O Nome da Rosa


Prefácio

É decerto um filme que junta todos os elementos que me eram caros na adolescência: um crime, dois investigadores, mescla de gótico/romantismo.

Fala ainda de uma latente obsessão, transversal a todas as personagens.

Desde logo a de William de Baskerville (óbvia referência a Sherlock Holmes), o frade franciscano com espantosos poderes dedutivos, progressista como poucos no distante século XIV. Símbolo do pensamento inteligente, mas também da obsessão pelo conhecimento, pelo cerebral em detrimento da emoção ou misticismo. A sua eventual transcendência sobre os restantes elementos do pérfido mosteiro acordam nele os pecados do orgulho e da vaidade, obrigando-o a suportar as difíceis consequências da insurreição à ordem estabelecida. William está sempre mais próximo de ser considerado um herege do que um visionário.

Depois, a obsessão do Venerável Jorge, o ditatorial guardião do mosteiro que padece de vários tipos de cegueira, obcecado com a manutenção do status quo e definindo a ausência do riso/conhecimento/informação como baluarte da Fé. Com Riso não há Medo, sem Medo não há Inferno/Diabo, sem Diabo não há Deus. E sem Deus, nas suas palavras, «resta somente o Caos».

William não rejeita a comunhão dos dois conceitos. Para ele, o Conhecimento é uma marca do próprio Divino, ou sendo literal, o Conhecimento é o único Deus acessível. Tal choca violentamente com a concepção de Jorge, na qual é a ausência de qualquer conhecimento/liberdade a única via para um Deus que controle e domine a Humanidade.

Falamos então de Poder, desde sempre o verdadeiro Deus das Sociedades, e neste contexto, nenhum poder é superior ao da Santa Inquisição. Os crimes no mosteiro, que uns dizem ser obra humana e outros obra demoníaca (uma e a mesma coisa), obrigam à convocação do inquisidor/torturador/sociopata megalómano Bernardo Gui. Representante de uma instituição implacável e, quando exigido, espantosamente prática, Gui não perde tempo a investigar a verdade escondida debaixo do tapete, que William destapou com facilidade. Antes procura no vácuo uma «prova» do seu pré-definido raciocínio e objectivo. «Tantos meses passaram sem respostas e na primeira noite descubro os culpados dos vossos males».

Olha, claro, para os elos mais fracos: a mulher (bruxaria, tentação maligna), o deficiente (aberração da natureza, ser mais indefeso) e um dos frades (o aparentemente mais corrupto, dado a tentações várias e inimigo dos inquisidores). A obsessão da Inquisição é com ela mesma. Com a manutenção do Poder.

Numa corrente secundária, existem outras. A sexual (hétero e homo), por exemplo. A caixa de Pandora abre-se porque a ala homossexual do mosteiro trafica o acesso ao conhecimento proibido por Jorge, oferecendo portas e livros abertos em troca de favores eróticos. Isto leva a um suicídio confundido com um crime (humano ou sobrenatural) e a crimes confundidos com profecias apocalípticas.

Entretanto, o companheiro e discípulo de William, Adso de Melk (Adso – Watson), é arrastado pela obsessão que desenvolve por uma aldeã, que trafica sexo em troca de comida (e por isso símbolo da «obsessão» do povo pela sobrevivência, algo tolerado a contragosto pelas classes dominantes). A mulher sem nome, a «rosa sem nome», descobre em Adso o que não encontra nos restantes abades: vida, juventude, esperança. Este vê simplesmente a «mulher», a tentação que lhe está vedada enquanto monge.

Todas estas correntes acabam por desaguar na Morte, a última das obsessões. Entre assassinatos, acidentes, execuções e suicídios, sobram corpos e ruínas, fogueiras e cinzas. É um Universo que estremece e procura reorganizar-se, perdendo-se valioso conhecimento no incêndio da biblioteca proibida, mas ganhando-se a semente de uma revolução nos braços dos aldeões famintos, que aproveitam a breve oportunidade para empurrar a carruagem de Bernardo Gui para o desfiladeiro. Jorge leva os livros proibidos para o túmulo, mas William resgata no último instante algumas folhas que podem ser o início de novas verdades.

Adso regressa ao caminho seguro, cumprindo a sua vida de monge instruído, ainda que o preço seja manter o sonho (a mulher) no anonimato, mera assombração nas noites de insónia.

 

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