A Caça


Prefácio

 

«A Caça» (The Hunt), de Thomas Vinterberg, data já de 2012, mas não merece cair no esquecimento.

Como única crítica negativa, apenas a sensação de que o realizador optou por não explorar totalmente o potencial da história. A cada sugestão, de imediato me ocorriam inúmeros caminhos, fios condutores e reviravoltas, um manancial de opções para as personagens e enredos.

Vinterberg, contudo, preferiu deixar tudo dormente, o que ilustra a qualidade do produto. Parece-me característico dos filmes nórdicos (este é dinamarquês). Ao contrário de uma certa ideia americanizada e partilhada por uma Europa a sul, por aqueles lados não parecem sentir a falta do detalhe. Um vislumbre é tudo o que basta.


O Filme


Aqui é tudo bastante simples, sendo precisamente a simplicidade que torna as coisas mais inquietantes. Com a rapidez de um fogo-fátuo se altera tudo.

Existe uma pequena vila. Um grupo de amigos. Uma caçada. Um infantário. Uma criança loira. Uma comunidade.

A sequência na qual um veado, completamente absorto na profunda paz da floresta, tomba ao primeiro tiro de espingarda é a imagem de todo o filme. Uma bala aleatória tem o mesmo peso de uma frase aleatória. Pode ser fatal.

Lucas, o personagem principal, é educador de infância na vila. É também divorciado e pai de um filho, que vive com a mãe, mas pretende mudar-se para casa do pai. É, ainda, namorado de uma funcionária do infantário, emigrante qualificada sem perspectiva de futuro.

O problema de Lucas não é outro que não o de todos nós: sermos escravos do acaso. Com a mesma facilidade com que a funcionária o seduziu, numa rapidez próxima do assédio, foi também Lucas abordado de forma imprópria por Clara, a criança loira de quatro ou cinco anos, que vê nele a estabilidade e fascínio que não encontra num lar formado por um pai apático, uma mãe revoltada e um irmão egoísta. Clara revela princípios de perturbação psicológica e carência afectiva. Faz os caminhos entre casa e infantário muitas vezes sozinha, quando não espera pela companhia de Lucas, o protector masculino.

Depois de ser exposta a um episódio erótico pelo irmão, evento que nitidamente a perturba, a doce Clara escolhe a pior das maneiras para expressar todos os sentimentos positivos que nutre por Lucas. E de certa forma, a barreira da idade torna-se invisível no instante em que Lucas se vê obrigado a rejeitar Clara, mas cede à lascívia de Nadja, a funcionária. Temos então duas mulheres, ambas a disputar o mesmo homem. A derrotada, de uma forma apenas semiconsciente, faz o que quase todas as derrotadas fazem: vinga-se.

Não podendo ter Lucas, o que vai ser anunciado de forma perversa, com uma escuridão que por norma ninguém quer encontrar em crianças, é precisamente o contrário. Ou seja, que Clara «teve» Lucas, e «teve-o» de forma imprópria. O ónus cai de forma inevitável no adulto. Porque «as crianças não mentem».

Disparado o tiro, nada mais detém a bala. A pureza simbolizada no veado está condenada. A inquietação adivinha-se no desenrolar de todo o processo. Clara cedeu ao impulso, que foi tão imediato para ela quanto dar uma canelada num colega. Termina no instante em que começa. A partir dessa semente, porém, nasce a árvore escura que só encontra forças para germinar na mente adulta. E é um conjunto de mentes adultas e viciosas que por momentos constrói a realidade que Clara não viveu, ao ponto de ela própria duvidar do que é verídico. A educadora de infância (uma Clara adulta, talvez ciumenta), o psicólogo (muito mais capaz de fazer o que se diz que Lucas fez), o rebanho influenciável das colegas de Lucas, os pais de Clara (enfim livres de culpa, podendo encontrar o mal no exterior do lar) o irmão de Clara (agora transformado em guardião da pureza da irmã, depois de ter sido o primeiro a corrompê-la) e toda uma comunidade de «amigos do peito» de súbito transformada num grupo de assassinos a soldo, todos agarram a pior das versões antes mesmo de ela existir, aumentando, contorcendo, extrapolando. Chega-se ao ponto de «avisar» a ex-mulher de Lucas acerca do «sucedido».

Não adianta especular se Lucas teve oportunidade e motivo para cometer aquele acto. As reacções alheias dizem que sim, tal como nós sabemos que sim, mas o que os outros (que não nós) esquecem é que Lucas pode não ter feito nada. Tem pelo menos 50% de possibilidades de não ter feito nada. E essa presunção de inocência é rapidamente tragada por um conjunto de motivações latentes, prontas a saltar ao primeiro murmúrio confuso de uma «vítima» de quatro ou cinco anos.

O poder de sugestão e pressão social são tão intensos, que até Nadja duvida um instante da inocência de Lucas, sem que isso a impeça de permanecer ao lado dele. Existe diferença entre um pedófilo e a namorada de um pedófilo? Onde? Sob que perspectiva? Lucas percebe a sombra moral em Nadja e expulsa-a.

Em troca, recebe o apoio do filho, o único que acredita nele incondicionalmente. O próprio irmão, apesar de sustentar um comportamento exterior inatacável, confessa a dada altura ao sobrinho: «Se algo acontecer ao teu pai, assumo a responsabilidade pela tua educação». O que é de certa forma perverso, sabendo-se que o rapaz tem mãe. Tudo é passível de segundo olhar, se o quisermos ter.

Quer talvez o realizador sublinhar a ideia clássica de uma civilização precária, com a ruína escondida debaixo de um verniz transparente, ou quer talvez ir mais longe, aproximando-se de Sade para simplesmente renegar a moral enquanto construção.

Segue-se o processo costumeiro.

Lucas conquista a inocência em Tribunal, pois a histeria colectiva que sobrecarregou o imaginário das crianças colocou-os a inventar caves na casa de Lucas que nunca existiram. Se não há cave, não há crime, conclui o Tribunal, aspecto que (de novo se nos dispusermos) é em si mesmo desconcertante. Porque caves há muitas, em muitas casas e a memória infantil pode confundir muitas coisas. Do mesmo modo que se deixou convencer pelos pais irados, poderia confundir as «casas» de Lucas.

Seja como for, este é-nos apresentado como inocente, ou pelo menos tão inocente quanto todos aqueles que o querem condenar, independentemente das decisões legais.

O isolado educador é agora um fantasma onde um dia foi rei, forçado a abdicar do filho, a enterrar o cão que alguém mata, a adquirir comida debaixo de espancamentos. A passar a Consoada sozinho, num quarto escuro, ou a assistir à Missa do Galo debaixo de todos os olhares, de gente que vai ao templo não para se «arrepender» mas para mais facilmente condenar o alheio. De certa forma, para serem fiéis a uma certa ideia de catolicismo. Cruxificado por cruxificado.

Contudo, o mais perturbador não é isto. Antes o que acontece um ano depois.

Lucas, estoicamente, não abandonou a vila. E foi debaixo de uma paz inquietante, mórbida até, que tudo «voltou à normalidade».

Ou seja, Lucas é de novo Lucas, o herói da comunidade. Tem de novo Nadja ao seu lado, a namorada que concebia estar ao lado de um «pedófilo». Tem de novo os amigos a rir com ele, os mesmos que o transformaram num objecto de caça perante o mínimo boato. Tem de novo Clara, predisposta a ser abordada, erguida ao colo e abraçada. Existe um silêncio entre eles que sugere tudo. Ou melhor, sugere que nada pode ser excluído. O mesmo filho que foi agredido por um dos amigos do protagonista é por ele abraçado, com a maior das amizades. Pelos vistos, tudo «passa». Depois de uns quantos rugidos de selvajaria, a «comunidade» regressa tranquilamente à «civilização».

Lucas é convidado, qual cereja no topo do bolo, para uma caçada. Para a renovada paz absoluta da floresta. Exactamente no mesmo ponto onde o veado tombara um ano antes, ouve-se novo disparo e o zunir de nova bala. Esta não é destinada ao veado, mas a Lucas. Falha por pouco. O sol – aceitemos que foi o sol – toldou a imagem do autor. Contudo, é óbvio que o «autor» não existe. É um autor multifacetado, de rosto quebrado. É o rosto daquela comunidade, de todas as comunidades feitas de natureza humana.

Porque a paz daquela floresta não é paz. É apenas o silêncio que aguarda.

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