História de um Repórter


Prefácio

Apesar de ter visto História de um Fotógrafo diversas vezes – a primeira há quase treze anos – nunca tinha assimilado com total clareza as razões do eterno fascínio que me prendem à película.

Quando me deparei com outra proposta do mesmo realizador – Michelangelo Antonioni – reencontrei com maior profundidade e amplitude essa perturbação sedutora, embora permanecesse incapaz de lhe atribuir um nome.

Essa proposta era História de um Repórter, título que se por um lado estabelece óbvias pontes com «História de um Fotógrafo», por outro (e tal como aquele) retira ao enredo alguma da necessária ambiguidade presente nos originais «Blow Up» e «The Passenger».

Dizia, estava de novo diante daquela vertigem intensa mas anónima, que me atraía sem remissão para os mesmos desertos existenciais que assolam o protagonista masculino, de seu nome David Locke (Jack Nicholson), apesar dos melhores esforços da protagonista feminina (Maria Schneider).

E eis que por fim, consumida mais de uma década, tudo ficou claro.

Tal como aquele «fotógrafo» ou aquele «repórter» o que me seduzia era o Vazio Silencioso.

No caso deles – em especial deste David Locke – esse Vazio é natural espelho do seu estado interior, como ficará patente ao longo da história.

Jack Nicholson estava habituado a encarnar protagonistas alienados (The Shining, por exemplo) e Maria Schneider desconhecidas sedutoras («Último Tango em Paris») embora desta vez nos surja quase assexuada, dir-se-ia quase miragem.

Enquanto espectadores/leitores, resta deixarmo-nos ir no lugar do «passageiro», apesar de incerta a sua identidade.


O Filme


As primeiras cenas padecem de uma interessante contradição: sendo absolutamente herméticas e enigmáticas num primeiro visionamento, transformar-se-ão no final (se recordadas) nas mais esclarecedoras, por resumirem numa simples alegoria toda a existência de David Locke.

Encontramo-lo, não lhe conhecendo sequer o nome, em pleno deserto (que arriscamos localizar no Norte de África), enredado em repetitivas, infrutíferas e de certo modo arriscadas tentativas para encontrar um guia, que esteja disposto a encaminhá-lo para desconhecido encontro em desconhecido ponto.

As diversas etapas cumprem-se em quase ininterrupto silêncio, seja pela barreira linguística ou pela simples indisponibilidade dos locais para lhe responder ou entreter com diálogos ocos. O ocidental vai queimando etapas servindo-se do mais ténue dos fios de ariadne: cigarros.

Cada um deles coloca-o nas mãos de um novo guia ou informador, que o arrasta para profundezas cada vez mais áridas, a que acedemos através de caminhos cada vez mais irregulares, quando existe algum. As casas primitivas salpicam-se com progressiva distância, até se transformarem em palhotas, até desaparecerem. A estrada transforma-se em terra batida até se desfazer em areia. O jipe cede lugar à caminhada pelas dunas rochosas até morrer na fuga desinteressada de cada um dos nativos – seja para salvaguardar a própria segurança, por logro ou apenas por indiferença para com aquele desorientado caucasiano.

Palavras soltas sugerem-nos o objectivo deste, algum equipamento explica a sua profissão (jornalista):

Quantos homens possuem os rebeldes? E quantas armas?

Descobrirá tudo quando chegar.

O problema é que o repórter nunca lá chega, parece antes afastar-se progressivamente de qualquer tipo de solução.

Sem encontro, sem guia, sem cigarros e sem tempo, resta-lhe acelerar desesperadamente de regresso à vila, atraindo com tal atitude o infortúnio final: afundar as rodas do veículo na falsidade das dunas.

Enfrenta o deserto ventoso e escaldante com uma pá de emergência, dela se servindo para escavar ainda mais a sua frustração – não há esforço que resista a novas fornadas de areia, trazidas pela tempestade.

Percebendo-o rapidamente, golpeia o jipe como quem golpeia o destino, deixando-se por fim tombar de joelhos enquanto grita um esclarecedor:

Muito bem! Acabou-se! Não quero saber.

O espectador não pode sabê-lo, mas esta alegoria acaba de resumir todo o enredo.

Há contudo que proceder à construção desta miragem, logo, reencontramos o titubeante repórter à entrada da vila, enganando o desfalecimento a cada passo, cambaleando através das portas do hotel onde se hospedou durante o tempo necessário para a conclusão da tarefa em mãos.

«Água» – Balbucia.

Já no quarto, prepara um duche e aproveita para questionar o empregado que lhe traz a bebida fresca acerca da ausência de sabão. Como a solução é inexistente, tenta a sorte com o vizinho do lado, outro ocidental que ele apelida de Robertson.

Aqui, podemos afirmar duas coisas:

 – Este dia terminou da pior maneira possível;

 – Este dia terminou da melhor maneira possível.

Ambas, decerto, estão erradas mas é num precário equilíbrio entre elas que o nosso protagonista se vai movimentar.

Expliquemos:

Robertson está morto – provável vítima de doença súbita durante a noite – sem que ninguém se tenha disso apercebido, até ao momento. Tal representa, é claro, uma infelicidade. Ou talvez não.

Reparem, o corpo de Robertson está morto, mas tudo o resto ainda o aguarda. Por outro lado, o nosso protagonista está vivo mas espiritualmente está moribundo (senão morto) como deixou claro no périplo pelo deserto.

Logo, temos dois indivíduos entre os 35 e os 40 anos, bem constituídos, cabelo e olhos castanhos, princípio de calvície e proveniência ocidental (facilmente confundível por desatentos funcionários de hotel), mas apenas um deles está vivo.

O felizardo não é, está claro, Robertson. Mas pode vir a ser.

Qualquer coisa como isto atravessa a mente do anónimo repórter, enquanto observa o movimento circular da ventoinha – em si, metáfora de diversas coisas.

Se – por mera coincidência – alguém quisesse, digamos, trocar de identidade/vida, que melhor oportunidade para isso teria senão aproveitar a morte de um indivíduo com semelhante perfil físico, num dos locais mais ermos do planeta?

Têm razão. Não é tão fácil como trocar de camisa (gesto que o protagonista de imediato executa). Exige boa dose de paciência, cuidado e planeamento, não só para trocar as fotografias dos passaportes, como para estudar uma inadvertida (?) gravação feita em momento prévio.

É nela que se confirmam algumas coisas – identidades e proveniências – e descobrem outras – opiniões e temperamentos.

Em resumo, uma noite quente levou o «empresário» David Robertson a bater à porta do quarto de David Locke, em busca de uns minutos de conversa e de uns goles de bebida. Logo se esclarece que Locke é um reconhecido jornalista/repórter londrino em busca de matéria-prima para a realização de um documentário sobre a «África pós-colonial», na qual se inclui o árido território do Chade, de momento a braços com uma guerra civil entre governo e grupos rebeldes – cujos líderes insistem em escapar ao contacto com jornalistas ocidentais.

O problema é que você é um homem de palavras, do abstracto. Esta gente conquista-se com mercadorias. Coisas concretas.

(…)

Não tem família ou amigos?

Não. Ninguém. Sou um viajante com problemas de coração.

(…)

Terei de voltar a Londres. Sabe que não somos nós que mudamos. São os locais. Nós ficamos sempre os mesmos.

Eis uma teoria que David Locke, perdão, Robertson, está disposto a verificar.



Aproveitando a fantasmagórica ausência que impregna o pequeno hotel, arrasta o corpo do falecido para o seu quarto, veste-o com as suas roupas e abandona-o na companhia dos seus pertences. Depois, herda a vida de Robertson.

No que ela consiste é o que iremos descobrir.

Faleceu um senhor no quarto.

Ah, o senhor Robertson?

Eh…não. O senhor Locke. Acho que era jornalista ou algo do género…

Certo. Cá está. O senhor David Locke.

No desértico, recôndito e miserável Chade, em 1975, não existem equipas forenses, testes de ADN ou demais artifícios modernos que evitem o logro, sobretudo quando de certa forma indiferentes funcionários de hotel não encontram razões para alguém simular a própria morte, trocar de identidade e apresentar passaporte falso.

O senhor Locke morreu de ataque cardíaco. Com este calor, vai ser uma maçada para conservar o corpo e só há voos daqui a três dias. Temos uma Missão Católica na aldeia, o senhor Robertson acha que é adequado?

Acho que serve perfeitamente.

É, na verdade, «perfeitamente» adequado aos objectivos do antigo senhor Locke, actual senhor Robertson. Um corpo que chegasse a Inglaterra seria decerto identificado por família e amigos.

Assim sendo, «Robertson» concretiza o desejo expresso na gravação: regressar a Londres.

Aí chegado, uma derradeira visita à antiga morada, aproveitando a ausência da mulher (de certeza nos braços daquele amante que lhe deixou um bilhete na porta).

Ao arrumar alguns objectos pessoais – cuja ausência não será percebida – notamos a presença de um livro do autor italiano Alberto Moravia «Which Tribe Do You Belong To», diário de viagem que relata a existência alienada de alguns povos africanos mas que possibilita, neste caso concreto, outras perguntas.

Pouco antes de seguir, ainda hesitante, os passos definidos na agenda de Robertson, depara-se com uma jovem mulher no banco de um parque, cuja atitude descomprometida ameaça, por um instante, seduzi-lo. Esta intercala a leitura com o magnetismo do sol.

O primeiro destino da agenda soletra-se Munique. Existe ainda uma passagem de avião e o número de um cacifo.

Para onde vai a seguir? – Inquire cordialmente a funcionária da agência automóvel.

Ainda não me decidi.

Tem aqui uma lista de destinos.

Jugoslávia. – Concede, sem ler.

Até quando?

Para o resto da vida.

Certo. Mas de que vida?

Talvez o cacifo ajude a responder. Nele, uma detalhada lista de armamento, incluindo imagens. Eis o aparente ramo de actividade do «empresário» Robertson.

Aquilo que David ainda não sabe, ao contrário do espectador, é que o outro planeara mostrar aquela lista a um par de interessados, que o aguardam. Contudo, uma vez que este David não é o outro David, o encontro gora-se.

Ao volante do carro alugado, permite que a estrada livre seja bloqueada por um casamento, em concreto uma carruagem contendo os felizes noivos. Atentem na ironia da metáfora, reforçada quando a mesma carruagem entra numa rua proibida ao trânsito automóvel e David, obedecendo à crescente tentação de subverter as regras, decide segui-la.

A boda mantém viva a chama contraditória – quem sabe nunca ausente da existência – ao decorrer numa igreja situada no interior de um cemitério. O protagonista observa e reflecte em silêncio, sugerindo que o imitemos.

Nesse exercício, somos enviados para um episódio passado, no qual David, no quintal de casa, alimenta uma queimada suficientemente crescida para alarmar um dos vizinhos – sem falar na mulher.

David! Estás louco?

Sim.

Talvez esteja, talvez não esteja, mas é fácil concluir que está-estava-está pelo menos enfadado com o casamento, com o trabalho, com a vida. A mulher, Rachel, já conhecedora da fatalidade ocorrida no Chade, reflecte sobre o mesmo episódio.

Os contactos de Robertson também reflectiram e acharam por bem seguir «Robertson» até à igreja, ainda cheia mas apenas de pétalas.

Senhor Robertson? Houve algum problema no aeroporto?

Ah. Sim. Houve um pequeno contratempo.

A conversa decorre toda ela num trapézio, no qual David tenta não dizer a coisa errada e os interlocutores confundem a sua contenção e relativa estranheza com precaução e outras razões fora da sua alçada.

Tal permite que a primeira fase do negócio se conclua – aquela em que os outros se mostram satisfeitos com a listagem e entregam a primeira parcela do pagamento.

Notem ainda: O falso Robertson (Locke) contacta enfim a facção rebelde com a qual o verdadeiro Robertson negociava e à qual Locke nunca conseguiu chegar, cumprindo-se assim a «profecia» do falecido:

…você é um homem de palavras, do abstracto. Esta gente conquista-se com mercadorias.

Se estão familiarizados com o outro filme mencionado nesta crónica – «História de um Fotógrafo» – recordam o enigma em que esse protagonista se deixou enredar: julgando ter fotografado de forma involuntária um cadáver, procura-o com insistência nos negativos, ampliados sucessivamente (blow up). Contudo, quanto mais procura menos encontra, vendo-se forçado a colocar tudo em causa.

É neste exacto cenário que Rachel vai mergulhar, também ela em busca de um cadáver duvidoso. Irá procurá-lo, não através da fotografia, mas do filme. Melhor dizendo, dos registos da BBC, aos quais tem acesso um produtor amigo do casal, Martin.

A primeira coisa que revelam nessa busca é uma entrevista feita por Locke ao lado governamental do conflito no Chade: o ditador no poder.

Todo o processo é constrangedor, uma vez que todos estão cientes da falsidade generalizada – os jornalistas sabem que o ditador mente, este sabe que mente e que os jornalistas disso sabem. Ainda assim, em nome da obrigatória diplomacia, arrastam-se até ao fim, com Locke a debitar perguntas generalistas e o ditador a ler (com dificuldade) respostas de cartazes. O único dado surpreendente é a presença de Rachel.

Como foste capaz de continuar com aquilo?

Referes-te à entrevista?

Sabes que ele mente.

Sim. Mas tem de ser.

Não me agradou.

Então porque vieste?

Se quiséssemos fazer terapia de casal, podíamos especular que Rachel deixou de acreditar em David porque ele deixou de acreditar no Mundo. E David, ao deixar de acreditar no Mundo, deixou (também) de acreditar em Rachel.

Ainda o amavas? – Questiona Martin.

Sim, calculo que sim.

Então o que se passou?

Já não éramos felizes juntos, só isso.

Contudo, agora que ele está «morto», ela quer (re)conhecê-lo.

Locke, por outro lado, quer conhecer melhor a vida de Robertson, sobretudo depois de rechear os bolsos com o dinheiro dele e sem esquecer a não despicienda vantagem confessada pelo mesmo, antes de morrer:

Não tem família ou amigos?

Não. Ninguém. Sou um viajante com problemas de coração.

Bem, bem. E para onde viajam aparentes traficantes de armas solitários?

Por exemplo, Barcelona.

Estou? Sim, afinal não vou para a Jugoslávia.

(…)

Pois.

(…)

Vou para Barcelona.

(…)

Exacto, para o resto da minha vida.

Repetimos: De que vida?

Continuemos.

David depara-se com a sua fase Ícaro. Tendo convertido a anterior inclemência do sol numa espécie de luz benfazeja, entrega-se agora a voos cada vez mais próximos da fonte, nem que para isso tenha de se inclinar perigosamente numa janela de teleférico.



A imprudência é-lhe censurada por um idoso, que conhece por acaso num jardim – ponto de encontro registado na agenda de Robertson.

Estou à procura de alguém que não chega. (Sussurros de Beckett)

Ah.

(Senta-se).

Está a ver aquelas crianças? As pessoas costumam olhar para elas com esperança, enquanto símbolos do futuro. Eu apenas vejo a repetição de velhas tragédias.

Locke não terá encontrado quem devia encontrar-se com Robertson, mas terá encontrado quem devia encontrar-se com Locke.

Enquanto isso, Rachel prossegue a sua busca. Depara-se com dificuldades em revelar mais sobre o passado, mas estará – inadvertida e inconscientemente – a revelar o futuro.

Impressiona-se (decerto como o espectador) com a imagem gráfica, sem censura, de um fuzilamento. Martin entra na sala, esclarecendo que de acordo com as fontes, a última pessoa a ver David Locke foi um tal de David Robertson.

Tal mote basta para que Rachel aprofunde o mergulho.

Num intervalo do sexo com o amante (que servirá para pouco mais do que isso), confessa o desejo relativamente inexplicável de falar com o dito Robertson, de modo a esclarecer os detalhes da morte do marido.

Solícito e também ele curioso, Martin oferece-se para investigar em nome dela.

Ou seja, as asas de Ícaro estão prestes a queimar-se.

Enquanto passeia pelas Ramblas, David identifica o produtor a curta distância – este descobriu com facilidade em que hotel se hospedou o misterioso Robertson. Na precipitada fuga, refugia-se no Palau Guël, ali próximo (um dos muitos edifícios concebidos por Antoni Gaudí).

Ao deambular pelos corredores, acaba por encontrar um grupo de turistas, do qual se afastou uma atraente rapariga, adepta da leitura e do sol, que já conhecemos dos bancos de Londres. Locke, por enquanto, não a reconhece, pelo menos de forma racional.

Iniciam curto diálogo, no qual se conclui que «desaparecem pessoas todos os dias».

Esta é contudo uma pessoa que David quer voltar a encontrar, logo, adopta a curiosa estratégia de procurá-la nos vários edifícios de Gaudí, espalhados pela cidade. A jovem mulher não esconde uma certa atracção pelo trágico – «o arquitecto que fez este edifício morreu atropelado por um eléctrico» – e Locke talvez esteja atraído por alguém atraído pelo trágico, sobretudo se esta descobrir nele a mesma tragédia que descobriu em Gaudí.

Por inusitado que seja, o plano resulta e ambos se reencontram na Casa Mila (mais conhecida como La Pedrera). A ligeira familiaridade adquirida e a vontade mútua em iniciarem um caminho de sedução convencem David a explicar de forma superficial o problema em mãos: tem uma pessoa que não quer encontrar à porta do hotel onde está alojado e precisa que alguém (ela) lhe faça o check out, trazendo bagagem e carro ao ponto combinado. Em troca, existirá compensação financeira.

Nem toda a gente aceitaria, mas esta jovem não é toda a gente, antes alguém disponível para uma boa aventura, perfil que encaixa na perfeição nas necessidades de David.

Logo, o processo decorre sem sobressaltos, pelo menos até ao momento em que Martin (em apertada vigilância no átrio do hotel) se apercebe da situação. Abordando-a, solicita-lhe uma boleia, mas esta liberta-se com a ajuda da inteligência e da sorte. O equilíbrio precário daquele contexto é ilustrado pelo exercício de rotação a que Locke sujeita um copo vazio.

De momento, porém, isso parece importar pouco.

De que foges?

Olha para trás.



Aquilo que talvez escape (por enquanto) ao raciocínio do fugitivo é que o caminho diante dele é exactamente igual ao caminho que abandona.

Nesse caminho, contudo, ainda existe espaço para a noite e para os corpos se conhecerem. É sempre mais fácil conhecermos corpos do que mentes.

Senhor Locke – explica um dos entrevistados numa das gravações da BBC – existem respostas perfeitamente satisfatórias para todas as suas perguntas, mas irá perceber que elas dizem muito mais acerca de si do que de mim.

Por outro lado, é sempre mais fácil resgatarmos objectos do que pessoas.

Rachel e Martin deslocam-se à Embaixada do Chade, em Londres, para que esta tome posse das coisas de David. Embora o diplomata pareça insinuar que isso não é uma excelente ideia, a mulher reforça a vontade de entrar em contacto com Robertson.

Enquanto isso não se concretiza, ocupa o serão a ouvir novos trechos das gravações e – não menos importante – a descobrir que a fotografia no passaporte de David Locke é na verdade a de David Robertson.

Essa descoberta implica – obviamente – enormes mudanças no comportamento dela e, note-se, dos grupos rebeldes – que após a primeira reunião começam a impacientar-se com a ausência do prometido armamento.

Locke e companheira, apesar da tentativa algo irracional de manter os encontros agendados por Robertson, deparam-se com permanente insucesso, já que estes, ou não aparecem ou não se identificam, por motivos que acabam por ser irrelevantes.

Serve o exercício para confirmar, acima de qualquer suspeita, a repressiva solidão que aprisiona David, por mais que este se entregue à velocidade do descapotável ou às desérticas e amplas planícies da Andaluzia.

A rapariga mantém o papel de silenciosa e paciente testemunha (ou passageira).

Da mesma forma que se teoriza que o Universo permitiu a existência de vida inteligente para obter testemunho de si mesmo, assim se pode especular que Locke carece da presença feminina para testemunhar e confirmar a sua solidão (e existência).

O que fazes na minha companhia?

Companhia de quem?

Se dúvidas existem acerca da volatilidade do contexto, atentem no súbito enfado dessa testemunha feminina.

Onde vais?

Embora.

Porquê?

Porque ao contrário de ti, não estou pronta para desistir. Espero que consigas.

Consiga o quê?

Bem David, para começar, que consigas impedir que ela se vá embora. Apesar de um momento de hesitação e de um desvio empoeirado no caminho, a missão cumpre-se.

Para celebrar, nada como um restaurante panorâmico, palco de um almoço convincente.

Convincente, todavia, é coisa que Locke tem cada vez mais dificuldade em ser, sobretudo para as autoridades espanholas, colocadas em alerta por Rachel. A ordem é para encontrar um veículo descapotável branco (um cavalo branco detido por duvidoso príncipe).

Ao salvamento é mais uma vez chamada, não o príncipe, mas a princesa.

Procuram o veículo ou o dono do veículo?

Ícaro queimou mais umas penas, mas ainda mantém as asas funcionais.

Quanto tempo falta para Almeria?

Um outro idoso, sentado na base de uma cruz de pedra (premonitória à semelhança de outros elementos ao longo do filme) encolhe os ombros. E terá razão. O tempo que importa não é esse. A pergunta não é essa.

Se David pensou deleitar-se mais uma vez com o corpo da companheira de viagem, pensou mal. Se na sua frente está uma disponível anónima, nas suas costas (no interior de uma cabine telefónica) está Rachel (que se deslocou a Espanha), a gritar com alguém sobre o registro do veículo branco. Já agora, notemos a presença de representantes das guerrilhas na esplanada próxima.

Quantas fugas são possíveis? Todas, até à última.

O corcel branco volta a acelerar, calcorreando num frenesi a empoeirada província sevilhana. Enganados mais dois representantes das autoridades, é tempo do casal fugitivo revelar novos salpicos do passado.

Estava farto da mulher, da casa, do filho adoptivo, do trabalho…

E quem vais ser agora?

Um empregado de mesa em Gibraltar.

Demasiado óbvio.

Talvez um escritor no Cairo.

Demasiado romântico.

E que tal um traficante de armas?

Demasiado improvável.

Se queres mesmo saber, acho que me transformei num.

Nesse caso, importa saber de que lado estás.

Exacto.

«Which tribe do you belong to» de Alberto Moravia regressa às cogitações.

E tu?

Sou uma estudante de Arquitectura.

(…)

Acreditas em coincidências?

Nem por isso.

Acho que já te tinha visto antes. Em Londres.

E que estava eu a fazer?

A ler.

Então devia ser eu.

Era uma vez um inglês educado nos EUA, repórter de sucesso tombado nos braços da apatia e da alienação e uma estudante (espanhola? francesa?) de Arquitectura amante das casas de Gaudí porque «são boas para nos perdermos lá dentro». Alguma coisa como o acaso juntou-os e ambos procuram agora qualquer coisa sem nome (no outro e no Mundo), ao volante de um corcel branco. O tangível, que nunca se compadece com poesias, abriu ferida mortal no esforçado veículo.

Pode andar?

Muito devagarinho.

O que retirou David Locke desta experiência? Que mais não seja, perspectiva.

Recordem:

Diálogo 1 (entre Locke e Robertson)

R– Não é bonito? (Referindo-se à paisagem desértica).

L – Bonito? Não sei. Prefiro pessoas a paisagens.

Diálogo 2 (entre Locke e a companheira)

C – Não é bonito? (Referindo-se, de novo, à paisagem desértica).

L – Sim. Sim, é muito bonito.

O corcel ferido é arrastado até outra pequena povoação, onde o casal inquire acerca de um mecânico. Adivinhando o pior, David insiste na pergunta fatal:

O que fazes na minha companhia?

Ela responde, sem responder.

O Robertson agendou estes encontros. Acreditava em alguma coisa. Porque não continuas a seguir-lhe os passos?

Está bem (ambos sabem que ele mente). Mas o melhor é apanhares um autocarro para a cidade e daí o barco para Tanger. Se tudo correr bem, encontramo-nos lá em três dias.

Está bem (ele não sabe que ela mente).

Apesar de tudo, momentaneamente sozinho, Locke palmilha as desérticas ruas da moribunda povoação em busca de uma oficina, simulando acreditar que qualquer tipo de esforço no mundo concreto ainda é válido.

Sem surpresa, depara-se com um portão cerrado.

Aqui não há nada – Confirma um idoso local (os anciões do enredo assumem a sua condição profética).



A frase, de múltiplos significados, é forte o suficiente para obrigar Locke a digeri-la, processo que ele cumpre com abatimento, sentando-se em postura desencantada no passeio e recolhendo um insecto do chão que depois esmaga contra a parede branca, tingindo-a de vermelho e rasgando um pedaço de cal. (derradeiro símbolo do futuro próximo).

Ao recuperar o caminho do automóvel, nota sem ser notado que este está rodeado de polícias. Resta-lhe escapar num pequeno táxi para um dos derradeiros pontos de encontro assinalados na agenda de Robertson – um tal de Hotel de la Glória, situado na aldeia de Osuna, em Sevilha.

Ah Sr. Robertson. A Sra. Robertson chegou há pouco tempo, coloquei-a no quarto contíguo ao seu.

A Sra. Robertson?

E porque não? É um nome como outro qualquer.

Torna-se inevitável concluir que as atribulações de Locke se aproximam do fim – notem por exemplo que nos seus períodos mais optimistas e activos este vestia uma camisa verde (acção, movimento, progresso, esperança) e neste momento enverga uma camisa vermelha (inacção, apatia, decadência, sangue – como o insecto na parede).

O que consegues ver? – Murmura ele para a rapariga, à janela.

Um idoso com a mão no ombro, uma criança (recordem o jardim de Barcelona) e poeira.

Deitado na cama, tomado por uma fadiga imensa – física mas sobretudo psicológica – David Locke partilha com ela uma pequena história (quem sabe real, quem sabe ficcionada) que nela contém todas as respostas que ele é capaz de lhe oferecer (e que ela, depois de tudo, merece):

Uma vez conheci um homem cego. Tinha nascido assim, mas perto dos 40 fez uma operação e começou a ver. No início ficou eufórico, tudo era novo e belo, cores, paisagens, pessoas…até que dia após dia, a vida foi perdendo a graça e o interesse. O mundo era afinal muito mais pobre do que ele imaginara, quando cego. Antes, podia atravessar uma avenida movimentada sem qualquer receio, agarrado à sua bengala. Na posse da visão, adquiriu progressivo receio de o fazer. Começou a fugir, a fechar-se em casa. Passado algum tempo, acabou por se matar.

O efeito desta metáfora na jovem mulher é intenso (assim o demonstra a expressão que ela não oculta), de tal modo que aceita finalmente o conselho que ele insiste em dar-lhe: terá de partir.

Recolhe-se um instante no quarto, para recuperar o fôlego e verter algumas lágrimas.

Ícaro queimou por fim as asas.

É através de um dos planos mais famosos da história do cinema que assistimos à sua queda. O olho da câmara, que é o nosso, observa a janela feita de grades. Na praça em terra batida surge a rapariga, divagante. Depois uma criança (de camisa vermelha) que atira uma pedra a um cão. Após breve pausa, foge na direcção contrária. Surge então um carro, que expele dois representantes das guerrilhas. Um deles afasta a rapariga com suave persuasão. O outro entra no quarto – vemo-lo através do reflexo no vidro da portada. O silêncio quase total é interrompido durante um breve segundo. Tudo isto se passa no meio de uma primitiva aula de condução.

Saímos através das grades (Ícaro liberto) e voltamo-nos. Os rebeldes partem, a Polícia e Rachel chegam. A rapariga junta-se-lhes e com a ajuda do gerente entram no quarto.

Conhece-o? Reconhece-o? – Intima o inspector.

Nunca o conheci (Rachel).

Sim. É Robertson (Rapariga).

Ambas mentem. Ambas dizem a verdade.



Ao anoitecer, o frágil carrinho da escola de condução segue rumo ao horizonte. Talvez encontre melhor destino.

 

 

 

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