Alma Criativa

Com este texto se encerra a visita à Sociedade Interna:

 

O Ciclo de Vida da Alma Criativa – O Manifesto

por

Félix Gerena

    O trabalho criativo surge no contexto da vida. Se quisermos registar a experiência da criação, temos de estar atentos aos estados de alma que reflectem uma necessidade criativa, uma sede saciada apenas com o estímulo do novo. O conceito de Criatividade tem sido abordado de diferentes formas. Este manifesto tem como objectivo associar a criatividade à existência, esta última enquanto palco dos acontecimentos.

Tais acontecimentos dão forma ao nosso mundo interno e é a exposição aos mesmos que dá forma às diferentes etapas da alma, na sua busca por um destino criativo.

Cada etapa recebe aqui o nome de uma personagem sendo individualmente consideradas, em separado ou conjuntamente, como o caminho que leva à plenitude na busca de algo original.

Este manifesto pretende ser um guia para o esforço criativo. Um mapa para quem se sentir perdido. Uma voz útil em alturas de solidão. Quem sabe, a primeira fagulha de um novo acto criativo.

 

Os Princípios do Autor

(Descobrir e agir sobre a existência)

 

1 – A Vida é um Aventura – A palavra aventura vem do latim ad-venire, cujo significado literal é «o que (me) chega». Considero ser este o padrão essencial da existência. A vida é uma sucessão de eventos que procuramos por todos os meios assimilar.

2 – O Mundo é Pleno – Ao tentarmos assimilar o que nos acontece, percebemos que o mundo é um local pleno. Tal riqueza é algo que nos fascina e fazemos todos os possíveis para que as coisas não nos escapem.

3 – O Mundo é Fugidio – Apesar dos nossos melhores esforços, somos obrigados a concluir que não passamos de uma gota de água no oceano. A criatividade ajuda-nos a fazer do mundo algo mais acessível e possível de controlar.

4 – A Alma Criativa constrói um mundo de acordo com os seus desejos.

 

Sísifo (Fase Um)

Este é estado primário da alma criativa, quando o trabalho está despido de significado e chega mesmo a provocar sofrimento. Sob este estado, estamos reduzidos a fazer as mesmas coisas, dia após dia. Repetimos as mesmas tarefas, preenchemos os mesmos relatórios e falamos com as mesmas pessoas. Trabalhamos num ambiente imutável. Somos apenas os executores de projectos alheios, e podemos mesmo sentir que os nossos corpos são meras extensões de mentes alheias.

Nesta fase, não é suposto sermos criativos. Espera-se que executemos, sem pensar. Não sentimos que nós ou o nosso trabalho sejam importantes, porque podemos a qualquer momento ser substituídos por alguém que fará exactamente as mesmas coisas. Tudo isto leva a que não nos sintamos satisfeitos com o que fazemos. Quando passamos metade da vida a fazer algo de que não gostamos, isso tem consequências na nossa alma. Graves consequências.

Dá-se a esta fase o nome de Sísifo. Sísifo é um personagem da mitologia grega, que representa duas partes da alma criativa: sofrimento e ausência de significado. Segundo Albert Camus:

«Os deuses condenaram Sísifo a transportar constantemente um pedregulho até ao topo de uma montanha, apesar deste acabar sempre por tombar sobre o próprio peso. Consideraram, com uma certa razão, que não existe pior castigo do que um trabalho fútil e interminável».

A alma tende contudo a progredir, à semelhança de um rio que encontra sempre um novo leito.

 

Zaratustra (Fase Dois)

Zaratustra vive nas montanhas, tal como Sísifo. Porém, é um viajante, pelo que o seu destino é diferente.

«Qualquer que seja o meu destino, quaisquer que sejam os acontecimentos que me aguardam, terei sempre um qualquer desafio, como subir uma montanha, ou fazer uma viagem. Sou um nómada, não gosto da monotonia das planícies, e não consigo estar parado durante muito tempo».

Zaratustra sabe que algo de valioso se esconde atrás das montanhas. Sabe que existe um horizonte, e que este lhe trará a imagem do sol nascente. Sol, enquanto fonte de energia e de vida, portador de luz para os povos e guia para uma cidade chamada Esperança.

Zaratustra observa o sol a partir da sua montanha e afirma:

«Oh grande estrela, que felicidade seria a tua se não tivesses almas para alimentar? Estou satisfeito com o meu conhecimento, e tal como uma abelha que reuniu demasiado mel, preciso da companhia de outros para com eles partilhar o que sei. Para tal, terei de descer a montanha – à tua semelhança, oh sol, quando à tardinha mergulhas a tua luz nos mares».

 

Prometeu (Fase Três)

Prometeu é também uma personagem mitológica. O seu nome significa «aquele que sabe previamente». Era conhecido entre os deuses gregos pelas suas aptidões e carácter intuitivo. Era ainda a divindade grega mais próxima dos humanos, sendo aquela que trouxe para si a missão de proteger o destino da humanidade. Prometeu roubou o fogo aos deuses para o oferecer aos humanos, e foi por isso aprisionado por Zeus. A sua preocupação com o bem-estar da humanidade condenou-o a uma vida de sofrimento.

A história de Prometeu aborda a sede de conhecimento e a vontade criativa.
O homem desenvolveu o instinto que lhe permite dominar o ambiente que o rodeia e descobrir os segredos da Natureza. Os segredos que foram, em tempos, propriedade exclusiva dos deuses.

Prometeu contudo, não foi apenas uma personagem habilidosa. Foi também um ser sofredor, sobretudo pelo facto de ser demasiado talentoso. Esse talento em excesso acabou por privá-lo da felicidade, mergulhando-o em dor e sofrimento. Este representa por isso o destino de todos os génios sofredores, do talento enquanto maldição, da capacidade aprisionada. Prometeu procura acima de tudo a liberdade.

 

Vincent Van Gogh (Fase 4)

Vincent Van Gogh dedicou a vida ao seu sonho. Pintou com tanta paixão e dedicação que acabou por colocar a saúde em risco. O seu caso é o exemplo perfeito de uma vocação extrema. Numa das cartas que escreveu ao seu irmão Theo, explica assim a sua dedicação à pintura:

«Desde há duas semanas, não faço outra coisa que não seja pintar, desde as primeiras horas da manhã até ao anoitecer. Se continuar a trabalhar a este ritmo, acabarei por adoecer, a não ser que consiga vender algum dos meus quadros».

Van Gogh é o protótipo da pessoa que encontra a sua vocação e faz dela a sua prioridade. Está apesar disso consciente que a criação precisa de ser recompensada. Tem de conseguir vender os quadros. É essa a sua desgraça, pois em vida, vendeu apenas um quadro, e mesmo esse foi comprado pelo irmão Theo.

Van Gogh representa o artista enquanto alma abandonada, aquela que não consegue obter reconhecimento pelo seu trabalho, pois o talento que possui parece ser invisível para os olhos alheios.

 

Picasso (Fase 5)

Picasso também passou por um período na sua vida onde o reconhecimento esteve ausente. Aos vinte anos mudou-se para Paris, e no primeiro ano foi obrigado a viver numa casa baptizada pelos amigos de «máquina de lavar», referindo-se a um barco no rio Sena. Não tinha dinheiro e estava muito longe de ser reconhecido como artista, mas estava rodeado de um bom grupo de amigos. Alguns eram artistas, como Braque, outros eram bailarinos e muitos apenas boémios, que se limitavam a fornecer um ambiente acolhedor e agradável. Picasso beneficiou do apoio e ajuda dos amigos.

Nesse período, pintou alguns dos quadros mais importantes e inovadores da História da Arte, quebrou muitas regras e criou novas correntes no mundo artístico, sendo o exemplo mais claro o Cubismo.

Picasso representa o nascimento e preparação do artista numa atmosfera propícia ao trabalho criativo. É o primeiro passo na etapa do reconhecimento, pois está já fora da esfera íntima, mas ainda longe do reconhecimento massificado.

 

Warhol (Fase 6)

O trabalho de Andy Warhol invadiu a cena artística enquanto antítese da principal regra da criatividade: a Originalidade. Tal regra foi quebrada de três maneiras:

1 – Os trabalhos principais são cópias de imagens prévias – Por exemplo, tirou fotografias de famosos, como Elvis Presley. Não pintou os retratos, retirou-os de outras fontes e reconstruiu-os.

2 – Repetiu o mesmo trabalho inúmeras vezes – O trabalho era repetitivo, o que quebra a regra da originalidade. É apesar de tudo uma repetição diferente daquela de Sísifo, esta é uma repetição que granjeia reconhecimento.

3 – Atingiu a popularidade generalizada – Todos eram capazes de «entender» o seu trabalho.

 

Duchamp (Fase 7)

Duchamp entendeu o impacto inerente à popularidade generalizada de um produto repetitivo. Concluiu que as vanguardas são movimentos inovadores condenados a extinguir a própria chama. Começam por desbravar novos terrenos para rapidamente se tornarem a regra. A nova alma criativa tem por isso de trabalhar de outra forma:

1 – O Artista fornece um Tema – um tópico a ser desenvolvido em conjunto por artista e cliente.

2 – O Artista abre uma linha de diálogo – nesta fase o tema irá sofrer diversas alterações e variantes.

3 – O Artista abre um campo de trabalho – Aqui chegados, o cliente sentir-se-á seguro, livre para descobrir novos terrenos e para requisitar novos projectos ao artista.

Aqui, a inovação é vista não apenas enquanto criação física, mas como catalisadora de novos mundos.


Criem!

O objectivo deste manifesto é alimentar a curiosidade criativa.

Criar algo é difícil, mas o processo é fonte de satisfação. Muita satisfação.

Criar irá melhorar a vossa auto-estima.

Criar irá presenteá-los com o reconhecimento alheio. Ou não.

Criar irá trazer-vos novos amigos. Isso é seguro.

Criar irá abrir novos mundos. Ou irá permitir ver este mundo com novos olhos.

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