Eça Sobre Nova Iorque


O que isto é, você não imagina. A violenta confusão desta cidade, o extraordinário deboche, o horror dos crimes, a desordem moral, a confusão das religiões, o luxo desordenado, a agiotagem febril, a demência dos negócios, os refinamentos do conforto material, os roubos, as ruínas, as paixões, os egoísmos – tudo isso está aqui.

Nova Iorque, com o seu sumptuoso ruído, com o romantismo dos seus crimes por amor, com os seus parques extraordinários que encerram florestas e lagos – como outros encerram arbustos e tanques – com a sua originalidade, com a sua caridade aparatosa, com as suas escolas simplesmente inimitáveis, os seus costumes, os seus teatros (aos quatro em cada rua), é uma tão vasta nota no ruído que a Humanidade faz sobre o globo, que fica para sempre no ouvido.

É uma cidade que tem cem anos e que está podre. Viveu muito, muito depressa – e chegou sem educação. Porque a verdade é esta: Nova Iorque não tem civilização. A civilização não é ter uma máquina para tudo – e um milhão para cada coisa. A civilização é um sentimento, não é uma construção. Há mais civilização num beco de Paris do que em toda a vasta Nova Iorque. Aqui não há gosto, nem espírito, nem distinção, nem crítica, nem classificação – nada: uma sociedade podre de rica, afogada em luxo, exagerando as modas, inventando muitas – e querendo enriquecer mais e ter mais luxo ainda.

Correspondência com Ramalho Ortigão

 

Um pensamento sobre “Eça Sobre Nova Iorque

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