Arthur Rimbaud

Viveu entre 1854 e 1891. Poeta tornado famoso pelos temas surreais e transgressivos, bem como pela influência que teve nas artes modernas, em particular na Literatura, adivinhando o surgimento do Surrealismo. Nascido em Charleville, começou a escrever em idade precoce e revelou-se aluno de excelência. Contudo, abandonou os estudos na adolescência, optando por refugiar-se em Paris durante a Guerra Franco-Prussiana. Grande parte da sua obra nasceu na transição entre adolescência e juventude. Rimbaud abdicou completamente do ofício da escrita ao completar 20 anos, após a conclusão de «Iluminações».

O autor revelou-se um libertino de espírito atormentado, envolvendo-se num relacionamento homossexual caótico, por vezes violento, com o também poeta Paul Verlaine, ao longo de quase dois anos. Depois de encerrar o percurso na escrita, viajou profusamente por três continentes, transformando-se em negociante e explorador até falecer, vítima de cancro, pouco depois de completar 37 anos.

Enquanto poeta, Rimbaud é conhecido pelos trabalhos de carácter simbolista, sendo Uma Cerveja No Inferno, por exemplo, um precursor da literatura modernista.

 

Arthur Rimbaud nasceu na vila provinciana de Charleville (agora denominada Charleville-Mézières) situada no nordeste de França. Foi o segundo filho de Frédéric Rimbaud e Marie Catherine Vitalie Rimbaud. O pai era um capitão de infantaria, de origens humildes, que passara grande parte da carreira militar no estrangeiro. Participara na campanha da Algéria, entre 1844 e 1850, tendo sido galardoado com a Legião de Honra, por «decreto imperial». Era considerado um indivíduo «bem-humorado, descontraído e generoso», exibindo fartos bigodes.

Em Outubro de 1852, o capitão, na altura com 38 anos, foi transferido para Mézières, onde conheceu a futura mulher, 11 anos mais nova, durante um passeio domingueiro. Esta vinha de uma família tradicional da região, embora nela existissem a sua quota-parte de boémios – dois dos irmãos eram alcoólicos.

Era dona de uma personalidade «completamente oposta» à dele, destacando-se o conservadorismo e a «total carência de sentido de humor». Existem também relatos acerca da sua «reserva, teimosia e melancolia». O filho, Arthur, atribuiu-lhe mais tarde a alcunha «Boca de Sombra».

Casaram-se em Fevereiro de 1853. O primeiro filho, Jean Nicolas Frédéric, surgiu nove meses depois, em Novembro. No ano seguinte, em Outubro de 1854, chegou Jean Nicolas Arthur. Seguiram-se mais três: Victorine-Pauline Vitalie, em Junho de 1857 (falecida poucas semanas depois), Jeanne-Rosalie Vitalie, em Junho de 1858 e por fim Frédérique Marie Isabelle, em Junho de 1860.

Apesar do casamento ter durado sete anos, o capitão nunca passou mais do que três meses consecutivos em casa – entre Fevereiro e Maio de 1853. No tempo restante, as comissões (onde se inclui a participação na Guerra da Crimeia e na Guerra da Sardenha, que lhe valeram um par de medalhas) obrigavam-no a limitar a sua presença em Charleville às curtas licenças. Nunca assistiu ao nascimento dos filhos ou respectivos baptizados. A gota de água terá ocorrido com o nascimento da última filha, já que depois disso o capitão abdicou totalmente de regressar a casa nas licenças. Apesar de nunca ter ocorrido um divórcio, a separação foi completa. O casal passou a apresentar-se enquanto viúvo/a. Nunca foi demonstrado qualquer interesse, nem por ele nem pelos filhos, em manter o contacto.

Com receio da excessiva influência que as crianças vizinhas, oriundas de famílias mais pobres, pudessem ter sobre os filhos, a matriarca mudou-se com a família para a zona de Cours d’Orléans, em 1862. Tratava-se de um bairro mais conceituado e os rapazes, agora entre os oito e os nove anos e até ao momento educados em casa pela mãe, foram então inscritos em Pension Rossat, uma escola antiga mas conceituada. Ao longo dos cinco anos de frequência continuaram, todavia, a lidar com as imposições académicas da progenitora, que exigia sucesso escolar. Os castigos variavam entre decorar centenas de versos em Latim ou punir qualquer erro mínimo com a ausência de refeições. Quando Arthur completou nove anos, escreveu um texto de 700 palavras, no qual se opunha à obrigatoriedade de aprender Latim na escola. Considerava a educação tradicional mera rampa de lançamento para um trabalho remunerado, tendo escrito repetidamente a frase: «Vou ser um rendeiro».

Detestava as tarefas escolares e ainda mais a constante supervisão materna. Nem ele nem o irmão podiam sair um instante do ângulo de visão da mãe e esta ia buscá-los à escola até os rapazes completarem 15 ou 16 anos.

Em jovem, Rimbaud era pequeno e pálido, de cabelo castanho claro. Os olhos, segundo o eterno amigo Ernest Delahaye, eram «mistura de azul claro e azul-escuro – os olhos mais bonitos que já vi». Católico fervoroso, à semelhança da mãe, fez a primeira comunhão com 11 anos. A fé excessiva valeu-lhe, no recreio escolar, a alcunha de «porquinho fanático». Nesse mesmo ano, transferiu-se, juntamente com o irmão, para o Colégio de Charleville. Até então, as suas leituras estavam praticamente reduzidas à Bíblia, embora tivesse apreciado alguns contos de fadas e romances de aventuras. Na nova escola, transformou-se num aluno de enorme sucesso em todas as disciplinas, com excepção de Matemática e Ciências. Os professores elogiavam-lhe a memória académica fantástica. Entre 1869 e 1870, venceu um total de 15 prémios escolares, em competições nacionais.

Antevendo brilhante futuro académico para aquele filho, a mãe contratou-lhe um tutor privado. O clérigo fomentou no jovem um grande interesse pelo Grego, Latim e Literatura Francesa clássica, sendo ainda ele quem o convenceu a escrever versos em Latim. O autor publicou o primeiro poema em Janeiro de 1870, com meros 15 anos.

Duas semanas depois, chegou à escola um novo professor de Retórica, de apenas 22 anos: Georges Izambard. Este viria a tornar-se no mentor de Rimbaud, tendo-se formado amizade próxima entre ambos, já que o aluno considerava o professor uma espécie de irmão mais velho. Arthur demonstrava já maturidade enquanto poeta, tendo o primeiro poema que ele mostrou a Izambard, «Ophélie», sido considerado um dos melhores trabalhos de sempre do autor e com frequência incluído em antologias. Também nesse ano, a mãe de Arthur escreveu uma carta ao professor do filho, queixando-se do facto de este lhe ter facultado um exemplar da obra «Os Miseráveis», de Victor Hugo, que ela considerava moralmente inadequada.

A Guerra Franco-Prussiana rebentou em Julho de 1870. Logo em seguida, Izambard abandonou a vila, indo passar o Verão com familiares. Os preparativos para o conflito intensificavam-se e o Colégio transformou-se num hospital militar.

Em finais de Agosto, com as províncias em ebulição, Rimbaud começou a ficar aborrecido e inquieto. Em busca de aventuras, escapou num comboio para Paris, sem pagar bilhete. Ao chegar à Gare du Nord, foi detido e levado para a prisão de Mazas, enquanto aguardava julgamento por vadiagem. Em Setembro, enviou uma carta desesperada a Izambard, que estabeleceu um acordo com o director prisional, de modo a que Arthur fosse libertado e ficasse ao cuidado do mentor. Uma vez que o conflito se intensificava, permaneceu na companhia dos familiares de Izambard até poder retornar a Charleville. Foi devolvido à mãe em finais desse mês (esta terá esbofeteado o filho e advertido o mentor), mas aguentou meros dez dias em casa, antes de encetar nova fuga.

A partir da segunda metade de Outubro, o comportamento do autor tornou-se ostensivamente quezilento: começou a beber, a falar com rudeza, a escrever poemas escatológicos, a roubar livros das lojas e abandonou a sua tradicional aparência cuidada em favor do cabelo comprido. Em Maio de 1871, escreveu cartas para Izambard e para outro amigo, de nome Paul Demeny, procurando explicar a sua adopção de um método para atingir a transcendência poética, ou o poder visionário, através de um «longo, vasto e racional desarranjo dos sentidos». Acrescenta: «As privações são grandes, mas há que ser forte e nascer poeta. Reconheço-me enquanto tal».

Rimbaud enviou ainda cartas a vários poetas famosos, mas obteve um misto de silêncio e cortesia. Foi então que um amigo sugeriu que ele escrevesse a Paul Verlaine, poeta em ascensão (e futuro líder do movimento Simbolista), que tinha já publicado duas colecções de poemas com algum sucesso. O jovem enviou então duas cartas, onde incluiu vários dos seus poemas, alguns deles hipnóticos e mesmo chocantes. Verlaine ficou intrigado, tendo respondido algo como:

Vem, grande e apreciado espírito. Desejamos-te e por ti esperamos.

Enviou-lhe ainda um bilhete de ida para Paris. Rimbaud chega nos fins de Setembro de 1871 e aloja-se temporariamente em casa de Verlaine. A mulher deste, Mathilde Mauté, era uma adolescente de 17 anos, grávida. Paul abandonara há pouco tempo o emprego e começara a beber. Em futuros registos acerca do primeiro encontro entre ambos, Verlaine descreve um Rimbaud de 16 anos, dono de «uma cabeça de criança, rechonchuda e fresca, inserida num corpo alto, ossudo e desengonçado, típico de um adolescente em crescimento». Possuía um «sotaque carregado, que se transformava quase num dialecto e uma voz flutuante e quebradiça».

Rimbaud e Verlaine depressa iniciaram um relacionamento amoroso, breve mas intenso. Entregaram-se a uma vida selvagem, quase nómada, temperada com absinto, ópio e haxixe. O meio literário parisiense ficou deveras escandalizado com Rimbaud, cujo comportamento obedecia ao dito arquétipo do «enfant terrible». Apesar disso, insistiu na escrita de poemas. A relação tempestuosa levou-os depois até Londres, em Setembro de 1872, fase de que o autor se arrependerá. É por esta altura que Verlaine abandona a mulher e o filho menor (dos quais tinha abusado durante ataques de raiva alcoolizados). Na capital inglesa, enfrentam uma pobreza considerável, morando em zonas como Bloomsbury ou Camden Town e reunindo parcos fundos enquanto professores, a que se adicionava uma pensão da mãe de Verlaine. Rimbaud passava os dias na Sala de Leitura do Museu Britânico, local onde «aquecimento, luz, penas e tinta eram gratuitas». O relacionamento entre os dois poetas torna-se progressivamente mais azedo e Verlaine decide abandonar o outro em Londres, indo reunir-se de novo com a mulher, em Bruxelas.

Rimbaud era uma figura impopular, nessa altura, sendo considerado por muitos um indivíduo sujo e rude. O artista Henri Fantin-Latour tencionava pintar quadros de poetas consagrados, para exibir numa exposição, mas encontrou dificuldades em convencê-los. Acabou por ter de se contentar com Rimbaud e Verlaine, alcunhados de «génios de taverna». O retrato, intitulado «Esquina de Mesa», exibe os dois poetas no canto esquerdo. Alguns, como Albert Mérat, recusaram-se a aparecer junto de tal dupla, alegando não se associar a «proxenetas e ladrões». O escritor acabou substituído por uma planta. Insinuou ainda que os dois homens andavam envolvidos sexualmente e o natural crescimento de tais boatos representou o princípio do fim da reputação de ambos, quando estes ainda procuravam construir uma boa imagem de si mesmos.

Em Junho de 1873, Verlaine regressou a Paris sozinho, mas depressa começou a lamentar a ausência de Rimbaud. Em princípios de Julho, telegrafou ao outro, pedindo-lhe para este aparecer no Grand Hôtel Liégeois, em Bruxelas. O encontro correu mal, as discussões eram constantes e Verlaine refugiou-se furiosamente na bebida. Na manhã do dia 10, comprou um revólver e munições. Cerca das quatro da tarde, «numa fúria ébria», disparou dois tiros na direcção de Rimbaud, tendo um deles ferido o jovem de 18 anos no pulso esquerdo.

Arthur considerou a ferida superficial, mas apesar disso decidiu tratá-la num hospital. Não apresentou queixa, tendo optado por sair de Bruxelas. Por volta das 20h, Verlaine, acompanhado da mãe, levou o outro à estação de comboios. No percurso, de acordo com Rimbaud, Paul «agiu como um louco». Receando que este, ainda de pistola no bolso, pudesse disparar outra vez, «fugiu» e «implorou a um polícia que o prendesse». Verlaine foi acusado de tentativa de homicídio, seguindo-se um vexatório exame médico-legal. Foi ainda interrogado acerca da correspondência trocada com Rimbaud e da natureza do relacionamento entre ambos. A bala acabou por ser removida do pulso de Arthur em meados de Julho e este retirou a queixa. A acusação foi reduzida para ferimento com arma de fogo e em Agosto de 1873, Verlaine foi condenado a meros dois anos de prisão.

Rimbaud voltou à terra natal de Charleville e terminou a obra Uma Cerveja No Inferno – ainda hoje considerada por muitos um exemplo notável de escrita simbolista moderna. No texto, é amplamente aceite que o autor se refere a Verlaine como um «irmão miserável» ou um «virgem louco» e a si próprio enquanto «marido infernal», considerando a vida entre ambos uma «farsa doméstica».

Em 1874, regressou a Londres na companhia do poeta Germain Nouveau. Viveram juntos durante três meses, tempo suficiente para o autor organizar a sua derradeira obra «Iluminações», uma colectânea de poemas em prosa, cuja publicação lhe escapou ao controlo (saiu apenas em 1886, sem que o autor tenha tido conhecimento).

Rimbaud e Verlaine encontraram-se pela última vez em Março de 1875, em Estugarda, depois do segundo ter sido libertado e aderido ao catolicismo. Nesta fase, Arthur já tinha abandonado a vida literária, optando por manter uma vida laboral estável.

O poeta Stéphane Mallarmé, num texto dedicado a Rimbaud, em 1896 (póstumo), descreve-o como sendo «um cometa, surgido apenas da sua vontade, desaparecendo tão depressa como surgiu», capaz de «remover cirurgicamente a poesia de si próprio ainda em vida». Albert Camus, em «O Homem Revoltado», apesar de elogiar o trabalho literário de Rimbaud (em especial as derradeiras obras) afirmando tratar-se do «poeta da revolta, o maior deles todos», escreveu uma dura crítica acerca da decisão deste em abandonar a Literatura, alegando não existir nesse gesto qualquer motivo para elogio, nada remotamente nobre ou verdadeiramente ousado num homem que cometeu um «suicídio espiritual» transformando-se num «traficante burguês» e rendendo-se ao mundo materialista.

Após estudar diversas línguas (Alemão, Italiano, Espanhol), optou por viajar demoradamente pela Europa, sobretudo a pé. Em Maio de 1876, alistou-se como soldado no Exército Colonial Holandês, de modo a beneficiar de um bilhete grátis para Java, situada no território hoje conhecido como Indonésia. Quatro meses depois, desertou e fugiu para a selva. Conseguiu regressar disfarçadamente a França, de barco, pois enquanto desertor teria sido condenado à morte por fuzilamento, caso fosse capturado.

Em Dezembro de 1878, Rimbaud viajou até Lárnaca, no Chipre, onde trabalhou para uma empresa de construção nas funções de supervisor numa pedreira. Em Maio do ano seguinte, teve de regressar a França à conta de uma febre, mais tarde diagnosticada como tifóide.

O antigo poeta encontrou, por fim, alguma estabilidade na cidade de Áden, no Iémen, já em 1880, enquanto funcionário de relevo numa exportação de café, sendo depois transferido para a sucursal de Harare, na Etiópia. Em 1884, abandona as funções para se estabelecer por conta própria como negociante, lidando sobretudo com café e armas (muitas delas desactualizadas).

Em paralelo, Rimbaud dedicou-se à exploração geográfica e formou amizade próxima com o Governador de Harare, Ras Mekonnen Wolde Mikael Wolde Melekot, pai do futuro imperador Haile Selassie. Manteve ainda relação cordial com o tutor oficial do jovem herdeiro.

No que diz respeito ao negócio de café, pode afirmar-se que foi, em certa medida, um pioneiro na actividade, enquanto primeiro europeu a supervisionar a exportação do famoso café de Harare, o terceiro europeu a visitar a cidade e o primeiro a dedicar-se a qualquer tipo de negócio na região, de acordo com fontes próximas.

Em 1885, este envolveu-se num grande negócio de venda de armas (velhas espingardas) a Menelik II, rei de Shewa (região da Etiópia), projecto liderado pelo francês Pierre Labatut. O explorador Paul Soleillet também se envolveu no assunto, nos princípios de 1886. As armas chegaram à vila de Tadjoura em Fevereiro, mas não puderam ser movimentadas à conta de uma lei regional, que proibia o negócio de armamento. Quando finalmente se resolveu a burocracia, Labatut adoeceu e teve de abandonar o projecto (morreu de cancro pouco depois) e Soleillet sofreu uma embolia fatal. Quando Arthur chegou enfim ao destino, o rei tinha acabado de obter uma importante vitória militar e já não precisava das velhas armas, embora se tenha aproveitado da situação, negociando o carregamento a um preço muito inferior ao esperado, ao qual subtraiu ainda mais à conta de pretensas dívidas contraídas pelo falecido Labatut. Na perspectiva de Rimbaud, tudo se revelou um desastre.

Nos anos seguintes, entre 1888 e 1890, o autor abriu loja própria em Harare, mas depressa caiu no aborrecimento e na desilusão. Amigos de ocasião descrevem-no como alguém «inteligente, calmo, sarcástico, reservado sobre o passado, adepto de uma vida simples e cuidando do negócio com precisão, honestidade e firmeza».

Em Fevereiro de 1891, de novo em Áden, Rimbaud começou a queixar-se do que inicialmente considerou ser uma artrite no joelho direito. O tratamento não resultou e em Março, com dores crescentes, decidiu voltar a França, para melhor observação. Antes de partir, consultou um médico britânico que erradamente o diagnosticou com uma variante grave de artrite reumatóide e sugeriu amputação imediata. Arthur permaneceu na cidade até Maio, de modo a resolver os negócios e depois apanhou um barco a vapor de regresso a França, numa viagem de 13 dias. Ao chegar a Marselha, deu entrada no hospital onde, uma semana depois, lhe foi amputada a perna direita. O diagnóstico pós-operatório revelou-se contudo outro: cancro nos ossos.

Após curta estadia na quinta da família, em Roche, entre Julho e Agosto, tentou voltar para África, mas teve uma recaída durante a viagem e foi readmitido no Hôpital de la Conception, em Marselha. Passou algum tempo ali internado, com fortes dores, auxiliado pela irmã, Isabelle. Recebeu a extrema-unção de um padre antes de falecer, a 10 de Novembro de 1891, com apenas 37 anos. Os restos mortais foram enviados para a sua terra natal de Charleville-Mézières.

 

Os poemas iniciais de Arthur Rimbaud foram muito influenciados pela escola parnasiana e por outros poetas da época, como Victor Hugo, apesar do autor ter encontrado uma voz original com rapidez, na temática e na forma (sobretudo através de uma simbiose entre temas/vocabulário profano e versos sofisticados). Encontra depois grande inspiração em Charles Baudelaire, que o ajuda a desenvolver um estilo de poesia mais tarde conhecido como «simbolista».

Em meados de 1871, com apenas 16 anos, Rimbaud escreveu cartas a dois amigos, onde explicou a sua filosofia poética. Na primeira, afirma:

Estou agora a tornar-me tão asqueroso quanto possível. Porquê? Pretendo ser poeta, logo preciso de ser uma espécie de vidente. Não irás perceber nada disto e eu próprio sou quase incapaz de to explicar. A ideia é atingir o desconhecido através do desarranjo de todos os sentidos. Envolve enorme dose de sofrimento. Mas há que ser forte e nascer poeta. Nada disto é culpa minha.

A segunda carta, escrita pouco antes da ida até Paris, explana as suas teorias revolucionárias acerca da poesia e da vida em geral, ao mesmo tempo que censura alguns dos poetas mais famosos, seus antecessores (destina particular azedume a Alfred de Musset, ao mesmo tempo que elogia Charles Baudelaire, apesar de considerar que este limitara a sua visão ao adoptar um estilo de vida demasiado convencional). Ansiando por novos temas e formas poéticas, declara:

Afirmo que devemos ser videntes, transformarmo-nos num. O poeta assim se torna através de um prolongado, vasto e voluntário desarranjo de todos os sentidos. Qualquer forma de amor, sofrimento, loucura; procura-se a si mesmo, consome todo o veneno interno, mantendo apenas as quintessências. Falo de uma tortura imensa, durante a qual é necessário convocar toda a fé e energia sobre-humanas, onde o poeta se torna a grande cobaia, o grande criminoso, o grande amaldiçoado – e o grande iluminado! – entre os homens. Pois atinge o desconhecido! Porque cultivou a própria alma – já de si rica desde início – mais do que qualquer outro homem!

Atinge o desconhecido e mesmo se, tresloucado, perder o significado das suas visões, pelo menos esteve diante delas! Que morra desbravando todas essas coisas impronunciáveis, inomináveis: seguir-se-ão outros trabalhadores do grotesco, que prosseguirão a partir dos horizontes que o consumiram!

O poeta francês Paul Valéry, a propósito, afirmou que «toda a Literatura conhecida utiliza a linguagem do senso-comum – excepto a de Rimbaud». A sua poesia influenciou os simbolistas, os dadaístas e os surrealistas. Os novos autores dele retiraram ideias a nível temático, mas também no que diz respeito à forma e linguagem.


Longo poema em prosa, escrito e publicado em 1873. Acabou por ser a única obra do autor publicada com o seu conhecimento, revelando-se uma enorme influência para artistas e poetas vindouros, com destaque para os surrealistas.

Rimbaud iniciou a escrita do poema em Abril de 1873, durante uma visita à quinta da família, situada na localidade de Roche, perto de Charleville, junto à fronteira com a Bélgica. Algumas fontes declaram que grande parte do texto foi escrito num celeiro em ruínas. Nas semanas posteriores, o autor juntou-se ao poeta Paul Verlaine, numa longa odisseia por Inglaterra e Bélgica. Tinham iniciado uma relação tóxica em 1872, recheada de conflitos.

Após a separação, o autor voltou a casa, em França, concluindo o trabalho e publicando-o em seguida. A sua reputação, porém, estava já manchada pelo historial com Verlaine, contexto que lhe valeu um conjunto de críticas negativas e o desprezo geral dos círculos literários parisienses. Revoltado, queimou os restantes manuscritos e abdicou definitivamente da escrita.

A época em causa havia transformado o autor num consumidor de absinto, ópio, gin e cerveja, o que segundo alguns ajuda a explicar, em parte, a dificuldade que existe em compreender certos poemas, especialmente se o leitor estiver sóbrio.

O poema em prosa divide-se vagamente em nove partes, de tamanho variável. Estas são também irregulares no que diz respeito ao tom e à narrativa, embora se trate de um texto cuidadosamente revisto e planeado pelo autor, afirmação comprovável quando analisamos as diferentes versões do mesmo.

 – Introdução – destaca as penas do narrador e apresenta o enredo enquanto «páginas do diário de uma alma condenada».

 – Sangue Mau – explica a ascendência do narrador e a influência que esta exerce na sua noção de moral e felicidade.

 – Noite Infernal – destaca o instante da morte do narrador e a sua entrada no inferno.

 – Delírio I: O Virgem Tolo/O Esposo Infernal – parte mais linear da narrativa, onde se descreve o percurso de um homem (Verlaine) prisioneiro do seu «noivo infernal» (Rimbaud), que o terá enganado e manobrado com falsas promessas. Trata-se de uma alegoria óbvia acerca da sua relação homossexual.

 – Delírio II: Alquimia do Verbo – aqui, o narrador intervém, confessando as suas próprias esperanças vãs e sonhos desfeitos. Esta parte está melhor organizada, contendo diversas secções em verso (quase todas constituídas por poemas individuais). Procura ainda desenvolver a sua teoria acerca da poesia, iniciada nas cartas, mas acaba por considerar todo o processo um autêntico falhanço.

 – O Impossível – parte mais vaga, embora interpretada por alguns enquanto tentativa do narrador para escapar ao inferno.

 – Relâmpago – Tom resignado e fatalista, sugerindo uma rendição do narrador.

 – Manhã – Breve conclusão, na qual o narrador alega ter «concluído a minha análise ao inferno» e afirma que de momento «não consegue sequer falar».

 – Despedida – Aqui sugere-se uma mudança de estação, do Outono para a Primavera. O narrador aparenta ter saído da sua jornada infernal mais forte e confiante, dizendo «ser capaz de conter a verdade num único corpo e mente».

Uma Cerveja No Inferno é visto como um poema «terrivelmente enigmático», mas também uma «batalha quase histérica, mas brilhante, entre o poeta e o seu ‘outro’».  Identificam-se duas vozes neste enredo surrealista, duas parcelas da personalidade esquizóide de Rimbaud: o «eu» poeta/vidente e o «eu» filho rural de uma mãe extremamente dogmática. Um deles está profundamente apaixonado pelo milagre da vida e da infância, o outro considera todos estes artifícios literários uma «tolice» condenável.

Segundo os críticos, a «derradeira lição» deste poema «complexo e perturbador» conclui que «a poesia é um veículo para a mudança e renovação, mera fase no percurso de vida. Apesar de presa ao destino humano, a linguagem tem o poder de anunciar a existência, embora seja incapaz de criá-la». Por outro lado, «o poema apresenta uma dificuldade: tem direcção única, termina no sítio onde começou. A sua grande frustração, semelhante à de qualquer poema relevante, é concluir que é impossível, para qualquer um de nós, escapar aos limites impostos pela dita realidade».

Este «testemunha a revolta do homem moderno, mas também uma certa libertação que chega com o fim dessa revolta».

 

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