargo, Jessel, teve um envolvimento amoroso com um empregado de nome Peter Quint. Aparentemente estes, antes de falecerem, passavam muito tempo com Flora e Miles e a perturbação da tutora aumenta quando se convence que as duas crianças estão plenamente conscientes da presença dos espíritos.

Mais tarde, sem autorização, Flora abandona a casa enquanto Miles toca música para entreter a tutora. Esta acaba por notar a ausência da menina e pede ajuda à senhora Grose para a procurar. Encontram-na num edifício nas margens do lago e a tutora desconfia que Flora esteve a falar com o fantasma de Jessel. Quando se vê pressionada sobre o assunto, a menina nega tudo e recusa voltar a ver a nova tutora. Esta sugere então à senhora Grose que leve Flora para junto do tio, deixando-a apenas responsável por Miles, que por fim confessa nessa noite as razões da sua expulsão. De súbito, o fantasma de Quint assombra a tutora junto de uma janela. Esta procura proteger Miles, que não resiste a espreitar. A tutora informa o rapazinho que este está livre do controlo do fantasma, mas nota de súbito que ele morreu nos seus braços, situação que provoca a partida do espírito.

 

Henry James sempre se interessou por histórias macabras, sem no entanto cair nos estereótipos associados ao género, preferindo criar espectros que funcionassem como extensões da realidade. Nas suas palavras:

incorporar o bizarro e o sinistro no quotidiano e no vulgar.

Em A Volta do Parafuso, muitos se interrogaram se o «bizarro e sinistro» seriam apenas manifestações da mente da tutora, ou parte da realidade, dando origem a um interminável debate sobre a natureza dos espectros e a sanidade da protagonista. Outro aspecto a ocupar os críticos foi a construção técnica da narrativa, nomeadamente a introdução e a narração na primeira pessoa enquanto ferramentas de orientação mas também de manipulação dos leitores.

Todo o imaginário da história remete para o estilo gótico, com especial destaque para o conjunto de edifícios antigos e misteriosos que povoam o enredo. O autor estabelece também uma ligação entre a presença/ausência de luz em vários momentos e a maior ou menor força do sobrenatural.

Os que defendem a insanidade da tutora sugerem que a morte de Miles foi provocada por esta, enquanto manifestação de uma raiva irreprimível para com o seu próprio pai, mas a maioria dos analistas colocam-se ao lado da protagonista e de Henry James enquanto simples autor de histórias macabras, sem qualquer dupla significância.

A inspiração para a obra parece ter nascido de um episódio real, ocorrido em 1771 com uma mulher chamada Mary Ricketts. Esta terá sido obrigada a fugir de casa depois de um longo período em que foi atormentada pelos fantasmas de um homem e de uma mulher que surgiam através das janelas e debaixo das camas, situação que a fez temer pela vida dos filhos.

Em resumo, talvez a melhor análise seja aquela que combina as diversas teorias:

Todas as tentativas de ‘explicar’ o livro, ainda que admiráveis e bem-intencionadas, acabam por contribuir para o seu empobrecimento. (…) O seu mérito está no modo como o autor recusou ceder a qualquer uma das diferentes soluções, o que transforma a obra numa singela homenagem ao poder da ambiguidade.

Segundo a opinião deste crítico, o objectivo é fazer-nos considerar ambas as teorias – loucura da tutora e/ou veracidade dos fantasmas – retirando depois as respectivas conclusões sobre cada hipótese.

Há ainda quem defenda que logo à época se considerou que o casal de «fantasmas» é na verdade um casal de pedófilos.

 

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