Clube de Combate


 

Prefácio

Quem leu a crónica sobre Beleza Americana, notou que nesse texto foi mencionada a diferença entre escolhas técnicas/racionais e escolhas emocionais/sentimentais.

Apesar de Clube de Combate estar incluído num conjunto de grandes filmes surgidos na viragem do milénio, como o mencionado Beleza Americana, Magnólia ou Vanilla Sky, talvez nenhum outro tenha influenciado a minha vida da mesma forma que este.

Mais uma vez, não pela extrema qualidade cinéfila do produto, apesar de David Fincher nos brindar com várias inovações a esse nível, mas sobretudo pela sua capacidade de funcionar como caixa de ressonância de múltiplas emoções, ideias e filosofias.

Se, como eu, eram jovens adultos à beira do novo século, pouco inclinados a «pertencer ao sistema» mas sem vislumbrar verdadeiras alternativas ou modo de participar numa Revolução digna desse nome, sabem do que estou a falar.

Sabem que «Tyler Durden» era de facto a voz na vossa cabeça e, já agora, uma imagem idealizada:

Tenho o aspecto que sempre quiseste, o sucesso com as mulheres que sempre quiseste, sou esperto, capaz e acima de tudo…sou livre de todas as coisas que te aprisionam.

Podem nunca ter ouvido falar deste filme, ou revelado qualquer interesse em vê-lo, mas certamente já criaram, em algum momento da vossa vida, o vosso Eu perfeito.

Ao contrário de Beleza Americana, não me recordo quando nem com quem vi pela primeira vez este filme no cinema, mas terei de imediato partilhado o meu entusiasmo, fazendo com que um velho amigo me estendesse um DVD pouco tempo depois, no meu aniversário.

Deveria ter uns 20 anos e 20 terão sido seguramente as vezes que o vi depois disso, para mais e não para menos. Até hoje mantenho pequenos hábitos, opiniões e atitudes remanescentes dessa altura.

Não formámos um culto, muito menos Clubes de Combate – como chegou a acontecer em vários pontos do Globo – mas uma certa parcela de uma certa geração terá mudado para sempre a sua visão do Mundo depois disto.

O que é dizer muito.

 

Teorias Polémicas

Qualquer tese que destape máscaras e/ou aponte dedos, está condenada a criar oposição, mesmo que esteja correta. Em especial se estiver correta.

Clube de Combate não foi excepção, já que naturalmente, para cada pessoa insatisfeita com «o sistema» existe no mínimo outra com ele agradada, sendo mesmo capaz de contribuir para a sua manutenção e defesa.

Se me atrever a afirmar: «a maquilhagem não te fará mais bonita/o», arrisco-me a aborrecer não só quem a utiliza, como – e sobretudo – quem a fabrica e vende.

Isto é válido para outras afirmações, como por exemplo:

 – «A tua vida é vazia»;

 – «Não és especial»;

 – «O teu emprego escraviza-te»;

 – «Luta pelos teus sonhos antes que seja tarde»;

 – «Um dia irás morrer».

Qualquer delas, entre inúmeras outras, arriscam aborrecer não só quem prefere manter- se como está/é, como – e sobretudo – aqueles que trabalham diariamente para manter a população como está/é.

De Clube de Combate fizeram-se muitas interpretações, mas quem dele desgostou retirou quase sempre conclusões erradas. Até mesmo críticos de cinema respeitáveis.

A saber:

 – Protótipo de filme fascista;

 – Protótipo de filme anarquista;

 – Agenda homossexual oculta;

 – Glorificação do macho, sobretudo do macho imaturo;

 – Glorificação da violência;

 – Mescla filosófica superficial e pretensiosa.

Existem outras, que deixaremos de fora para que não se torne exaustivo. Além disso, uma leitura rápida da lista anterior é suficiente para confirmar sem grande dificuldade a completa contradição dos diferentes «carimbos».

Clube de Combate não é um filme fascista, simplesmente porque assenta numa premissa libertária das diversas prisões sociais em que estamos inseridos, acima de todas o controlo totalitário de qualquer espécie/cor política.

Porém, também não é um filme anarquista, a partir do momento em que se revela que – mesmo oculto – «Tyler tem um plano». Quando o mesmo foge ao controlo, o seu «autor» inverte caminho, de modo a evitar precisamente um destino anárquico.

Parece desde logo contra-natura acomodar a ideia de «macho tradicional» com homossexualidade, mas para aqueles que possam querer fazê-lo (olhando para a ideia masculina no seu todo), relembro somente a existência de Marla. Explicações prévias prejudicariam a crónica que se segue.

Nesta se lerá também o significado da «violência».

Quanto à maior ou menor validade das ideias, deveremos desconfiar quando os críticos que lamentam o pretensiosismo do filme são os mesmos que o dispensam à conta da superficialidade.


 

O Filme

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Serão poucos os filmes cuja mensagem começa a ser transmitida logo no primeiro frame.

É no entanto o caso. Todos os que visionarem o DVD serão brindados com um «aviso» inicial que anuncia o seguinte:

Fight_Club_WarningIf you are reading this then this warning is for you. Every word you read of this useless fine print is another second off your life. Don’t you have other things to do? Is your life so empty that you honestly can’t think of a better way to spend these moments? Or are you so impressed with authority that you give respect and credence to all who claim it? Do you read everything you’re supposed to read? Do you think everything you’re supposed to think? Buy what you’re told you should want? Get out of your apartment. Meet a member of the opposite sex. Stop the excessive shopping and masturbation. Quit your job. Start a fight. Prove you’re alive. If you don’t claim your humanity you will become a statistic. You have been warned … Tyler.

O texto é um exercício bem-humorado sobre Ironia e Ambiguidade, transversal a todo o enredo. Só quem optar por não ler o «aviso» estará no caminho correcto, mas para fazermos a escolha informada e inteligente de não o lermos, teremos de o ler. Já estão a sorrir? Também eu.

Nem de propósito, segue-se a imagem de um «sorriso» rabiscado a verde (que surgirá contextualizado depois) e uma gargalhada sádica e neurótica (que também se tornará lógica).

Daqui, entramos no cérebro do Narrador ao nível microscópico, acompanhando o percurso numa linguagem visual «científica». Os curiosos ou especialistas descobrirão que estamos perante impulsos nervosos, cuja função é alertar para o sentimento em causa: Medo.

De quê? Bom, prossigamos viagem pelo interior do protagonista até distinguirmos a boca invadida por uma arma.

Desejos finais?

Não me ocorre nada.

Certo. A nossa história começa no fim. Para entendermos como ali chegámos, teremos de fazer um exercício de memória. Porém, a única memória disponível é a do Narrador e isso – mais cedo ou mais tarde – será um problema.

Este procura situar-nos: estamos num dos andares cimeiros de um edifício governamental, ocupado apenas por membros de um certo Projecto. Nos parques de estacionamento do mesmo, uma carrinha carregada de explosivos. O refém sabe disto porque Tyler sabe disto.

Autores deste cenário? Bem, tudo terá começado quando o Narrador frequentava variados grupos de apoio – ao estilo dos Alcoólicos Anónimos – mas para doentes terminais. Escolham o vosso preferido: Tuberculose, Parasitas, Cancro Testicular, não haverá doença ou condição órfã de um Grupo Terapêutico. Com excepção, talvez, da Insónia.

Insónia, quem sabe Narcolepsia, é a condição de que padece o Narrador. Nada na medicina convencional parece ajudá-lo – soporíferos, raízes de valeriana, exercício físico. Esgotado por períodos prolongados de vigília, o protagonista começa a temer o pior.

Não, não se morre de insónia.

E de narcolepsia? Adormeço sem dar por isso, acordo em lugares estranhos…

Nada feito.

Por favor, tem de me ajudar, estou a sofrer.

Quer saber o que é sofrimento? Visite o grupo terapêutico dos tipos com cancro nos testículos. Isso é sofrimento.

Segundo o Narrador, quando padecemos de insónia severa nunca estamos de facto acordados, nem de facto a dormir. Tudo é uma cópia, de uma cópia, de uma cópia. E se pensam que estas conclusões são pífias, pensem outra vez.

É que, sabem, o nosso amigo teve muito tempo para reflectir em tudo isto. Vive sozinho num condomínio de luxo, mobilado com as mais recentes propostas do mundo IKEA. O seu passatempo de eleição é desfolhar catálogos da marca em busca da «mesa de café que o define como pessoa». O frigorífico está cheio de ingredientes que nunca se juntam para formar refeições completas e os armários guardam loiça com «pequenas imperfeições para mais facilmente cairmos na ilusão de que demos uma oportunidade honesta aos trabalhadores do país terceiro-mundista que a fabricou». O dinheiro necessário para sustentar esta vida autista surge de um emprego num grande grupo automóvel. Exerce as funções de Especialista de Reembolsos – em resumo, decide se o pedido de indemnização requerido pelo cliente em caso de acidente automóvel deve ou não ser pago.

Trabalha, portanto, para o mundo corporativo: indiferente, mecanizado, superficial. As verdadeiras preocupações do patrão passam menos pelos artigos defeituosos que causam acidentes mortais e mais pela cor da gravata – «deve ser terça-feira porque trouxe a gravata azul».

É incerto se as insónias do Narrador originam numa consciência pesada ou apenas na incerteza sobre se alguma vez se sentirá «completo» quando terminar de mobilar a casa.

De uma maneira ou de outra, a conjuntura revela-se terreno fértil para uma progressiva mudança de estado de espírito. Breves frames não-identificados serão disso prova.

Estamos então situados. O nosso protagonista encontra temporária cura para a insónia ao frequentar variados (por vezes inusitados) grupos de apoio. Sempre, como é óbvio, enquanto falso paciente e sempre, como é óbvio, com falsos nomes: Cornelius, Rupert, Travis…

images (1)Uma noite, num deles – cancro nos testículos – conhece Robert «Bob» Paulson, antigo culturista que se deparou com o lado negro do mundo dos esteróides. Não sem cruel ironia, a doença retirou-lhe os testículos e ofereceu-lhe gigantes glândulas mamárias. É com ele que o Narrador emparelha, chorando pela primeira vez – processo de relaxamento que lhe permite dormir.

(Num detalhe relevante, as lágrimas desenham na blusa de Bob o mesmo rosto sorridente que vimos no pré-filme e que voltará mais tarde).

A que propósito carece o Narrador desta catarse? Bom, talvez porque «perder toda a esperança significa liberdade». Olá, Nietzsche.

Não é de somenos que quase todos estes grupos sejam compostos em exclusivo por homens. Entenderão mais tarde.

Tudo ia bem no Reino da Dinamarca até ao dia em que pela porta irrompe Marla Singer. Irrompe precisamente no grupo que padece de Tuberculose, a sugar um cigarro. Não sei mesmo se alguma vez chegamos a vê-la sem cigarro entre os lábios. Segundo o Narrador, esta é «a ferida no céu-da-boca que só cura quando deixarmos de passar lá a língua. O problema é evitá-lo».


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Marla começa a surgir em todas as reuniões, incluindo em Cancro Testicular, porque afinal «tecnicamente tenho mais direito a estar lá do que tu, que ainda tens testículos». Ao fazê-lo, relembra ao protagonista a sua condição de farsante, impedindo-o de chorar e logo, de dormir. Estaca zero.

A única solução parece ser um acordo com Marla.

Porque vens aqui?

É mais barato que ir ao cinema e há café gratuito.

E depois, mais a sério:

Quando pensam que estás a morrer, as pessoas ouvem-te com atenção em vez de se limitarem a esperar pela sua vez de falar.

Não esquecer que estamos num mundo de ilusões, placebos e complacências, que incluem «encontrar o nosso animal espiritual» ou recolhermo-nos na nossa «caverna».

Já agora, a do Narrador é uma gruta de gelo e o seu animal espiritual parece ser um pinguim. Cada um retire as suas conclusões.

E de caminho, notem que os frames continuam a piscar-nos o olho.

Com maior ou menor dificuldade, o acordo entre os dois faz-se. Dividem dias de semana e diferentes grupos, tudo enquanto Marla recolhe roupa de lavandarias públicas para logo as vender em «segunda mão» na esquina seguinte, em lojas da especialidade. Pelo meio, atravessa avenidas movimentadas sem respeitar sinais, sempre a centímetros do fatal atropelamento. Niilismo a quanto obrigas.

Ou, segundo o protagonista:

Marla vivia como se fosse morrer a qualquer momento. O problema, segundo ela, é que não morria.

Quando tudo parece selado, ainda um último momento para trocarem contactos telefónicos, «caso queiram mudar os dias».

Assim se passa um ano. Julgamos. Forçado pela profissão (talvez), o Narrador desloca-se constantemente de avião dentro dos EUA, num frenesim de aeroportos e capitais de estado. Elabora sobre a falsidade/plasticidade de tudo o que encontra, entre objectos e pessoas. Ainda sobre como tudo é compartimentado, manietado, numa infindável produção em série de artigos e amigos perecíveis. A pergunta que então se impõe é:

Se acordarmos numa capital diferente, numa zona temporal diferente, correremos o risco de nos tornarmos numa pessoa diferente?

MV5BMTNmYzllNWYtYzU1Yi00YWFmLTgwMzMtZmY4OGE3NzExNzEzXkEyXkFqcGdeQXVyNzU1NzE3NTg@._V1_CR0,45,480,270_AL_UX477_CR0,0,477,268_AL_Pouco depois, num desses voos soporíferos, alguém que já vimos antes (quer tenhamos registado isso ou não) senta-se ao lado do protagonista. O seu nome é Tyler Durden (Durden remete foneticamente para Dirty mas também para Burden e não me parece que seja um acaso).

O Narrador acabara de sonhar com a própria morte num desastre de avião – não desprezem esse detalhe – quando se depara com aquele estranho mas cativante companheiro de viagem. Sentado no lugar de emergência, Tyler confessa não ser «o homem certo para essa tarefa» e parece-nos que o Narrador devia ter-lhe dado ouvidos.

Não deu, porém, talvez fascinado com a profissão do outro – fabricante e vendedor independente de sabão – ou com o facto de possuírem malas de viagem iguais. Não, esperem, o que terá realmente desconcentrado o protagonista é a teoria de Tyler acerca dos panfletos de segurança dos aviões. Por outras palavras, um exercício em «segurança ilusória».

Este encontro ficaria resumido a um episódio burlesco se uma fatalidade não tivesse afectado a vida do Narrador. Atrasado no aeroporto à conta de um mal-entendido que lhe retém a bagagem – enquanto Tyler se despacha a entrar num descapotável – o protagonista chega a casa apenas para descobrir que uma inexplicável explosão lhe destruiu o apartamento. Pelo passeio vemos agora os cadáveres dos ingredientes nunca usados ou das mesas IKEA yin yang.

Num ápice, a velha vida desapareceu. Duas soluções: telefonar a Marla ou a Tyler.

A primeira atende, mas o Narrador arrepende-se. O segundo não atende e o Narrador lamenta. Sintomático.

A não ser que atenda. Uma vez que estamos em 1999, ainda se utilizam cabines telefónicas, logo, ainda se marcam códigos de retorno de chamada. Tyler aparece do outro lado da linha. Julgamos.

Um Narrador e um Tyler entram num bar. Mas isto não é uma anedota.

Diante de vários jarros de cerveja, o primeiro relata ao segundo o seu problema.

 

Lição Número Um: Não somos o que possuímos.

 

Sabes o que é um édredon?

Um acolchoado.

É um cobertor. Não passa de um cobertor. Porque diabo pessoas como nós conhecem a palavra édredon? Esta terminologia era essencial na nossa existência primária de caçadores-recolectores? Não. Isso faz de nós o quê, então?

Não sei…consumidores?

Certo! Somos consumidores. Crime, Pobreza, Fome, essas coisas não me preocupam, o que me preocupa são televisões com 500 canais, cultura pop ou o nome de um tipo estampado na minha roupa interior.

Estende-lhe um cigarro.

Não fumo.

Talvez eu esteja enganado e a tua situação seja uma tragédia. Mas o que digo é: nunca te consideres «completo». Pára de tentar ser perfeito. Os dados estão lançados, o que tiver de ser será.

Faz sentido. E no fundo, o meu seguro cobre tudo, portanto…

Tyler olha-o com um sorriso sardónico. «Ainda não percebeste».

As coisas que possuis acabam por te possuir.

Quem é este fulano, perguntam? Bem, para além do negócio de sabão, ficamos a saber que o mesmo tem problemas de sono, logo, ocupa as noites com empregos medíocres a tempo parcial – incluindo empregado de mesa ou projeccionista.

Apimenta tais funções com pequenos gestos provocadores de vandalismo social – adultera a comida, introduz frames de filmes para adultos em películas da Disney, entre outras preciosidades. Teremos aqui um anarquista em potência? Um criminoso medíocre de ego cheio? Ou outra coisa?

Por ora, parece apenas alguém independente, confiante e por alguma razão com vontade de arrancar o Narrador à sua letargia física e espiritual, à sua pré-depressão, à sua apatia e falta de rumo.


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Lição Número Dois: Assumir Aquilo que Queremos.

 

Terei de procurar um hotel.

Livra, três jarros de cerveja e ainda não consegues pedir.

O quê?

Ligaste-me porque precisas de um sítio para dormir.

Não, não…

Pede, pá. Tão simples como isso.

Seria um problema para ti?

É um problema para ti, pedires?

Ok, posso ficar na tua casa?

Claro.

Uma vez que não existem almoços grátis, é natural que também não existam noites de copos grátis.

Em troca, Tyler carece de um pequeno favor: Dá-me um soco.

O Narrador, tal como nós, precisa de ser levado pela mão. O primeiro ensaio, como em qualquer outra coisa, é patético, mas nada que um pouco de prática não resolva.

Isto dói a sério.

Exacto.

Todo o crescimento é doloroso. Toda a apatia precisa de um estímulo. Todos temos de acordar, mais cedo ou mais tarde.

À breve luta catártica, segue-se a descoberta da casa de Tyler. Bom, talvez seja um exagero considerá-la «de Tyler», antes aproveitada por, ocupada por, invadida por.

Situada numa zona industrial periférica, longe de tudo e de todos, parece perfeita para quem pretende «começar do zero». Perfeita como? Bom, perfeita porque é uma ruína. Perfeita porque «passado um mês, já não se sente a falta da televisão». Perfeita porque nada funciona, tudo cheira a podre, dorme-se em colchões no chão, rasgamos os cotovelos em pregos ferrugentos e temos de desligar o quadro sempre que chove para evitar incêndios. Perfeita por ser uma antítese de tudo o Narrador viveu até agora. Presume-se.

Onde está o teu carro?

Qual carro?

Assim decorre mais um ano. Nesse período, formou-se entre os dois – considera o protagonista – uma amizade de irmãos rebeldes. Este passou a acompanhar Tyler nos seus empregos nocturnos (mais divertido que mascar valeriana), nas noites de copos e sobretudo, nas noites de luta.

Não sem alguma surpresa, outros frequentadores do bar onde se conheceram e agora se deslocam com frequência começam deixar-se seduzir por aquele estranho passatempo. De dois passam a quatro, a seis, a dez. Mais cedo ou mais tarde terão de se organizar. Decidir um par de regras. Quem sabe mesmo atribuir um nome à coisa.


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Quando ficam por casa, desencantam um estranho conjunto de diários, certamente criados pelo anterior ocupante: «Sou o fígado de Jack». «Sou os mamilos da Jill». Será avisado que permaneçam «A curiosidade e capacidade de análise do leitor».

Outros dias, partilham memórias de infância, bastante parecidas.

Nunca conheci de facto o meu pai. Sei quem ele era, mas não ficou muito tempo por perto. Descobri mais tarde que de seis em seis anos mudava de cidade e formava uma família nova.

O sacana criava franchises.

Servirá essa ideia para alguma coisa no futuro?

O meu também não me valeu de muito. Acabei a faculdade e liguei-lhe (Tyler Durden fez a faculdade, quem diria). Estou com 25 anos: «Pai, e agora?». «Não sei, arranja trabalho». Assim fiz. Voltei a ligar-lhe: «Pai, então e agora?». «Sei lá. Casa-te».

Não podemos casar-nos. Somos crianças de 30 anos.

Somos uma geração criada por mulheres. Pergunto-me se outra mulher será a solução que precisamos.

Os senhores da agenda homossexual pegaram nesta e noutras frases/situações para justificar a sua teoria mas ocorre-me antes dizer que, acima de qualquer preferência de género, está o objectivo de passar uma mensagem de independência e autonomia, absolutamente livre de qualquer cordão umbilical. Este facto justifica ainda a opção inicial do Narrador em pedir alojamento a Tyler e não a Marla.

«Não te entregues a ninguém sem te conheceres a ti mesmo», parece ser o mote.

O que o protagonista começa a descobrir sobre si mesmo talvez seja difícil de conciliar com a vida corporativa, recheada de reuniões ocas.

Já expliquei tudo isto ao nosso colega. Você concorda, certo?

Sorriso vampírico (notar ironia).

«Podemos engolir dois litros de sangue sem ficar doentes», informa-nos o pensamento do Narrador. É sempre bom saber.

A que propósito começa este a surgir no trabalho com nódoas negras, pisadelas, crostas e roupa rasgada? Penso que sabem.

 

Lição Número Três: Se Nunca Lutaste, Não Sabes Quem És.

 

 – A primeira regra do Clube de Combate é: Não se fala do Clube de Combate.

 – A segunda regra do Clube de Combate é: Não se fala do Clube de Combate.

E por aí adiante. Ah, obviamente que:

 – No dia da estreia no Clube do Combate…temos de lutar.

Em resumo, existem interessados na bizarria criada pelo Narrador e por Tyler. Existe gente sem rumo, sem válvula de escape, frustrada, injustiçada. Gente pronta a seguir uma voz de comando que lhes fale ao coração e sobretudo, à Ira. Já lá dizia o poema:

 

Tome-se um homem,

Feito de nada, como nós,

E em tamanho natural.

 

Embeba-se-lhe a carne,

Lentamente,

Duma certeza aguda, irracional,

Intensa como o ódio ou como a fome.

(…)

«A pessoa que éramos dentro do Clube nada tinha a ver com a pessoa que éramos fora dele». – Explica o protagonista.

Se alguém procura a definição de Culto, não está muito longe.

As lutas recorrentes, apesar de «controladas», começam a cobrar dividendos. Dentes perdidos, sobrolhos abertos, idas ao hospital.

«Por vezes o Tyler falava por mim». (Não esqueceremos isso).


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Dois meses depois, «até a Mona Lisa já viu melhores dias», mas o Clube está solidificado. De tal modo que se transformou no único «grupo de apoio» do Narrador. De tal modo que Marla – que não cumpriu o acordo estabelecido – notou a ausência deste e decidiu perceber o que se passa. Mas esperem, ela tem o número do protagonista ou de Tyler?

Telefonou a um ou a outro? Talvez seja irrelevante durante uma tentativa de suicídio. O Narrador decide que o gesto dela não merece atenção redobrada, mas o mesmo não se passa com Tyler, talvez menos familiarizado com o jogo psicológico recorrente.

Quem salvou Marla? Quem se deu ao trabalho de ir até casa dela e a «manteve acordada» para afugentar a ameaça de morte despoletada pelos sedativos em excesso?

Não vais acreditar no sonho que tive na noite passada.

Não acredito em quase nada do que aconteceu na noite passada.

Isto é a minha casa, o que fazes aqui?

«Já sabia a história antes de ele ma contar».

Os pontos estão por aqui, basta juntá-los.

Ou pelo menos, prometer a Tyler que este nunca passará de um objecto sexual. Não se fala do Clube de Combate e certamente não se fala do mesmo com Marla. Agora prometam três vezes.

Não há como não lamentar a sorte do protagonista. Uma e outra vez os seus planos de autonomia e independência emocional são minados pela figura feminina. Uma e outra vez, Marla aparece para baralhar as contas. Primeiro nos grupos de apoio, agora na casa de Tyler. Sempre que este faz de vibrador humano às custas do periclitante estuque das paredes, o amigo é invisível.

«Estás a falar com quem?».

Pouco importa.

O que importa é que o inspector da Polícia responsável por investigar a explosão no apartamento do Narrador também sabe juntar pontos. E pistas. Sabe como se faz uma bomba artesanal. Sabe como simular um arrombamento. Sabe os valores do seguro que o protagonista ainda não reclamou. Sabe o suficiente para arrancar suores frios a Jack, perdão, ao Narrador.

«Gostaria de agradecer à Academia», confessa este, mas nós respondemos que o mesmo gostaria sobretudo de evitar os ataques de bílis, sempre que Marla atinge orgasmos múltiplos no andar de cima.

Ela tem de ir embora.

Diz-lhe tu.

Não lhe fales de mim.

Tens de ir, adoramos as tuas visitas.

Isto está a acontecer agora, mas também na infância do protagonista, cortesia dos pais.

E as alegorias não se ficam por aqui.

 

Comprei este vestido por um euro. É um vestido de noiva. Alguém o amou intensamente por uma única noite e depois deitou-o fora, da mesma forma que se despreza uma árvore de Natal. Ali tombada à beira do caminho, qual mulher violada.

Ou

O preservativo é o Príncipe Encantado da Era Moderna. Usamo-lo quando conhecemos um estranho, dançamos toda a noite e depois vai fora. O preservativo, não o estranho.

 

Pode o protagonista lidar com isto? Pode Tyler? «Meter penas no traseiro não faz de nós galinhas», as máscaras terão de cair mais cedo ou mais tarde.

Enquanto isso, fazemos sabão, de modo a «vender às dondocas gordas os seus próprios traseiros».

Cuidado, porém, com as queimaduras químicas. «Doem mais do que qualquer outra coisa e deixam cicatriz».


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Lição Número Quatro: A Fé Não te Salvará. Um Dia Morrerás.

 

Nem a Fé, nem as técnicas de meditação, nem qualquer «caverna». O nosso «animal espiritual» está neste momento a contorcer-se sem remissão. E assim continuará, a não ser que aceitemos. Que aceitemos.

«Só depois de perdermos tudo estamos livres para fazer algo», lembram-se?

Passo a passo, algo se consolida. Passo a passo, uma descida (ou ascensão?). Seja como for, as noites em claro agravam a narcolepsia, que tanto pode dar para nos tornarmos mestres em poemas haiku como para deixarmos rascunhos das regras de um certo Clube do qual não se fala na fotocopiadora. E quanto às consequências…

Palavras do Tyler a saírem-me da boca. E eu que era um tipo tão pacífico.

É esse tipo pacífico que acede fazer uma visita a Marla, preocupada com um possível caroço no peito. O mesmo tipo pacífico que sonhou com algum tipo de relacionamento entre ambos, antes desta cair nos braços de Tyler. É esse tipo pacífico, que tolera as frequentes sessões de sexo no quarto ao lado, quem está agora com o seio de Marla na mão, em busca de uma sentença de morte.

Sentes alguma coisa?

Não.

De certeza que não sentes nada?

Nada.

Podemos respirar a melancolia latente.

Por falar em seios, talvez se lembrem de Robert Paulson. Bob, para os amigos. Deixámos de vê-lo porque o Narrador se dedicou a outra coisa. Bob também encontrou apoio noutra coisa. Esse par de coisas é afinal uma só: o Clube de Combate.

O grande herói do submundo é…bom, claro, Tyler Durden.

A sua lenda cresce, qual Cristo das Trevas. Dorme uma noite por semana dizem (e porque não), muda de rosto à conta de operações plásticas de três em três meses, dizem (interessante), nasceu numa instituição psiquiátrica, garantem (será?).

O problema do sucesso passa por saber lidar com ele. O mesmo transforma-se quase sempre numa lâmpada poeirenta rodeada de escuridão, atractiva para todo o tipo de insectos. Mais e mais.

Olho em volta e vejo cada vez mais gente nova.

Significa que muita gente anda a desrespeitar as duas primeiras regras do Clube.

 

 

Lição Número Cinco: A Tua Vida É Vazia

 

A sociedade de consumo garantiu-nos que íamos ser todos milionários, estrelas de cinema e deuses da música…mas não seremos. Estamos a descobrir isso lentamente e estamos a ficar muito zangados.

Quem também está zangado é Lou. Quem é Lou? Bom, a placa na entrada do bar – que fornece a cave onde todos se reúnem – tem lá escrito «Taberna do Lou».

Temos um acordo com o Irwing.

O Irwing está em casa com uma clavícula partida. Não é dono disto. Eu sou.

Até onde Tyler é capaz de ir, é algo que nem todos estão preparados para aguentar. Selecção natural oblige.

A lição inclui trabalhos de casa. Os membros terão de provocar uma luta com um estranho e terão de perdê-la. É mais fácil dizer do que fazer, mas por esta altura já todos percebemos que se fosse fácil não era para eles.

Quanto ao protagonista, debate-se frequentemente com «a ausência de espanto de Jack» e parece ter encontrado um modo de contornar a questão financeira relacionada com o seguro do apartamento. Se entre os leitores existe algum que já sonhou lutar com o patrão, esta parte interessa-vos. Os que viram Beleza Americana encontrarão ligeiros paralelismos.

Edward-Norton-Fight-Club-Round-Two«Por algum motivo, lembrei-me da minha primeira luta com o Tyler».

Isto dos trabalhos de casa, já se sabe, é um crescendo. Quanto mais se progride, maior a dificuldade. Recordam-se da filosofia de vida do pai do Narrador (franchises)?

É tempo de espalhar sementes.

 

Lição Número Seis: Luta Pelos Teus Sonhos

Sobretudo, se o teu nome for Raymond K. Hessel. Porque se o teu nome for esse, Tyler irá fazer-te uma visita. Primeiro ao local do emprego medíocre onde te deixaste ficar, depois ao apartamento insalubre a que a tua negligência te condenou. Por fim, àquele recanto da mente onde guardas a auto-estima.

A pergunta, Raymond, é: o que querias ser?

Veterinário.

Animais. Olha que bem. Pois é assim: se daqui a seis meses não estiveres a estudar para te formares em Veterinária, és um homem morto.

Corre, Forrest, corre.

Amanhã será o dia mais belo da vida de Raymond K. Hessel. O seu pequeno-almoço será infinitamente mais saboroso do que o nosso.

Não és o teu trabalho. Não és a tua conta bancária. Não és a roupa que vestes.

«Confiamos em Tyler».

Poderemos, por outro lado, confiar no protagonista? Pode Marla? Para uns, uma corda é um salvo-conduto. Para outros é uma forca. Tudo depende da perspectiva. É provável que a solução para todos os males – Comunicação – acabasse mais cedo ou mais tarde por resolver a questão, não fora o domínio de Tyler sobre os restantes.

Esta conversa acabou.

De facto, não há tempo a perder. O Clube de Combate deixou as trincheiras e deu vida ao seu irmão mais crescido. Pensem Clube de Combate sob o efeito de esteróides. Por outras palavras, Projecto Caos.

Aqui, saltam da sombra os adeptos da teoria anarquista. E os da teoria fascista. Exacto, continuemos.

Chegou a hora de colocarmos a energia de todos estes homens ao serviço de algo mais. «Despertos» para a realidade das suas vidas e para o que os rodeia, talvez seja mais útil canalizar os esforços para o «opressor», em vez de todas as semanas partirmos uns narizes.

Para isso, devidamente oleados por semanas de «trabalhos de casa», cada pequeno grupo é incumbido de uma missão de protesto/vandalismo. Todas elas contendo na sua génese uma mensagem «política».

Em breve, despertam a atenção das autoridades, do poder político e da imprensa. Temos um ensaio de «revolta das massas». Quando um determinado ministro lança uma contra-campanha, vazia de real conteúdo mas potencialmente ameaçadora, é por momentos sequestrado e relembrado que:


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Somos nós que lhe conectamos as chamadas. Que o atendemos à mesa. Que limpamos a sua roupa. Que pilotamos o seu avião. Que o «protegemos enquanto dorme». Não se meta connosco.

Se a maioria silenciosa despertasse e depois se organizasse, talvez. Afinal, «eles» são 100 mil e «nós» somos 7 mil milhões.

«Confiamos em Tyler».

Como se verá a partir daqui, isso deixará de ser boa política.

 – Terceira Regra do Clube de Combate: Se alguém disser «Pára», a luta termina.

A não ser que um dos fundadores tenha outras ideias. Afinal, as regras foram feitas para serem quebradas.

A não ser que o Narrador, invejoso do carinho que Tyler concede a um novo membro, – um dos que em tempos se julgou «deus da música» – decida de repente «destruir algo de belo».

A partir de certa altura, podemos morrer da cura.

O monstro pode fugir-nos das mãos.

O que gostarias de ter feito antes de morrer?

Não sei, não tenho nada de bom para dizer acerca da minha vida…

Estão de novo a sorrir? Também eu.

Corram, antes que percam uma experiência de quase-vida.

O acidente de carro provocado por Tyler muda definitivamente as coisas. Agora sabemos que foi ele o autor da explosão no apartamento do outro, por exemplo.

Tens de esquecer aquilo que pensas que sabes, acerca da Vida, da Amizade, e em especial, acerca de nós os dois.

E o que pensa Tyler, de facto?

Não sonha com Anarquia ou Fascismo. Sonha com um Novo Mundo. Com um regresso que se pode revelar um progresso. Talvez com Ecologia, talvez com Auto-Suficiência, talvez com um Mundo Sustentável. Talvez.

Talvez o Narrador esteja agora assaz desperto para ser, também ele, auto-suficiente.

A casa transformou-se no Planeta Tyler, uma colmeia independente da sua Rainha. Marla espreita da sombra, mas o protagonista, confuso e magoado, dispensa-a sem perguntar os motivos da visita.

O Tyler foi-se embora.

A primeira regra do Projecto Caos é: Não se fazem perguntas.

A segunda regra do Projecto Caos é: Não se fazem perguntas.

O que fazer então, quando a morte entra pela casa dentro? Se Tyler ali estivesse diria que «se queremos uma omelete temos de partir alguns ovos». Mas como vimos, este está ausente. Resta um Narrador assustado, rodeado de sombras mecanizadas.

Em vida, os membros do Projecto Caos são anónimos, meros «macacos espaciais». O protagonista procura desesperadamente resgatar alguma lógica e sentido, gritando que «este homem era meu amigo e chama-se Robert Paulson».


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Sim senhor. O Chefe quer dizer que «após a morte, um membro do Projecto adquire um nome. O seu nome era Robert Paulson».

Já ouvimos isto em qualquer lado. Os funerais estão cheios de «grandes seres-humanos, estimados por todos».

Vejamos: o que é de facto o Projecto Caos?

Que monstro incontrolável nasceu às mãos de Tyler Durden? O cenário é estranhamente familiar. «Um frenesim de aeroportos e capitais de estado». Franchises de Clubes de Combate por todo o país, agora transformadas em células do Projecto Caos. Milhares de «soldados» de colarinho azul prontos a obedecer a qualquer tipo de ordem, sem questionar. Onde estava Tyler? Como conseguia estar sempre um passo adiante do protagonista? Viajava sob que identidade, se este estava a utilizar o nome do outro? Espera…

Estou preso no pesadelo de Tyler.

Pesadelo? Quem sofre de insónias? Quem ficava acordado enquanto o outro adormecia? Quem ocupava as noites em biscates ou a fabricar sabão? Quem tinha sexo com Marla?

«Isto é um teste?»  – Admira-se um empregado de bar, quando questionado pelo Narrador.

Não. Quem achas que sou?

É o senhor Durden. É o autor desta cicatriz. (queimadura química).

Que plano diabólico engendrou agora Tyler? Por que razão todos julgam que…

Amas-me, odeias-me, mostras-te terno e carinhoso e logo depois revelas-te um idiota completo. Fiz o resumo certo da nossa relação, Tyler?

Presumo que tenham entendido. Recordando:

Tenho o aspecto que sempre quiseste, o sucesso com as mulheres que sempre quiseste, sou esperto, capaz e acima de tudo…sou livre de todas as coisas que te aprisionam. 

Em resumo:

O que fazemos quando nos olhamos ao espelho e desgostamos de quem somos? Da vida que levamos? O que fazemos quando essa frustração crescente nos afecta o sono? Talvez sonhemos com uma pessoa melhor. Uma vida melhor.

Um Clube de Combate é melhor que um Grupo de Apoio.

Um Tyler Durden é melhor que um Cornelius, um Rupert ou um Travis. Ou um Jack.

Uma Marla é melhor que uma Jill.

«Desperto» para a realidade à custa de uns ossos partidos, o mais radical dos amigos imaginários é uma excelente muleta para enfrentar o mundo.

Um Projecto Caos é melhor que um Clube de Combate.

O problema é que um Projecto Caos talvez já não comporte alguém como nós. Talvez Tyler seja o único capaz de domar a fera.

Logo, do ponto A (anónimo + grupos de apoio) para o ponto B (dupla + Clube de Combate) para o ponto C (Tyler + Projecto Caos).

Aqui, o ponto de retorno, surgido na sequência do acidente automóvel. O Narrador, em vez de abraçar na plenitude o lado mais negro da sua personalidade dissociativa, tornando-se um sociopata perigoso e líder de uma pretensa «organização terrorista», procura regressar (ainda que atabalhoadamente) ao ponto de partida, ao seu lado seguro e pacífico. A personalidade dominante volta a ser a inicial, com «Tyler» surgindo apenas a espaços, associado a breves disputas de «poder».

O primeiro passo é tentar proteger Marla, ainda que tenhamos sido «a pior coisa que lhe aconteceu».

Padeces de graves problemas psicológicos, para os quais deverias procurar ajuda especializada.

Não está descartado, mas antes há que impedir com a mão esquerda que a mão direita carregue no botão vermelho. Não é tarefa fácil.

Pergunta:

O que fazemos quando pretendíamos apenas acender uma fogueira, de modo a saltar-lhe por cima, mas com isso provocamos um incêndio incontrolável que ameaça consumir toda a floresta? Certo. Chamamos os Bombeiros.

Dúvida:

E se os Bombeiros estiverem instruídos para deixar a floresta arder? Ou para queimar aquele que vem alertar para o fogo?

Corre, Forrest, Corre.

Corre até chegares ao Fim – Princípio.

Ainda não me ocorre nada.

Ah, humor de retrospectiva.


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Reparem, o que aconteceu não importa. Importa apenas aquilo que pensamos que aconteceu. Da mesma forma, não interessa se Tyler é real. Interessa que o Narrador pensa que ele é, pelo que só um simulacro realista da sua morte poderá eliminá-lo da mente.

Está pelo menos uma pessoa (com ou sem Marla) num andar cimeiro daquele edifício governamental, liberto da possibilidade de morte a breve trecho depois de desarmar a bomba no interior da carrinha, estacionada na garagem.

Existem outras dez carrinhas, com outras dez bombas.

Desde quando é isto sobre assassinatos?

Os edifícios estão vazios, o pessoal da manutenção é todo nosso. Está tudo controlado.

«Confiamos em Tyler».

«Tyler tem um plano».

Nunca foi sobre Fascismo. Nunca foi sobre Anarquismo. Nunca foi sobre Violência. Foi sempre sobre verdadeira e consequente Liberdade.

Foi real? Talvez. Não importa.

Foi certamente acerca de uma «fase muito estranha da vida do Narrador».

Se alguma vez forem afectados por algo semelhante, assegurem-se de que no final valeu a pena. Assegurem-se de que no final, podem não ter criado um Novo Mundo, mas criaram pelo menos uma nova vida.


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