Vanilla Sky


 

Prefácio

Os que recordam as crónicas anteriores terão notado a discreta ligação que estabeleci entre três filmes marcantes na viragem do século: Beleza Americana, Clube de Combate e Vanilla Sky.

Todos eles exibem um protagonista que coloca em causa a realidade que o envolve. Se o primeiro utiliza uma crise de meia-idade para resgatar as (imaginadas) delícias da juventude, o segundo contesta a sociedade de consumo com o apoio de um alter-ego.

A questão com Vanilla Sky é menos óbvia. Sendo rigorosos, não podemos sequer assegurar a identidade do nosso protagonista. Talvez nem cheguemos a lidar com qualquer espécie de realidade fora da mente do narrador/espectador.

Comecemos no entanto pelo princípio.

Nos idos de 2001, um amigo da época sugeriu-me que fossemos espreitar este filme ao cinema, impressionado com a promoção do mesmo.

«Tom Cruise, Cameron Diaz e Penélope Cruz?» – Rebati, desconfiado.

«Não é o que tu pensas».

E de facto, em boa hora decidi fazer-lhe a vontade (esse mesmo amigo, 13 anos depois, voltará a repetir a dose com a série «Breaking Bad». Eu sei, tem bom gosto).

Quando saí do cinema, tinha visto o melhor filme do ano e seguramente o melhor das carreiras dos referidos actores.

Para além disso, nunca encontrei – antes ou depois – uma simbiose tão perfeita entre imagem e som, narrativa e banda sonora. Paul McCartney, Radiohead, Sigur Rós, R.E.M., Bob Dylan ou Jeff Buckley foram algumas das peças do puzzle musical construído por Cameron Crowe, realizador saído do meio musical (autor do vídeo que ilustra Would? de Alice in Chains, por exemplo) que tem tido uma carreira irregular – capaz de nos oferecer preciosidades como «Almost Famous» mas que foi perdendo o toque de Midas.

Vanilla Sky, apesar do elenco de luxo, nunca quis ser um filme grandioso.

Do mesmo modo que um tal de David Aames nunca quis de facto herdar o império do falecido pai, esta é uma história que se contentou – apesar do relativo sucesso comercial da altura – em permanecer uma pérola esquecida.

Por aqui deambulam a tristeza, a melancolia, a ingenuidade esperançosa e algum sentido de humor, numa poção equilibrada que arranca sorrisos às almas sensíveis.

É talvez o Sonho Lúcido que nunca conseguimos ter.

 

Original Espanhol

Alguns saberão que existe uma primeira versão da história, da autoria de Alejandro Amenábar («Os Outros», «Mar Adentro»), também com participação de Penélope Cruz no mesmo papel.

Sem surpresa, surgiram adeptos das duas versões. Uns desprezaram a visão de Crowe enquanto «cópia» adocicada, enquanto outros atribuem maior profundidade e emoção a Vanilla Sky, considerando o original espanhol um produto de Ficção Científica.

Nunca saberei como teria reagido se tivesse visto a criação de Amenábar em primeiro lugar, mas desta forma optei por não fazer comparações – fugindo dessa versão sempre que era ameaçado por ela.

De certa forma, seria como descobrir um clone numa dimensão paralela: é o mesmo sem ser e a sua eventual existência acaba por ser irrelevante para o nosso quotidiano.


 

O Filme

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É perceptível – desde o primeiro momento – que nos encontramos fora da «realidade». À semelhança do que tantas vezes ocorre no sonho, flutuamos em redor de conceitos familiares, como parques e edifícios. Parte de nós desconfia que se trata de uma fantasia, mas outra escolhe acreditar nela, um pouco como na vida. Ou num livro. Ou num filme. O «voo» do espectador – meio folha seca, meio divindade – é intercalado com breve escuridão (piscar de olhos) e assombrado por vozes sibilantes:

Abre los Ojos. Open your eyes.

Tal estabelece de imediato a ponte com a película de Amenábar – a voz que se ouve aparenta ser a de Penélope Cruz – e reforça o sentimento onírico. Ecoa a música de Radiohead – Everything in it’s Right Place – cuja letra ilustra na perfeição a ironia associada e reforça o carácter ardiloso da narrativa.

O nosso protagonista habita a cobertura de um prédio luxuoso em Manhattan, que podia facilmente ser a torre de um castelo medieval. Aristocracia contemporânea. A voz feminina continua a insistir para que David acorde, mas agora já com o tom de voz da personagem pertencente a Cameron Diaz (anotem para memória futura). Esse alerta é de facto uma mensagem no despertador, que vai tendo menos de sedução e mais de assédio à medida que progride (anotem para memória futura).

vanilla_sky_004De quem falamos? David Aames (Aames remete para aims, palavra com duplo significado – direccionar/apontar no caso de uma arma ou câmara e/ou atingir, perseguir, desejar) é o jovem herdeiro de um grande grupo editorial, império literário construído pelo pai. Para já, no entanto, preocupa-se menos com livros e mais com qualquer sinal exterior de envelhecimento.

Este acorda, desliga uma televisão que desaparece no soalho e cuja imagem nos oferece uma bailarina (anotem para memória futura) e verifica no espelho se continua a ser o solteirão mais desejado da cidade. Ao descobrir um cabelo branco, elimina-o com a ajuda de uma pinça.

Olha pela janela como quem confirma a constância do reino e invade as ruas desertas com o seu carro de alta cilindrada. O trânsito é esparso. Pode mesmo dizer-se inexistente. Não só o trânsito como o movimento pedestre.

Não é assim tão cedo. Aliás, não é política sua madrugar. O fenómeno intensifica-se à medida que as ruas se sucedem, até atingir contornos desesperantes numa Times Square digna de apocalipse. Tudo permanece, menos a vida.

Adivinharam. Era um sonho.

David voltará a acordar na mesma cama, ao som da mesma mensagem e repetirá todos os passos até sair de casa – com minúsculas diferenças, situação que remete para o mais recente «Paterson» – embora desta vez encontre uma cidade habitada.

E logo novo salto. Aames está também (algures no futuro) a debater este pesadelo com um psicólogo/psiquiatra que lhe oferece uma solução pífia: a cidade vazia é sinónimo de solidão.

Tem de fazer melhor do que isso.

Não estereotipemos. Nem todos os meninos ricos são vazios, nem todos os psiquiatras se interessam por sonhos.

b0NGW5r7-600x338E mais. Não se trata de uma vulgar sessão terapêutica. David está numa cela, debaixo de vigilância permanente, acusado de homicídio. Tem o rosto coberto por uma máscara de látex branca. Não se pode dizer que a vigília seja melhor que o pesadelo.

Voltemos porém à cidade habitada no «tempo presente». Aames não desperta sozinho, mas com Julianna Gianni (notam o carácter sufocante e obsessivo deste nome?), a personagem de Cameron Diaz. Esta é uma aspirante a cantora (parece) e definitivamente uma aspirante a esposa de David. Aparece com canja de galinha sempre que o «amigo» está constipado e acaba por passar a noite.

Quando voltas a ligar?

Em breve.

F9KgQEylHá também Brian Shelby, o aspirante a escritor apadrinhado por David. O segundo assinou com o primeiro um generoso contrato editorial, que inclui pagamentos adiantados em troca da produção de um romance sobre «rejeição e misantropia». Os principais tormentos de Brian – para além dos criativos – parecem no entanto ser as sessões de squash matinais («não consigo pensar a estas horas demoníacas») e os permanentes «desejos de proximidade» – não usem esta expressão, é de sua autoria – ou simplificando, as musas.

David dá-lhe uma boleia, ao som de R.E.M. – All the Right Friends – sendo interessante continuarem a notar a ironia das letras.

Dormiste com a Julie Gianni outra vez, não foi?

O quê?

Sim, sim, quando te liguei estavas com aquela voz de (aperta o nariz com os dedos) «oh pá, estou constipado».

Estava mesmo constipado. E estava sozinho…

Certo, certo. Podes fazer o que quiseres da tua vida…

Obrigado.

…mas um dia saberás o significado do verdadeiro amor.

A Julie é uma amiga. Por vezes, dormimos juntos…

Oooooh….

O que foi? (risos)

Julie Gianni! A mulher dos meus sonhos! E fazes dela «amiga colorida»…

(…)

Um dia descobrirás o que é a vida: amargo e doce. E eu conheço o amargo, o que me permite apreciar o doce. Quanto a ti, sem o amargo, garanto-te que o doce nunca será grande coisa.

A ligeira epifania matinal é perturbada por um segundo de distracção rodoviária, que deixa o veículo à beira de um capotamento e por fim o atravessa na estrada, a poucos centímetros de serem esmagados por um veículo longo.

Livra! Foi por pouco! E sabes o que aconteceu? – Reage Brian. – A tua vida passou-me diante dos olhos.

Ah sim? E como era?

Quase valia a pena morrer por ela. (risos)

Existem neste curto diálogo diferentes camadas de interesse, que se tornarão mais claras com o avançar da trama.

Recordemos. David é o herdeiro de um gigantesco grupo editorial. Este explica-nos que os pais faleceram na véspera de Natal (conveniente artifício literário e emocional), à conta de um condutor alcoolizado (os acidentes de viação parecem ter um papel importante na vida do protagonista). A partir daí, Aames ficou com 51% da empresa e um conselho de administração criteriosamente seleccionado teve de se contentar com os restantes 49%. Isto foi de certa forma um contratempo, já que todos os membros – «com carinho» baptizados de Sete Anões por David – estavam convencidos que ocupavam o primeiro lugar na linha de sucessão, estando agora forçados a lidar com o que consideram ser um «risco empresarial»: Aames.

Hqdefault-1-noooooooooooNão se pode dizer que estejam errados. O protagonista acorda tarde, falha reuniões, adia decisões importantes e parece totalmente desligado de qualquer conceito corporativo. É arrastado e empurrado por assessores mais ou menos pacientes, mais ou menos generosos, que procuram guiá-lo pela agenda diária.

David é um adolescente de 33 anos que sonha transformar-se no primeiro humano abençoado com a imortalidade (anotem isto para memória futura).

Tudo isto é confessado pelo próprio Aames, na sua infortunada situação «futura», ao psicólogo de serviço, Dr. Curtis McCabe. Todavia, tendo em conta os sinais prévios, não será despiciendo notar certas inconsistências no cenário que os rodeia.


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Uma cela, sim, mas de que tamanho? Qual a razão para tantas janelas? Como se justifica a presença de escadas e para onde nos levam?

Há também o guarda, que os observa a partir de uma divisão contígua. Não parece estar de bom humor. O mais leve decibel acima do aceitável provoca um sermão.

Vou apanhar-te, menino do papá. A tua história está cheia de falhas.

Polícia bom, polícia mau… – Murmura David, pensativo.

Isso é verdade? – Pergunta McCabe.

O quê?

É um menino do papá?

Depende do ângulo. O pai dedicou-lhe uma única linha na sua autobiografia – David era um encanto de criança. Magnata aventureiro (paraquedismo, viagens de balão), nunca lidou bem com uma singular fraqueza do filho: um paralisante medo de alturas.

Quem foi convidado para o aniversário de David Aames? Todos. Até Steven Spielberg. Mas será de facto uma celebração de amigos? Olhem melhor.

Bem-vinda a Graceland. – Ironiza Brian para a mulher que o acompanha, à chegada.

VanillaSky_03Essa mulher é Sofia Serrano (não considerem um acaso que os interesses amorosos de David possuam nomes labirínticos). Esta – Penélope Cruz – é oficialmente o novo «desejo de proximidade» de Brian, mas este depressa se torna invisível.

Por falar em pessoas invisíveis, conheçam Thomas Tipp, o antigo homem de confiança de David Aames Sénior. Este pode estar a caminho da decadência profissional, mas ainda percebe alguma coisa sobre golpes palacianos. Fazendo jus ao nome (Tip – Dica), alerta o jovem patrão para as – pretensas – maquinações dos Sete Anões, tudo regado com bom whisky.

Ainda acredito nesta família David, apesar de só restares tu.

As pistas que nos confessam a vacuidade daquela existência estão por todo o lado. Um holograma de John Coltrane, uma guitarra estilhaçada, uma prancha de snowboard. Fantasmas. Como num sonho.

Quem foi convidado para o aniversário de David Aames? Todos. Todos? Não. Uma tal de Julie Gianni não está na lista. Ou melhor…

Julie? O que estás aqui a fazer?

Vim desejar-te os parabéns.

Eu não te convidei.

Isso foi um pouco estranho…

Mas é assim que as coisas funcionam. Para podermos vir, temos de ser convidados…

Ah…

Podem estar a sorrir, mas os vapores tóxicos são identificáveis.

Ela parece uma traça, David.

Uma traça?!

(…)

Fizeste amor comigo quatro vezes na outra noite.

Isso é bom?

Duas vezes é bom. Três, é muito bom. Mas quatro é…

Quatro é o quê?

São livres, tal como Aames, de especular. Posso no entanto adiantar que uma das emoções humanas mais importantes escreve-se com quatro letras em pelo menos duas línguas diferentes.

O acordo parece simples. Julie terminará a bebida e irá placidamente para casa, aguardar que David acabe de brincar com a «traça» chamada Sofia. Mais tarde voltarão as canjas de galinha. A questão é que para ele não falamos de uma traça, mas da mais bela e inocente das borboletas.


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Que bom seria esvoaçar com ela por céus de baunilha (existe um quadro na sala, da autoria de Monet, que elucida os distraídos).

Podes ajudar-me? Estou a ser perseguido. Preciso que finjas que estamos a ter uma conversa agradável.

Não é coisa fácil, mas posso improvisar.

Ela está no outro lado da sala. Deve estar de olhos fixos em mim.

Vestido vermelho, sapatos de salto…

Ela mesmo.

Deve ser a rapariga mais triste que alguma vez segurou um Martini…

508bbae3e26781dac38903e629be4630Porque este filme fala de tristeza. De uma tristeza doce, mas de tristeza. E sobretudo de pessoas que, sendo tristes, se julgam felizes.

David e Sofia acabam por escapar para uma zona mais discreta da casa, onde podem continuar a fingir que não estão interessados um no outro.

No entanto, caso não se lembrem, a companhia dela ainda é Brian. Este, entretanto, passeou-se pela festa, observando e interagindo com as restantes borboletas. É carismático, bem-parecido e possui alma sensível, o que não é um mau cartão-de-visita. O problema é que compete com David Aames. O macho alfa.

O escritor acaba por descobrir o refúgio dos outros dois, acreditemos que por acaso.

Brian! Entra, vou buscar mais bebidas.

A Julie estava a perseguir-me, tivemos de fugir para aqui.

A mim ninguém me persegue, portanto prefiro beber (deixa cair o copo).

Copo idiota…

Não, a culpa é do idiota que o segura…

Não és idiota, bebeste demais. Estás a beber whisky e nessas alturas ficas sempre com uma atitude de «sou um infeliz, dá-me um cigarro».

Por acaso é verdade. Dá-me um cigarro.

Vou procurar um.

Mas entretanto diz-me só isto: porque diabo tinhas de te atirar à Sofia? A mulher dos meus sonhos!

(…)

Tanto pior. Somos amigos, se ela interferir na nossa amizade pode ir passear.

Penso da mesma maneira.

Claro que pensas. Mas ouve bem: nunca conhecerás a dor refinada do indivíduo que vai para casa sozinho. Porque sem o amargo, meu amigo, o doce não é tão doce.

O discurso do «doce-amargo» outra vez.

Terá Brian Shelby ido mesmo para casa? Não sem antes falar uns minutos com Julie Gianni, a sua «outra» mulher de sonho. E também a última pessoa a abandonar a festa.

David leva Sofia a casa e sobe para «uma última bebida».

O que fazes na vida?

Tenho um trabalho parcial como assistente dentária, mas na realidade sou bailarina.

(…)

Mas não danço como tu danças.

Por detrás da máscara de látex branca, o prisioneiro David confessa a McCabe que sempre manobrou «esquemas complicados com as mulheres». Sem dúvida que os aplicou naquela noite com Sofia, mas uma coisa distingue aquele caso de todos os outros: desta vez, Aames está a ser sincero.

Esse sorriso vai ser a minha morte.

Podemos pensar literalmente ou ser receptivos à metáfora. Há de facto um David que «desaparece» no momento em que se apaixona por Sofia. Afinal, como ela própria afirma:

Cada minuto que passa é uma nova oportunidade para mudar tudo.

E o que dirá Brian sobre o assunto?

Só te conheceu umas horas antes de mim (é boa ideia pensar no significado desta frase).

Nota-se que valorizas a amizade dele.

Valorizo. Claro que sim. E como melhor amigo dele – sabedor que está a escrever um romance sobre rejeição – quanto mais tempo eu ficar, mais o ajudo na carreira.

Eu ficaria mais preocupada com a tua carreira.

Não é todos os dias que conhecemos a «nossa» pessoa. Desenham-se as linhas do dilema.

A noite continua, alimentada por aquilo que David definiria como «procrastinação do prazer». Continuam a fingir que não se desejam. Nesse entretanto, direccionam a atenção para uma entrevista televisiva. Alguém conta a história bizarra do Cão Benny.

Para que percebamos, o infeliz Benny caiu ao rio e congelou. Contudo, quando foi resgatado e descongelado, notaram com espanto que permanecia vivo. O fenómeno parece ter inspirado uma determinada empresa especializada em criogenia – Life Extension – a criar um lucrativo negócio.

Será que resulta?

É impossível descobrir.

Bem visto.

Quando os primeiros raios de sol invadem a janela, tudo mudou. Para todos. Porém, à semelhança de uma estrela cadente ou um eclipse, estes fenómenos têm tanto de belo e intenso como de breve.

David sai renascido para o novo dia, mas sai também ao som de Jeff Buckley – Last Goodbye.


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Aames vai começar de novo. Vai ser de facto feliz. Vai ficar com Sofia, assumir as responsabilidades da empresa, abandonar o passado. É necessário, no entanto, que o passado queira abandoná-lo.

David Aames.

Julie Gianni. Andas a seguir-me.

Só um bocadinho.

(…)

Ouve…

Desculpa. Mas faltei a uma audição por tua causa e depois fiquei triste por não ser convidada para a festa. Queres compensar-me?

A vida é feita de pequenas coisas.

Julie está «feliz». Lançou o primeiro álbum homónimo.

O que achas da música?

É optimista (para quem tem dúvidas, o título da mesma é I Fall Apart).

Eu comprava um álbum meu, se não soubesse que era meu.

Já sabes o que dizem…desde que consigas chegar a uma pessoa…

É possível sentir a faca a entrar mais fundo.

O que é a felicidade para ti, David? Para mim, é estar contigo.

O carro acelera, Aames sorri e instintivamente sabemos que algo se vai desmoronar.

Só há uma coisa que me intriga. Por que razão disseste ao Brian que eu era a tua «gaja das voltinhas»?

Eu não disse isso. Eu não disse isso assim. Que diabo, Julie, o que se passa?

O que se passa, caro David, é que até hoje não sabes sequer onde a tua amiga Julianna mora. O que se passa é que fizeste amor com ela «quatro vezes» naquela noite. O que se passa é que «quando dormes com alguém, o teu corpo faz uma promessa, mesmo que tu não a faças». E não me olhes com essa cara. Todos sabemos que «louca na cama, louca na vida». Certo?

Poucos filmes terão retratado um acidente rodoviário com o mesmo realismo. O terceiro acto de um imenso sinistro, que começou com os pais de Aames e foi intercalado com o «quase-acidente» de David e Brian.

O veículo salta o viaduto, dobra-se como um acordeão depois de chocar contra o muro e seguem-se dez segundos do mais profundo silêncio. A morte soa assim.

Quem morreu? Quem sobreviveu? Em que estado ficaram os eventuais sobreviventes? Em que ponto do espaço-tempo nos encontramos?

David e Sofia num parque.

Tive um pesadelo horrível.

Sonhaste que nunca mais me vias.

(…)

Sobrevivi. Com o braço e o rosto recuperados, mas não consigo acordar.

Aames parece contudo ter acordado. E pelo contrário, o braço e o rosto ficaram por reconstruir. Segundo consta, o estado comatoso em que permaneceu durante quase um mês impediu os médicos de executarem as cirurgias necessárias.

No «futuro», todavia, o braço de David está perfeito. E o rosto…bem…como saber o que está por detrás daquela máscara?

«Foram os Sete Anões», sugere. O conselho de administração da empresa montou uma intrincada conspiração com o eventual conluio de Julie. A sua morte ou incapacidade permite que os outros adquiram enfim o controlo total.

Provável? Não. Impossível? Bom…

Coisas destas aparecem todos os dias nas notícias, nas entrelinhas. São ataques ao poder.

Eu sou do Ohio. Nós não fazemos ataques ao poder (curioso como McCabe foi nascido e criado no mesmo estado de Brian. Mas esperem, Brian não é do Ohio).

Tu és rico e as mulheres adoram-te. Eu sou do Ohio e estou bêbado.

Não és do Ohio.

Eu sei.

Uma coisa é no entanto certa.

A resposta para 99% das perguntas é sempre a mesma: dinheiro.

E por falar em painéis, não é apenas o de administradores que Aames tem de enfrentar. Vamos encontrá-lo a esgrimir argumentos com outro, composto por médicos. O paciente procurou fazer o trabalho de casa, utiliza jargão de especialista, mas tal não semeia grande interesse nos interlocutores.

Tanta gente que não teve os meios para investir em cirurgia estética, como o senhor.

Isto não tem a ver com vaidade. Trata-se de funcionar no mundo.

Podemos fazer algo em relação ao seu braço.

Que se lixe o braço!

Por fim, exibem-lhe um estojo como quem oferece o Santo Graal: nele, um «escudo protector-regenerativo».

Ainda bem. Por momentos pensei que se tratava da porcaria de uma máscara!

Só é uma máscara se a vir como tal.

Não me levem a mal, é excelente. Já não tenho de me chatear com o Dia das Bruxas. Mas, o que vamos fazer nos restantes 364 dias do ano?

Qual General exilado, David aprende a lidar com as armas que tem. Estuda, actualiza-se, adapta-se, informa-se. Pela primeira vez na vida conhece o amargo, logo, valoriza pela primeira vez o doce. O prémio idealizado é reencontrar Sofia.

Recordam-se da imagem na televisão, no início da narrativa? Aqui está a vossa bailarina.

Será que esta Bela ainda é capaz de amar este novo Monstro?

Não vais acreditar, mas isto sou eu a sorrir.

Tentei ver-te, mas não me deixaram.

Eu próprio não me queria ver. Mas, hoje consegui finalmente pentear o cabelo.

Regra número um: se um relacionamento terminou, existiu um motivo.

Mentimo-nos demasiadas vezes, fingindo não nos lembrarmos disso.

Na noite do antecipado reencontro, não é apenas Sofia que David vê na discoteca. Brian também marca presença (numa repetição escura do primeiro encontro a três).

Este quadro ilustra como poucos (T2 talvez ganhe o primeiro prémio) a frustração inerente a uma tentativa de resgatar um passado que só existe na nossa memória. Nada revelarei sobre esses momentos, com excepção deste curto diálogo.

Podes ajudar-me? Estou a ser perseguido. Preciso que finjas que estamos a ter uma conversa agradável.

Não é coisa fácil, mas posso improvisar.

Ela está no outro lado da sala. Deve estar de olhos fixos em mim.

Vestido vermelho, sapatos de salto…

Ela mesmo.

Deve ser a rapariga mais triste que alguma vez segurou um Martini…

Familiar?

VanillaSky_LaserDavid retira-se durante algum tempo, alma perdida entre a multidão (máscara invertida).

Os olhos de Sofia Serrano afogam-se em nostalgia, por algo que nunca chegou de facto a sê-lo. Aames, pelo contrário, esbraceja como um náufrago, sem perceber que o socorro já partiu.

Diz-me tudo agora, já. – Pressiona.

Ela afugenta-o com um gesto.

Digo-te numa outra vida. Quando formos dois gatos.

Não acredito que exista morte mais doce.

A madrugada oferece-nos uma rua deserta. Sofia numa fuga contida, perseguida à vez por Brian e David, duas versões da mesma coisa (anotem para memória futura).

Ainda assim, duas versões da mesma coisa podem desentender-se. Senão vejamos:

Amanhã vais sentir-te melhor.

Amanhã quero estar morto. Já agora…falaste com a Julie na noite do acidente? Disseste-lhe que eu me referira a ela como «a gaja das voltinhas»?

Estiveste a recalcar essa história este tempo todo? Já te disse que nunca falei com ela.

(Alguns especialistas defendem que quando mentimos, olhamos para a nossa direita. Estejam atentos).

David fica para trás. Talvez Brian recupere terreno e se envolva com Sofia. Talvez David sonhe com isso. Talvez não exista um David. Talvez não exista um Brian.

Não pensemos nisso agora. Escutemos R.E.M. – Sweetness Follows.

Se a canção nos diz que «a doçura vem a caminho», quem sou eu para discordar?


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David Aames acorda com os primeiros raios de sol, numa manhã com céus de baunilha. Sofia, que mora ali perto como sabemos, encontra-o estendido no chão e hesita em dar-lhe nova oportunidade.

Lembras-te daquele outro David? Tu?

Ainda sou essa pessoa. Ainda sou essa pessoa…

Escuta com atenção: Não tenho genes de Madre Teresa. Se isto se revelar um erro, não tenho qualquer problema em abandonar-te de vez.

(…)

Ouve Sofia…

Não digas nada. Os teus olhos pedem desculpa melhor que tu.

Aames confessa: «criámos um novo mundo juntos». Não se encontra uma grama de infelicidade nele. Mas não nos esqueçamos: o protagonista, algures no «futuro», é um prisioneiro acusado de homicídio, em sessão com o psicólogo Curtis McCabe.

Teve pesadelos esta noite, David?

Tudo é um pesadelo.

Não no mundo de David e Sofia. As coisas parecem, aliás, melhorar a olhos vistos. O desinteressado e sobranceiro painel de especialistas médicos decide corrigir essa atitude, empenhando-se a fundo na descoberta de novas técnicas cirúrgicas – com o auxílio de um obscuro terapeuta sediado em Berlim Oriental – que finalmente permitem devolver ao protagonista o seu rosto original (e completa mobilidade ao braço).

Milagre? Joan Osborne questiona: What if God was One of Us?

Não descurem, no entanto, a presença de um observador em todo o processo clínico, que mais tarde apresentar-se-á como Edmund Ventura.

De volta ao «futuro».

Quem é o seu Beatle favorito? – Questiona McCabe. – Gostava do John, agora gosto do Paul.

O meu preferido sempre foi o George.

(Curta investigação sobre a vida e personalidade de cada um dos membros fornecerá pistas sobre estes dois personagens).

32-russell-vanillaskyO nosso tempo está a reduzir-se, porque McCabe «tem jantar marcado com as duas filhas».

Porém, David hesita em retirar a máscara, depois da operação.

O carro ainda não está pronto. Dissemos que íamos no carro e ainda não está pronto, logo…

Entendo. Não estás a adiar por medo do resultado…

Não me parece.

Sim, não me parece. (Sofia começa a retirar-lhe a máscara com doçura) Também acho que é muito importante termos o carro pronto para irmos onde quisermos, quando quisermos. (Revela o rosto).

Está muito mal?

Bem…tens as orelhas no sítio. E o resto…está perfeito!

Claro que está. Por que razão não estaria? Afinal estamos a ouvir Bob Dylan – Fourth Time Around.

Amas-me? Amar a sério? – Hesita Sofia. – Porque se não me amares, terei de te matar. (mais alguém se lembrou de Julie?).

David descobre-lhe um sinal junto ao seio.

Podia viver aqui.

Estamos a sonhar?

Sem dúvida.

O que pensa Brian Shelby deste paraíso, perguntam? Um brinde à sua capacidade de adaptação e maturidade emocional. Talvez o livro esteja a correr bem. Talvez Sofia, tal como Julianna, fosse apenas «um desejo de proximidade».

Este fez bom uso dos adiantamentos. Casaco novo, câmara de filmar topo de gama. Ah, aqui e ali, uma boa dose de humor negro.

Que se passa?

O que foi?

Que se passa com a tua cara? Diabo, os pontos estão a ceder. Tens uma costura a ceder!

Tech-supportCalma David. Não é real. Qualquer dúvida, aquele que ainda não é conhecido como Edmund Ventura terá todo o prazer em responder. Não repares nele, a poucos metros.

Madrugada. David e Sofia adormecidos. O primeiro acorda e desloca-se à casa de banho em busca de um copo de água. Acende a luz. O rosto está de novo deformado.

Madrugada. O alívio de ser um pesadelo. David desloca-se à casa de banho em busca de um copo de água. Hesita. Acende a luz. O rosto está perfeito.

Regressa à cama, para junto de Sofia. Perdão, de Julie. Espera, o quê?

Quem és tu? Como entraste aqui, o que fizeste à Sofia?

Eu sou a Sofia.

Como é que sobreviveste ao acidente? É uma conspiração não é, tu e os Sete Anões…

(…)

Vou amarrar-te quatro vezes. Sabes porquê? Porque quatro vezes significa de facto alguma coisa.

«Posso no entanto adiantar que uma das emoções humanas mais importantes escreve-se com quatro letras em pelo menos duas línguas diferentes».

Eu sou a Sofia. Estás a brincar? Acorda homem!

Muito bem. Qualquer coisa começa a fazer sentido. Podemos enfim sugerir razões para David Aames ter sido acusado de homicídio. Ou não podemos?

Thomas Tipp, o único que ainda acredita naquela família unipessoal, também fez o seu caminho evolutivo. Deixou de ser uma mascote empresarial para se transformar num solucionador de problemas. Daqueles que dão cadeia.

«O que é isto? Eu não fiz isto». – Rejeita o chocado protagonista ao observar o rosto de Julie coberto de hematomas.

David, não te preocupes. Tratei de tudo com a ajuda do conselho de administração. Têm sido muito compreensivos, se queres que te diga.

Aames observa o outro, estupefacto.

Ela não vai apresentar queixa.

tommyTenta entender David: Julianna Gianni, a tua falecida ex-amante que por pouco não te arrastou para o seu túmulo, apareceu qual assombração na tua cama, no lugar da tua namorada Sofia. Existem fotos que provam agressões que tu não cometeste. Generosamente, Julie, Thomas e os Sete Anões decidiram perdoar-te. Qual é a parte que não percebes?

E porque diabo se escutam sinos/alarmes em pano de fundo?

À saída da esquadra, alguém pouco parecido com um agente da lei anuncia:

«Isto é uma revolução da mente».

Obrigado pelo esclarecimento. Imagino.

Brian também aguarda.

Nunca mais batas numa mulher. Estás a ouvir? Vem meter-te comigo, mas nunca mais batas numa mulher.

(…)

Diz-me que aquela rapariga das fotos é a Sofia. A «mulher dos teus sonhos», o teu «desejo de proximidade».

Sim! Sim! E tu roubaste-a! A única mulher que eu realmente quis, em toda a vida, e tu roubaste-a!

Aquela não é a Sofia!

Ah, espera, já percebi. A Julie sobreviveu ao acidente e agora está a fazer-se passar por Sofia.

Sim!

Estás a viajar na maionese, meu caro.

Onde arranjaste esse casaco? Quanto te pagaram eles para alinhares nesta charada?

Pois, já me esquecia. Eu estou com «eles».

(…)

Ouve bem, porque é a última vez na vida que te dirijo a palavra: eu era o teu único amigo.

majtheme5Tendemos a concordar. Brian Shelby era o único amigo de David Aames. Pensemos na festa de aniversário. Mas calma. Ainda há Edmund Ventura.

O que diria se eu o informasse que todos os seus problemas podem desaparecer? Tem a capacidade de resolver toda esta confusão com um único gesto.

Não me diga. Pois o que eu gostaria é que todos vocês se calassem.

Seja feita a sua vontade.

Consegue distinguir sonhos de realidade, David? – Pergunta McCabe.

Claro, você não?

Bem, David, existem inúmeras situações que sugerem o contrário, entre mitos gregos e teorias filosóficas. Talvez ninguém saiba assim tão bem o que «realidade» significa. Apesar disso:

Tem nas suas mãos a chave desta prisão.

A questão é que para sairmos de qualquer prisão, temos de começar por reconhecê-la.

Aames regressa ao apartamento de Sofia. Ou de Julie?

«Quero ver onde moras».

As fotos são de Julie. Os desenhos são de Julie. É esta que o agride violentamente, julgando tratar-se de um assaltante.

Onde está a Sofia?

Eu sou a Sofia.

Será possível?

Onde estiveste? Não importa.

Uma das formas de distinguirmos um par de gémeos é procurar um sinal específico, numa específica parte do corpo.

«Podia viver aí».

…mas terias de usar blusas cavadas para eu conseguir respirar.

O que é a felicidade para ti, David?

«Muito bem. Qualquer coisa começa a fazer sentido. Podemos enfim sugerir razões para David Aames ter sido acusado de homicídio. Ou não podemos?».

Quando olhamos um espelho, este pode reflectir o que de facto somos, não o que desejaríamos ser. O rosto de David está como ele desejaria, ou como tem de estar?

Todd Rundgren pergunta: Can We Still Be Friends?

Matei-a, não foi? Mas não sinto que tenha morto alguém. – Confessa David a McCabe.

(…)

O subconsciente é algo de muito forte.

O tempo esgotou-se. McCabe não deslindou o mistério, porque David não foi capaz de fazê-lo. Talvez fossem os Sete Anões. Talvez não. Talvez David seja inocente. Talvez não. Chegou o tempo de partir. Curtis tem um jantar com as duas filhas.

É uma pena. Já o considero um membro de família.

Aames fica entregue à solidão da cela. Até que, pela terceira vez, existe uma televisão que nos recorda a história do Cão Benny e uma empresa chamada Life Extension.

E normalmente, «à terceira é de vez».

CIN7vGvUsAAPSihMcCabe regressa e surge uma autorização especial para que o prisioneiro, acompanhado pelo psicólogo e pelo guarda, se desloque às instalações da dita corporação. A sua mera existência e esclarecimentos serão fulcrais para clarificar o caso e ergo, salvar a vida de David Aames.

Aceitemos a tese. É oferecida a possibilidade a doentes terminais endinheirados de serem colocados num estado de hibernação, congelados (como o Cão Benny) a baixíssimas temperaturas durante centenas de anos – num sono profundo – até que a sociedade evolua e os moribundos possam ser «ressuscitados» e curados.

Mas há mais, diz-nos Rebecca Dearborn, a representante da empresa: em troca de «um pequeno extra financeiro», os pacientes poderão «ocupar a mente» interagindo num Sonho Lúcido, ou seja, uma vida imaginada num mundo imaginado, onde tudo é perfeito.

Começaram a juntar as peças?

E para quem não acredita…

na altura também se riram de Júlio Verne.

Portanto, falamos de «criotenimento»… – Satiriza McCabe.

Rebecca insiste.

O que é a vida senão a busca pelo sonho?

Aqui, quebra-se a «quarta parede», direccionando a questão para o espectador.

Para nós, portanto. Estão acordados? Têm a certeza?

David quer acordar, disso não tenham dúvidas. Está agora seguro de estar mergulhado num pesadelo, provocado por um erro de programação no seu «sonho lúcido».

Afinal, como diz Rebecca:

A sua mente pode sempre subverter as coisas. O subconsciente é algo de muito forte.

Consumada a fuga parcial, David desemboca no mesmo átrio por onde entraram, de súbito misteriosamente vazio. Os sonhos são mesmo assim.

Assistência Técnica!

Assistência técnica? Ah, claro, o nosso velho amigo Edmund Ventura. Recordam-se? O mesmo que estava presente na operação estética? E depois no bar? Esse mesmo.

Podes enfim explicar-nos o que se passou, Edmund?

Entramos num elevador, rumo aos céus de baunilha.

O que a Life Extension (ou a mente de David através da Life Extension) revela, é que este acordou na rua poucas horas depois de ter saído da discoteca. Nunca mais se reencontrou com Brian ou Sofia. Acabou por resgatar, temporariamente e com a preciosa ajuda de Thomas Tipp, o controlo da empresa, mas a existência estava para sempre minada pela situação de saúde (dor, mobilidade, depressão) e pelo sofrimento emocional (ausência de Sofia).

Assim sendo, após uma busca pela Internet, David deslocou-se às instalações da empresa e assinou um contrato. Nele ficou traçado o seu destino, 150 anos antes daquele momento.

O Sonho Lúcido iniciou-se com o regresso de Sofia, numa manhã de céu baunilha.

Para tal, David teve de cometer suicídio. Deveríamos perguntar o que faz um boneco de neve nas instalações da Life Extension, no momento da hibernação de Aames? Diria que sim.

Afinal, o segredo da vida são os detalhes. As pequenas coisas. Uma pessoa que se conhece. Uma boleia inesperada. Um amigo. Um acidente.

Na vida pós-David, Sofia é a única que comparece no velório, organizado por Brian. Mas se isso é real, por que razão vislumbramos Edmund Ventura, num canto?

Será mais um sonho? É o que defende Curtis McCabe. Por outro lado, será este tangível?

Claro que sim. Tenho duas filhas, sabes muito bem disso.

Como se chamam?

Nunca uma troca de olhares foi tão esclarecedora. Tão pós-humana.

Adeus.

Foi uma brilhante viagem de auto-conhecimento. – Resume Ventura. Afinal, como alguém dizia, é impossível apreciar o doce sem conhecer o amargo.

Holograma de Brian.


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E claro, Sofia.

Olha para isto. Eu estou congelado e tu estás morta. E continuo a amar-te.

É um problema.

Perdi-te quando entrei naquele carro.

Eu encontro-te outra vez.

Claro. Noutra vida. Quando formos dois gatos.

«Quase morremos. E sabes o que aconteceu? A tua vida passou-me diante dos olhos».

«Que tal era?».

«Quase valia a pena morrer por ela».

De acordo com o simpático Ventura, o gigantesco salto de fé do seu cliente terminará num acordar seguro, 150 anos no futuro, onde este poderá experimentar uma vida dificultada por questões financeiras, mas real.

E alguém, algures, abre os olhos. Quanto ao resto…

(…)

This is your time

This is your day

You’ve got it all

Don’t blow it…away

(…)


 

Epílogo

De acordo com o realizador Cameron Crowe, existem pelo menos cinco interpretações diferentes para a narrativa:

 – Edmund Ventura está a dizer a verdade. Passaram, de facto, 150 anos desde a morte de David e tudo o que se seguiu pertence ao Sonho Lúcido;

 – Tudo o que se segue ao acidente de carro é um delírio provocado pelo estado comatoso de David;

 – Tudo o que se segue ao acidente de carro é uma alucinação provocada pelos medicamentos administrados durante as cirurgias;

 – Todo o filme é na verdade o enredo do romance de Brian Shelby;

 – Todo o filme é um sonho de um desconhecido.

Ainda que se admita a primeira opção – a mais fiel ao original de Amenábar – apenas as duas últimas hipóteses fazem justiça à narrativa.

Se recordarem diversos detalhes ao longo deste texto, concluirão que a tese mais estruturada coloca Brian Shelby no papel de protagonista, enquanto autor de um romance no qual David Aames é a personagem principal.


4 pensamentos sobre “Vanilla Sky

  1. Adorei a análise que fez do epílogo, eu sempre interpreto o filme da forma literal que é mostrada, por isso interpretei conforme mencionada na primeira “análise”. Achei bastante interessante as outras análises.

    Uma ponta que ficou solta se levar em conta a primeira análise, é o motivo do suicídio de David. O “Suporte Técnico” explica que foi devido as fortes dores de cabeças e de sua aparência, e que David não conseguia viver sem Sofia. Mas se no final do filme Edmund explica que Sofia tinha David como sua possível chance do amor verdadeiro, pq David pensa que a tinha perdido para sempre? Aquela noite esquisita na boate definiu tudo?

    Li algumas interpretações que ele tinha suicidado, pela sentimento de culpa pela morte de Julie, mas eu não consegui interpretar nenhum sinal de empatia do Protagonista por ela.

    É um filme bastante melancólico, que nos faz refletir por dias…

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    • Obrigado pelo comentário, Maryan.

      De facto, se quisermos ficar com a interpretação literal (não é o meu caso), não há empatia de David por Julie e a morte dela nunca provocaria o seu suicídio. Quanto à sua pergunta, sim, «a noite na boate definiu (quase) tudo», já que Sofia nunca seria capaz de lidar (a não ser na fantasia dele) com um David mutilado, que ela no fundo mal conhecia. Eles tiveram essa chance de «amor verdadeiro» antes do acidente, apenas. E ele sabia que tinha feito asneira e preferiu o Sonho Lúcido (onde podia corrigir tudo…ou não).

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