Match Point


Prefácio

Quem leu outras análises neste espaço sabe que o fenómeno não é novo: retive menos a data em que descobri a existência do filme e sobretudo o momento em que o enredo atingiu a plenitude no meu espírito – não só mas também enquanto reflexo de uma situação pessoal.

Quem conhece o percurso de Woody Allen sabe que este não fez carreira nem reputação em redor do suspense psicológico – é antes conhecido por obras como «Annie Hall», «Vigaristas de Bairro» ou «Vicky Cristina Barcelona». Se procuramos uma história negra da autoria de um realizador misantropo, estamos melhor servidos aqui.

É por isso que Match Point se revelou uma surpresa (mais ou menos agradável de acordo com os gostos pessoais dos espectadores).

Ao lidar com temas relativamente complexos como Moral, Ambição, Luxúria e Acaso vs. Destino, Allen convida-nos para uma arena digna de Dostoievski (aliás referenciado múltiplas vezes) e atreve-se a abandonar-nos nela. Se conseguimos (e queremos) ou não sair é sobretudo uma questão…de sorte.

Datado de 2005, conta com um casal de protagonistas – hoje consagrado, na altura nem tanto – composto por Jonathan Rhys Meyers e Scarlett Johansson, acompanhado por um conjunto de actores secundários de qualidade – sobretudo Brian Cox e Emily Mortimer.

Pensado originalmente para Nova Iorque, foi reformulado para Londres à conta de atribulações financeiras, percalço que considero vantajoso para a trama – há qualquer coisa no cinema de contornos europeus que torna os enredos mais credíveis e crus, sem falsos brilhos, moralismos ou eufemismos.

Woody Allen comentou com graça que «por mais que tentasse, não conseguiu estragar o filme». Em paralelo, Chris Wilton (o protagonista) por mais que tente, não consegue ter azar.

Receio bem que Match Point seja um daqueles filmes – por mais que tentemos – impossíveis de esquecer.

O que tem de ser, tem muita força.


O Filme

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A primeira imagem mostra-nos a rede de um campo de ténis, por cima da qual dois jogadores invisíveis fazem passar uma bola. O narrador – também ele invisível e anónimo mas que logo descobrimos tratar-se de Chris Wilton – resume-nos de certa forma o enredo logo na primeira frase:

Aquele que afirmou preferir ser afortunado a ser bom, desvendou um dos mistérios da existência.

E prossegue, sustentando que «as pessoas receiam admitir até que ponto a sorte é crucial nas suas vidas. (…) Num jogo de ténis, surgem alturas em que a bola bate na rede e por um instante pode cair para qualquer dos lados. Talvez no campo oposto, dando-nos a vitória. Ou talvez no nosso campo, castigando-nos com a derrota».

transferir (2)Chris Wilton, um antigo jogador de ténis irlandês cuja carreira nunca abandonou uma mediana obscuridade, procura agora ganhar a vida como instrutor num clube exclusivo de Londres. Chris está aberto ao mundo e às suas possibilidades. Não deseja nada em particular mas crucialmente, não rejeita nada em particular, abordagem que lhe tem sido útil até ao momento.

Quando não está a dar aulas a principiantes mais ou menos dotados, de modo a fazer face às comuns despesas – «isto é Londres, meu caro, queres rendas baratas muda-te para Leeds, estás a ver o cenário?», informa o funcionário da agência – Chris passa boa parte do tempo a ler «Crime e Castigo» de Fiodor Dostoievski. Nesse romance, o protagonista é alguém solitário e contemplativo, que mata duas mulheres entre outras coisas para «demonstrar» que é superior à maioria, mas acaba consumido pela culpa e encontra por fim a redenção através da confissão do seu crime, do auxílio e amor de uma jovem prostituta e da descoberta de Deus.

Wilton, embora pareça identificar-se com a personagem do romance – decerto pela semelhança de temperamentos – é assumidamente ateu, nunca matou e não tem qualquer intenção de privar com prostitutas.

unnamedEstá, por outro lado, bastante disponível para privar com gente do calibre de Tom Hewett, um dos seus alunos mais abastados – e quando falamos em «abastado» falamos daquele género que não perde tempo a consultar preços, nem suja as mãos com dinheiro vivo.

Ah, é claro, também se interessa por ópera, sobretudo pela La Traviatta. Por sorte, Chris – para além de gostar de Dostoievski – também gosta de ópera, acaso que o transforma no candidato ideal para o lugar livre que a família Hewett tem no camarote, numa certa noite.

Notem, Chris não se quer impor, quer ao menos pagar o bilhete, mas Tom dispensa-o com um sorriso paternalista. E o nosso Wilton não deseja nada em particular, mas também não rejeita nada em particular – muito menos um convite para a ópera.

Conhece os pais de Tom – Alec e Eleanor – e ainda a irmã, Chloe.

Alec é dono de «múltiplas empresas», Eleanor é dona de múltiplos preconceitos, por norma catalisados pelo excesso de gin tonics ou «GT’s» como são conhecidos na família e Chloe é dona de uma súbita e quase incontrolável atracção por Chris.


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Esse desejo é muito superior à sua capacidade para o ténis, mas nada que umas aulas no clube não resolvam. Se estas não remediarem a questão desportiva, poderão resolver a questão sentimental, sobretudo se os encontros posteriores forem constantes e enquadrados pelas Artes – exposições, passeios, sessões de cinema.

Posso ao menos pagar-te com lições de ténis gratuitas?

Se isso te faz sentir melhor.

Preferia, sou um tipo «à antiga».

E bem sabemos como as famílias conservadoras e endinheiradas apreciam tipos «à antiga».

Gostas de dar aulas?

Nem por isso. Por agora está bem, mas morria se tivesse de fazer isto para sempre.

Certo. E onde te imaginas no futuro?

Não sei. Estou aberto a possibilidades. Quero «fazer a diferença».

Notem, não se trata tanto da habilidade de abrir portas, mas do talento para não as fechar.

«Chris não deseja nada, mas acima de tudo, não rejeita nada».

Em breve:

Isto está a ser óptimo, tens tanto tempo livre.

Sim, se bem que não me importava de ter mais alunos…

Precisas de dinheiro?

(Hesitação momentânea).

Não, claro que não. É simpático da tua parte, mas estou óptimo.

Só pergunto porque me preocupo contigo.


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Obviamente, as pessoas que se preocupam connosco, sobretudo se forem jovens, carentes e (muito) ricas, merecem um beijo.

Wilton revela-se um rapaz de múltiplos talentos – ténis, literatura, ópera e sedução.

(Tirem notas, leitores masculinos – enquanto uma mulher não olhar para vocês da maneira que Chloe olha para Chris, durante o primeiro encontro sexual, não chegaram lá).

«Chegar lá», por agora, é ser o novo «melhor amigo» de Tom e o namorado de Chloe. Esse é um estatuto que gera múltiplas possibilidades, como por exemplo um convite para um fim de semana na casa de campo da família.

Dizemos casa de campo, mas deveríamos antes dizer propriedade, castelo, solar, mansão. É provável que existam aldeias com menos terreno e hotéis com menos quartos. Cada divisão é maior que muitos apartamentos, a biblioteca privada é maior que muitas públicas. Decerto perceberam a metáfora – tamanho é poder.

E já que estamos no campo das figuras de estilo associadas a dimensão, dizer que é pouco menos que perfeita a comparação entre o ténis normal e o ténis de mesa jogado pelo par de estranhos numa das infinitas salas à disposição.

Explicando:

Chris passeia pelos corredores quando se depara com uma partida de ténis de mesa. A disputá-la está um silencioso e tímido anónimo e uma sedutora e confiante anónima. Aproveitando um erro do primeiro (a bola não passa a rede), a segunda celebra vitória, provocando a saída desajeitada do vencido, no preciso momento em que Wilton entra na sala.


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A interacção que se desenrola obedece às essenciais regras da narrativa: mostrar é melhor que dizer. O carácter das personagens é revelado não pelas palavras do narrador, mas pelos gestos/acções dos próprios.

Quem é a minha próxima vítima? Tu?

Não jogo ténis de mesa há bastante tempo.

Queres apostar 1000 libras por jogo?

No que me fui meter?

(Ganha imediatamente um ponto com uma jogada agressiva).

No que me fui eu meter?

Um conselho. Posso?

Por favor.

Tens de te inclinar (puxa-a contra si) e atacar a bola.

Estava muito satisfeita até tu apareceres.

História da minha vida. Mas diz-me: o que faz uma linda jogadora americana de ténis de mesa no meio da classe alta britânica?

Já alguém te disse que tens um jogo muito agressivo? (Acende um cigarro).

Já alguém te disse que tens uns lábios muito sensuais?

Extremamente agressivo.

Sou um competidor nato. É coisa que te incomode?

Vou ter de pensar no teu caso.

Enquanto ela pensa, chega Tom. Esse Tom. O amigo de Chris, o irmão de Chloe e…ah, exacto, o namorado da linda jogadora de ténis de mesa – Nola Rice de seu nome.

Podemos ou não ter aqui um problema. Teremos de também nós pensar no caso.

Chris tem a sua dose de reflexões a fazer. Por exemplo, decidir se aceita ou não o emprego que o pai de Chloe lhe oferece – uma vez que este «quer fazer a diferença» pode começar por fazê-la na vida da namorada, dando-lhe estabilidade e ilusões.

Wilton, já sabemos, gosta de ténis, literatura, ópera e sedução. Será que gosta de uma carreira corporativa? Ainda que a mesma seja bastante amaciada e impulsionada pelo candidato a futuro sogro, não deixa de ser uma carreira corporativa – com horários prolongados, reuniões intragáveis e quotidiano entediante. Também com a natural pressão para ser bem-sucedido, sobretudo a nível financeiro. Aqui, o dinheiro não fala. Grita a plenos pulmões.

Por outro lado, aquele jogo (que podia ser de ténis) é bastante claro. Ganhá-lo (aceitar o emprego) tem um preço. Perdê-lo (recusar o emprego) tem outro, bem mais caro. Recuperando a metáfora da bola suspensa acima da rede, existem grandes possibilidades desta cair no campo adversário quando o vento que a empurra se chama Alec Hewett.

Chris pondera tudo isto enquanto beberica um cocktail na companhia de Chloe – a emissária da proposta paterna – pouco antes de se reunirem no restaurante com o irmão Tom e a namorada deste, Nola.

Esses dados também estão claros. Dentro do jogo de ténis em larga escala – Chris vs Chloe&Família existe um jogo de ténis de mesa, em pequena escala – Chris vs. Nola.

Mas não nos deixemos iludir por conceitos como o tamanho. Ou se o fizermos, mantenhamos em mente que o mais importante – desde sempre e para sempre – são as pequenas coisas.

Logo, Chris está com Chloe mas sonha com Nola. E Nola está com Tom mas sonha com Chris. Quando dizemos «sonha» estamos longe de nos referirmos ao tipo de sentimento que Chloe tem por Chris – inocente, ingénuo, semi-puro, convencional.

Entre Chris e Nola, quando dizemos «sonha», falamos de desejo carnal. De passional. De proibido. Sobretudo, de proibido.

Contudo, também de interessante, a nível intelectual. Notem, os Hewett podem ser jovens, viajados, cultivados nas questões de etiqueta – escolhem o prato de Chris por ele, obrigando-o a comer qualquer coisa de alta cozinha em vez do prosaico frango assado – mas tal não significa que macem a cabeça com algo acima do superficial. Quando este, a dada altura – e decerto influenciado pelas frequentes leituras – lança para a mesa um princípio de debate filosófico…

Cada vez mais os cientistas estão de acordo em afirmar que a nossa existência – e de facto a de todo o Universo – se devem a um mero Acaso. Não há sentido ou objectivo.

…os irmãos Hewett sopram um enfado risonho, regressando às trocas de opiniões sobre culinária e cocktails de festa.

Nola, pelo contrário, sabe o que é existir fora da bolha. Enquanto Chloe anuncia «adorar a vida», a «linda jogadora de ténis de mesa» sabe que a bola pode de facto tombar dos dois lados da rede e que no caso de pessoas como eles – ela e Chris – é raro existirem ventos tolerantes.

Nola sabe, apenas olhando o outro, que estão ambos do mesmo lado do campo. Do lado dos passados duros, pobres e inclementes, derrotados passo a passo, com avanços e recuos. No lado oposto – o da família Hewett – está o bilhete de lotaria.

Se Chris parece estar próximo da chave vencedora, esta ainda se perde em abundantes dúvidas. Perder-se nelas parece fazer parte do código genético de Rice. Hesita sobretudo sobre a carreira – labuta há anos por uma verdadeira oportunidade no mundo da representação, com sucesso medíocre (bem inferior à medíocre carreira de Chris como tenista). Este sabe que o preço para casar com Chloe (e com os inesgotáveis benefícios adjacentes) é fazer carreira corporativa. Esta sabe que preço para casar com Tom (e com os inesgotáveis benefícios adjacentes) é…bom…ninguém sabe muito bem o que é, muito menos Tom. Talvez uma carreira bem-sucedida na representação, talvez não. Afinal, nem Molière que era Molière escapou ao preconceito. E preconceito é coisa que a mãe de Tom tem de sobra.

Entre o nada e Chloe, Chris escolhe Chloe. Entre Chloe e Nola, Chris escolhe Nola. Desde que ninguém saiba.

Logo, entre o nada e uma noite no apartamento com Chloe – apimentada com ópera, vinho e o que mais vier (e decerto virá) Chris não hesita. Porém, entre isso e…

O meu irmão convidou-nos para irmos ver um filme com ele e com Nola, mas eu disse-lhe que hoje não, preferíamos ficar por casa.

(…)

Bem, podemos ficar em casa todas as noites…e sair com eles nem sempre acontece.

A troca de cordialidades hesitantes que se desenrola é novo jogo de ténis decidido no último ponto, mas desta vez o que parecia vitória certa resulta em derrota inesperada. Nola (ao contrário dele) conseguiu sobrepor o racional ao passional e inventou o pretexto certo para ficar em casa (que Chris tinha na mão e desperdiçou).

É ironia suplementar que o filme em causa seja «Diários de Motocicleta», cuja temática – juventude de Che Guevara – se revela muito mais adequada aos «parceiros» do que aos irmãos:

«Diários de Motocicleta»? Ia lá perder isto… (Tom).

Sabes lá tu do que isto fala… (Chloe).

A partir daqui, os atentos começarão a identificar o início de um padrão: de cada vez que uma jogada de risco falha, Chris recorre a outra mais segura.

Logo, ao ver dificultado o contacto com Nola, opta pelo velho «mais vale uma na mão…» e aceita enfim o trabalho na empresa de Alec. Chloe exulta. Pontos são marcados. Eleanor – verbalizando os entusiasmos inconfessados da filha – questiona-o sobre a hipótese de casamento.

Estou certa que em pouco tempo serás chefe do departamento.

(…)

Afinal não temos de nos preocupar, o papá trata de tudo.

E porque não? Porque não, depois de uma vida de atribulações, deixarmos que «o papá» trate de tudo? Podemos por fim comprar roupa de caxemira. Já é qualquer coisa. Claro, isso e um motorista privado.


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Todavia, Chris mais do que ninguém está ciente do papel do «acaso» na existência. O mesmo «acaso» que o faz encontrar Nola à saída de uma loja de roupa – um dia de trabalho não é necessariamente um dia de trabalho, sobretudo quando somos futuros genros do dono da empresa. Rice está a caminho de mais uma audição, mais uma «derradeira oportunidade» com tanto potencial que o próprio agente faltou ao combinado encontro prévio, situação que não fez maravilhas pela autoconfiança da americana.

Talvez a companhia de Chris ajude.

Não ao sucesso da audição, claro…

Estraguei tudo outra vez. Em casa corre tudo bem, quando chego lá, não sei…

Fica para a próxima.

…mas ao sucesso da sedução há muito reprimida.

Devias ver a minha irmã, é muito bonita. Perdeu-se, à conta das drogas, no entanto…

Tenho a certeza que não é mais bonita que tu.

Não, eu sou atraente, mas ela tem uma beleza clássica.

Portanto, estás consciente do efeito que tens nos homens…

Antes dos meus pais se divorciarem costumavam metê-la naqueles concursos de beleza…era quase ridículo.

O que faz o teu pai?

Foi-se embora. E nunca mandou dinheiro. E a minha mãe era incapaz de manter um emprego.

Ah sim?

Sim. O problema era a bebida.

E o Tom? Como o conheceste?

Numa festa. Viu-me do outro lado da sala e arrancou na minha direcção como um míssil teleguiado. Eu gostei dele, pensei…bom, enfim, achei-o muito giro.

(…)

Pediu-te em casamento?

Ah, encantou-me, com presentes e tudo o mais. O que sabia eu daquele estilo de vida, não passo de uma aspirante a actriz sem tostão no bolso. Quanto a casamento…já me bastou o primeiro, não correu nada bem. Mais uma razão para ela me odiar.

Quem?

Eleanor. A mãe dele. Queria que o filho casasse com outra rapariga, uma tal de Olívia, acho que ainda são primos afastados, sei lá, é meio bizarro, aquela gente casa-se toda entre si.

Gostas dele como ele de ti?

Já te disse. Achei-o muito giro. E os presentes e tudo o resto…

(…)

E tu com a Chloe?

(Pausa).

É muito querida.

Ah! «É muito querida». E claro, quer casar contigo.

Também ainda não estou certo que a mãe dela aprove.

Nada disso, é totalmente diferente. Eu não aturo as tretas da Eleanor e ela sabe disso, mas tu…tu estás a ser preparado. Ouve o que te digo. Os pais ficaram para morrer quando pensavam que ela tinha fugido com um sujeito qualquer, dono de um bar no centro da cidade. Não…tu vais dar-te muito bem, a não ser que faças um disparate.

E que disparate seria esse?

Atirares-te a mim.

A que propósito faria uma coisa dessas?

Costumo despertar a curiosidade dos homens. Julgam que sou algo muito especial.

E és?

Ainda ninguém pediu o dinheiro de volta.

(Pausa, com sorriso mal disfarçado de Chris).

Onde estava essa confiança toda, quando era precisa na audição?

Esta cena – das melhores do filme – é uma ampliação do curto jogo de ténis de mesa. Nola julga controlar a viagem e Chris gosta que ela assim pense – é mais fácil derrotar um oponente quando este se julga imbatível. Contudo, à primeira oportunidade, é ele quem desfere o golpe fatal. E talvez Nola, por sua vez, goste que assim seja – qualquer predadora aprecia um desafio equivalente (ou superior).

Anotem ainda:

 – Nola vem de um lar disfuncional;

 – Nola foi abandonada pelo pai;

 – Nola teve um casamento falhado;

 – Nola teve uma mãe alcoólica que nunca conseguiu aguentar um emprego – do mesmo modo que ela, alcoólica amadora, não consegue triunfar nas audições;

 – Nola não ama Tom e sabe que Chris não ama Chloe.

Perante este cenário, qual a melhor solução? Claro, um fim de semana a seis na propriedade campestre. É nela que Chris é introduzido ao fabuloso mundo da criação de cavalos, tiro aos pratos, caça desportiva e sessões de xadrez. Bom, também a sessões de GT’s – nisso, Eleanor é especialista.

«Farei de ti um caçador». – Condescende Alec perante a fraca pontaria do futuro genro.

Diríamos – se querer revelar demasiado – que Chris já é um excelente caçador, embora daquela estirpe que dispensa armas de fogo (a não ser que um dia seja mesmo necessário).

Eleanor – quando alimentada pelo gin tónico – também não deixa créditos de caçadora por mãos alheias. A sua vítima preferida são candidatas a noras com lábios sensuais mas sem talento para actrizes.

A questão com as propriedades imensas (por dentro e por fora) é perdermo-nos nelas facilmente – e por vezes voluntariamente.

Nola, que disputa uma partida de xadrez com Tom, disputa também uma partida de egos com Eleanor (as duas aquecidas com grandes quantidades de álcool). Há que dizer que Rice não anda com grande sorte ao jogo, seja este agradável (com Chris) ou desagradável (com Eleanor).

Derrotada e efervescente, retira-se, sendo pouco depois notada por Chris – que mais uma vez deambula pelos corredores enquanto Chloe lê um livro. Este permanece com dificuldades em controlar a sua própria efervescência, que é como quem diz a sua mira de caçador.


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Desconfiamos que tão-pouco o aguaceiro repentino terá capacidade para conter aquele fogo, há muito em banho-maria, agora potenciado pelo álcool.

Sentes-te culpada?

E tu?

Se um encontro diurno num campo de trigo, debaixo de chuva e do constante risco de serem descobertos não os detém, não é certamente um detalhe como a culpa que o conseguirá.

O episódio foi todavia interpretado de maneira oposta pelos dois intervenientes.

Nola considera tudo «um acidente», agradável e quem sabe inevitável, mas um acidente apesar de tudo.

Tinha bebido e estava zangada, começou a chover e uma coisa levou a outra…mas vamos ser cunhados, não temos futuro de outra forma.

Chris, pelo contrário, já nos confessou de entrada que «é um competidor nato». Ainda não está pronto para sair de campo, muito menos da cama onde quer reter Nola.

Da mesma forma que o encontro no bar foi uma ampliação do inicial jogo de ténis de mesa, esta «recusa» de Nola é uma ampliação do episódio ocorrido na noite de cinema:

 – Chris é passional, Nola é racional;

 – Porém, «de cada vez que uma jogada de risco falha, Chris recorre a outra mais segura».

Ajuda, durante uma festa, encontrar Nola em preliminares com Tom, por mero «acaso».

Certo dia, numa pausa de almoço que utilizou para fazer as habituais compras, dá de caras com um velho colega do ténis, uma espécie de amigo.

Quase não te conhecia. Estás muito bem, pelos vistos. Ainda jogas?

Não, faltava-me o talento suficiente.

Que exagero, acho que eras muito aceitável. Com um pouco mais de sorte podias ter ombreado com os grandes. Eras muito calmo, muito frio sob pressão. (Retenham isto).

Mudei de vida. Estou no corporativo. Vou casar com uma pessoa. A família é atolada em dinheiro. Havemos de almoçar, telefona-me. Coloco tudo no cartão da empresa.

O primeiro «passo seguro» de Chris foi aceitar o emprego. O segundo é aceitar o casamento. Até porque, como sempre, o «papá» trata de tudo.


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A começar pela casa. Enfim, quem diz casa, diz apartamento exuberante com paredes envidraçadas, com generosas vistas para o Tamisa. Paisagem só disponível para quem atinge o cume.

Alguma vez te disse que tenho medo de alturas?

Chris está decerto consciente que quanto maior é a subida, maior é a queda. O melhor é começar a pensar em redes.

Quero que me engravides. É melhor despacharmo-nos, porque estou a planear três filhos.

Não é impossível que tudo prosseguisse sem alarmes, não fora uma súbita mudança das regras do jogo. Revelada, claro, durante uma lição de ténis – entre Chris e Tom.

Que se passa? Hoje não acertas uma.

Desculpa, estou distraído. Tenho de te confessar uma coisa.

Então?

Acabei tudo com a Nola.

Não estamos seguros se Wilton ouviu alguma coisa depois disto. «Blá Blá, a minha mãe, blá blá, outra pessoa, blá blá».

Contudo – e como sempre – «não há bela (jogadora de ténis de mesa) sem senão», ou seja, o fim da relação de Nola com Tom é o fim da sua estadia em Londres, por mais que um Chris ansioso e irrequieto a procure na antiga morada.

Entretanto, não nos precipitemos a considerar Tom uma vítima, seja do que for. Nola traiu-o? Claro. Mas terá ele traído Nola? Terá ele casado com Heather «porque a mãe a adora?». Ou antes porque:

Ainda fomos a tempo, a barriga vai começar a notar-se.

Pouco importa. Todos vivem agora uma «vida de sonho». Alec adora cuidar de tudo e todos, Tom passou a dar-se bem com a mãe, Eleanor passou a dar-se bem com a companheira do filho, mais GT menos GT. Chloe continua a «adorar a vida» embora um pouco menos enquanto não conseguir engravidar.

Quanto ao nosso Chris, bem…o nosso velho Chris Wilton sufoca de tanta felicidade. Mulher de sonho (mais ou menos), família de sonho (mais ou menos), emprego de sonho (enfim, quer dizer…).

Samantha (secretária), nunca te sentes a sufocar neste escritório?

E

Terá o seu relatório no final da semana, nem que leve a noite acordado para o terminar.

E ainda

Samantha, podes dar-me duas aspirinas?

O que poderia abalar tanta felicidade? Acertaram: o Acaso.


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O mesmo acaso que juntou Chris e Nola num bar, depois de já os ter apresentado num jogo de ténis de mesa, volta agora a reuni-los diante de um quadro no «Tate Modern» – Museu de Arte Moderna, em Londres. Talvez apenas coincidência, serem observados por uma tela com a palavra «ache» – dor ligeira e prolongada, sofrimento, mas também desejo e procura.

Chris combinou aquele encontro com Chloe, é certo, mas esta perde-se – numa metáfora exemplar da sua total inconsciência da realidade que a cerca – em busca de um quadro na companhia de uma amiga («tenho a certeza que era neste andar») oferecendo assim uma aberta para que Chris «arranque na direcção de Nola como um míssil teleguiado» – parece ser recorrente, este «efeito que Rice tem nos homens».

Porque me fazes todas essas perguntas, não continuas casado?

Ah, cá estás tu! (Chloe).

Diz o teu número, por favor.

(Hesitação).

Diz o teu número.

Comparemos por um instante as duas relações de Chris:

Chloe é «muito doce» mas Wilton parece apreciar mais os salgados. Não só os salgados mas também o silêncio, que a mulher procura afugentar com assuntos que apenas a ela interessam. Um deles é engravidar rapidamente, embora antes seja preciso «tirar a temperatura». Se um termómetro na boca não faz maravilhas pelo sexo entre um casal, não sei o que fará.

Nola poderá, se a ocasião surgir, ser doce, mas é provável que o suor da paixão saiba antes a sal. Não é necessário diálogo, para além daquele irreproduzível e uma criança é tudo aquilo que não procuram, embora se arrisquem a concebê-la caso o sexo continue a ser desprotegido. A temperatura está quente o suficiente, muito obrigado e não chegamos lá através do termómetro. Caso duvidem desta abordagem, informamos que:

Acabámos de passar uma hora no hotel e já estás pronto para mais?

Não consigo deixar-te.

Somos já íntimos de um padrão de Chris – «de cada vez que uma jogada de risco falha, recorrer a outra mais segura».

Eis outro: «Eras muito calmo, muito frio sob pressão».

Primeiro teste, num jantar entre casais (Tom, Heather, Chris e Chloe) de súbito interrompido por um amigo dos irmãos:

Olá, cá estás tu. No outro dia vi-te na rua X. Tenho a certeza que eras tu, chamei-te mas não respondeste.

Eu? Na rua X? É engano.

Podia jurar. Entraste a correr num táxi.

O Chris? Num táxi? Nem pensar, anda sempre de motorista.

Não pode haver alguém tão parecido na cidade de Londres, eras tu.

Lamento, mas não era. Estão sempre a confundir-me com outras pessoas.

Em todos os jogos renhidos existe um árbitro para decidir a contenda, nem que seja para mantê-la indecidida. Desta vez, esse juiz é Tom.

Falamos mais tarde. De qualquer modo vocês são loucos, ou estão bêbados.

Tu tens muito que falar em relação a isso. (Amigo para Tom).

Como te atreves? Olha-me este. Fora daqui. (Risonho).

(Silêncio pontual).

Loucos. Loucos os dois.

Chris, «frio sob pressão», salva com relativa facilidade o primeiro match point.

Notem, porém: quando temos dois (ou mais) oponentes do outro lado do campo, é natural que não consigamos responder com qualidade a todas as jogadas. Se parte do dia é gasto a consumar (e consumir) a paixão por Nola, é expectável que negócios se percam ou descurem. Negócios descurados ou perdidos custam caro. Não aprendeste isso no curso que o teu sogro te financiou, Chris? Tempo (desperdiçado) é dinheiro.

Felizmente é Natal. Em geral e na vida de Wilton. Tal significa que o «papá» trata mais uma vez de tudo. Ou seja, cobre as perdas e potencia outros clientes/negócios que possam trazer novos rendimentos.

No entanto, existe um tipo de problemas que o «papá» não pode resolver. Não pode, aliás, sequer saber da sua existência. É provável que Chris, para além de apreciar o papel do Acaso, também fosse receptivo às vantagens da Ironia – que mais não seja por uma questão de entretenimento – não fora o facto de esta ser, no caso em questão, uma ironia muito amarga:

Alguém que deseja engravidar, não engravida. Alguém que não deseja engravidar, engravidou. Decerto entendem.

Como está essa «calma sob pressão», amigo Wilton? Em forma?

Não acredito. Ando há meses para conceber com a Chloe e nada. Contigo…

Claro, connosco não é um projecto científico, é fruto da paixão genuína.

Não temos de o ter, já agora.

Nem pensar, não vou fazer mais um aborto.

Mais um?

Já fiz dois, o primeiro quando era muito nova e outro quando estava com o Tom, eu não queria mas ele insistiu.

Seja. Mas sabes que eu estaria preparado para cuidar do bebé, financeiramente.

Queres estar comigo ou não? Não estás sempre a dizer que não amas a Chloe? Não vou abdicar disto, quero que eduquemos esta criança juntos.

Exacto. Este jogo de ténis já não é uma partida no campo do bairro. Faz agora parte de um torneio do Grand Slam. E Chris terá mesmo de ombrear com «os grandes jogadores».

Lembram-se deste diálogo?

Não…tu vais dar-te muito bem, a não ser que faças um disparate.

E que disparate seria esse?

Atirares-te a mim.

Chris atirou a bola contra a rede. De momento, esta subiu um palmo acima da barreira, indecisa sobre o campo onde tombará. Wilton também está indeciso. Hesitou antes de aceitar o emprego. Hesitou antes de casar com Chloe. Hesita, agora, em dizer-lhe a verdade.

Não vou mentir e dizer que não me habituei a um certo estilo de vida.

Amas a tua esposa? Ou essa outra mulher? – Confronta o amigo/ex-colega de ténis a quem pede conselhos.

Amar? Não sei. Talvez seja esta a diferença entre amor e desejo.

Não se pode dizer que Chloe facilite qualquer espécie de confissão, uma vez que esta – não esquecer – «adora a vida». O problema das pessoas que «adoram a vida» é que atingem esse estado de abençoada plenitude à conta de bolhas pessoais, que bloqueiam tudo o que não interessa saber/ouvir/fazer.

Por exemplo, quando Chloe, no restaurante, não estava interessada nas teorias de Chris sobre «o acaso e absurdo da existência», preferiu falar de culinária.

matchpoint_15Por exemplo, quando Chloe, agora, não quer de facto saber os motivos que provocam o distanciamento e preocupação de Chris, prefere acreditar quando este lhe diz – hesitantemente – «se estou a ter um caso? Claro que não». E depois:

Então o que se passa? – E sem esperar resposta. – Sou eu, não é? Coitado, tenho-te pressionado tanto com isto dos filhos, é suposto ser um projecto a dois, uma coisa agradável e tenho estragado tudo com termómetros e teorias loucas.

Há neste raciocínio alguma verdade, mas também alguma mentira – como em quase tudo na vida. Chloe escolhe simplesmente a parte que mais lhe interessa e que permite a mais fácil resolução. Chris hesita, mas como sempre, aceita. Afinal, tal como admitira ao amigo, enervado:

É suposto desistir de tudo agora? Para viver com ela? Como? Onde? De quê?

Lembram-se de quando Nola era racional e Chris era passional? Bons tempos.

Nada como um bebé para mudar perspectivas.

Está agora em marcha uma tempestade emocional sem fim à vista. Nola já não é a amante divertida e sensual, mas a amante neurótica e cansativa.

Conta à Chloe.

Conta à Chloe!

CONTA À CHLOE!

Talvez a solução sejam umas férias. Estão todos convidados, menos a pobre Nola. Duas (quem sabe três) semanas nas ilhas gregas, até mesmo um saltinho a Itália. Enquanto estamos de férias, não destruímos casamentos, essa maçada pode ficar para depois, não é Nola? Quem esperou até agora, espera mais três semanas, quem sabe um mês, mês e pico.

Até que o acaso (esse maroto persistente) faz mais uma tropelia. Um dos amigos do grupo de veraneantes é acometido de um problema de saúde, pelo que a viagem terá de ser adiada para Setembro.

Chris sabe disso, mas Nola não sabe. E será que precisa de saber?

Não me podes ligar, nem sempre tenho rede, eu telefono-te quando der.

Estamos na ilha X.

Estamos na ilha Y.

Demos um salto à Sardenha.

Não posso falar, tenho muita gente à minha volta.

Chris Wilton. Um daqueles sortudos.

Estou nervosa. Quero estar contigo. Vais contar-lhe assim que chegares?

Lembram-se daqueles negócios que andavam a correr mal? Daqueles clientes descurados? Daquele (muito) dinheiro perdido? Nada temam. O «papá» chegou.

Existe um conjunto de japoneses cheio de vontade de investir e se puderem fazê-lo nas empresas de Alec Hewett, com as respectivas comissões a caírem na conta do genro, tanto melhor.

«Chris Wilton. Um daqueles sortudos».

Embora, claro, possa existir um dia nublado de vez em quando.

Por exemplo, Nola, que mora perto da loja de roupa favorita de Wilton, pode por mero acaso vê-lo a sair desse local e a entrar no carro da empresa, numa altura em que o amante deveria estar em viagem. E não, não há assim tanta gente parecida com Chris na cidade de Londres.

03Estas coisas normalmente provocam ataques de histeria à porta do trabalho. Ataques de histeria à porta do trabalho são maus para a reputação. Logo, maus para os negócios.

Percebeste tudo mal. Voltei uma semana mais cedo para te fazer uma surpresa. Vou cumprir tudo o que combinámos.

Quando? Obrigas-me a gritar contigo, a fazer estas figuras, quando só quero resolver as coisas. Mas estás sempre a adiar e a mentir.

Não estou a mentir. Prometo que será hoje. Encontramo-nos amanhã. A que horas sais da loja, 18h30?

Sim.

Portanto chegas a casa pelas 18h45?

Sim, mais ou menos, que interessa isso agora?

Nada, Nola. Não interessa nada. A não ser que interesse.

Avaliemos, acompanhando a insónia de Chris, os pratos da balança.

De um lado, temos a família Hewett – isso inclui fortuna, poder, influência, conforto, uma vida exuberante e luxuosa, um casamento estável. Um sonho dourado.

Do outro lado, temos Nola Rice – isso, depois de ter incluído alguns meses de paixão, resume-se agora a um conjunto de problemas. Um pesadelo escuro.

Já fizeram a vossa escolha? Chris também. Agora, não falamos de «Se». Falamos de «Como».

Ponto Um

«Farei de ti um caçador». – Condescende Alec perante a fraca pontaria do futuro genro.

Ponto Dois

A questão com as propriedades imensas (por dentro e por fora) é perdermo-nos nelas facilmente – e por vezes voluntariamente.

Ponto Três

Chris já é um excelente caçador, embora daquela estirpe que dispensa armas de fogo (a não ser que um dia seja mesmo necessário).

Wilton sabe onde o sogro guarda as armas de caça e sabe acima de tudo percorrer os corredores da casa de campo com passos sorrateiros.

Por vezes, é preciso um pouco de sorte para evitar ser descoberto…

Chris, onde estás? (Chloe aproxima-se do acesso à cave).

Filha, podes vir aqui? Preciso da tua ajuda.

…mas nada que o acaso não resolva.

Continuemos.

 – Uma caçadeira desmontada é muito parecida com uma raqueta de ténis, quando oculta por um saco desportivo.

 – Um convite para o teatro endereçado à mulher é um excelente álibi.

 – Uma munição que tomba e desaparece no bolso de Wilton é muito parecida (sobretudo aos olhos de alguém como Chloe) com uma caixa de medicamentos.

 – Um encontro fortuito com a idosa e solitária vizinha de Nola – em tempos – pode afinal ser muito útil.

Não se preocupem. Perceberão em breve.

Naquele dia, Chris Wilton está «entusiasmado com o projecto». Não importa agora que projecto é esse, decerto o negócio muito bem-sucedido com os japoneses (adeus problemas financeiros), eventualmente outra coisa.

Parabéns. Ainda vais jogar ténis a esta hora?

Sim.

Adoro essa energia. Invejo-a.

Chris não vai jogar ténis per se mas vai disputar o jogo mais difícil da sua vida, presumimos. A incauta adversária é conhecida como Nola Rice.

Estou a caminho. No teu apartamento à hora combinada? Contei-lhe tudo. Temos…planos para fazer.

Que bom. São muito boas notícias.

Como vimos, Nola chega pelas 18h45, logo é conveniente que Chris lá esteja algum tempo antes. Há muito a fazer:

 – Bater à porta da Sra. Eastby;

 – Ganhar acesso ao apartamento – recordando-a que se conhecem (sou o amigo da Nola);

 – Simular – sob pressão (mas não nos preocupemos, Chris é um óptimo jogador sob pressão) – interesse em verificar o sinal da TV (o nosso está uma desgraça);

 – Montar e carregar a arma, enquanto a dura de ouvido e amante de ópera (bom gosto) Betty Eastby vai à cozinha tomar os medicamentos;

 – Respirar fundo. Aproximar-se. Matar Betty;

 – Simular um roubo, partindo, destruindo, enchendo o bolso de remédios e jóias;

 – Preparar-se para matar outro vizinho (caso seja necessário), que veio saber se Betty precisava de algo (duvidamos, nesta altura);

 – Celebrar novo golpe de sorte, quando este desiste e se vai embora;

 – Reunir força, coragem e frieza. Fazer um pré-luto. Mas afinal: «É suposto desistir de tudo agora? Para viver com ela? Como? Onde? De quê?»;

 – Esconder-se no vão da escada. Esperar que Nola chegue. Chamá-la. Disparar;

 – Desmontar a arma e guardá-la no saco. Apanhar um táxi, a caminho do Teatro.

Chloe? Estou a caminho. Demoro dois minutos.

A mão treme-lhe um instante. É natural. Foi um dia de trabalho em cheio.

images (2)Um dos detectives que investigam o sucedido é encarnado por uma das estrelas da saga Trainspotting (Ewen Bremner). Inspector Dowd para ser mais preciso. A sua atenção é constantemente perturbada numa primeira fase (junto ao local do crime), permitindo-lhe aceitar com facilidade a teoria apresentada por um dos colegas, que apenas viu o que Chris Wilton pretendia que as autoridades vissem: um assalto comum perpetrado por toxicodependentes (roubo das jóias e medicamentos), transformado em duplo assassinato à conta do acaso (como é óbvio), sobretudo no que diz respeito a Nola – «chegou a casa no momento errado».


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É essa a teoria que chega à imprensa e que a família Hewett lê – chocada – nos jornais da manhã seguinte. É normal que os mortos se transformem de repente em excelentes pessoas (acima de tudo porque morreram) pelo que até Eleanor lamenta o destino da – em tempos – candidata a nora.

Chris (se chegou a fazê-lo) teve tempo de sobra para chorar o sucedido, pelo que agora se esmera a chamar a atenção de todos para o excerto mais conveniente do artigo:

A Polícia salienta que tem havido um aumento dos crimes associados à toxicodependência no bairro em questão.

Enfim, coisas do destino. Assunto encerrado.

Até porque, na família Hewett existe a curiosa tendência de compensar más notícias com boas. É aguardar apenas um minuto, para que Chris (ocupado a guardar uma certa caçadeira numa certa cave) regresse. Chloe faz as honras:

Estou grávida.

Vejam só. Parece que afinal o problema não era o termómetro, mas uma certa jogadora de ténis de mesa.

Devíamos ter adivinhado. Chris Wilton é um «competidor nato». Foi implacável no ténis de mesa, implacável na sedução, implacável na resolução do dilema. Chris Wilton tem potencial. É frio e calmo sob pressão. Com um pouco de sorte podia ter derrotado «os grandes». De momento, parece bem encaminhado para isso.

O derradeiro rival no seu caminho chama-se Mike Banner. Detetive Mike Banner.

Este é colega de Dowd, mas um pouco mais competente e um pouco mais interessado. Convoca discretamente o nosso protagonista para um encontro na esquadra, motivado acima de tudo por um incómodo diário encontrado no apartamento de Nola Rice.

As miúdas apaixonadas e os seus malditos diários.

Muito bem, era amante dela, podem investigar melhor se quiserem. Liguem-me – em caso de emergência – para este número, mas peço-lhes que não façam disto um circo, nem estraguem a vida da família Hewett (sobretudo a minha).

Para o caso de alguém demonstrar um pingo de perspicácia e associar coisas que não devem ser associadas, Chris desloca-se às margens do Tamisa – passando junto a uma parede com uma famosa imagem de Banksy (rapariga a deixar fugir um balão em forma de coração) – e vê-se livre das provas, ou seja, das jóias da infeliz Betty.

No processo – e como sempre – a sorte, tem papel nuclear.

unnamed (1)Todo o espólio atravessa a barreira metálica (apropriadamente parecida com uma rede de um campo de ténis). Todo? Não. Uma aliança – já depois de Wilton ter virado costas – atinge a barreira e fica por momentos suspensa no ar.

«…e por um instante pode cair para qualquer dos lados. Talvez no campo oposto, dando-nos a vitória. Ou talvez no nosso campo, castigando-nos com a derrota».

Em qualquer outra situação, com qualquer outra pessoa, quando a «bola» cai do nosso lado, o jogo está perdido.

Mas não com Chris Wilton. Não com Chris Wilton, membro de pleno direito da família Hewett.

Notem, «cada vez mais os cientistas estão de acordo em afirmar que a nossa existência – e de facto a de todo o Universo – se devem a um mero Acaso. Não há sentido ou objectivo».

Se, «por acaso» Chris fosse pobre e mal relacionado, os detectives Dowd e Banner fariam dele o principal suspeito. Porém, entre um par de toxicodependentes anónimos e um membro da família Hewett, quem escolheriam?

Com quem escolheriam lutar? Com um gato ou com um leão? Exacto.

Talvez só num contexto onírico se pudesse atingir qualquer forma de redenção. Chris adormeceu, madrugada dentro, em cima da burocracia pela qual nunca quis ser responsável. São preços que se pagam. E Wilton sabe tudo sobre preços que se pagam.

Sabe também algo sobre Dostoievski.

Nola. Não foi fácil. Mas quando foi preciso acabei por disparar. Só descobrimos quem somos em momentos de crise. Aprendemos a varrer a culpa para debaixo do tapete e a seguir em frente. Tem de ser. De contrário derrota-nos.

E quanto a mim? A vizinha do lado? Não estava de modo nenhum relacionada com esta questão medonha. Não houve qualquer problema em livra-se de mim, mera figurante?

Os inocentes são por vezes forçados a morrer, em nome do plano mestre. A senhora não passou de um dano colateral.

À semelhança do seu próprio filho.

Sófocles disse uma vez: «Nunca ter nascido pode revelar-se o melhor destino de todos».

Voltemos a Raskolnikov e a «Crime e Castigo».

«Nesse romance, o protagonista é alguém solitário e contemplativo, que mata duas mulheres entre outras coisas para ‘demonstrar’ que é superior à maioria, mas acaba consumido pela culpa e encontra por fim a redenção através da confissão do seu crime, do auxílio e amor de uma jovem prostituta e da descoberta de Deus.

Wilton, embora pareça identificar-se com a personagem do romance – decerto pela semelhança de temperamentos – é assumidamente ateu, nunca matou e não tem qualquer intenção de privar com prostitutas».

Bem, agora, Chris já matou. Contudo, duvidamos que descubra Deus ou seja auxiliado por prostitutas bem-intencionadas. Duvidamos, sobretudo, que confesse.

Outra pessoa acometida por pesadelos é Mike Banner. Neles, o detective liga as pontas que no mundo real permanecem soltas. Neles, vê não o que Wilton pretende que ele veja, mas o que de facto ocorreu.

Há contudo um ligeiro problema com pesadelos: não servem de prova em tribunal.

Para além disso, «uma aliança – já depois de Wilton ter virado costas – atinge a barreira e fica por instantes suspensa no ar».

Essa mesma aliança, que não caiu ao rio – situação que podia, ao contrário do expectável, colocar o plano de Chris em risco – foi pelo contrário descoberta no bolso de um toxicodependente – um que de facto existia – entretanto falecido, o que inadvertidamente «confirmou» a falsa teoria de Dowd: o indivíduo era um dos «assaltantes» e mantivera consigo aquela jóia – «prova inequívoca» da sua presença no apartamento.

De novo, salientar que uma investigação mais apurada podia abalar o edifício criminoso de Wilton.

De novo, salientar que é mais fácil – como bem sabemos – abanar casas de palha do que casas de pedra. E a pedra da casa Hewett é de excelente qualidade.

Aquele que afirmou preferir ser afortunado a ser bom, desvendou um dos mistérios da existência.

Tom concorda. No brinde final, deseja ao sobrinho recém-nascido:

Não me interessa que seja talentoso. Apenas que tenha sorte.

Chris, a mirar o Tamisa através da parede espelhada do apartamento, entende-o na perfeição.


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