Charles Baudelaire

Viveu entre 1821 e 1867. Poeta, ensaísta, crítico de arte e ainda um dos primeiros tradutores de Edgar Allan Poe. Os seus poemas demonstram mestria no uso da rima e ritmo, bem como um certo exotismo herdado dos Românticos, embora nasçam de observações do quotidiano.

A obra mais famosa, um conjunto de poemas líricos intitulado As Flores do Mal, denuncia a mudança dos padrões de beleza numa Paris em pleno processo de industrialização, em meados do século XIX. O original estilo do autor, sustentado na prosa poética, influenciou uma geração inteira de poetas onde se destacam Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Stéphane Mallarmé. A ele se atribuiu a validação do conceito de «modernidade» (modernité) para se referir à existência fugidia e efémera tão comum nas grandes urbes, a par da responsabilidade dos meios artísticos na descrição dessa realidade.

 

Baudelaire nasceu em Paris, no ano de 1821. O pai, Joseph-François Baudelaire, um funcionário público de topo e um artista amador, era 34 anos mais velho que a mulher, Caroline. Sem surpresa, Joseph-François faleceu ainda durante a infância de Charles, em 1827. No ano seguinte, Caroline casou com o tenente-coronel Jacques Aupick, que chegou mais tarde a embaixador francês. Os biógrafos do autor consideram ter sido este um dos momentos cruciais da sua existência, pois ao perder a exclusividade da atenção materna desenvolveu um trauma emocional que de ser forma explica os excessos a que se entregou nos últimos anos de vida. Chega mesmo a afirmar numa carta dirigida à progenitora: «Existiu, na minha infância, um período de intenso amor por ti». Baudelaire manteve o hábito de pedir dinheiro emprestado à mãe ao longo da vida, quase sempre com a falsa promessa de que estava à beira de assinar um lucrativo contrato publicitário ou jornalístico.

Charles fez os estudos em Lyon, num colégio interno. Aos 14 anos, era assim visto por um colega de turma:

É muito mais refinado e vistoso que qualquer um dos nossos companheiros…estamos destinados a ser amigos…à conta de gostos e simpatias semelhantes, bem como do amor precoce aos melhores livros.

Baudelaire era irregular na abordagem aos estudos, alternando entre períodos de empenho e outros dados à «passividade». Mais tarde, frequentou o Liceu «Louis-le-Grand» em Paris, onde experimentou Direito, um curso popular entre aqueles que não se decidiam acerca da carreira futura. Começou em simultâneo a passar tempo com prostitutas, especulando-se que pode ter contraído gonorreia e sífilis nessa fase. Para além disso, contraiu as primeiras dívidas, sobretudo para comprar roupa. Pouco depois de concluir o curso, em 1839, confessou ao irmão «não se sentir vocacionado para nada». O padrasto planeou-lhe uma carreira no Direito ou na Diplomacia, mas em vez disso este optou por se dedicar à Literatura. A mãe comentará, a propósito: «Oh que desgosto! Se o Charles tivesse seguido os conselhos do padrasto, a sua vida teria sido muito diferente…é verdade que não teria feito nome na Literatura, mas todos nós teríamos sido muito mais felizes».

O padrasto financiou-lhe uma viagem a Calcutá, na Índia, em 1841, na esperança de lhe curar o espírito inquieto. A experiência forneceu-lhe um conjunto de emoções fortes relacionadas com o mar, a navegação e o exotismo dos destinos, que mais tarde incorporou na poesia. (Baudelaire acabou por exagerar as experiências de modo a construir uma lenda acerca das viagens de juventude, onde teriam até ocorrido «passeios de elefante»). Ao regressar às tavernas de Paris, começou a escrever alguns dos poemas integrantes d’ As Flores do Mal. Ao completar 21 anos, tocou-lhe generosa herança, que ele tratou de esbanjar em pouco tempo. A família obteve um documento legal que o impedia de aceder ao restante património, gesto que ele criticou com amargura, tendo mesmo argumentado que permitir a sua ruina financeira era a única forma de o ensinar em definitivo a cuidar das finanças.

O autor tornou-se então conhecido no meio artístico enquanto diletante e esbanjador, gastando os fundos que lhe restavam a breve trecho. Nesta fase, tornou-se amante de Jeanne Duval, que foi renegada pela família deste. A mãe apelidou-a de «Vénus Negra» que o «torturava de várias formas» e lhe sugava dinheiro sempre que podia. Charles chegou a tentar o suicídio por esta altura.

Participou nas revoluções de 1848 e chegou mesmo a escrever para um jornal revolucionário, mas o interesse na política foi passageiro, como o próprio admitiu mais tarde nos diários.

No começo da década de 50 do século XIX, o autor começou a debater-se com problemas de saúde, dívidas crescentes e empobrecimento do trabalho literário. Era com frequência obrigado a mudar de casa para fugir aos credores, tendo principiado inúmeros projectos literários que se viu incapaz de completar, apesar de ter conseguido concluir a tradução dos contos de Edgar Allan Poe.

Com a morte do padrasto em 1857, Baudelaire não foi contemplado no testamento e temeu que o relacionamento com a mãe nunca chegasse a ser apaziguado. Já com 36 anos, escreveu-lhe o seguinte:

Acredita em mim quando te digo que te pertenço totalmente e apenas a ti.

Esta viria a falecer em 1871, sobrevivendo quatro anos após a morte do filho.

O primeiro trabalho publicado, sob o pseudónimo «Baudelaire Dufaÿs», foi uma crítica de arte que de imediato atraiu as atenções, devido à ousadia. Muitas das opiniões emitidas eram consideradas inovadoras à época, destacando-se os elogios públicos a Delacroix. Algumas considerações são espantosamente coincidentes com as futuras teorias associadas aos pintores impressionistas.

Em 1846, Baudelaire publicou a segunda crítica, gesto que lhe valeu o aumento da credibilidade enquanto defensor e crítico do Romantismo. O consistente apoio a Delacroix, eleito o maior artista Romântico, mereceu atenção generalizada.

No ano seguinte, publica a novela «La Fanfarlo».

Charles era um autor lento e meticuloso. Para além disso, o seu fluxo era muitas vezes prejudicado pela indolência, problemas emocionais ou doença física, pelo que a publicação d’ As Flores do Mal (a primeira e mais relevante colectânea de poemas) não se concretizou antes de 1857. Alguns dos textos tinham contudo sido publicados em formatos diversos, com a ajuda de amigos, na década anterior.

A obra conquistou uma audiência pequena mas devota. Contudo, o grande foco de interesse prendeu-se com o assunto transversal aos textos. A reacção dos correligionários foi, de acordo com testemunhos, «enorme, prodigiosa, inesperada, uma mistura de admiração e receio ansioso e indefinível». Gustave Flaubert, atacado pela mesma altura devido a «Madame Bovary» (e depois reabilitado), ficou impressionado e escreveu a Baudelaire:

Encontrou modo de rejuvenescer o Romantismo…revela-se sólido como mármore e denso como o nevoeiro inglês.

O predomínio de temas como o Sexo e a Morte era visto como escandaloso para a época. Arriscava mesmo uma leve abordagem ao lesbianismo, por entre referências ao amor sagrado e profano, à metamorfose, à melancolia, ao carácter corrupto da cidade, à perda de inocência, ao peso da existência e até ao vinho. Destacar ainda a utilização, em certos poemas, de imagens evocativas do olfacto, de modo a salientar emoções como a nostalgia e intimidade perdida.

A obra, contudo, depressa se transformou num exemplo de inconsistência para a maioria dos críticos da época. Se alguns textos era vistos como «obras-primas de paixão, arte e poesia» outros eram considerados merecedores apenas de processos judiciais que os suprimissem. Note-se este artigo do «Le Figaro»:

Neste livro, tudo o que não é terrível é incompreensível e tudo o que é compreensível é terrível.

Baudelaire reagiu à polémica através de uma carta profética que enviou à mãe:

Sabes bem que sempre defendi que as Artes e a Literatura devem buscar um objectivo, sem se deterem perante a moralidade. A beleza da concepção e do estilo são-me suficientes. Mas este livro, cujo título explica tudo, está recheado de uma beleza fria e sinistra, como descobrirás. Nasceu da raiva mas também da paciência. Ademais, a prova do seu valor está em todas as críticas que lhe fazem. É um livro que indigna o público. Nota, estava tão receoso do escândalo que ia provocar que até cortei um terço na revisão final. Criticam-me tudo, desde a capacidade criadora ao conhecimento da língua francesa. Pouco me importam todos estes imbecis, pois sei que esta obra, com todos os seus defeitos e virtudes, irá ficar na memória do público letrado, a par dos poemas de Victor Hugo, Gautier e até Byron.

Baudelaire, o editor e a gráfica foram todos processados por ofensa à moral pública. Condenados, viram-se na obrigação de pagar multa, mas o autor não teve de cumprir pena. Seis dos poemas foram retirados, mas acabaram por reaparecer mais tarde na obra «Les Épaves», publicada na Bélgica, em 1866. Nova edição d’ As Flores do Mal, sem os ditos poemas mas com muitos textos novos, surgiu em 1861. Não faltaram notáveis a defender Baudelaire e a condenar a sentença. Victor Hugo escreveu-lhe:

A sua obra brilha e impressiona como uma estrela…aplaudo o seu espírito vigoroso com toda a minha convicção.

Baudelaire não recorreu da sentença, mas a multa acabou por ser reduzida. Foi preciso passar quase um século para que, em 1949, a justiça fosse reposta: a sentença foi revertida oficialmente e os seis poemas voltaram a ser autorizados em França.

No poema «Ao Leitor», que prefacia a obra, Baudelaire acusa o público de hipocrisia e de ser culpado de toda a espécie de pecados e mentiras.

Desde 1859, doenças variadas, o prolongado uso de láudano, a vida agitada e a pobreza haviam começado a consumi-lo e o autor envelhecera bastante. Por fim, a mãe cede e autoriza-o a viver com ela durante algum tempo, na localidade de Honfleur. Baudelaire encontra então a paz e a inspiração nessa pequena zona costeira, como se depreende no poema «Le Voyage». Em 1860, torna-se um profundo admirador de Richard Wagner.

Apesar disto, as dificuldades financeiras regressam, sobretudo depois da falência do seu editor, Poulet Malassis, em 1861. Em 1864, parte para a Bélgica, numa tentativa de vender os direitos dos livros e agendar algumas conferências. A sua eterna ligação a Jeanne Duval prosseguiu, apesar de algumas pausas e o autor ajudou-a até à morte. Por outro lado, os relacionamentos que manteve com a actriz Marie Daubrun e com a cortesã Apollonie Sabatier, embora fontes de inspiração artística, nunca se revelaram satisfatórias. O autor já mantinha o hábito de fumar ópio e em Bruxelas começou a beber em excesso. Acabou por sofrer um acidente vascular grave, em 1866, seguido de paralisia. Após doze meses em estado de afasia, foi-lhe dada a extrema-unção pela Igreja Católica. Seguiram-se ainda dois anos passados em diversas «casas de saúde», situadas em Bruxelas e Paris, quase paralisado.

O autor faleceu, por fim, nesta última cidade, em Agosto de 1867. Foi enterrado no Cemitério de Montparnasse.

A maioria das obras de Baudelaire foi publicada após a sua morte. A mãe saldou as enormes dívidas e acabou por encontrar algum consolo na fama póstuma conquistada pelo filho.

Vejo agora que o meu filho, apesar de todos os seus defeitos, conquistou o seu lugar na Literatura.

 

Baudelaire é um dos grandes inovadores da Literatura Francesa. A sua poesia é influenciada pelos poetas românticos da primeira metade do século XIX, embora a atenção dispensada aos aspectos formais da rima o aproxime mais dos «parnasianos». Quanto a temas e tom, encontramos a rejeição da crença no poder absoluto da Natureza e na bondade intrínseca do Homem, à semelhança do defendido pelos românticos e por estes expresso em termos retóricos, efusivos e públicos. Os mesmos advogam antes uma nova sensibilidade urbana, uma consciencialização da complexidade moral do indivíduo e um interesse no vício (ligado à decadência), bem como refinados e sensuais prazeres estéticos. Ainda a exploração de temas urbanos como os grandes centros, as multidões e os transeuntes, tudo isto através de versos rigidamente ordenados e de uma voz irónica e cínica. O uso de sons para criar atmosferas e de símbolos dão a entender uma certa atracção pelo conceito de poema enquanto objecto auto-referencial, ideia mais tarde desenvolvida por simbolistas como Verlaine e Mallarmé, que citam Baudelaire como pioneiro, neste aspecto.

Outros temas identificáveis são o papel da mulher na sociedade, aspectos teológicos e o seu alegado interesse em «satanismo», bem como a sua experiência com alterações de consciência provocadas pelas drogas. Ainda a figura do diletante, o papel da democracia na vida individual, críticas à burguesia e o interesse pelas artes modernas (Música e Pintura) – Wagner, Delacroix. O poeta fez de Paris o centro da poesia moderna e salientou os imensos detalhes da cidade, colocando-a no coração dos leitores.

Baudelaire foi um elemento activo na vida artística do seu tempo. Enquanto crítico e ensaísta, escreveu profusa e incisivamente sobre variados temas da cultura francesa. Era franco com amigos e adversários, raramente optava pela abordagem diplomática e utilizava muitas vezes um discurso violento, atitude que acabava por dificultar-lhe a missão. Tinha inúmeros contactos no meio, onde se destacam Victor Hugo, Gustave Flaubert e Balzac.

Em 1847, o autor familiarizou-se com a obra de Poe, na qual encontrou contos e poemas que – segundo alega – existiam há muito na sua mente, sem nunca terem sido transcritos. Baudelaire identificou assim Poe como seu precursor e tentou ser um equivalente francês moderno. Até 1865, ocupou a maioria do tempo a traduzir a obra do autor americano, empreitada que lhe valeu enormes elogios.


Publicada pela primeira vez em 1857, revelou-se obra importante para os movimentos simbolistas e modernistas. Os poemas abordam temas relacionados com a Decadência e o Erotismo.

A obra foi inicialmente organizada de acordo com a seguinte ordem temática:

 – Spleen e Ideal;

 – Quadros parisienses;

 – Vinho;

 – Flores do Mal;

 – Revolta;

 – Morte

O livro foi dedicado ao poeta Théophile Gautier, tido como «um mágico perfeito das letras francesas».

A secção que aborda as cenas parisienses, acrescentada na segunda edição, é considerada uma das melhores críticas à modernidade francesa do século XIX. É composta por dezoito poemas e interpretada enquanto ciclo de 24h na cidade, iniciado com o segundo poema (O Sol) e terminado com o antepenúltimo (Crepúsculo Matinal). Todos os poemas deste segmento abordam sentimentos de isolamento e inadaptação à urbe recentemente modernizada. Baudelaire critica a salubridade geométrica das novas ruas, que alienam os anónimos anti-heróis de Paris, desde sempre fonte de inspiração para o poeta: os pedintes, os cegos, os operários, os jogadores, as prostitutas, os velhos e as vítimas do imperialismo. Todas estas personagens, elogiadas pelo autor enquanto espinha dorsal da cidade, são agora objecto de elegias em poemas nostálgicos.

Para Baudelaire, a urbe foi transformada num formigueiro de burgueses, consequência das estruturas homogeneizadas que no seu entender poluem uma cidade em tempos vista como a sua casa, mas que já não reconhece.

 

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