Victor Hugo

Viveu entre 1802 e 1885. Foi poeta, romancista e dramaturgo, no período do Romantismo. Ao longo de uma carreira com mais de seis décadas, revelou-se um autor prolífico numa enorme variedade de géneros: canções, sátiras, épicos, poemas filosóficos, epigramas, romances, texto histórico, ensaios, discursos políticos, epitáfios, diários, cartas públicas e privadas, bem como peças de teatro em verso e prosa.

Hugo é considerado um dos maiores e mais famosos escritores franceses. Fora do seu país de origem, os seus romances mais afamados são Os Miseráveis (1862)e «O Corcunda de Notre-Dame» (1831). Em França, é reconhecido pelas colectâneas de poesia, de que são exemplo «Les Contemplations» e «La Légende des Siècles». O autor foi um dos líderes do Romantismo enquanto movimento literário, nomeadamente com as peças de teatro «Cromwell» e «Hernani». Muitos dos textos revelaram-se uma fonte de inspiração para a Música, antes e após a morte do escritor, incluindo os já mencionados Os Miseráveis e «O Corcunda de Notre-Dame». Encontrou ainda tempo para completar mais de 4000 desenhos e dedicar-se a diversas campanhas sociais – por exemplo à luta pela abolição da pena de morte.

Embora fosse um monárquico convicto na juventude, a sua visão política mudou com o passar das décadas e Victor transformou-se num irredutível defensor da República, causa que defendeu como deputado e senador. A sua produção literária mencionou quase todos os grandes temas políticos e sociais (a par das tendências artísticas) do seu tempo. A sua oposição ao Absolutismo e a gigantesca obra literária transformaram-no num herói nacional. Foi enterrado no Panteão.

 

Victor-Marie Hugo nasceu em 1802 na cidade de Besançon, situada no leste de França. Filho mais novo de Joseph Léopold Sigisbert Hugo, general do Exército napoleónico e Sophie Trébuchet, tinha ainda dois irmãos: Abel Joseph e Eugène. A família chegara de Nancy, cidade na região de Lorraine, onde o avô de Victor era mercador. O pai Léopold alistou-se com a tenra idade de catorze anos, sendo já nessa altura ateu e forte apoiante da República, nascida da queda da Monarquia, em 1792. Sophie era uma católica convicta, leal à realeza caída em desgraça. O casal conheceu-se em Châteaubriant, situada a poucos quilómetros de Nantes, em 1796 e casou-se no ano seguinte.

Uma vez que o pai do autor era um oficial de Napoleão, a família deslocava-se constantemente. Sophie deu à luz os três filhos em meros quatro anos. Léopold terá escrito ao filho, a dada altura, afirmando nessa carta que este fora concebido num dos cumes das Montanhas Vosges, numa viagem entre Lunéville e Besançon. «Esta origem elevada…», prosseguiu, «…parece ter tido qualquer efeito em ti, pois a tua inspiração é sempre excelente». Hugo acreditava ter sido concebido em 24 de Junho de 1801, elemento que serviu de inspiração para o número de prisioneiro da personagem Jean Valjean: 24601.

Em 1810, o pai do autor recebeu o título de Conde Hugo de Cogolludo y Sigüenza do então Rei de Espanha Joseph Bonaparte (irmão mais velho de Napoleão), apesar de aparentemente a honraria não ser reconhecida em França. Mais tarde, o autor atribuiu a si mesmo o título de visconde e foi enquanto «Vicomte Victor Hugo» que acabou por ser considerado um «par» de França, corria o ano de 1845.

Fatigada das constantes mudanças associadas à vida militar, Sophie afastou-se temporariamente de Léopold e estabeleceu-se em Paris com os filhos, no ano de 1803. Fazia visitas frequentes ao general Victor Fanneau de La Horie, padrinho de Hugo e antigo camarada de armas de Leopoldo durante a campanha de Vendee. Em finais de 1807, a família reuniu-se de novo com o pai, agora governador da província de Avellino. Aqui, Victor aprende Matemática com Giuseppe de Samuele Cagnazzi, irmão mais velho do cientista italiano Luca de Samuele Cagnazzi. Sophie descobriu, pouco depois, que Leopold tinha mantido uma ligação secreta com uma mulher inglesa, chamada Catherine Thomas.

Em breve, o pai do autor foi recrutado para combater na Guerra Peninsular (Invasões Napoleónicas), que decorria em Espanha e Portugal. A mãe de Hugo regressou a Paris com os filhos, em 1808, instalando-se numa velha propriedade localizada num bairro recluso da margem esquerda do Sena. Refugiado numa pequena capela situada nas traseiras do jardim, estava Victor Fanneau de La Horie, que se envolvera em conspirações políticas e tinha sido condenado à morte uns anos antes. Este transformou-se numa espécie de mentor para Victor e seus irmãos.

Em 1811, a família voltou a reunir-se com Leopold em território espanhol, tendo as crianças sido inscritas num prestigiado colégio de Madrid. Sophie, por outro lado, regressa a Paris em definitivo, sozinha e agora oficialmente separada do marido. No ano seguinte, Victor Fanneau de La Horie é preso e executado. No início de 1815, Victor e o irmão Eugene são afastados da mãe pelo pai e enviados para um colégio interno privado, em Paris, onde ficam três anos.

No Verão de 1816, Hugo escreve no seu diário: «Serei como Chateaubriand ou não serei nada». No ano seguinte, escreve um poema com o qual participa num concurso organizado pela Academia Francesa, tendo sido agraciado com uma Menção Honrosa. O júri recusou-se a crer que o escritor tinha apenas 15 anos. Victor mudou-se para casa da mãe em 1818 e começou a estudar Direito. Entretanto, apaixonou-se e secretamente ficou noivo, contra a vontade da progenitora, de uma amiga de infância chamada Adèle Foucher. Em meados de 1821, faleceu Sophie Trebuchet e Léopold casou com a sua amante de sempre, Catherine Thomas, um mês depois. Victor casou-se com Adèle no ano seguinte. Antes, em 1819, iniciara a publicação de um jornal, «Le Conservateur littéraire», auxiliado pelos irmãos.

O autor publicou o primeiro romance, «Han da Islândia», em 1823 e o segundo, «Bug-Jargal», em 1826. Entre 1829 e 1840, editou mais cinco volumes de poesia («Les Orientales», 1829; «Les Feuilles d’automne», 1831; «Les Chants du crepuscule», 1835; «Les Voix intérieures», 1837 e «Les Rayons et les Ombres», 1840), cimentando a sua reputação como um dos maiores poetas líricos do seu tempo.

À semelhança de muitos jovens escritores dessa geração, Victor Hugo foi bastante influenciado por François-René de Chateaubriand, o mais famoso representante do Romantismo francês e figura literária de renome na primeira metade do século XIX. Como se disse, o autor decidira ser «Chateaubriand ou nada» e de facto a vida de ambos exibe algum paralelismo: Tal como o seu inspirador, Hugo valorizou e representou o movimento romântico, envolveu-se na política (embora sobretudo enquanto adepto do Republicanismo) e as convicções valeram-lhe o exílio.

As obras iniciais, plenas de eloquência e fervor, valeram-lhe o sucesso precoce. A primeira colectânea de poesia («Odes et poésies diverses») foi publicada em 1822, contava o escritor apenas 20 anos. O trabalho valeu-lhe uma pensão real de Luís XVIII. Apesar desses poemas se destacarem pela sua fluência e espontaneidade, a colectânea seguinte, («Odes et Ballades») surgida em 1826, confirmou que Hugo era um enorme poeta, um perfeito mestre lírico.

A primeira grande obra do autor foi publicada no início de 1829, de forma anónima. Esta exibia as intensas preocupações sociais que estariam presentes na sua carreira futura. «O Último Dia de um Condenado» influenciou de forma inegável autores como Albert Camus, Charles Dickens e Fiodor Dostoievski. «Claude Gueux», um conto documental acerca de um criminoso verdadeiro que tinha sido executado em França, foi editado em 1834 e mais tarde considerado pelo autor como um ensaio para a sua famosa obra acerca de injustiça social, Os Miseráveis.

Victor transformou-se em definitivo no símbolo do Romantismo com as peças de teatro «Cromwell» (1827) e «Hernani» (1830). Esta última revelou-se mesmo a trombeta anunciadora do novo movimento literário: levada à cena no teatro Comédie-Française, foi recebida com várias noites de tumultos entre românticos e tradicionalistas, que discutiam fervorosamente o evidente desprezo da peça pelas regras neoclássicas. A popularidade do autor enquanto dramaturgo cresceu, através de peças como «Marion Delorme» (1831), ou «Ruy Blas» (1838). Um romance, «O Corcunda de Notre-Dame», foi publicado em 1831 e rapidamente traduzido para outras línguas europeias.

Uma das consequências foi uma certa humilhação da cidade de Paris, que se viu obrigada a restaurar a muito negligenciada Catedral de Notre-Dame, transformada em enorme atracção turística depois da publicação do livro. Para além disso, a obra rejuvenesceu o apreço pela arquitectura pré-renascentista, cujos símbolos passaram a beneficiar de apurada conservação.

Victor Hugo começou a planear um grande romance acerca do tema da injustiça e miséria sociais – Os Miseráveis – logo em 1830, mas o projecto exigiu um total de 17 anos antes de ser considerado pronto e chegar às mãos dos leitores, em 1862.

O autor já fizera referência aos condenados à prisão de Bagne, em Toulon, na obra «O Último Dia de um Condenado» mas regressou ao local em 1839 para uma apurada investigação, ainda que só tenha principiado a escrever o enredo em 1845. Numa das páginas recheadas de notas, rabiscou em grandes letras capitais um possível nome para o protagonista: «JEAN TRÉJEAN». Na versão final, «Tréjean» transformou-se em «Valjean».

O autor tinha plena consciência da qualidade do romance, como ficou demonstrado numa carta que escreveu ao editor, Albert Lacroix, em 1862: «Estou convicto que este livro irá ser um dos pontos altos, se não mesmo a coroa de glória da minha carreira». Os direitos de publicação foram vendidos ao maior licitante. A editora belga Lacroix & Verboeckhoven apostou numa invulgar campanha publicitária, para a época, lançando notas de imprensa acerca da obra seis meses antes da edição. Decidiu ainda começar por publicar apenas a primeira parte da obra, tornada disponível nas cidades principais em simultâneo. Os primeiros exemplares venderam-se em poucas horas e provocaram enorme impacto na sociedade francesa.

A crítica especializada, contudo, teve fraca opinião acerca da obra: uns consideraram-na «mentirosa», outros dispensaram-na como «vulgar» e até Gustave Flaubert foi incapaz de ver nela «realidade ou grandeza». Baudelaire – apesar de escrever críticas favoráveis nos jornais – criticou-a em privado, dizendo-a «repulsiva e fraca». Os Miseráveis, contudo, obtiveram popularidade suficiente entre o público para que as questões sociais abordadas depressa chegassem à Assembleia Nacional. Hoje, a obra continua a ser a mais famosa do autor, tendo sido adaptada ao cinema, televisão e teatro.

Hugo afastou-se da temática política/social no romance seguinte, «Os Trabalhadores do Mar», publicado em 1866. A obra foi bem recebida, em parte devido ao sucesso d’ Os Miseráveis. Dedicada à pequena ilha de Guernsey, situada no Canal da Mancha, onde o autor passou 15 anos exilado, a história aborda a vida de um protagonista que procura obter a aprovação do seu querido pai, salvando-lhe o navio. A embarcação foi intencionalmente encalhada pelo capitão, que espera colocar-se em fuga na posse do tesouro que enche os porões do navio. O processo desencadeia uma batalha esgotante entre engenho humano e forças da Natureza, a par de um combate muito particular com um monstro marinho – uma terrível lula gigante.

Aparentemente uma aventura, o enredo foi no entanto considerado por especialistas «uma metáfora do progresso tecnológico do século XIX, a vitória do génio criativo e do trabalho árduo sobre os malefícios do mundo material».

Pieuvre, a palavra usada em Guernsey para identificar uma lula (e por vezes um polvo), acabaria por ser introduzida no vocabulário francês após a edição do livro.

Victor regressou à temática político-social no romance seguinte, «O Homem que Ri», publicado em 1869. Nele, pintou-se uma imagem crítica da aristocracia, mas a obra não imitou o sucesso das anteriores, fazendo com que o próprio autor admitisse as diferenças crescentes entre ele e os seus contemporâneos literários, nomeadamente Flaubert e Émile Zola, cujas obras realistas e naturalistas eram agora muito mais populares.

O derradeiro romance, «Noventa e Três», editado em 1874, abordou um tema até então evitado pelo escritor: O Reino do Terror no período da Revolução Francesa. Apesar da popularidade de Hugo estar já em declínio nessa altura, muitos consideram hoje em dia que este livro está ao nível dos seus melhores trabalhos.

Após três ensaios falhados, o autor conseguiu finalmente ser eleito para a Academia Francesa, em 1841, solidificando assim o seu lugar nas Artes e Letras francesas. Um certo grupo de académicos resistiu durante muito tempo à «evolução romântica», tendo conseguido atrasar até ao limite a eleição de Victor Hugo. Depois disso, o autor envolveu-se cada vez mais na política francesa.

Na nomeação do rei, Hugo acedeu ao seu lugar na Câmara Alta do Parlamento, enquanto «par» de França, corria o ano de 1845. Fez um discurso contra a pena de morte e denunciou as injustiças sociais, advogando a liberdade de imprensa e a autodeterminação da Polónia.

Em 1848, foi eleito para a Assembleia Nacional da II República, enquanto Conservador. No ano seguinte, abandonou a respectiva bancada depois de um polémico discurso contra a miséria e pobreza.

Noutros ainda, defendeu propostas como o sufrágio universal e a educação gratuita para todas as crianças. A sua campanha contra a pena de morte mereceu a aprovação e reconhecimento internacionais.

Com a chegada ditatorial de Napoleão III ao poder, em 1851, que redundou numa Constituição antiparlamentar, Hugo revoltou-se, apelidando-o abertamente de traidor à pátria. Viu-se obrigado a mudar para Bruxelas e depois para a ilha de Jersey, da qual foi expulso por apoiar um jornal local que havia criticado a Rainha Vitória. Acabou por encontrar porto seguro em Guernsey, onde suportaria o exílio entre 1855 e 1870.

Nesse período, editou famosos panfletos políticos contra Napoleão III, que apesar de banidos em território francês, deixaram importante marca. Foi também ali que terminou algumas das melhores obras, onde se inclui Os Miseráveis e três colectâneas de poesia.

À semelhança de muitos contemporâneos, Victor Hugo justificou o colonialismo com uma narrativa sobre a «missão civilizacional» e a contribuição para o fim do comércio esclavagista. Num discurso de 1879, durante um banquete para celebrar a abolição da escravatura, o autor declarou que o Mar Mediterrâneo era uma fronteira natural entre «o pico da civilização e a (…) barbárie completa», acrescentando que Deus tinha «oferecido o continente africano à Europa» e que o correcto era «agarrá-lo» de modo a civilizar os nativos.

Isto poderá explicar – em parte – a razão pela qual, apesar da sua forte consciência social, o autor manteve o silêncio aquando da questão da Algéria. Estava informado acerca das atrocidades cometidas pelo exército francês durante a conquista desse país, mas nunca se comprometeu com uma denúncia pública. Apesar disso, na obra Os Miseráveis, escreveu: «Algéria, conquista brutal e, tal como na colonização inglesa da Índia, viu-se demasiada barbárie e muito pouca civilização».

Depois de conhecer Victor Schœlcher, autor francês abolicionista e opositor do colonialismo francês nas Caraíbas, Hugo abraçou a causa. Escreveu, por exemplo, a uma abolicionista americana, em 1851: «Escravatura nos EUA! Essa nação tem o dever de eliminar um exemplo tão negativo…os Estados Unidos terão de renunciar à escravatura ou de renunciar à liberdade». Depois, em 1859, enviou carta ao Governo Americano, onde apelava à clemência para com o abolicionista John Brown, que fora condenado à morte: «Decerto, se alguma vez a insurreição é justificada, sê-lo-á quando pretende eliminar a escravatura». O autor concordou ainda em vender um dos seus desenhos mais conhecidos, «Le Pendu», uma homenagem a John Brown, de modo a «manter viva a memória deste libertador dos nossos irmãos negros, deste mártir heróico chamado John Brown, que morreu por Cristo e como Cristo».

Um só escravo na Terra é suficiente para envergonhar a liberdade de todos os homens. Portanto, a abolição da escravatura é, neste momento, o supremo objectivo de todos os pensadores.

— Victor Hugo, 1862

Victor Hugo defendeu a vida inteira a abolição da pena de morte, servindo-se do seu papel de escritor e membro do Parlamento. «O Último Dia de um Condenado» aborda a questão, também referida noutras obras. Em 1848, sete meses depois da Revolução, proferiu um discurso na Assembleia, concluindo: «Destruíram a Monarquia. Agora destruam a Guilhotina». A sua luta terá influenciado o fim da pena capital em países como a Suíça, Portugal e Colômbia.

Apesar de Napoleão III ter concedido uma amnistia a todos os exilados políticos em 1859, Hugo rejeitou a benesse, pois tal significava que este teria de amenizar as críticas ao regime. Depois da queda do governante e do advento da III República, o autor regressou à pátria, já no ano de 1870, tendo desde logo sido eleito para a Assembleia Nacional e para o Senado.

Em Paris durante o cerco do Exército da Prússia, nesse mesmo ano, viu-se obrigado a alimentar-se de animais que lhe eram fornecidos pelo Jardim Zoológico local. Com o agravar das condições, confessou no diário que estava reduzido a «alimentar-se do desconhecido».

Entre Março e Maio de 1871, ocorreram graves distúrbios na capital, que mereceram forte criticismo do escritor, insatisfeito com ambas as facções. Em princípios de Abril, escreveu no diário: «Em resumo, os revolucionários são idiotas e a Assembleia Nacional é implacável, em igual medida. Há loucura de ambos os lados».

Apesar de tudo, fez questão de oferecer apoio aos revolucionários que fossem vítimas das repressões mais brutais. Para além disso, num jornal belga, denunciou a recusa do Governo em conceder asilo politico aos revolucionários ameaçados com a prisão, expulsão ou execução. O artigo causou tal polémica que, nessa noite, um grupo de 50 a 60 indivíduos tentou forçar a entrada na residência do escritor, gritando «Morte a Victor Hugo! Enforquem-no! Morte ao Miserável!».

Victor Hugo, que uma vez afirmou: «Uma guerra entre Europeus, é uma guerra civil», defendia com entusiasmo a criação dos Estados Unidos da Europa. Detalhou a sua visão sobre o assunto num discurso preparado para o Congresso para a Paz Internacional, ocorrido em Paris, no ano de 1849. O evento, presidido pelo autor, revelou-se um sucesso internacional, atraindo conceituados filósofos. O episódio reforçou sobremaneira a reputação de Hugo enquanto orador público e despoletou a sua fama universal, para além de revelar o conceito de «Estados Unidos da Europa». Em Julho de 1870, plantou uma árvore alusiva na sua residência de Guernsey, onde viveu entre 1856 e 1870. O massacre de cristãos balcânicos pelos turcos, em 1876, motivaram-no a escrever um artigo de jornal, que ainda hoje é considerado um dos textos fundadores do ideal europeu.

A sua preocupação com os direitos de autor e dos artistas em geral tornou-o membro fundador da Associação Literária e Artística Internacional, que mais tarde redundaria na Convenção de Berna para a Protecção de Obras Artísticas e Literárias. Declara a propósito que: «Qualquer obra de arte tem dois autores – o público, que manifesta uma emoção caótica, o artista, que traduz essa emoção e de novo o público, que aprova a visão desse sentimento. Quando o artista morre, os direitos devem pertencer por inteiro ao público». Foi um dos primeiros apoiantes do conceito de domínio público pago, de acordo com o qual se cobraria uma taxa nominal por cada cópia ou representação pública de um trabalho, quantia essa que reverteria para um fundo comum de apoio aos artistas, sobretudo os emergentes.

As convicções religiosas de Hugo mudaram radicalmente ao longo da vida. Na juventude, muito influenciado pela mãe, identificou-se como católico, respeitando a autoridade e hierarquia da Igreja. Transformou-se com o tempo num católico não-praticante e por fim expressou abertamente as suas opiniões anticatólicas e anticlericais. Durante o exílio, chegou a participar em sessões espíritas, mas nos últimos anos abraçou um racionalismo à maneira de Voltaire. Em 1872, perguntaram-lhe se ainda era católico, ao que ele respondeu: «Não. Sou um livre-pensador».

A partir daqui, nunca mais recuperou a simpatia pela Igreja Católica, que considerava insensível às privações da classe trabalhadora, oprimida pela monarquia. Talvez não lhe fosse indiferente, em paralelo, a quantidade de vezes que as suas obras apareciam na lista de livros banidos pela Igreja. Só a respeito d’Os Miseráveis, sucederam-se 740 artigos negativos, na imprensa católica. Aquando do falecimento dos dois filhos, insistiu que nenhum deles fosse enterrado na presença de um padre ou de um crucifixo. No testamento, decretou o mesmo a propósito do seu funeral.

Apesar de tudo isto, continuava a crer na vida depois da morte e rezava duas vezes ao dia, convencido de que «as preces são aladas e encontram o seu destino. As preces conhecem a verdade melhor do que nós mesmos».

Quando o autor regressou a Paris, em 1870, a nação fez dele herói nacional. Este chegou mesmo a convencer-se que lhe iam entregar o poder absoluto, tal como ficou explícito nos seus apontamentos: «A Ditadura é um crime, mas é um crime que me preparo para cometer». Considerava-se obrigado a aceitar essa responsabilidade mas, apesar da fama, não foi reeleito para a Assembleia Nacional, em 1872.

Ao longo da vida, manteve sempre a esperança num progresso humanístico imparável. Na última intervenção pública, em 1879, declarou, num tom excessivamente optimista:

No século XX, assistiremos à morte da guerra, da guilhotina, do ódio, das fronteiras e dos fanatismos. Apenas o Homem viverá.

Num curto período, sofreu um ligeiro enfarte, a filha foi internada num asilo e ambos os filhos morreram. A ex-mulher, Adèle, já falecera em 1868. A eterna amante, Juliette Drouet, morreu em 1883, dois anos antes do autor.

Apesar destes dramas pessoais, Hugo manteve-se empenhado na causa política, tendo sido eleito, em 1876, para o novo Senado. Contudo, o derradeiro capítulo da sua vida política redundou num fracasso, provocado por ideias errantes e pouca aprovação entre os pares.

Para celebrar a proximidade do seu 80º aniversário, foi preparada uma das maiores homenagens alguma vez feitas a um escritor vivo. As celebrações começaram em meados de 1881, quando o autor foi agraciado com um vaso em cerâmica Sèvres, o presente oficial dos soberanos. Logo depois, tem lugar uma das maiores paradas de que há registo.

Os marchantes estenderam-se entre a Avenida d’Eylau (onde se situava a residência do autor) e os Campos Elísios, prolongando-se depois pelo centro de Paris. Caminharam ao longo de seis horas, cumprimentando Victor Hugo, sentado à janela de casa. Cada pequeno detalhe do evento foi pensado em honra do autor, incluindo a transição de Avenida d’Eylau para Avenida Victor Hugo. A correspondência do escritor passou então a conter a frase: «Para o senhor Victor Hugo, na sua Avenida, em Paris».

Dois dias antes de falecer, este deixou um apontamento com as seguintes palavras: «Amar é Agir».

Em Maio de 1885, foi publicado o boletim médico oficial acerca da saúde do autor: «O paciente ilustre está plenamente consciente da sua situação delicada». Este terá murmurado, a meio da noite: «Eis a batalha entre o dia e a noite».

A morte chegou enfim, devido a uma pneumonia, contava o autor 83 anos. O acontecimento originou enorme luto nacional. Hugo foi considerado uma figura de proa na Literatura, um estadista essencial na solidificação da III República e um percursor da democracia em França. Permaneceu, ao longo da vida, um defensor acérrimo do conceito de «liberdade, igualdade, fraternidade», bem como da cultura francesa.

Apesar de ter pedido um funeral comum, foi-lhe concedida, por decreto presidencial, uma cerimónia estatal. Esta foi acompanhada por mais de dois milhões de pessoas, entre o Arco do Triunfo e o Panteão, onde foi enterrado. Partilha um espaço com Alexandre Dumas e Émile Zola. A maioria das grandes vilas e cidades francesas possuem uma praça ou rua com o seu nome.


Romance histórico, publicado em 1862. Considerada uma das grandes obras do séc. XIX.

Com início em 1815 e conclusão em 1832, durante a Revolução de Junho, em Paris, o enredo acompanha as vidas e relacionamentos de várias personagens, com destaque para as aflições do ex-prisioneiro Jean Valjean e a sua tentativa de redenção.

Analisando os meandros da Lei e do Perdão, o romance mergulha no contexto histórico francês, na arquitectura e urbanismo de Paris, na política, na filosofia moral, no sentimento antimonárquico, na justiça, religião e nos diversos planos do amor romântico e fraternal. «Os Miseráveis» foi adaptado com frequência ao cinema, televisão e teatro (incluindo um musical).

Alguns críticos colocam-no entre a «meia-dúzia de grandes romances mundiais», notando que os objectivos da obra foram anunciados pelo autor logo no prefácio:

Enquanto existir, em nome de lei ou costume, descriminação social que, à luz da civilização, fomenta desnecessários infernos terrenos e dificulta um destino por natureza divino com fatalidades humanas; enquanto os três venenos do nosso tempo – a degradação do ser humano pela pobreza, a ruína das mulheres por desnutrição e a mutilação da infância pela noite do espírito e do corpo – não estiverem erradicados; enquanto, em certos contextos, prevalecer uma certa asfixia social; por outras palavras e falando em traços gerais, enquanto a ignorância e a miséria existirem à face da Terra, livros como este nunca serão inúteis.

No final do romance, Hugo explica o arco narrativo:

O livro que o leitor tem nas suas mãos não é mais do que, de princípio a fim, em geral e em cada detalhe (…) uma travessia do «mal» para o «bem», da «injustiça» para a «justiça», da «mentira» para a «verdade», da «noite» para o «dia», da «tentação» para a «razão», da «degradação» para o «rejuvenescimento»; da «selvajaria» para a «honra», do «inferno» para o «paraíso», do «nada» para o «tudo». Ponto de partida: matéria. Ponto de chegada: alma. A hidra no começo, o anjo no final.

O enredo inclui diversas ramificações, mas a narrativa principal aborda o destino do ex-prisioneiro Jean Valjean, que se transforma numa força benigna embora nunca consiga exorcizar o seu passado criminoso. A obra divide-se em cinco livros, formados por diferentes partes e capítulos, num total de 365. Cada um deles, no entanto, é relativamente curto, não mais do que uma dúzia de páginas.

Trata-se, contudo, de uma das maiores obras de sempre. Eis o que dela pensava o autor, ao falar com o seu editor italiano:

Não faço ideia se todos a lerão, mas foi decerto escrita para todos. Interessa a Inglaterra do mesmo modo que interessa a Espanha, Itália ou França. Do mesmo modo que interessa à Alemanha, Irlanda, a todas as repúblicas que auxiliam os escravos e a todos os impérios que deles beneficiam. As questões sociais extravasam fronteiras. As feridas da Humanidade, as enormes chagas que poluem o mundo, nada querem saber das linhas azuis e vermelhas que enfeitam os mapas. Sempre que um homem tombar na ignorância ou no desespero, sempre que uma mulher vender a alma por alimento, sempre que uma criança precisar de um livro ou de um coração amigo, «Os Miseráveis» lá estarão para dizer: «Abre-me, aqui me tens».

Cerca de um quarto da obra é dedicada a ensaios que tentam provar uma determinada moral ou ilustram o conhecimento enciclopédico do autor, mas não fazem avançar o enredo principal, nem tão-pouco algum dos secundários. Considera-se em parte que «os devaneios de um génio perdoam-se com facilidade» mesmo quando os tópicos abordados incluem temas como ordens religiosas, o sistema de esgotos parisiense, ou os órfãos da capital. O ensaio sobre conventos foi apropriadamente intitulado «Parênteses», alertando desde logo o leitor para a sua irrelevância na linha narrativa.

Hugo ocupa outros 19 capítulos com a Batalha de Waterloo, cujo local foi por ele visitado em 1861, tendo sido aí concluída a escrita do romance. A abordagem ao tema representa um corte tão radical com o enredo que dir-se-ia estarmos na presença de todo um outro livro. Por ocupar um bloco tão grande, esta digressão terá de ser interpretada à luz do «arco narrativo» explicado anteriormente.

Waterloo, ao influenciar a queda das monarquias europeias à lei da espada, obrigou a que o trabalho revolucionário se fizesse por outras vias. Depois dos militares, chegara a vez dos pensadores. O século que Waterloo pretendia mutilar continuou a sua marcha. Aquela vitória sinistra foi vingada pela liberdade.

Mesmo quando não se dedica a outros assuntos exteriores à narrativa, Hugo interrompe por vezes a descrição linear dos eventos, sem deixar que a sua voz ou coerência do enredo sejam constrangidas. O romance inicia-se com uma declaração acerca do bispo de Digne, em 1815, mudando de imediato: «Apesar destes pormenores não estarem de modo nenhum relacionados com a história em curso…». À mesma só regressamos 14 capítulos depois, com: «Nos primeiros dias do mês de Outubro de 1815…», seguindo-se uma apresentação de Jean Valjean.

A certa altura, em 1829, o autor assistiu a um episódio que envolvia três estranhos e um agente da polícia. Um deles era um homem que tinha roubado um pedaço de pão, à semelhança do que ocorre com Jean Valjean. O agente estava a introduzi-lo na carruagem. Presentes estavam também uma mãe e sua filha, que serviriam de inspiração para as personagens Fantine e Cosette. Hugo imaginou a vida daquele homem na cadeia, bem como a separação entre as duas.

A personagem de Valjean baseia-se vagamente na vida do ex-prisioneiro Eugène François Vidocq. Este transformou-se mais tarde no chefe de uma unidade da Polícia e depois criou a primeira agência de detectives privados. Fez-se ainda um homem de negócios e ganhou reputação enquanto filantropo.

Em 1828, Vidocq, já reabilitado, salvou um trabalhador de uma das suas fábricas ao erguer um peso acima da cabeça, à semelhança do episódio com Valjean. Do mesmo modo, a descrição que o autor faz de Valjean a salvar um marinheiro baseia-se quase palavra por palavra numa carta de um conhecido, que descreve semelhante incidente.

Em 1841, Hugo evitou que uma prostituta fosse presa por agressão, servindo-se mais tarde de excertos da conversa que teve com as autoridades para ilustrar um episódio semelhante entre Valjean e Fantine.

 

Enredo

 

Volume I: Fantine

A história começa em 1815, em Digne, quando o mendigo Jean Valjean, libertado da cadeia após cumprir uma pena de 19 anos – cinco pelo roubo de um pedaço de pão, para alimentar a irmã faminta e mais 14 pelas numerosas tentativas de fuga – vê recusado o acesso a uma estalagem por ter nos documentos a marca amarela, que o denuncia ex-prisioneiro. É obrigado a dormir na rua, triste e revoltado.

O complacente bispo local, Myriel, aceita dar-lhe abrigo. Nessa noite, Valjean escapa com as pratas do anfitrião. Ao ser de novo apanhado pela polícia, é salvo pelo bispo, que declara ter oferecido os valores ao outro e até adiciona ao conjunto dois candelabros em prata, como se o mendigo se tivesse esquecido deles. A polícia aceita as explicações e retira-se. Myriel explica a Valjean que a sua vida foi poupada por Deus e que este devia utilizar o dinheiro da venda dos candelabros como trampolim para se transformar num cidadão honesto.

Valjean reflecte sobre as palavras de Myriel. Mais tarde, contudo, ao vislumbrar uma oportunidade, cede aos velhos hábitos e rouba uma moeda valiosa a Petit Gervais, uma criança de 12 anos, afugentando-o. Arrepende-se logo em seguida e, em pânico, atravessa a cidade em busca do menino. Entretanto, o roubo é denunciado às autoridades. Valjean esconde-se, pois a ser capturado espera-o uma pena de prisão perpétua, enquanto criminoso recorrente.

Seis anos depois, servindo-se de uma identidade falsa (Monsieur Madeleine), Valjean transformou-se num industrial abastado e acabou de ser eleito presidente da câmara de Montreuil-sur-Mer. Ao descer a rua, repara num homem de nome Fauchelevent, preso debaixo das rodas de uma carroça. Quando ninguém se oferece para ajudá-lo, nem sequer a troco de dinheiro, o protagonista decide intervir. Rasteja para debaixo da carroça, encontra maneira de erguê-la e liberta o outro. O inspector da polícia local, Javert, que em tempos foi guarda-auxiliar na prisão-barco de Toulon, quando Valjean lá esteve, desconfia do episódio, pois em toda a vida conheceu apenas um homem capaz de semelhante proeza física: Jean Valjean.

Anos antes, em Paris, uma trabalhadora de nome Fantine desenvolvera grande paixão por Félix Tholomyès. Os amigos deste, Listolier, Fameuil e Blachevelle formavam casais com as amigas desta, Dahlia, Zéphine e Favourite. Todos eles abandonam as companheiras, considerando-as meras aventuras juvenis. Fantine vê-se obrigada a cuidar sozinha da filha de ambos, Cosette. Ao chegar à localidade de Montfermeil, deixa a criança com a família Thénardier – um estalajadeiro corrupto e a sua mulher, cruel e egoísta.

Fantine nunca se apercebe que a filha está a ser vítima de abusos por parte do casal, (que a transforma numa criada) procurando sempre cumprir as múltiplas, exageradas e inusitadas exigências deste. Pouco depois, é despedida de uma fábrica de Jean Valjean, ao descobrir-se que a menina não é fruto de um casamento. Entretanto, as reivindicações monetárias dos Thénardier não param de aumentar. Desesperada, Fantine vende o cabelo e os dois dentes da frente, acabando por recorrer à prostituição para cumprir os pagamentos. Padece ainda de uma doença misteriosa, que a debilita lentamente.

Um diletante chamado Bamatabois assedia Fantine na rua e esta responde com uma agressão. Javert prende-a. Ela implora perdão, de modo a poder sustentar a filha, mas o inspector condena-a a seis meses de encarceramento. Valjean (enquanto Madeleine) intervém e ordena a sua libertação. O outro resiste, mas o presidente acaba por fazer valer a sua vontade. Sentindo-se responsável pela situação de Fantine, uma vez que esta foi despedida de uma das suas fábricas, Valjean promete-lhe que irá resgatar Cosette e encaminha-a para um hospital.

Javert torna a visitar Valjean. Confessa que, ao ter sido obrigado a libertar Fantine, optou por denunciar o outro às autoridades superiores (tendo-o desmascarado anteriormente). No entanto, está agora convencido do engano, uma vez que outra pessoa foi identificada enquanto Jean Valjean. Esta está detida e será presente a julgamento no dia seguinte. Valjean fica destroçado, mas não resiste a esclarecer tudo, de modo a salvar o inocente, que de facto se chama Champmathieu. Desloca-se a tribunal, para assistir ao julgamento, onde revela a sua verdadeira identidade. Depois, regressa ao hospital para visitar Fantine e vê-se de novo abordado por Javert, que o pressiona no quarto da paciente.

Enfim detido, Valjean requisita três dias de modo a trazer Cosette para os braços de Fantine, mas o inspector recusa. Esta apercebe-se que a filha não está presente e muito agitada, inquire sobre o seu paradeiro. Javert exige silêncio e aproveita para explicar-lhe quem é, de facto, Valjean. Enfraquecida pela gravidade da doença, a mulher entra em choque e falece. O protagonista aproxima-se, sussurra-lhe qualquer coisa, beija-lhe a mão ao de leve e deixa-se transportar pelo inspector. Pouco tempo depois, o cadáver de Fantine é atirado sem piedade para uma vala comum.

 

Volume II: Cosette

Valjean evade-se, mais uma vez, é de novo apanhado e agora condenado à morte. O rei perdoa-o, regredindo a sentença para servidão perpétua nas galés. A certa altura, correndo enormes riscos, o protagonista salva um marinheiro, que se deixou enredar nas cordas do navio. No meio da comoção, Valjean simula o próprio óbito, deixando-se cair ao mar. As autoridades declaram-no morto e o corpo desaparecido.

Este regressa a Montfermeil, na noite da Consoada. Encontra Cosette, que procura água num bosque, totalmente sozinha, acompanhando-a de regresso à estalagem. Pede uma refeição e confirma os abusos que a criança sofre às mãos dos Thénardier, ao mesmo tempo que mimam as próprias filhas, Éponine e Azelma. Estas, por sua vez, maltratam Cosette por esta se atrever a brincar com uma boneca. Valjean retira-se e ao voltar oferece à criança uma dispendiosa boneca nova. Cosette, depois de ligeira hesitação, aceita com alegria. Éponine e Azelma roem-se de inveja. Madame Thénardier enfurece-se com Valjean, enquanto o marido desvaloriza o gesto, preocupando-se apenas com o pagamento da estadia e das refeições.

Na manhã seguinte, Valjean informa o casal que pretende levar a criança com ele. Madame Thénardier aceita de imediato mas o marido simula carinho e preocupação, parecendo hesitante em deixá-la ir. Valjean oferece-lhe 1500 francos e vai-se embora com a menina. Thénardier, ansioso por extorquir mais do outro, aparece a correr, ainda com o dinheiro na mão e declara que pretende manter Cosette. Informa ainda que não a libertará sem uma declaração da mãe desta. Valjean entrega-lhe uma carta de Fantine, onde se autoriza o portador da mesma a trazer Cosette. Thénardier exige então o pagamento de 1000 libras, mas o outro vira-lhe costas. O estalajadeiro lamenta não se ter lembrado de trazer a arma, embora desista e regresse a casa.

Valjean e Cosette escapam rumo a Paris. O protagonista encontra novo alojamento num local conhecido como «Gorbeau House», onde vivem alguns meses tranquilos. Todavia, Javert volta a identificá-los, forçando outra fuga. Conseguem abrigo num convento com o auxílio de Fauchelevent (que aí exerce as funções de jardineiro), o homem que Valjean salvou de ser esmagado por uma carroça. O protagonista dedica-se também à jardinagem e Cosette inicia os estudos.

 

Volume III: Marius

Oito anos mais tarde, os «Amigos do ABC», associação de estudantes republicanos e revolucionários, liderados por Enjolras, planeiam uma acção de protesto civil (ou seja, a Revolução Parisiense de 1832, provocada pela morte do General Lamarque, único líder francês a revelar simpatia pela classe trabalhadora. Lamarque foi vítima de um enorme surto de cólera, que arrasou sobretudo os bairros pobres da cidade, levantando suspeitas de que o governo pudesse estar a envenenar os poços).

Estes são auxiliados pelos habitantes dos bairros de lata, onde se inclui o filho mais velho dos Thénardier, Gavroche, que é na essência um vagabundo.

Um dos estudantes, Marius Pontmercy, afastou-se da família (em especial do avô monárquico, M. Gillenormand) por divergências políticas. No seguimento da morte do pai, coronel Georges Pontmercy, Marius encontra um bilhete deste, onde se pede que o filho ajude um sargento chamado Thénardier, que lhe salvou a vida em Waterloo – na verdade, Thénardier estava a pilhar cadáveres e salvou a vida de Pontmercy por mero acaso, identificando-se como «sargento» para evitar ser preso como ladrão.

Nos Jardins de Luxemburgo, um parque conhecido, Marius apaixona-se por Cosette, agora crescida e muito bela. Os Thénardier estão igualmente em Paris, procurando escapar à pobreza onde caíram depois de perderem a estalagem. Respondem pelo apelido «Jondrette» e alojam-se na «Gorbeau House» (por coincidência, o local onde Valjean e Cosette se refugiaram, em tempos). Marius também mora lá, sendo vizinho dos Thénardier.

Éponine, agora andrajosa e esquelética, bate à porta do apartamento de Marius, suplicando por dinheiro. Na tentativa de impressioná-lo, esforça-se por parecer culta, lendo um livro em voz alta e escrevendo num papel a frase «Os Polícias Chegaram». Marius tem pena dela e oferece-lhe algumas moedas. Quando ela se retira, decide investigar melhor os «Jondrette», vigiando o apartamento destes através de uma fissura na parede. Do outro lado, Éponine anuncia a visita de um filantropo e de sua filha. De modo a simular maior pobreza, Thénardier apaga a lareira e parte uma cadeira. Ordena ainda que a outra filha, Azelma, quebre uma janela. Esta obedece e corta a mão (tal como ele pretendia).

O dito filantropo e respectiva filha (na verdade, Valjean e Cosette) surgem à porta. Marius reconhece-a imediatamente. Verificando as condições em que vivem, Valjean promete fornecer-lhes o dinheiro para a renda. Logo depois, Marius pede a Éponine para que esta descubra a morada de Cosette. A outra, que nutre amor por ele, concorda com relutância. Os Thénardier também reconheceram Valjean e Cosette e, sentindo-se humilhados, juram vingança. Thénardier faz-se amigo dos «Patron-Minette», um temido e reputado grupo criminoso, que inclui assassinos e assaltantes.

Marius descobre o plano de Thénardier e vai denunciá-lo a Javert. Este fornece-lhe duas pistolas, instruindo-o para disparar uma delas para o ar, caso se veja em perigo. O outro regressa a casa e aguarda pela chegada da polícia. Thénardier, por seu lado, ordena que Éponine e Azelma montem vigilância, alertando-o caso as autoridades apareçam. Quando Valjean regressa com o dinheiro da renda, Thénardier, auxiliado pelos «Patron-Minette», monta-lhe uma cilada, revelando a sua verdadeira identidade. Nessa altura, Marius identifica Thénardier enquanto salvador da vida do seu pai, em Waterloo, mergulhando num dilema.

Procura então salvar Valjean sem trair Thénardier. O primeiro nega reconhecer o segundo, afirmando que nunca se viram. Em seguida, tenta escapar por uma janela, mas acaba subjugado e amarrado. Thénardier exige do prisioneiro 200 000 francos e ainda uma mensagem escrita para Cosette, onde se diga para esta regressar ali (ficará prisioneira dos criminosos até que o dinheiro seja pago).

Feito isto, Thénardier pede à mulher para ir ao encontro da menina, mas esta volta pouco depois, sozinha, explicando que a morada fornecida não existe.

Entretanto, Valjean conseguiu de algum modo libertar-se e Thénardier, furioso, decide matá-lo. Quando se prepara para fazê-lo com a preciosa ajuda dos «Patron-Minette», Marius lembra-se do papel com a frase «Os Polícias Chegaram», escrita por Éponine. Atira-o para o apartamento através da fissura e o outro, ao lê-lo, julga tratar-se de um alerta da filha. Nesse instante, chega a polícia e prende-os a todos, com excepção de Claquesous, que escapa durante o caminho e Montparnasse, que pretendia fugir na companhia de Éponine. Valjean sai do local antes de ser reconhecido pelo inspector.

 

Volume IV: O idílio da Rua Plumet e a epopeia da Rua St. Denis

Ao sair da prisão, Éponine encontra-se com Marius e confessa (com tristeza) saber a verdadeira morada de Cosette. Leva-o até à Rua Plumet. Marius vigia a casa durante uns dias. Por fim, o casal encontra-se e declara amor mútuo. Thénardier, «Patron-Minette» e outros evadem-se da prisão com o auxílio de Gavroche (numa das raras vezes em que este se imiscui nas actividades da família). Certa noite, durante uma das visitas de Marius a casa de Cosette, o grupo tenta tomar de assalto a residência, mas Éponine, que permanece alerta junto ao portão, ameaça acordar o bairro inteiro, caso os ladrões não abdiquem dos seus intentos. Perante isto, os outros retiram-se, frustrados. Entretanto, Cosette revela a Marius que ela e Valjean vão para Inglaterra, no espaço de uma semana, notícia que deixa o casal muito ansioso.

No dia seguinte, Valjean passa o tempo no «Champ de Mars», outro jardim público. Está cada vez mais apreensivo, pois tem visto Thénardier a rondar o bairro por diversas vezes. De súbito, cai-lhe um papel no colo, com as palavras «Saia Daqui». Consegue vislumbrar, pelo canto do olho, uma sombra em fuga. Regressa a casa, informa Cosette que irão ficar num alojamento secundário durante curto período e reforça-lhe a ideia de que estão de partida para Inglaterra. Marius, enquanto isso, pede autorização ao avô, M. Gillenormand, para casar com Cosette. Este mantém postura severa e ofendida, embora deseje o regresso do neto. Não chegam a um entendimento e o ancião recusa dar a sua bênção, sugerindo que Marius transforme Cosette numa amante.

Este, chocado, vai-se embora.

De manhã, estala a revolução estudantil. Erguem-se barricadas nas ruas de Paris. Gavroche identifica Javert entre a multidão, denunciando-o como espião a Enjolras. Este confronta-o e com o auxílio de outros estudantes amarra o polícia a um poste. Nessa noite, Marius volta à Rua Plumet, mas encontra a casa vazia. Ouve então uma voz indistinta, que o relembra da presença dos amigos nas barricadas, onde o esperam. Desolado com a ausência de Cosette, regressa ao combate.

Quando chega, as hostilidades já estão em curso. Ao baixar-se para recolher um barril de pólvora, um militar apresta-se para abatê-lo a tiro. Nisto, outro homem bloqueia a arma do soldado com a mão. Este dispara, acabando por atingir gravemente o anónimo, mas poupando sem querer a vida de Marius. Pouco depois, a tropa aperta o cerco sobre os revoltosos. Marius trepa para o cimo da barricada, com um archote numa mão e um barril na outra, ameaçando fazer explodir todos.

Perante isto, o inimigo retira.

Este decide então deslocar-se a outra barricada, mais pequena, que encontra vazia. Ao regressar, encontra o homem que lhe salvou a vida, ferido, que o chama pelo nome. Descobre então que esse «homem» é nada menos que Éponine, disfarçada. Esta cai-lhe aos pés, moribunda, confessando ter sido ela a sussurrar-lhe que viesse para a revolução, na esperança que pudessem morrer juntos. Explica ainda que lhe salvou a vida porque desejava morrer antes dele.

Fica também esclarecido que foi ela quem atirou o bilhete de alerta a Valjean. Éponine tem consigo uma carta para Marius. Tomou posse dela na véspera, planeando não lha dar, mas receia agora que este se zangue com ela no «outro mundo», caso não o faça. Entrega-lha. A seguir, pede-lhe um beijo na testa, depois de morrer e ele concorda. Ao falecer, confessa enfim estar «um bocadinho apaixonada».

Marius cumpre a promessa e retira-se para uma taverna de modo a ler a carta, que é de Cosette. Descobre onde ela está e responde-lhe com outra carta, de despedida. Pede a Gavroche que lha entregue, mas este acaba por dá-la a Valjean.

O mesmo, percebendo que o amante de Cosette está em combate, começa por sentir-se aliviado, mas uma hora depois acaba por vestir o uniforme, armar-se e sair de casa.

 

Volume V: Jean Valjean

Valjean chega às barricadas e de imediato salva a vida de um combatente. Está ainda indeciso entre socorrer ou eliminar Marius. Este reconhece-o imediatamente. Enjolras declara que estão prestes a ficar sem munições. Quando Gavroche arrisca abandonar as barricadas, em busca das mesmas entre os cadáveres inimigos, é abatido.

Valjean pergunta se pode fuzilar Javert e Enjolras autoriza. O primeiro leva o segundo para um local recolhido e dá um tiro para o ar, libertando-o. Marius fica erradamente convencido que Valjean matou Javert. Quando a barricada por fim cede, o protagonista carrega aos ombros um Marius ferido e inconsciente. Todos os outros são abatidos. Valjean refugia-se nos esgotos. Escapa a uma patrulha da polícia e consegue chegar a uma saída, mas esta está fechada. Thénardier surge das sombras. Valjean reconhece-o mas o contrário não acontece. Julgando que o protagonista é um criminoso que arrasta o cadáver da vítima, Thénardier voluntaria-se para abrir o portão, em troca de dinheiro. Ao revistar-lhe os bolsos, rasga disfarçadamente um pedaço do casaco de Marius, de modo a poder identificá-lo mais tarde. Guarda os 30 francos que encontra, abre o portão e dá passagem aos outros, na esperança que isso distraia a polícia, que tem vindo a persegui-lo.

À saída, Valjean dá de caras com Javert e pede-lhe tempo para devolver Marius à família, antes de uma vez mais se render. Ao contrário do esperado, o inspector concorda, julgando que a morte do outro está iminente. Após deixar Marius aos cuidados do avô, o protagonista requisita mais uns minutos para se deslocar à sua própria casa e Javert também aceita. Ao chegarem, o inspector informa Valjean que ficará à sua espera à porta, mas quando este espreita pela janela, nota que o outro desapareceu.

Javert desce a rua, concluindo que não consegue escapar ao paradoxo entre o rigoroso cumprimento da Lei e a gratidão pela misericórdia que Valjean teve por ele.

Está seguro de não ser capaz de entregar o protagonista às autoridades, sem no entanto conseguir ignorar o dever que tem para com a Lei. Incapaz de escapar a este labirinto, acaba por suicidar-se, atirando-se ao rio Sena.

Marius recupera lentamente dos ferimentos. Prepara-se o casamento deste com Cosette e Valjean oferece-lhes cerca de 600 000 francos. As celebrações da boda misturam-se com as do evento carnavalesco conhecido por «Mardi Gras» (Terça-feira Gorda), nas ruas de Paris. A dado momento, Valjean é notado por Thénardier, que por sua vez ordena que Azelma o vigie. Terminada a festa, o protagonista confessa a Marius o passado como prisioneiro. Este fica horrorizado, desconfia severamente da verdadeira natureza de Valjean e faz tudo o que pode para limitar a relação deste com Cosette.

O ancião resigna-se aos factos, perde o gosto pela vida e tomba na cama.

Thénardier, disfarçado, aborda Marius mas este reconhece-o. O primeiro tenta uma vez mais utilizar a informação recolhida sobre Valjean para obter benefícios financeiros, mas ao fazê-lo, acaba inadvertidamente por reabilitar o protagonista, pois confirma todas as boas acções deste ao longo dos anos. Joga então uma derradeira cartada, tentando pintá-lo como assassino – para isso, exibe o pedaço de tecido rasgado ao casaco de Marius. Este, desconcertado, reconhece o padrão e conclui que afinal foi o «sogro», quem o salvou das barricadas. Retira do bolso um maço de notas e acena-as diante de Thénardier. Confronta-o com os respectivos crimes e oferece-lhe uma pequena fortuna em troca da sua partida imediata e definitiva. Thénardier aceita e parte com Azelma para as Américas, onde se estabelece como negociante de escravos.

A caminho da casa de Valjean, Marius explica a Cosette que foi ele quem o salvou da morte certa. Quando chegam, o idoso está já moribundo, mas ainda é possível a reconciliação. Valjean revela a Cosette a identidade e história da mãe desta.

Falece em paz, sendo enterrado numa campa rasa no Cemitério de Père Lachaise.

 

Personagens

 

Principais

Jean Valjean (também conhecido como Monsieur Madeleine, Ultime Fauchelevent, Monsieur Leblanc, e Urbain Fabre) – Protagonista do romance. Condenado a cinco anos de cadeia por roubar um pão para alimentar a família carente, acaba por sair em liberdade condicional 19 anos depois (sofreu um agravamento da pena em mais 14 anos depois de quatro tentativas de fuga, a que se juntou uma conduta violenta na segunda vez). Renegado pela sociedade à conta disso, conhece o bispo Myriel, que lhe oferece uma hipótese de regeneração ao acolhê-lo e encorajá-lo à mudança. Enquanto reflecte nos conselhos do clérigo, pisa na rua uma moeda valiosa, perdida por um rapazinho e acaba por afugentá-lo com um pau quando este tenta recuperar o dinheiro. Com o episódio, habilita-se a ser acusado de furto – devido ao historial, caso seja apanhado, tal significará prisão perpétua. Trata então de assumir uma nova identidade (Monsieur Madeleine), única forma de iniciar uma vida honesta.

Com o tempo, transforma-se num industrial de sucesso e num dos homens mais ricos da região. A enorme popularidade permite-lhe inclusive ser eleito presidente da Câmara. De posse do novo estatuto, confronta certo dia o inspector local, de seu nome Javert, acerca do castigo aplicado a Fantine, abdica depois da sua posição para salvar um inocente da cadeia e trata de resgatar Cosette ao jugo dos Thénardier. É de novo identificado por Javert, em Paris, mas consegue evitar a prisão durante vários anos, refugiando-se num convento. Mais tarde, ajuda por sua vez Marius a escapar da cadeia e da morte (nas barricadas), confessa-lhe a sua verdadeira identidade e com alguma sorte reconcilia-se com a dupla Marius/Cosette, cumprindo assim as antigas promessas feitas ao bispo e a Fantine (mãe dela), falecendo em paz.

 

Javert – Polícia fanático, dedicado a capturar Valjean. Nascido na prisão, filho de um prisioneiro e de uma cartomante, renega ambos e começa a trabalhar como guarda prisional, contexto que lhe permite conhecer Valjean (registando a enorme força física deste e principais características). Integra mais tarde a força policial de Montreuil-sur-Mer (onde Valjean se tornou presidente de Câmara). A certa altura, prende uma mulher chamada Fantine e entra em conflito com Valjean/Madeleine, que por razões pessoais lhe ordena que liberte a prisioneira. Valjean desautoriza Javert na frente dos subordinados e este, vingativo, decide reportar aos superiores que descobriu o ex-prisioneiro Jean Valjean (cuja força física exibida no salvamento de um transeunte acabou por denunciá-lo aos olhos do outro). É contudo informado que deve haver um engano, pois as autoridades estão na posse de um outro indivíduo, identificado como Jean Valjean. O episódio força o verdadeiro Valjean a entregar-se (de modo a impedir que um inocente cumpra prisão perpétua) e vale a Javert uma promoção para a esquadra de Paris, onde lidera o processo contra o ex-industrial.

Este, no entanto, escapa novamente e desta vez evita mais uma tentativa do inspector para capturá-lo. O mesmo perde ainda outra oportunidade quando detém a família Thénardier e o grupo criminoso «Patron-Minette».

Na etapa final, Javert é capturado em trabalho clandestino, nas barricadas de uma revolução estudantil. Valjean, presente, simula executá-lo mas autoriza-o a fugir. Quando mais tarde se reencontram, o polícia deixa o protagonista fazer algumas tarefas antes do suposto encarceramento e por fim opta mesmo por deixá-lo em liberdade. Entra numa crise de valores, percebendo que muitas vezes o cumprimento rigoroso da Lei pode revelar-se imoral. Escreve uma carta confessional ao superior hierárquico, denunciando as condições das prisões e os abusos infligidos aos condenados.

Por fim, suicida-se, atirando-se ao rio Sena.

 

Fantine – Uma operária parisiense, muito bonita, que é abandonada com a filha pequena pelo amante e pai da criança, Félix Tholomyès. Esta vê-se obrigada a deixar a filha (Cosette) aos cuidados da família Thénardier, casal de estalajadeiros na aldeia de Montfermeil. A mulher estraga as próprias filhas com mimos e escraviza Cosette. Fantine encontra trabalho numa das fábricas de Monsieur Madeleine (Valjean). Analfabeta, pede às colegas para escreverem por ela as cartas que envia aos Thénardier. A certa altura, uma supervisora descobre que esta é mãe solteira e despede-a. De modo a conseguir satisfazer os constantes e crescentes pedidos de dinheiro dos Thénardier, vê-se obrigada a vender o cabelo e alguns dentes, até por fim recorrer à prostituição. Adoece. Valjean toma conhecimento da situação precisamente quando Javert a prende (agrediu um homem que a importunava). Salva-a e encaminha-a para o hospital. A disputa entre os dois homens faz com que o inspector revele, no quarto da paciente, a verdadeira identidade de Madeleine – afirmando que este, enquanto ex-prisioneiro, nunca cumprirá a promessa feita de salvar Cosette.

Fantine, muito enfraquecida pela doença, sofre um choque emocional e falece.

 

Cosette (também conhecida por Euphrasie, Mademoiselle Lanoire ou Ursula) – Filha ilegítima de Fantine e Félix. Entre os três e os oito anos de idade sofre maus tratos e privações nas mãos dos Thénardier. Após o óbito da mãe, Valjean consegue resgatá-la e trata-a como filha. Recebe educação num convento, em Paris. Transforma-se numa mulher muito bonita. Apaixona-se por Marius Pontmercy e casa-se com ele no final do romance.

 

Marius Pontmercy – Um jovem estudante de Direito, com breve ligação ao grupo estudantil revolucionário conhecido como «Amigos do ABC». Partilha as ideias políticas do pai e mantém, pelo contrário, uma conflituosa relação com o avô, conservador e monárquico, de seu nome Monsieur Gillenormand. Apaixona-se por Cosette e adere à batalha revolucionária provocada pelos ABC, que ergueram barricadas nas ruas, quando se convence que esta partiu com Valjean, para Londres. Sobrevive a custo e casa-se depois com ela, clarificados os mal-entendidos. Livra-se para sempre de Thénardier, pagando-lhe enorme quantia para que este abandone França.

 

Éponine (ou menina Jondrette) – Filha mais velha dos Thénardier. Em criança, é protegida e mimada pelos pais, mas cai na pobreza assim que chega à adolescência. Auxilia o pai nos estratagemas viciosos e criminosos, em busca de dinheiro. Apaixona-se totalmente por Marius. A pedido deste, encontra a morada de Valjean e Cosette e leva-o lá, por muito que lhe custe. É também ela que impede o pai e a pandilha de criminosos conhecida por «Patron-Minette» de assaltarem a casa do protagonista, durante uma das visitas de Marius a Cosette. Quando estala a rebelião estudantil, disfarça-se com roupas masculinas e arrasta-o para as barricadas, tentando cumprir o desejo romântico de morrer a seu lado. Prefere contudo falecer antes dele e para garantir isso interfere na linha de tiro de um soldado inimigo e acaba atingida na mão e nas costas. Moribunda, confessa tudo isto a Marius e entrega-lhe uma carta de Cosette. Como desejo final, pede-lhe um beijo na testa. Ele acede, não por nutrir qualquer sentimento romântico por ela, mas enquanto gesto misericordioso.

 

Casal Thénardier (também conhecido como Jondrette) – Marido e mulher, pais de cinco crianças: duas filhas (Éponine e Azelma) três filhos (Gavroche e outros dois anónimos, mais novos). Enquanto estalajadeiros, exploram cruelmente Fantine e escravizam a pequena Cosette até ao dia em que Valjean resgata a menina. Apesar dos esquemas, caem na falência e recomeçam a vida com outra identidade (Jondrette) mudando-se para uma residência pública em Paris, onde se tornam vizinhos de Marius. O marido associa-se a um grupo criminoso chamado «Patron-Minette» e elabora um plano para extorquir dinheiro a Valjean, sendo impedido no último instante por Marius. São presos por Javert. A mulher morre na cadeia. Muito mais tarde, o marido tenta nova chantagem, desta vez com Marius (servindo-se do passado criminoso de Valjean), mas o outro paga-lhe grande quantia para que este abandone o país e Thénardier aceita, transformando-se num traficante de escravos na Américas.

 

Enjolras – Líder do grupo estudantil revolucionário conhecido por «Amigos do ABC», mentores da rebelião parisiense. Defensor apaixonado da causa republicana e dos ideais progressistas. Juntamente com Grantaire, é executado por elementos da Guarda Nacional, no seguimento do fracasso nas barricadas.

 

Gavroche – Filho desprezado dos Thénardier (o mais velho dos rapazes). Vive sozinho nas ruas e dorme no interior de uma estátua de elefante, às portas da Bastilha. Toma conta dos irmãos mais novos durante breve período, embora desconheça o parentesco que os une. Junta-se aos combates nas barricadas e é abatido ao procurar munições entre os cadáveres inimigos.

 

Bispo Myriel – Bispo de Digne (de seu nome Charles-François-Bienvenu Myriel, também apelidado de Monseigneur Bienvenu), clérigo idoso e complacente, que deve o cargo a um encontro casual com Napoleão. Recolhe Valjean por misericórdia e apesar de roubado por este, perdoa-o, salva-o da Polícia e torna-se na principal fonte de inspiração para a mudança de vida do protagonista.

 

Grantaire (também conhecido simplesmente por «R») – Estudante revolucionário, embora pouco dedicado à «causa». O principal motivo para o seu apoio é uma certa adoração que mantém por Enjolras, apesar do ocasional desprezo a que é votado pelo outro. Passa grande parte do tempo bêbado e a sua participação nas barricadas é mínima. É executado na companhia do ídolo.

 

«Amigos do ABC»

Grupo estudantil revolucionário. Na língua francesa, as letras «ABC» são foneticamente semelhantes à palavra «abaissés» (desvalidos, miseráveis).

Bahorel – Diletante e vagabundo, com origens camponesas, muito famoso entre os frequentadores dos cafés estudantis parisienses.

Combeferre – Estudante de Medicina, considerado o representante moral e filosófico da revolução.

Courfeyrac – Estudante de Direito, considerado o elemento agregador do grupo. Honrado, caloroso e o melhor amigo de Marius.

Feuilly – Órfão, fabricante de leques e devoto da cultura polaca. Autodidacta, aprendeu sozinho a ler e escrever. Único membro do grupo que não é estudante.

Jean Prouvaire (ou Jehan) – Um adepto do Romantismo, fluente em Italiano, Latim, Grego e Hebraico, a que associa o interesse pela Idade Média.

Joly – Estudante de Medicina com teorias pouco comuns sobre a Saúde. Hipocondríaco, é contudo o mais bem-disposto do grupo.

Lesgle (também Lègle, Laigle, L’Aigle [A Águia] ou Bossuet) – O membro mais velho do grupo. Também, de longe, o mais azarado (começa a perder o cabelo aos 25 anos). É ele que apresenta Marius aos restantes.

 

Secundárias

Azelma – Filha mais nova dos Thénardier. À semelhança de Éponine, é mimada em criança e cai na miséria quando atinge a adolescência. Auxilia o pai na tentativa de extorsão a Valjean, vigia o mesmo durante o casamento de Marius e Cosette (também a mando do pai) e por fim, viaja com este para as Américas.

 

Bamatabois – Um vadio que assedia Fantine. Mais tarde, é jurado no julgamento de Champmathieu.

 

Baptistine Myriel – Irmã do bispo Myriel. Venera o irmão.

 

Blachevelle – Estudante parisiense abastado, nascido em Montauban. Amigo de Félix Tholomyès, envolve-se romanticamente com uma amiga de Fantine, de seu nome Favourite.

 

Bougon, Madame (a quem chamam Ma’am Burgon) – Governanta da residência «Gorbeau House».

 

Brevet – Ex-companheiro de Valjean na prisão, libertado um ano depois deste. Em 1823, está a cumprir nova sentença, por um crime desconhecido. É o primeiro a confundir Champmathieu com Valjean. Gosta de usar suspensórios axadrezados.

 

Brujon – Ladrão e criminoso. Alinha nos golpes de M. Thénardier e dos «Patron-Minette» (nomeadamente o ataque em «Gorbeau» e a tentativa abortada da Rua Plumet). É descrito como «um jovem enérgico, inteligente e atento, com uma postura sombria e agitada».

 

Champmathieu – Vagabundo confundido com Valjean, depois de ser apanhado a roubar maçãs.

 

Chenildieu – Sentenciado a prisão perpétua. Colega de Valjean durante cinco anos. Tentou, sem sucesso, remover do ombro a marca infame «TFP – Trabalhos Forçados Perpétuos». Indivíduo de baixa estatura, mas dinâmico.

 

Cochepaille – Outro condenado perpétuo. Antigo pastor nos Pirenéus, que se transformou em contrabandista. Considerado um indivíduo ignorante, com uma estranha data tatuada no braço – 01 Março 1815.

 

Coronel Georges Pontmercy – Pai de Marius e oficial no Exército de Napoleão.

Ferido na Batalha de Waterloo, Pontmercy assume erradamente que M. Thénardier lhe salvou a vida. Explica ao filho a suposta dívida de gratidão que tem para com o outro. Adora Marius e embora esteja proibido de visitá-lo, pelo avô deste, esconde-se com frequência atrás de uma coluna da igreja, aos domingos, de modo a observá-lo à distância. Apesar de lhe ter sido atribuído o título de «barão» por Napoleão, o regime político seguinte não lhe reconhece tal estatuto, nem tão-pouco a patente de «coronel», ficando apenas conhecido por «comandante».

 

Dahlia – Jovem operária parisiense, integrante do grupo de amigas de Fantine – que inclui ainda Favourite e Zéphine. Envolve-se romanticamente com um dos amigos de Félix Tholomyès, de seu nome Listolier.

 

Fameuil – Estudante rico em Paris, nascido em Limoges. Amigo de Félix que se envolve com Zéphine.

 

Fauchelevent – Medíocre homem de negócios salvo por Valjean (enquanto M. Madeleine), que impede que este seja esmagado por uma carruagem. O mesmo arranja-lhe depois um trabalho como jardineiro, num convento de Paris. Mais tarde, o funcionário retribui o favor a Valjean (acompanhado de Cosette), dando-lhe abrigo e fazendo-o passar por seu irmão.

 

Favourite – Líder do grupo de Fantine. Independente e conhecedora do mundo, tendo já estado em Inglaterra. Embora não suporte Blachevelle, uma vez que está apaixonada por outro homem, tolera-o, de modo a usufruir dos benefícios de namorar um homem rico.

 

Listolier – Mais um estudante rico a viver em Paris, este nascido em Cahors. Envolve-se com Dahlia.

 

Mabeuf – Um idoso funcionário da Igreja, amigo do Coronel Pontmercy, que após a morte deste se afeiçoa a Marius e o ajuda a perceber a situação do falecido pai. Adora plantas e livros, vendendo muitos dos seus para ajudar nas despesas médicas de um amigo. A dada altura, ao encontrar uma bolsa no quintal, entrega-a à Polícia. Depois de vender o último livro, junta-se à revolução estudantil, sendo abatido quando tentava fixar a bandeira no topo de uma barricada.

 

Mademoiselle Gillenormand – Filha de M. Gillenormand, com quem vive. A falecida meia-irmã (filha de outro casamento do pai) é a mãe de Marius.

 

Madame Magloire – Doméstica ao serviço do Bispo Myriel e respectiva irmã.

 

Magnon – Antiga serviçal de M. Gillenormand e amiga dos Thénardier. Recebe pensão de alimentos do primeiro, alegado pai de dois filhos ilegítimos. Quando ambos morrem, numa epidemia, «substitui-os» pelos dois rapazes mais novos dos Thénardier, de modo a garantir a fonte de rendimento, cuja determinada parcela é oferecida ao casal. É apanhada na confusão do golpe em «Gorbeau» e presa injustamente.

 

Monsieur Gillenormand – Avô de Marius. Monárquico convicto, discorda frontalmente das opiniões políticas do neto, situação que provoca várias discussões. Procura afastar o jovem da influência do pai, Georges Pontmercy. Apesar do irresolúvel conflito de ideias, mantém o carinho por ele.

 

Madre Innocente (ou Marguerite de Blemeur) – Madre Superiora no convento de Petit-Picpus.

 

«Patron-Minette» – Quarteto criminoso que ajuda os Thénardier em vários golpes (ou tentativas). É composto por Montparnasse, Claquesous, Babet e Gueulemer. Claquesous, que escapa da carruagem que o levava à cadeia, junta-se mais tarde à revolução estudantil, sob falsa identidade, mas é executado por Enjolras depois de alvejar civis.

 

Petit Gervais – Rapazinho que deixa cair uma moeda na rua. Valjean, ainda nos tempos de criminoso, não resiste a furtá-la.

 

Irmã Simplice – Freira extremamente honesta, que toma conta de Fantine no hospital e arrisca mentir a Javert para salvar Valjean.

 

Félix Tholomyès – Amante de Fantine e pai biológico de Cosette. Estudante em Paris, rico e egocêntrico, nascido em Toulouse. Abandona a companheira, quando a criança tem dois anos de idade.

 

Toussaint – Serviçal de Valjean e Cosette, em Paris. Sofre de ligeira gaguez.

 

Dois rapazinhos – Os dois anónimos filhos mais novos dos Thénardier, deixados ao cuidado de Magnon em substituição dos seus, falecidos. Terminam a viver nas ruas, onde se deparam com Gavroche. Este, sem os conhecer, trata-os como irmãos. Após a sua morte, sobrevivem a roubar o pão que os burgueses atiram aos gansos, nos parques públicos.

 

Zéphine – Outro membro do grupo de Fantine. Envolve-se com Fameuil.

 

Narrador

Hugo não dá um nome ao narrador, permitindo assim que o leitor o associe ao autor da obra. O primeiro surge a espaços no enredo ou destaca eventos fora da linha cronológica, considerados históricos. Refere-se, por exemplo, à Batalha de Waterloo: «No ano passado (1861), numa bela manhã de Maio, um viajante, o mesmo que relata esta história, estava a chegar de Nivelles…». Noutro ponto do texto, descreve como «um observador, um sonhador, o autor deste livro» foi apanhado num fogo cruzado durante as contendas de 1832:

A protegê-lo das balas, somente a amplitude de duas colunas, que separavam as lojas; permaneceu naquela situação delicada quase meia hora.

De vez em quando, pede desculpas pela intromissão: «O autor deste livro, que lamenta ser obrigado a mencionar-se», enquanto descreve «a Paris da sua juventude…como se esta ainda existisse». Tal despoleta uma reflexão acerca de lugares desaparecidos, que o leitor verá como uma espécie de auto-retrato, chegado do exílio: «deixaste parte do teu coração, do teu sangue, da tua alma, naquelas ruas». A dado momento, de modo a comprovar a presença de agentes da Polícia infiltrados nas barricadas, relata: «O autor deste livro teve nas suas mãos, em 1848, um relatório especial acerca desta matéria, redigido pelo Comissário de Polícia, em 1832».

A publicação do romance foi longamente aguardada, já que Victor Hugo era tido como um dos melhores poetas franceses do século XIX. Certa imprensa começou a anunciar a obra logo em Abril de 1860. Hugo proibiu os editores de fazerem sinopses do livro, recusando ainda a pré-publicação de excertos. Aconselhou-os a basearem-se na sua carreira prévia e sugeriu este anúncio publicitário:

O que Victor H. fez pelo mundo gótico em «O Corcunda de Notre-Dame» fará agora pelo mundo moderno, com «Os Miseráveis».

Seguiu-se uma enorme campanha mediática antes da edição dos primeiros dois volumes, em Bruxelas e em Paris, em Abril de 1862. Os restantes tomos surgiram um mês depois.

As reacções dos críticos foram abrangentes e com frequência negativas. Alguns consideraram a temática imoral, outros lamentaram o excesso de sentimentalismo e houve ainda quem demonstrasse preocupação com uma aparente simpatia do autor pelos revolucionários:

É impossível lermos o texto sem nutrir uma repugnância inultrapassável pelos detalhes que o autor fornece acerca do planeamento de tumultos eficazes.

Os irmãos Goncourt, escritores naturalistas, consideraram o romance «artificial e decepcionante». Flaubert não encontrou na obra «nem verdade, nem grandeza», afirmando que as personagens não passavam de estereótipos elementares, que «falavam todos muito bem, mas todos da mesma forma» e rejeitando o livro enquanto esforço «infantil», anunciando o fim da carreira literária de Hugo – «um Deus Caído».

Charles Baudelaire elogiou a bem sucedida tentativa do autor para denunciar as questões sociais, embora considerasse tal «propaganda» o oposto do conceito de «arte». Em privado, acentuou a crítica, classificando a obra como «repulsiva e fraca». A Igreja Católica colocou-a na sua lista de livros proibidos.

Revelou-se, contudo, um sucesso comercial e tem mantido a popularidade ao longo dos séculos. Traduzida em várias línguas – Italiano, Grego, Português – mantém viabilidade global.

 

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