Dogville


 

Prefácio

 

Se quisermos falar de Lars Von Trier, o polémico e brilhante realizador dinamarquês, temos de estar disponíveis para abandonar os terrenos seguros da central mediania e ousar tocar nos pólos. Do amor ou do ódio.

Logo aqui me contradigo, pois não tenho o hábito de venerar ou sequer acompanhar com detalhe realizadores de cinema – com excepção de Stanley Kubrick – mas a escolher um dos extremos estaria mais próximo do amor.

Se não por mais nada, pelo menos porque tal como ele nunca tive e cada vez tenho menos paciência para a «central mediania», um primo afastado da mediocridade, no cinema ou na vida.

Se não por mais nada, pelo menos porque tal como ele estou próximo de ser um misantropo niilista.

Se não por mais nada, pelo menos porque antes de Dogville – uma interessante parábola acerca da condição humana – nunca tinha visto qualquer trabalho de Von Trier e desde 2003 (ano de estreia do filme, em Cannes), já me saíram ao caminho «Os Idiotas», «Melancolia» e «Ninfomaníaca» (que se acalmem os brados furiosos dos aficionados que me perguntam por «Ondas de Paixão» e «Dancer in the Dark»).

Dogville é um híbrido entre filme e peça de teatro – Tarantino terá mesmo afirmado que se Von Trier tivesse optado por esta última teria ganho um Pulitzer – e foi esse o primeiro aspecto que me seduziu.

O segundo foi a narração de John Hurt, que associada à partição do enredo em capítulos titulados nos remete para os clássicos literários do séc. XIX.

O realizador pega num elenco de estrelas e arrasta-o pela lama – presente nas roupas com que os veste, nas «ruas» da aldeia fictícia e na alma dos personagens que encarnam e talvez por isso esteja «seguro» que esse mesmo elenco «conspirou contra ele».

Parece-me razão extra para valorizar o trabalho do controverso dinamarquês, indiferente a críticas e modas, capaz de ridicularizar em igual proporção opiniões alheias e obra própria:

Como se chama esta aldeia? – Pergunta a certa altura um personagem em trânsito.

Dogville.

Que nome tão idiota para uma aldeia (ou para um filme, acrescentamos).

Talvez seja, talvez não.

Von Trier não se importa. Eu tão-pouco.


 

O Filme

Prólogo

Que nos apresenta a aldeia e seus residentes

 

1302025196-dogville


Estamos na década de 30 do século XX. Estamos na Grande Depressão que se seguiu à Crise de 29. Estamos no Estado do Colorado. Estamos nas Montanhas Rochosas. Estamos numa aldeia insignificante chamada Dogville, que nasceu junto a uma mina de prata, agora abandonada. Estamos na principal rua da povoação, de seu nome Rua do Ulmeiro, embora, como é imediatamente notado, não exista (nem nunca tenha existido) nenhum ulmeiro nessa rua ou sequer nas proximidades.

O que existe em abundância são montanhas, que formam um beco no fim da Rua do Ulmeiro. Para além delas existe pouca saída e abundante perigo para a integridade física.

O local é-nos apresentado pela voz de John Hurt, mas esta verbaliza apenas o ponto de vista da personagem Tom Edison Jr. (Paul Bettany) – quem não se lembrar desde logo do inventor Thomas Edison e daí retirar a obrigatória ironia, está distraído.

O nosso Tom Edison, contudo, não planeia brilhantes inovações científicas e tecnológicas, preferindo reunir energias e ilusões na Filosofia e na Literatura. De momento, reúne mais ilusões que energias e mais planos que resultados. Enquanto o branco das folhas sai vencedor das batalhas diárias, Tom vai atormentando os habitantes da aldeia com frequentes convocatórias para «assembleias», nas quais, perante a indulgente e quase sempre desinteressada presença dos vizinhos, procura reunir a sua incipiente eloquência para os «alertar» – e se possível doutrinar – para as linhas mestras de um movimento espiritual conhecido como «rearmamento moral» – um movimento verídico nascido em 1938 nos EUA e que se prolongou até 2001, tendo-se extinguido com a morte do fundador. Visto por alguns como ingénuo e inútil e por muitos mais como um culto.

Os objectivos de Tom, porém, passam menos pela formação de um culto e mais por convencer os «bem-intencionados» companheiros a abraçar um verdadeiro conceito de comunidade – quem sabe varrer a Rua do Ulmeiro em conjunto e em turnos em vez de cada um se preocupar apenas com a sua porta e por aí adiante.

Tom é filho de Tom Edison Sr., um médico que tem o azar de ser hipocondríaco, embora também seja o líder moral de Dogville, posição que o filho pretende obviamente herdar.

Para tal, há que derrotar a procrastinação. Tom considera-se um «mineiro» literário, em busca de ideias que possam ser vistas como pedras preciosas, ainda que a sua mina espiritual enfrente – tal como a sua congénere tangível, ao fundo da rua – uma crise profunda.

Numa nação em crise – quem sabe mesmo numa espécie em (eterna) crise (moral) – seria peculiar se a dúzia de habitantes que forma Dogville fosse excepção. As eventuais peculiaridades que os afligem serão mais idiossincrasias mas sempre em oposição aos ingénuos ideais de Tom e não à generalidade da condição humana.

Assim, por exemplo, temos Liz, que odeia Tom se ao dizer ódio quisermos dizer amor, portanto lamenta e protesta de cada vez que se encontra com ele, exausta de lidar com os «olhares libidinosos dos homens da aldeia».

Temos um casal composto por Vera e Chuck que se ama, se ao dizer amor quisermos dizer ódio, uma vez que «Vera não aprecia maçãs» e Chuck não aprecia clássicos gregos, estando pouco disponível para teorizar sobre «estoicismo» – talvez porque o conheça na prática.

Temos Ben, cuja velha carrinha de caixa aberta o torna num membro efectivo da «indústria dos transportes» e as pessoas «não deviam fazer pouco da indústria dos transportes» muito menos do facto do solitário Ben precisar de fazer uma visita mensal a um bordel.

Temos ainda o casal Henson, pais de Liz e de Bill, que gere um negócio de copos – aproveitam copos velhos e rudes e limam-lhes as imperfeições até os tornar frágeis objectos de primeira classe. Bill estuda para ser engenheiro, mas está tão próximo disso como Tom de ser filósofo, com a agravante de ter um intelecto bastante inferior (o outro derrota-o diariamente numa partida de Damas, por mais que Bill se esforce por boicotar ou adiar o jogo – notem, Bill não gosta de ser recordado que carece de inteligência mas Tom gosta de ser recordado que a mesma não lhe falta).

Existem outras, de variada relevância, que formam uma comunidade que pode ser resumida em Jack e Ma Ginger. O primeiro é um idoso que simula não ser cego – em troca os outros fingem nisso acreditar. A segunda é a dona da orgulhosa loja local onde está por vender há anos um conjunto de bonecos de porcelana decorativos e a igualmente orgulhosa cultivadora de groselheiras, que redundam em tartes a transbordar de canela.

E, como Tom admite, «tudo fica melhor quando se coloca canela».

 

Capítulo I

No qual Tom ouve o som de disparos e conhece Grace

1_08ZMPG8tG8M3i8WLHN0lZA


Não é certo – é aliás bastante improvável – que os habitantes de Dogville queiram manter ou reconstruir alguma espécie de laço com o mundo exterior (o patriarca Tom, por exemplo, utiliza apenas o rádio para ouvir música, desligando-o assim que começa o boletim noticioso; o velho Jack passa o tempo a recordar as matizes de luzes defuntas e Chuck viveu em tempos na cidade antes de procurar reclusão naquele ermo), pelo que o jovem Tom carece de uma «ilustração». Ou seja, algo concreto e conciso, que demonstre aos outros a necessidade de reconverter essa perspectiva.

Concreto e conciso começa por ser o conjunto de disparos que ocorrem à distância, cujo rastro viaja pela escuridão rumo aos ouvidos de Tom, entretido no seu passeio nocturno.

Enquanto se debruça no miradouro em busca de uma resposta, esta chega atabalhoadamente, nas suas costas, à Rua do Ulmeiro, materializada em Grace (Nicole Kidman). Há que admitir que enquanto «ilustração», Grace é melhor do que canela, ainda que Ma Ginger tenha algumas dúvidas sobre isso.

A fugitiva começa por abordar as montanhas que cercam Dogville, depois de roubar um osso a um cão chamado Moisés (pertencente ao casal Chuck e Vera) mas regressado do seu intrigante passeio, Tom informa-a que – como já sabemos – as mesmas são férteis em perigo e parcas em saídas. É notório que Grace precisa de ser salva e que Tom precisa de salvar alguém (a começar por si próprio), pressupostos mais do que suficientes para formar um pacto.

Atrás de Grace chega um automóvel, poderoso e intimidante.

Tom envia a sua recém-chegada pedra preciosa para o interior da mina abandonada, apenas o tempo de negar a existência desse tesouro no povoado ou nas proximidades.

Como se chama esta aldeia? – Pergunta um dos presumíveis criminosos.

Dogville.

Que nome tão idiota para uma aldeia.

O nome poderá ser idiota, mas talvez Tom não o seja se aceitar um cartão com um número de telefone e um número que dê corpo à ideia de uma recompensa, caso alguma mulher em fuga desagúe naquelas paragens.

É no entanto de recordar que todos os apaixonados são idiotas (pelo menos durante algum tempo) e torna-se relativamente fácil concluir que o idealista, ingénuo e ansioso Tom encontrou em Grace a sua musa e o seu objecto de desejo.

Logo, não a entregará aos criminosos, desde que o resto da povoação concorde com ele. Assim, há que apresentá-la na assembleia dessa noite enquanto oportunidade viva para que a comunidade comece a agir como tal.

Ou seja, se a deixarem ficar – mesmo diante da eventual ameaça do mundo exterior – provarão a Tom e a si mesmos que possuem de facto o potencial humano que este quer descobrir neles.

Segundo Tom, Grace é uma dádiva, uma «graça» divina, que chega das sombras para «ilustrar» todas as teorias que o candidato a escritor tem explanado há muito.

Segundo os outros, incluindo o pai, Grace é pelo contrário uma ameaça à ordem estabelecida e à paz local.

Tom é contudo um parlamentar, um retórico amador que dificilmente concede que sentimentos primitivos de auto-preservação se imponham à lógica. Arquitecta um compromisso: se a forasteira «provar» à aldeia a sua boa-fé, poderá ficar. Caso contrário, partirá sem protesto ou demora.

Os outros estão habituados a discordar de Tom, mas estão também habituados a ceder aos seus caprichos, pelo que após algum debate, se procede a um voto improvisado. Um toque de sino por cada aprovação.

Todos aceitaram?

Todos.

Até o Chuck?

Até ele.

Tom veste com prazer a armadura de cavaleiro andante. Começa a peneirar na sua mina espiritual as soluções para a perfeita comunhão entre Grace e a comunidade.

Esta terá de, no prazo estabelecido de duas semanas, ganhar a confiança e carinho dos «bem-intencionados» habitantes.

Dogville parece preparada para Grace. Estará Grace preparada para Dogville?

 

Capítulo 2

No qual Grace aceita o plano de Tom e se entrega ao trabalho físico

AnotherCountry_Dogville_05-1-1600x900-c-default


Quando somos convidados para casa de alguém ou recebemos esse alguém em nossa casa tendemos a ser educados, prestáveis e simpáticos. Tendemos a oferecer ou permitir favores, mesmo que não precisemos deles, porque queremos ser reconhecidos e aparentar reconhecimento.

Logo, Jack não precisava que alguém escutasse os seus longos e detalhados monólogos sobre os efeitos da luz ao entardecer;

Ma Ginger não precisava de ajuda no cultivo das groselheiras;

Vera não precisava de auxílio na educação dos filhos;

Chuck não precisava de auxílio no cultivo das maçãs;

O casal Henson não precisava de ajuda a embalar os copos, muito menos Bill nos estudos de engenharia ou nas regras básicas de um jogo de Damas;

Ben não precisava que lhe arrumassem a casa ou servissem o jantar no final do dia;

Olívia não precisava de ajuda para cuidar da irmã, presa a uma cadeira de rodas;

Dogville não precisava, sinceramente.

Contudo

Por mera questão de cortesia, numa complacente demonstração de boa vontade, «muito bem, para não estar sem fazer nada, se quer ser simpática», ficou então acordado, com o indispensável auxílio de Tom, que Grace doaria uma hora do seu dia a cada habitação e os cidadãos de Dogville permitiriam a sua desnecessária ajuda.

E apesar de ninguém precisar de nada, depressa ficou evidente que a vida de todos se tornou mais fácil, leve, doce e agradável (como uma fatia de tarte polvilhada com canela) a partir do momento em que Grace passou a ajudar todos aqueles que não careciam de ajuda.

Tom rejubila e Grace com ele, ambos parte de uma dupla cujos laços pretendem – com o tempo – estreitar até aos limites do horizonte.

Tudo seria perfeito e a integração de Grace em Dogville estaria completa, não fora o sempre relutante Chuck continuar deveras convencido que a povoação pode muito bem cuidar de si própria. Se Vera discorda, enfim, nada de novo. Nada de novo e nada de bom para Grace, pois basta um voto discordante para que esta se veja forçada a partir.

Felizmente existe Tom. Tom o cavaleiro andante, o pensador racional, o conhecedor de almas, o estratego-mor. O novo plano infalível sugere que a sua musa proponha cuidar dos filhos de Vera numa tarde em que esta está ausente – ele fará por atrasá-la ainda mais – permitindo assim que Chuck chegue antes e comprove por si mesmo a utilidade de Grace na comunidade (e na sua vida em particular).

Este, porém, não fica muito impressionado, como quem diz «ah, ainda estão verdes». Quando a forasteira o inquire acerca dos motivos para tão grande relutância, este tem na manga rasgada a sua própria «ilustração» de Dogville. Se Grace vê dourado e rosa, é apenas porque foi empurrada pelo negro da noite e se Tom reforça essas cores é apenas porque as vê nela e não em Dogville. Chuck caiu um dia nessa armadilha, numa da qual não consegue sair, mas tal permite-lhe ao menos afastar a poeira ilusória e ver a povoação como ela de facto é: podre. Que cor tem a podridão? Não sabemos. Mas Grace, se for inteligente, não deve ficar para descobrir.

Notem, não é que falte inteligência ou perspicácia a Grace, mas faltam-lhe (por agora) outras coisas, como cinismo, hipocrisia e desencanto. Idealismo e esperança tem de sobra, sobretudo na espécie humana, de que Dogville é uma minúscula mas ainda assim válida amostra. Logo, a existir a podridão sugerida por Chuck, ela será decerto eliminada por Grace, lufada de optimismo regenerador.

Assim o crê ela. Assim o crê Tom.

 

Capítulo 3

No qual Grace se entrega a um duvidoso episódio de provocação

380053.jpg-r_1280_720-f_jpg-q_x-xxyxx


Sendo a espécie humana uma reprodutora de padrões e sendo Dogville uma tímida mas comprovada alegoria da espécie humana, não existe qualquer razão para surpresas. Grace quer gostar de Dogville e Dogville quer gostar de Grace, pelo que dois elementos em processo de sedução tratam de exacerbar qualidades e desprezar a hipotética existência de imperfeições.

«Jack não precisava que alguém escutasse os seus longos e detalhados monólogos sobre os efeitos da luz ao entardecer;» mas nunca como agora esta lhe pareceu tão nítida;

«Ma Ginger não precisava de ajuda no cultivo das groselheiras;» mas nunca como agora estas se mostraram tão vívidas e pujantes;

«Vera não precisava de auxílio na educação dos filhos;» mas nunca como agora estes entenderam com tanta clareza o conceito de estoicismo;

«Chuck não precisava de auxílio no cultivo das maçãs;» mas nunca aquela macieira teve um tronco tão carregado de frutos;

«O casal Henson não precisava de ajuda a embalar os copos, muito menos Bill nos estudos de engenharia ou nas regras básicas de um jogo de Damas;» mas nunca como agora as encomendas se venderam e até Bill se revela capaz de derrotar Tom numa partida emocionante;

«Ben não precisava que lhe arrumassem a casa ou servissem o jantar no final do dia;» mas nunca chegou tão cedo como agora nem se sentiu tão livre de culpa ao visitar o bordel;

«Olívia não precisava de ajuda para cuidar da irmã, presa a uma cadeira de rodas;» mas nunca como agora foi possível sentir o cheiro a limpo, malgrado os descuidos nocturnos;

Dogville não precisava, sinceramente. Mas, sinceramente, precisava.

Ainda assim, os habitantes não querem que a forasteira se sinta usada e abusada, pelo que estão de acordo em pagar-lhe um pequeno salário, conforme as possibilidades de cada um, do qual esta guarda parcela ainda mais exígua, destinada à compra das sete figuras de porcelana em exibição na loja de Ma Ginger.

Portanto, Grace já gosta de Dogville e Dogville já gosta de Grace. Tenhamos então presente que quando duas partes gostam uma da outra, começam a esquecer o pudor e a convidar a sinceridade. Não é de estranhar que a bem-intencionada forasteira, perdida numa povoação do Colorado, nos anos 30 do século XX, nunca tenha ouvido aquele ditado que nos recorda: «Temos a capacidade de falar para não fazermos tudo o que queremos e a capacidade de pensar para não dizermos tudo o que queremos». Se assim fosse, talvez não se tivesse atrevido a enganar Jack, «forçando-o» a admitir a cegueira – a ela, a si próprio e por conseguinte a todos.

No final dos quinze dias, o voto é unânime: Grace deve ficar.

Deve ficar porque melhorou a vida de todos e todos, à sua maneira, contribuíram para melhorar a vida de Grace.

Deve ficar porque ali pode ser sincera. Deve ficar porque permite (e incentiva) que Dogville seja sincera.

E numa relação – dizem – a sinceridade é tudo.

 

Capítulo 4

Tempos felizes em Dogville

film__2787-dogville--hi_res-20a9d2dc


A vida em Dogville transforma-se então numa rotina com sabor a canela. E bem sabemos como tudo fica melhor com canela. As tarefas de Grace não são bem tarefas, são gestos de simpatia oferecidos com prazer e sorrisos. O salário não é bem um salário, antes um caloroso agradecimento monetário, reaplicado pela antiga forasteira na compra das amorosas figurinhas de porcelana, que fazem uma pendular viagem da montra de Ma Ginger para a janela de Grace. Esta habita agora o velho moinho abandonado, reconvertido no seu novo lar pelos gratos cidadãos de Dogville.

Quem oferecesse à povoação um mero olhar distraído, cometeria o erro de julgar que Grace era há muito um membro efectivo da minúscula comunidade e o mesmo lapso terá começado a dominar a mente de todos os habitantes, da mesma forma que Grace terá ousado esquecer-se que assim não era. Naquela imagem feita de água (que por momentos simula não estar inquinada), o papel esclarecedor do azeite – o tal que vem sempre ao de cima como a verdade – é a dado momento assumido pelo agente da autoridade cuja missão é afixar um cartaz de «Pessoa Desaparecida» na parede fronteiriça da paróquia.

O alerta é dado por Martha, a paroquiana encarregue de manter viva a religiosidade da povoação, enquanto o novo padre tarda a chegar. Basta-lhe tocar o sino de cada vez que alguém estranho à comunidade surja ao fundo da estrada poeirenta.

O que aquele cartaz nos diz é que Grace não é Grace. Melhor dizendo, não é apenas a «Grace de Dogville», que os distraídos poderiam considerar eterna habitante daquele esquecido lugarejo. O que aquele cartaz nos diz é que Grace é Grace Margaret Mulligan, uma cidadã do mundo exterior. Uma forasteira.

As boas pessoas de Dogville não sabem quem é Grace Margaret Mulligan, se merece ou não o estatuto de foragida, se está ou não em incumprimento com a Lei e sobretudo, se o facto de Dogville albergar no seu seio uma possível criminosa os transforma em possíveis cúmplices.

Alguns membros sugerem novo voto, mas Tom relembra com alguma razão que não podem recorrer a plebiscitos por qualquer coisa, uma vez que o seu valor intrínseco diminuirá de cada vez que assim for.

Por fim, a maioria conclui que se uma pessoa desaparecida não é forçosamente uma pessoa inocente, também é verdade que não é forçosamente uma pessoa culpada, o que faz deles inocentes até prova em contrário.

Dogville recolhe-se naquela noite com a sensação que Grace, afinal, é Grace Margaret Mulligan e que após comermos as tartes polvilhadas de canela, ficamos a braços com os pratos vazios.

Alguém terá de os lavar.

 

Capítulo 5

Quatro de Julho, apesar de tudo

3102083453_1_3_fgdVEkDJ


Por vezes, a melhor maneira de evitar a ressaca é continuar a beber. Quem diz «04 de Julho», diz «Dia da Independência» e Dogville está disposta a aparentar a sua.

Por exemplo, Tom está disposto a simular que consegue declarar-se a Grace de uma forma escorreita, sem pingo de constrangimento;

Grace está disposta a simular que entendeu as razões pelas quais Tom decidiu não a beijar, mesmo depois dela assumir que também o ama;

Liz está disposta a simular que o possível romance entre os outros dois não a incomoda, sobretudo porque – sempre o soubemos – esta odeia Tom;

Os homens em Dogville estão dispostos a simular que o seu interesse por Grace é apenas platónico;

As mulheres de Dogville estão dispostas a simular que isso não as aborrece;

Dogville, enquanto comunidade, ainda está disposta a simular que Grace não é Grace Margaret Mulligan, ou que se for, tal continua a fazer dela alguém livre de problemas com a Lei.

Todos concordam que estão perante um feriado extremamente agradável, pelo menos até ao momento em que o mesmo azeite – perdão, agente da autoridade – regressa à povoação para actualizar os cartazes.

Grace deixou de ser uma «Pessoa Desaparecida» para se transformar numa «Pessoa Procurada». Neste caso, por um assalto a um banco.

O racional e extremoso Tom depressa questiona o polícia sobre as datas de tal assalto, daí se concluindo que Grace é inocente para além de qualquer dúvida, uma vez que já se encontrava ali no momento do anunciado crime.

Contudo, o mesmo Tom, tão racional e tão extremoso, considera também que as boas pessoas de Dogville sabem que Grace é inocente, mas o mesmo não se passa com a Lei. Para além disso, provar que esta se encontrava ali no momento do crime é assumir que a comunidade deu guarida à «Pessoa Desaparecida» do primeiro cartaz e ninguém está muito informado acerca das consequências dessa atitude.

Como tal – conclui Tom – a situação mudou. Ben diria que «transportar uma mercadoria mais valiosa custa mais dinheiro» mas não nos adiantemos. A auto-proclamada autoridade moral da povoação explica a Grace que a única forma de apaziguar receios e desconfianças é esta trabalhar mais horas por menos dinheiro, de modo a compensar o risco acrescido que a comunidade assume ao escondê-la das autoridades.

Grace não está segura da justiça deste raciocínio, mas a verdade é que também não está segura do seu oposto e para além disso não faz sentido colocar em causa a boa vontade e sinceridade de Tom, uma vez que o amor entre ambos já foi confessado. Se as coisas ameaçam tornar-se piores do que já foram num passado recente, não é decerto por culpa do seu protector, sempre pronto a defendê-la perante a comunidade e além dela, eterno tecelão de raciocínios, teorias e planos para um futuro melhor, em conjunto.

Ainda assim, e porque «numa relação – dizem – a sinceridade é tudo», Grace não resiste a perguntar ao companheiro se o cartão que lhe foi estendido pelo condutor do veículo que a perseguia, na primeira noite, foi destruído. Porque, notem, uma coisa é ser entregue às autoridades estatais, outra – muito diferente – é sê-lo aos ocupantes daquele carro. Mesmo que a recompensa oferecida por estes seja bastante superior.

Não há, obviamente, motivo para receios, assegura Tom. É claro que o cartão foi destruído, é claro que este trabalhará de forma incansável na busca de uma solução que seja do agrado de todos. Entretanto, por uns tempos, Grace terá de fazer a sua parte.

Terá de simular que aquele acordo não é uma chantagem.

E Dogville simulará – com gosto – que é de facto uma comunidade independente. Dos seus medos e preconceitos, dos seus pecados e segredos. De si mesma.

 

Capítulo 6

No qual Dogville mostra as garras

dogville-filmi-3


A simulação é um recurso que nos pode acudir em múltiplos contextos. Pode revelar-se útil e duradoura. Padece, contudo, de um defeito: mais cedo ou mais tarde, torna-se explícita.

Reparem, «os homens em Dogville estão dispostos a simular que o seu interesse por Grace é apenas platónico», mas não durante muito tempo;

«As mulheres de Dogville estão dispostas a simular que isso não as aborrece», mas não durante muito tempo;

Grace está disposta a simular que o novo acordo é exequível, sem quebras de rendimento, qualidade ou energia – até mesmo de motivação – mas a realidade acaba por demonstrar que «não por muito tempo»;

Porém, o exemplo que melhor ilustra a «completa ausência de estatuto social e alternativas por parte de Grace, tornando-a absolutamente vulnerável à manipulação alheia», nas palavras de Lars Von Trier, é o episódio com Jason (filho mais velho de Chuck e Vera).

Clarifiquemos: Vera opõe-se de forma total aos castigos corporais; Grace concorda; Jason, pelo contrário, parece familiarizado não só com o conceito de estoicismo, mas sobretudo com o de masoquismo – pelo que aprecia uns bons açoites; Grace não está disposta a ceder, por pior que seja o comportamento da criança; Jason, contudo, manipula sem dificuldade e até com uma pontinha de sadismo a situação. Se Grace não lhe bater, este irá dizer à mãe que ela o fez – colocando-a numa situação complicada. Se pelo contrário esta o castigar (com a força que ele exige) o segredo ficará entre os dois.

É difícil acreditar que alguém encontre uma solução para este enigma e tão-pouco tal sucede com Grace, que obedece ao capricho do rapaz.

Se esta julga que o dia foi complicado, é porque Chuck ainda não chegou a casa. Recordem, este gosta de maçãs, tal como Grace. Vera nem por isso. Logo, o mesmo considera que a mútua afeição pelo fruto pode com facilidade extravasar para outros campos, como o sexual, paralelismo do qual ela discorda.

Apesar disso, se Jason consegue transformar uma recusa numa aceitação, que dizer do pai, muito mais experimentado nas artes manipulativas? Para infelicidade da Musa de Tom, Chuck está na posse de duas coisas: um lenço (que rouba do pescoço de Grace) e uma conversa inacabada com um polícia, que lhe fez uma visita no pomar. O mesmo pode ou não ficar a saber que o lenço pertence à foragida, tudo depende do amor que Grace revele pelas maçãs. Quem diz pelas maçãs, diz pelo cultivador de maçãs, mais rasgão menos rasgão, mais protesto menos protesto.

É esse o problema das simulações. Mais cedo ou mais tarde tornam-se explícitas.

Mesmo que essa clareza seja escura.

 

Capítulo 7

No qual Grace se farta de Dogville, abandona a povoação e observa de novo a luz
do dia

Dogville Photo:  Framegrab


Felizmente, há Tom. Felizmente, há sempre Tom. Este pode não ter ficado furibundo com aquilo que ouve da sua Musa, pode não ter ido confrontar Chuck olhos nos olhos, cara a cara, homem para homem, pode não ter convocado uma das suas «assembleias» para questionar as boas pessoas de Dogville acerca da progressiva animosidade para com Grace, cada vez menos Grace e cada vez mais Grace Margaret Mulligan. Tom pode não ter feito nenhuma destas coisas mas fez aquilo em que é mestre: começou a elaborar um plano.

Entretanto, Dogville não espera. Ou seja, a treva não espera, alastrando pelas esquinas qual vírus sem antídoto.

Vera, por exemplo, foi informada pelo filho de que Grace violou a mais sagrada das regras educativas: utilizou castigos físicos.

Liz, por exemplo, foi informada por anónimos que Tom saiu da casa de Grace já de madrugada, situação que permite especulações desagradáveis.

Jack, por exemplo, está agora menos interessado em descobrir as nuances da luz exterior e mais curioso com o que se esconde na escuridão das saias de Grace.

O tempo mudou. E se alguma vez existiu um Verão na minúscula e esquecida comunidade conhecida como Dogville, este desfaleceu por entre as folhas de Outono que esvoaçam pela Rua do Ulmeiro, ainda que nela não exista nem nunca tenha existido um ulmeiro.

Apesar das dificuldades e do magro salário que resulta dos longos dias de trabalho quase forçado, Grace cumpriu um dos seus objectivos: adquiriu todos os bonequinhos de porcelana, que se despediram da loja de Ma Ginger e se abrigaram no parapeito da sua única janela. Se cada uma daquelas figuras não representa de forma fiel a sua relação presente com os habitantes de Dogville, são pelo menos uma memória de tempos mais felizes.

Não é certo que Chuck e Vera ainda se recordem de tempos mais felizes na sua relação, mas não existe infelicidade que não possa ser aumentada. Nomeadamente, quando falamos de traição.

Grace não entende na totalidade a acusação que pende sobre ela, mas Vera, Liz e de certa forma Martha fazem o possível por esclarecê-la: talvez a forasteira não saiba disto mas existe um determinado ponto no caminho que leva ao pomar de Chuck que se abre numa espécie de miradouro. Martha ter-se-á detido nesse local por motivos desconhecidos e certamente inocentes, embora o que dele visionou nada tenha de inócuo.

Grace devia ter adivinhado. Devia ter adivinhado que Chuck é um homem fraco. Que Chuck seria incapaz de resistir aos avanços dela. Que Chuck não conseguiria evitar a sua natureza selvagem e agiria de acordo com a mesma. Grace devia ter adivinhado.

Aliás, Liz já tentara alertá-la. Permitir que um homem saia da nossa casa já de madrugada é de mau tom. Permitir (e quem sabe incentivar) que outro homem nos possua num recanto escondido do pomar é de pior tom.

Nada receemos, porém. As boas pessoas de Dogville não são intolerantes. Não são selvagens sem lei. Um castigo é necessário, mas ninguém mais do que Vera discorda de punições físicas, pelo que as mulheres optam por algo diferente. Vera sabe tudo sobre estoicismo, sobre masoquismo, sobre sadismo e, felizmente para Grace, sobre simbolismo.

Grace terá apenas de dar o seu melhor para suportar a destruição metódica de cada um dos bonequinhos de porcelana, símbolos da sua anterior amizade com as pessoas de Dogville. Se esta conseguir aguentar as lágrimas, Vera deixará de os partir. Grace deveria ser capaz de fazê-lo, aliás sem a sua ajuda a outra nunca teria conseguido ensinar aos filhos as vantagens do estoicismo, mas há qualquer coisa no interior da forasteira que se quebra de cada vez que uma daquela figuras se desfaz em pedaços no soalho em madeira. E por cada fio partido no interior de Grace há uma lágrima que lhe escorre pelo rosto.

Está mais do que na hora de Tom descortinar um plano, considera Grace. Para sua felicidade, assim é. Ben jamais se cansou de avisar que as pessoas «não deviam fazer pouco da indústria dos transportes» e nunca aquela recomendação lhes pareceu tão acertada. Este necessita de levar um carregamento de maçãs à cidade mais próxima e desta vez não nos estamos a adiantar quando recordamos que «transportar uma mercadoria mais valiosa custa mais dinheiro». Palavra de Ben. O sucesso da empreitada parece ameaçado, pois Grace gastou as ínfimas economias na compra dos bonequinhos de porcelana, opção que de momento aparenta não ter sido a mais acertada. A boa notícia é que Tom pensou em tudo. O pai guarda uma boa maquia num frasco, na casa de banho e o futuro escritor tratará de pedir-lhe emprestada uma parte desses fundos, que mais tarde devolverá com juros. Tudo o que Grace tem de fazer é sair de casa bem cedo e esconder-se na caixa aberta da camioneta, entre as maçãs e oculta por uma serapilheira. Ben guiará até à cidade e Tom irá ter com ela mais tarde. Nada pode correr mal.

Enfim, pode sempre correr alguma coisa mal, sobretudo nos planos em que nada pode correr mal, mas será certamente algo de ultrapassável.

Por exemplo, se no dia seguinte todos tiverem acordado mais cedo do que o habitual, questionando Grace acerca das actividades por cumprir ou da possibilidade de esta encaixar no horário este ou aquele favor, nada a impede de prometer tudo a todos, o mais breve possível.

Se o caminho, debaixo da protecção de serapilheira, lhe parecer longo e acidentado, feito de um pavimento impróprio para uma estrada que redunde na grande cidade, nada a impede de adormecer e sonhar com a liberdade ao lado de Tom.

Se a meio desse caminho a camioneta se detiver e Ben se esconder a seu lado, anunciando uma «patrulha na estrada», esse pode ser um preço aceitável a pagar, embora um pouco menos quando o motorista – que planeava aparecer naquela noite no bordel – considera que uma boa forma de poupar dinheiro é aliviar-se no interior do corpo dela (afinal, Grace sempre lhe disse que aquela necessidade fisiológica não era motivo de embaraço). Se esta discordar da proposta, Ben comunicará imediatamente à pretensa patrulha que encontrou uma intrusa na sua camioneta e ficará muito agradecido se levarem para a prisão uma ladra de bancos.

Grace fecha os olhos e conclui que todos os sacrifícios são toleráveis desde que no seu final se encontre a liberdade e a companhia de Tom.

Quando a viagem termina, existem boas e más notícias. A boa notícia é que Tom está presente. A má é que com ele estão as excelentes pessoas de Dogville, não porque o tenham acompanhado à cidade, mas porque Ben a trouxe de volta à povoação, depois de passar algumas horas às voltas pelas montanhas.

Reparem, tal como Tom sempre professou nas suas «assembleias», Dogville carecia de um certo sentido de comunidade, uma causa comum que obrigasse os habitantes a agirem como um corpo único, em comunhão e sintonia. A não se traírem. A denunciarem – como fez Ben – alguma tentativa de prejudicar o todo. A denunciarem – como fez o pai de Tom – quando alguém rouba as suas economias para financiar uma fuga.

Dogville entendeu a lição de Tom. Dogville uniu-se em redor de uma causa: impedir a fuga de Grace.

As boas notícias abundam. Bill, por exemplo, potenciou as lições de Engenharia que recebeu de Grace e concebeu uma eficaz forma de agrilhoamento: uma corrente presa ao pescoço da meliante – assim como quem olha para o cão Moisés – à qual está acoplada uma enorme roda em ferro, várias vezes o peso da prisioneira, de modo a que esta se arraste lentamente mas seja impedida pelas leis da Física de tentar uma corrida – corridas levam a fugas. Como detalhe extra – decerto inspirado no sino da paróquia – Bill adicionou à estrutura uma pequena campainha, que alertará qualquer cidadão de Dogville da sua presença. E para aqueles que pensam que o jovem Bill, que mal sabia mexer uma peça na direcção certa nos jogos de Damas, se esqueceu de que a novel servente precisa de dormir, desenganem-se. A corrente tem o comprimento necessário para que a cativa possa chegar à cama sem para isso precisar de levantar a roda em ferro. Como recorda o pai de Tom, «não somos selvagens nem estamos satisfeitos com esta solução». Antes assim.

Grace, por sua vez, também não está satisfeita com uma ou duas coisas. Nomeadamente, com a passividade de Tom, sobretudo quando ela foi acusada de roubar o dinheiro do frasco. Tom relembra-lhe algo que – à conta das recentes provações – pode ter passado despercebido. Ele está ali para salvar Grace dela própria. Ele está ali para «pensar por ela». Expliquemos: Se Tom a tem defendido perante as boas pessoas de Dogville, estas assumiriam desde logo que existia um conluio entre ambos e para que o mesmo sobreviva é necessário que passe despercebido. Logo, Tom viu-se forçado a deixar que tudo aquilo acontecesse, de modo a manter a liberdade de ajudá-la.

Embora, como ele nota, todos os planos até ao momento tenham corrido mal, sobretudo os melhores. Grace alivia-lhe a consciência. Tom é muito inteligente e decerto descobrirá a solução, mais cedo ou mais tarde.

Afinal, as coisas por vezes pioram antes de melhorar.

 

Capítulo 8

No qual existe uma reunião onde a verdade é dita e Tom sai (apenas para voltar
mais tarde)

dogville-pulling-full


Há que admitir que as coisas ficaram piores. Muito piores.

As boas pessoas de Dogville consideraram – não sem umas gramas de razão teórica – que Grace não teria a partir de agora qualquer necessidade de receber um salário, uma vez que Ma Ginger já não tinha bonequinhos de porcelana à venda e o dinheiro podia voltar a ser utilizado para financiar uma indesejada fuga.

A situação fora de certo modo invertida. Grace não trabalhava para receber um salário e agradecer a hospitalidade alheia, trabalhava para evitar a prisão (ou a morte). Era, há que dizê-lo sem vergonhas, uma escrava.

Estava agora totalmente à mercê de todos os caprichos, desejos, vícios e disfunções da povoação, todos os pecados e tentações que Dogville aprendera a aceitar e mesmo assumir, com a preciosa ajuda da própria Grace. A comunidade sentia-se por isso autorizada a utilizar a prisioneira como receptáculo de escuridão.

Chuck tentara avisá-la: Dogville é podre.

«Que cor tem a podridão? Não sabemos. Mas Grace, se for inteligente, não deve ficar para descobrir».

A questão é que ficou.

Ficou enquanto ainda podia partir e quando quis partir já não estava autorizada a fazê-lo. Um dilema para o qual nem mesmo Tom possui a solução.

Este, nesta altura, não tem de facto a solução para nada.

Quando falamos de Grace enquanto receptáculo de escuridão estamos a socorrer-nos de um eufemismo, para não perturbar os espíritos mais sensíveis.

Estes não deverão por isso ler que Grace recebeu durante muito tempo – de forma diária – os alívios físicos dos homens e os alívios psicológicos das mulheres.

Tão-pouco que o sino da paróquia passou a servir, não para alertar Grace do perigo, mas para alertar a comunidade de cada vez que alguma atrocidade era cometida contra ela, castigo que Tom se via impotente para impedir.

Diz-se que os demónios são anjos caídos, que os duendes foram um dia elfos, que as santas redundaram em bruxas. E se há alguém que sabe lidar com bruxas são as crianças, sempre prontas para partir vidros e atirar excrementos contra o abrigo amaldiçoado. Grace entrou na igreja em fuga dos lobos apenas para, com o tempo, padecer às mãos dos falsos cordeiros.

O vento dispersou sem complacência as folhas de Outono que cobriam a Rua do Ulmeiro e com elas qualquer esperança de melhorias. Aos Outonos seguem-se inevitavelmente os Invernos e este em particular chegou com energia extrema. O branco imaculado dos primeiros nevões revela empenho em cobrir com um «manto diáfano de fantasia» a podridão escura em tempos denunciada por Chuck e agora confessada por toda a comunidade.

Toda? Incluindo Tom?

Não. Este rebuscou – com demora mas também com afinco – outro coelho na sua cartola. Ou talvez devamos dizer que mais do que descobrir um novo coelho, decidiu reconverter um antigo: um que dá pelo nome de «ilustração».

Ou seja, se as «boas pessoas de Dogville» não são capazes de entender por si mesmas a parca bondade dos seus recentes comportamentos, talvez Grace – com o discreto apoio de Tom – deva informá-los, de maneira calma e tolerante. Uma audiência moderna utilizaria o termo «intervenção». O doente deve ser convencido de que está doente, através de exemplos práticos.

Grace aceita, decerto porque confia em Tom, mas eventualmente porque não tem outra escolha. Esta ergue então um espelho diante da comunidade, aguardando com resignação que cada um dos habitantes nele se observe e nesse reflexo identifique a fealdade que os acompanha – quem sabe define.

Opta depois por retirar-se – à semelhança do que aconteceu na primeira noite – desta vez não para a mina, nem para alimentar a esperança de ser acolhida por Dogville mas para o moinho que lhe serve de (pouco) abrigo e para alimentar a esperança de ser dispensada por Dogville.

Tom reflectiu muito, mas não reflectiu no seguinte: indivíduo ou comunidade não diferem no essencial – a autocrítica é a única eficaz. Sabermos que somos podres é uma coisa, termos uma forasteira a afirmá-lo é outra completamente diferente. Diferente e intolerável.

Por sorte, Tom continua a ser o que sempre foi: um cavaleiro andante, um Artista apaixonado pela sua Musa. Entre Dogville e Grace, este escolhe Grace.

Mesmo que essa Musa tenha sido possuída por todos os homens da povoação excepto ele. Mesmo que todos excepto ele já tenham obtido dela – com maior ou menor esforço – tudo o que dela poderiam obter, seja sexo, trabalho ou submissão.

Tom aguardou pacientemente, dir-se-ia mesmo estoicamente, pela sua vez. Pela altura certa onde ambos poderão enfim usufruir do amor que os une, em liberdade.

A não ser que fosse aquela, a altura certa. Agora que ele a «escolheu» em detrimento da comunidade, das pessoas com quem privou desde sempre, talvez seja a altura de Grace permitir que o amor de ambos se confirme.

«Não seria incompreensível, mas tendo em conta a natureza do nosso amor, seria também deveras incorrecto». – Relembra-lhe esta. «Tudo fará sentido, mas apenas em Liberdade».

Tom compreende. E aceita. Apesar de reforçar que tem revelado para com ela um comportamento exemplar, nunca tendo descido ao nível de todos os outros. Apesar de reforçar que «não é vergonha nenhuma» desejá-la fisicamente.

Grace admite a validade do argumento. Admite também que Tom poderá a qualquer momento «descer ao nível de todos os outros» e é talvez por este adivinhar esse tímido desejo dentro de si que parece agora tão revoltado com a situação.

Tom rejeita tal possibilidade com veemência. Para lhe provar mais uma vez os seus altos padrões éticos, os únicos admissíveis pelo digno representante moral de Dogville, por um futuro Escritor e Filósofo de sucesso, este retira-se, deixando a sua Musa entregue a um merecido descanso.

A caminho de casa, sombra entre caminhos alvos, o jovem Tom começa no entanto a temer que a hipótese levantada por Grace possa conter nela uma grama de verdade. Que a dado momento, os pilares éticos deste possam ter sido abanados – ainda que levemente – pela irracionalidade dos ímpetos físicos. E que se tal dúvida existencial obtivesse o espaço necessário para crescer – na sua mente e na menta alheia – a sua reputação estaria em perigo considerável. Quem diz reputação, diz carreira e se há coisa que não pode ser posta em causa é a sua carreira.

O nosso futuro vulto literário chega então à conclusão mais importante de todas: até as melhores almas podem ser conspurcadas. Até as melhores almas podem mentir, quando afirmam que nunca pensaram em aproveitar-se da fragilidade alheia. E sobretudo, até as melhores almas – como é, sem dúvida, o caso da sua – podem fingir que destruíram um cartão.

Se Grace disso se esquecera, a realidade parece empenhada em recordar-lhe: mesmo os piores Invernos podem tolerar um dia de sol.

Talvez a «ilustração» proposta pelo seu amado Tom tenha afinal servido para alguma coisa. Talvez o seu efeito se tenha revelado tardio e renitente, mas eficaz no fim de contas.

Dogville voltou a ocultar o odor a putrefacção com generosas doses de canela.

Se Grace acordou mais tarde, não há problema.

Se as tarefas ficaram por fazer ou foram executadas pelos legítimos carenciados delas, não há problema.

Se Grace pensou que as boas pessoas de Dogville se tinham olvidado de como se recebe uma generosa forasteira, eles estão ali para corrigir isso.

Grace explicou e eles aprenderam. Dogville está sempre disposta a aprender.

E Grace? Estará disposta a aprender? Terá aprendido? Terá entendido que é existência de putrefacção que força a existência de canela?

Se não sabe, é pelo menos capaz de adivinhar. Do mesmo modo que pressentimos uma tragédia próxima, sem discernir ainda a sua origem ou natureza.

Suspeitamos, apenas, que está a caminho.

 

Capítulo 9

No qual Dogville recebe a muito anunciada visita e o filme acaba

 

dogville-3-1


Valerá a pena dizer, contudo, que Grace não será a vítima dessa tragédia, mas a causadora da mesma.

Decorreu agora perto de um ano, colocando-nos mais ou menos no mesmo ponto que despoletou a nossa narrativa: um dia de Inverno a abrir alas à chegada de um Cadillac negro.

Tom, após tardia e derradeira «assembleia» com os habitantes de Dogville, arquitectou enfim o plano perfeito: entregar Grace Margaret Mulligan aos originais carcereiros.

Dogville fez tudo o que podia e sabia por Grace, tendo-se tornado claro que o acordo entre as partes está esgotado e em riscos de se tornar contraproducente.

Grace revelou a verdadeira face da comunidade e esta reagiu da forma habitual: executando o mensageiro.

Tom reflectiu muito, como sempre, mas como sempre voltou a esquecer-se do essencial: os planos perfeitos falham, sem excepção.

Há um cortejo de veículos a acompanhar o poderoso Cadillac negro e do seu interior salta um grupo de indivíduos armados, certamente com ligações ao crime organizado.

Tom, enquanto líder, encabeça também ele um cortejo improvisado, composto pelos parcos habitantes de Dogville. Esperam agradecimento e recompensa, no seguimento da promessa feita há 12 meses.

Um primeiro indício de que algo difere do previsto é a reacção dos forasteiros ao estado da prisioneira. Afinal, todos nós teríamos boas razões para desconfiar se diante do condenado, o carrasco optasse por cortar-lhe as amarras em vez da cabeça.

É a vez de Grace reunir a sua própria assembleia, no interior do Cadillac, composta apenas por ela e pelo seu pai – o chefe mafioso do cortejo.

Não existe confusão ou engano: Grace Margaret Mulligan é a poderosa filha do mais temido criminoso das redondezas, talvez do estado, talvez do país. Há exactamente um ano aqueles homens perseguiram-na sim, dispararam (para o ar) sim, mas não porque a quisessem capturar ou matar, antes porque o seu pai pretendia impedir-lhe a fuga – do carro, da família e das responsabilidades futuras. Grace não é uma mulher indefesa, antes uma mulher influente que decidiu não assumir (nem exercer) o poder que lhe cabe. O cortejo armado não está ali para executá-la, mas para salvá-la.

Dogville pode ter sido ingénua, por momentos, mas não é de todo ignorante. Tom e os restantes sabem que esta repentina mudança do vento pode trazer problemas em vez de afastá-los, pelo que a comunidade se recolhe em casa, num silêncio respeitoso e atrevemo-nos a dizer, temeroso.

O destino da povoação é neste momento debatido nas entranhas do intimidante automóvel.

Trata-se, essencialmente, de um debate sobre Arrogância.

Ambos a revelam e disso se acusam:

 – Grace é arrogante porque se julgou capaz de curar, sozinha, os males daquela comunidade, símbolo universal;

 – O Pai é arrogante porque considera tal comunidade (tal espécie) incurável e defende que o melhor remédio para algo incurável é o seu extermínio.

Uma destas arrogâncias significa a salvação de Dogville. Outra, a sua extinção.

Grace enceta uma última caminhada pela Rua do Ulmeiro, quem sabe lamentando a eterna ausência de um ulmeiro. Observa com cuidado as pessoas dentro das casas, procurando ver no pulsante e no inanimado as cores certas: dourado e rosa.

É nesse momento que as nuvens do seu pensamento se afastam em definitivo, dando passagem à clara, límpida e esclarecedora palidez da Lua. Essa alvura, sendo semelhante à da neve que cobre o chão, é todavia contrastante, uma vez que pretende revelar e não ocultar. Grace continua sem identificar a cor da podridão, mas sabe agora, acima de qualquer dúvida, que ela está lá.

Tom, sempre racional e previdente, adivinha as conclusões da sua antiga Musa e recorre à única arma ao seu dispor: a retórica.

Existe, porém, uma diferença: Grace já não depende de Tom. É Tom que depende de Grace. Os métodos de Tom já foram experimentados, com diminuto sucesso, da mesma forma que os métodos de Grace já foram tentados, com semelhante insucesso.

Tom não tem alternativa. Grace tem.

Parece desnecessário, nesta altura, tornar demasiado vívida a «ilustração» de Grace, talvez a única que Dogville verdadeiramente compreende, bastando um par de exemplos acerca do todo:

Imaginemos que os filhos de Vera são bonequinhos de porcelana. Imaginemos que lhe é dito – testando a tão apreciada capacidade de estoicismo – que os executores serão clementes se esta parar de chorar.

Dogville quis oferecer a Grace «o último cigarro da condenada» e esta utilizou-o para começar um incêndio. Não há garantias de que a povoação fosse «o Inferno» mas certamente ardeu como tal.

Se há pessoa que aprecia «ilustrações» é Tom. Este garante à sua antiga Musa a excelência da demonstração, assegurando que tal eficácia pode muito bem ter levado à sua cura. Seria extremamente útil (sobretudo para ele) que Tom pudesse manter-se vivo de modo a explicar ao mundo – através dos seus futuros livros – o seu longo processo de auto-conhecimento.

Grace concede-lhe uma pequena graça. Não o entregará a uma morte impessoal, às mãos de executores desconhecidos – como ele fez com ela – antes permitirá que a sua extinção seja rápida e quase indolor (um tiro na nuca basta), às mãos de alguém que ele conheceu e que o amou: ela própria.

Concluído o processo, apenas o ladrar perturbado de Moisés ecoa a pouca distância. Grace poupa-lhe a morte, recordando que é ele o único ser vivo de Dogville com verdadeiras razões para desgostar dela: foi-lhe roubado um osso na primeira noite.

Dogville poderá ser «um nome bastante idiota para uma aldeia» mas é garantidamente o mais adequado neste momento, visto ser um cão o seu habitante.

Garantimos existir um importante conjunto de conclusões a retirar desta breve alegoria sobre a Humanidade, mas não resta nesta crónica o espaço para tal, muito menos ao seu autor o tempo para nisso se debruçar.

Cumprimentos.


Dogville8

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.